quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

"É mais urgente pensar no que se deve ser do que no que se deve fazer" Mestre Eckhart

Imagem relacionada



Deves saber que jamais alguém renunciou tanto nesta vida que não encontre a que ainda não devesse renunciar. São poucos os que têm plena consciência disto e se mantêm firmes. No fundo, trata-se de uma troca proporcional e de um negócio justo: na medida em que sais de todas as coisas, nesta mesma medida - nem mais nem menos - Deus entra em ti com tudo o que Ele tem. Mas somente com a condição de que tu em todas as coisas te despojes completamente de ti mesmo. Começa com isso e paga para isto o quanto puderes.

É mais urgente pensar no que se deve ser do que pensar no que se deve fazer. Se as pessoas e suas atitudes forem boas, suas obras brilham com toda claridade. És justo, então tuas obras serão justas. Não se pense em fundamentar a santidade num fazer; antes deve-se fundamentar a santidade num ser, pois as obras não nos santificam; nós é que santificamos as obras. Por mais santas que forem as obras, elas, enquanto obras, jamais chegam a nos santificar. Mas na medida em que nosso ser e nossa natureza forem santos, nesta mesma medida santificamos todas as nossas obras como o comer, o dormir, o acordar, ou outra coisa qualquer. De nada valem as obras, pouco importa quais, daqueles que não são portadores de uma natureza elevada. Tira disto a seguinte lição: coloca todo o teu empenho em ser bom; não te preocupes com o que fazes ou com o tipo de obras que fazes, mas com o fundamento e o motivo das obras.

Mestre Eckhart, Conselhos espirituais

domingo, 7 de janeiro de 2018

O despertar de Satyakam

Resultado de imagem para satyakama jabala

Satyakam era uma criança muito questionadora. Não acreditava em nada a menos que ele mesmo o houvesse experienciado. Quando ficou mais velho - ele devia ter cerca de 12 anos -, disse à mãe: "Chegou a hora. O príncipe do reino foi para a floresta para se juntar à família de um mestre. Ele tem a minha idade. Eu também quero ir, também quero aprender qual o significado desta vida."

A mãe disse: "Vai ser muito difícil, Satyakam, mas sei que você já nasceu um buscador. Eu temia que um dia você me pedisse para enviá-lo a um mestre. Sou uma mulher pobre, mas esse não é um grande empecilho. A dificuldade é que quando eu era jovem trabalhei em muitas casas - eu era pobre, mas era bonita. Não sei quem é seu pai. E, se enviá-lo a um mestre, vão lhe perguntar qual é o nome do seu pai e temo que ele possa rejeitá-lo. Mas não custa fazer um esforço. Vá e diga a verdade, da mesma maneira que eu lhe contei a verdade. Muitos homens usaram meu corpo porque eu era pobre. Diga simplesmente que você não sabe quem é seu pai. Diga ao mestre que seu nome é Satyakam, que o nome de sua mãe é Jabala e que por isso o chamam de Satyakam Jabal. E, no que diz respeito à busca da verdade, não importa quem é seu pai".

Satyakam foi até um antigo mestre na floresta e, certamente, a primeira pergunta foi: "Qual é seu nome? Quem é seu pai?"

E ele repetiu exatamente o que sua mãe havia dito.

Havia muitos discípulos - príncipes, filhos de pessoas ricas. Todos começaram a rir. Mas o velho mestre disse: "Você está aceito. Não importa quem é seu pai. O que importa é que você é autêntico, sincero, corajoso - capaz de dizer a verdade sem se sentir constrangido. Sua mãe lhe deu o nome certo, Satyakam. Satyakam significa aquele cujo único desejo é a verdade. Você tem uma bela mãe, e será conhecido como Satyakam Jabal. E como segundo a tradição só os brâmanes podem ser aceitos como discípulos, eu o declaro um brâmane, porque só um brâmane pode ter a coragem de tal verdade."

Belos dias foram aqueles. O velho profeta se chamava Uddalak. Satyakam tornou-se seu mais amado discípulo. Ele o merecia: era tão puro e tão inocente.

Mas Uddalak tinha suas próprias limitações. Embora ele fosse um homem de grande sabedoria, não era um mestre iluminado. Então, ensinou a Satyakam todas as escrituras, ensinou-lhe tudo o que foi capaz de ensinar, mas não conseguiu enganar Satyakam como havia enganado todos os demais. Não que Satyakam estivesse levantando quaisquer dúvidas; mas sua inocência tinha tal poder que o velho homem teve de confessar: "Tudo o que eu tenho lhe dito é conhecimento extraído das escrituras; não é meu próprio conhecimento. Eu não experienciei isso, não vivi isso. Sugiro que você penetre mais fundo na floresta. Conheço um homem que alcançou a realização, que se tornou uma corporificação da verdade, do amor, da compaixão. Vá até ele."

Uddalak havia ouvido falar daquele homem, mas não o conhecia pessoalmente. Uddalak era bem mais famoso, era um grande erudito. Satyakam foi procurar o outro homem. Esse homem que ensinou muitas novas escrituras, todos os Vedas, as mais antigas escrituras do mundo. E após anos disse-lhe: "Agora você já sabe tudo; não há mais nada a saber. Você pode voltar para casa."

Na sua volta para casa, primeiro ele foi ver Uddalak. Da sua janela, Uddalak viu Satyakam chegando pela trilha que vinha da floreta. Ficou chocado. Satyakam havia perdido sua inocência; no lugar da inocência havia orgulho - naturalmente, porque agora ele achava que sabia tudo o que valia a pena saber no mundo. A simples ideia disso enchia seu ego. Ele entrou, e, quando começou a tocar os pés de Uddalak, este lhe disse: "Não toque os meus pés! Primeiro eu quero saber onde você perdeu sua inocência. Parece que o enviei ao homem errado."

Satyakam disse: "Ao homem errado? Ele me ensinou tudo o que vale a pena saber."

Uddalak disse: "Antes que você toque os meus pés, eu gostaria de lhe perguntar se você experienciou alguma coisa ou se isso é apenas informação. Aconteceu alguma transformação? Você pode dizer que qualquer coisa que saiba é um conhecimento seu?"

Satyakam disse: "Não posso dizer isso. O que eu seu está escrito nas escrituras; não tive a experiência de nada."

Uddalak disse: "Então volte, mas agora vá procurar outra pessoa da qual ouvi falar enquanto você estava fora. E, a menos que tenha experienciado, não volte. Você voltou para cá não com mais do que quando eu o enviei, mas com menos! Você perdeu algo de imenso valor. E o que você chama de conhecimento - se este é emprestado, ele só encobre sua ignorância; não faz de você um conhecedor. Vá até este homem e lhe diga que você não foi até lá em busca de mais informações sobre a verdade, sobre Deus, sobre o amor. Diga-lhe que você foi para conhecer a verdade, para conhecer o amor, para conhecer Deus. Diga-lhe: 'Se você puder cumprir a promessa, fico com você; do contrário, vou procurar outro mestre'".

Satyakam foi até o homem e lhe disse exatamente isso. O mestre estava sentado debaixo de uma árvore com alguns de seus discípulos. Depois de ouvir a solicitação, ele disse: "Isso é possível, mas você está me pedindo algo muito difícil. Há tantos discípulos aqui  e todos querem mais conhecimento. Eles querem saber sobre tudo. Mas se você insiste que não está interessado em informações, que está pronto para fazer qualquer coisa, que sua devoção à verdade é total, então encontrarei um caminho para você."

Satyakam disse: "Estou pronto para sacrificar minha vida, mas não posso voltar sem conhecer a verdade. Não posso voltar para meu professor nem posso voltar para minha mãe, que me deu o nome de Satyakam. E meu velho professor me aceitou sem se importar se eu era ou não um brâmane, simplesmente baseado no simples fato de que eu era uma pessoa honesta. Então, diga-me o que tem de ser feito."

O mestre disse: "Pegue todas as vacas que vir aqui e penetre bem fundo na floresta. Vá o mais longe possível, , para que não possa entrar em contato com nenhum ser humano. O propósito disso é que você esqueça a linguagem as palavras. Viva com as vacas, cuide das vacas, toque sua flauta, dance - mas esqueça as palavras. E, quando tiver mil vacas, volte aqui."

Os outros discípulos não conseguiam acreditar no que estava acontecendo - porque ali havia apenas uma ou duas dúzias de vacas. Quanto tempo demoraria para elas se tornarem mil?

Mas Satyakam pegou as vacas, entrou o mais fundo possível na floresta, além de qualquer contato humano, de qualquer contexto humano. Durante alguns dias foi difícil, mas pouco a pouco, lentamente... as vacas eram suas únicas companhias, e elas eram criaturas muito silenciosas. Ele tocava flauta, dançava sozinho na floresta, descansava sob as árvores.

Durante alguns anos ele continuou contando as vacas. Então pouco a pouco desistiu de fazê-lo, pois lhe parecia impossível que elas se tornassem mil. Além disso, ele havia esquecido como contar; a linguagem estava desaparecendo. As palavras desapareceram; a contagem não podia ser feita.

E a história é tão imensamente bela...

As vacas ficaram preocupadas quando se tornaram mil - porque elas queriam voltar para casa e este homem havia esquecido como contar! Finalmente, elas decidiram: "Nós temos de falar; do contrário esta floresta solitária vai se tornar nosso túmulo". Então, um dia, as vacas se aproximaram dele e lhe disseram: "Escute, Satyakam, agora já somos mil e está na hora de voltarmos para casa".

E ele lhes disse: "Sou muito grato a vocês. Se não tivessem me contado... Eu havia até me esquecido de casa ou de voltar para casa. Cada momento foi tão incrivelmente belo, com tantas bênçãos. No silêncio, as flores não paravam de florescer. Eu me esqueci de tudo. Não tinha ideia de por que vim para cá, de quem eu sou. Tudo se tornou um fim em si - tocar a flauta era o bastante, descansar sob as árvores era o suficiente, ver as belas vacas sentadas em silêncio à minha volta era tão belo. Mas, se vocês insistem, vamos voltar."

Os discípulos do grande mestre viram Satyakam chegando com mil vacas. Eles relataram ao mestre: "Nunca acreditamos que ele voltaria. Ele está chegando, e nós contamos exatamente mil vacas!"

E quando ele chegou ficou ali de pé... bem no meio da multidão de vacas.

O mestre disse aos outros discípulos: "Vocês contaram errado. Há mil e uma vacas; vocês se esqueceram de contar Satyakam! Ele se moveu para além do seu mundo; penetrou no inocente, no silente, no misterioso. Não está dizendo nada, está apenas ali junto com as vacas".

O mestre dissse: "Satyakam, agora saia do grupo das vacas. Agora você tem de ir para seu outro mestre que o mandou aqui. Ele é um homem velho e deve estar esperando. Sua mãe deve estar esperando".

E quando Satyakam foi até Uddalak, seu primeiro professor... Na última vez que o havia visto, ele não lhe havia permitido tocar seus pés, pois havia perdido sua inocência; não era mais um brâmane, havia caído, havia se tornado apenas um papagaio ilustrado. Quando Uddalak o viu chegando novamente, saiu correndo pela porta dos fundos - porque agora que Satyakam poderia ter permissão de tocar seus pés, era Uddalak quem teria de tocar os pés de Satyakam! Isso porque Uddalak continuava sendo um erudito, e Satyakam não estava vindo como um erudito, mas como alguém que havia despertado.

Uddalak fugiu da casa: "Não posso encará-lo. Estou envergonhado de mim mesmo". Mas antes pediu à sua esposa: "Diga-lhe que Uddalak está morto e que agora ele pode ir até sua mãe. Diga-lhe que eu morri me lembrando dele".

Estas eram pessoas feitas de uma determinação diferente. 

Satyakam voltou para casa. Sua mãe estava muito velha, mas continuava esperando por ele. E disse: "Satyakam, você provou que a verdade sai sempre vitoriosa. E provou que ninguém nasce brâmane: um brâmane é uma qualidade a ser adquirida. Todos nascem iguais. A pessoa tem de se provar, purificando-se, cristalizando-se, tornando-se centrado e iluminado - então ela se torna um brâmane. O simples fato de nascer em uma família brâmane não faz de ninguém um brâmane".

Se você meditar sobre a história, verá que a verdadeira essência da meditação é ficar em tal silêncio que não haja, em você, movimento dos pensamentos - as palavras não chegam entre você e a realidade, toda a rede de palavras desaparece e você é deixado só.

Essa solitude, essa pureza, esse céu do seu ser, sem nuvens, é a meditação. E a meditação é a chave de ouro para todos os mistérios da vida.

Osho. Inocência, conhecimento e encantamento.

domingo, 1 de outubro de 2017

O deserto, o vazio, do "tu deves" ao "tu podes".


Jean-Yves Leloup

"YHWH disse a Abraão: 'Vai para ti mesmo, deixa teu país, teus parentes, a casa de teu pai, vai para o lugar que eu te indicarei.'" (Gn 12,1)

Ir para o deserto é, inicialmente, partir em direção a si mesmo. É para isso que somos convidados. Para conhecer-se verdadeiramente a si mesmo, trata-se de deixar um certo número de memórias com as quais confundimos nossa identidade. Deixar o conhecido, o reconhecido que cremos ser, pelo desconhecido, o desprezado que somos. Inútil aqui detalhar os múltiplos apegos ou referências, todos legítimos, à casa, ao pai, à mãe, que nos evitam o face a face com o nosso nada. Fílon de Alexandria diz que deixar a casa de seu pai é deixar a linguagem, quer dizer, as referências que nos estruturam. Quando a consciência não tem mais uma palavra, nem uma imagem, nem um conceito para dizer a si mesmo, ela entra em um espaço infinito que simboliza bem o espaço sem limites do deserto.

Mas esta marcha através do silêncio, em direção ao infinito e ao sem-limite de si mesmo, não é tentativa de aniquilamento. Ela faz as pazes com o que o homem tem de eterno, este eterno que está nele mesmo e que as ocupações e preocupações do tempo lhe escondem.
Para Abraão, este eterno é um Outro, uma Alteridade que o fundamenta. "Conhecer-se a si mesmo é descobrir-se conhecido", dirá mais tarde o Evangelho de Tomé. Na imensidão e imobilidade do deserto, sabemos que não nos criamos a nós mesmos, abemos que a menor das nossas respirações vem de outro lugar.

Conhecer-se a si mesmo é conhecer o Vivente que nos concee ser o que somos e conhecer que este Vivente está sempre pronto a nos retirar, como a nos oferecer, o sopro de nossas narinas.

Há pretensões e autossuficiências que não resistem a um real quarto de hora de meditação no deserto.

Abraão e seus patriarcas gostavam, ao cair da noite, de sentar-se diretamente na terra nua, olhando as estrelas, bendizendo seu cansaço, sorrindo de seus desejos irrisórios. Acontecia-lhes de estar ali, terrivelmente ali! A ponto de não fazerem senão um com "aquele que está ali, presente", Ya-Hou, Oh! Ele! o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, Presença ardente e silenciosa. Presença do Ser, Presença do Outro, que nos apaga e fundamenta.

Pode-se ir ao deserto para conhecer-se a si mesmo ou para encontrar o Outro, que nos fundamenta. Pode-se ir lá também para fugir, fugir do mundo, fugir da injustiça. Pode-se ir lá porque uma pergunta nos atormenta e não conheceremos o repouso antes de termos recebido a resposta.

A primeira vez que Moisés foi ao deserto foi para fugir, fugir do Estado totalitário que ele acabara de descobrir e que mantinha seus irmãos na escravidão. À violência ele tinha respondido pela violência, matando um guarda que maltratava um hebreu sem defesa... A história de Moisés nos lembra a de um outro príncipe, também educado na corte, ao abrigo de todos os sofrimentos e que um dia descobriu a dor e a morte: o Príncipe Sidarta Gautama. Ele também, depois desse encontro com o sofrimento, partiu para o deserto, com esta pergunta que é a sua, que foi a de Moisés e que é, sempre, a nossa: Por que o sofrimento, por que o mal, por que a injustiça?

O que é preciso fazer para sair disso, para ser libertado do sofrimento, do mal, da injustiça?

O que Moisés descobre no deserto é que, antes de se colocar a questão do mal, é preciso colocar-se a questão da existência. Antes de se perguntar por que há sofrimento no mundo, é preciso perguntar por que há um mundo: "Por que, em vez de nada, há alguma coisa?"

A experiência de Moisés vai se juntar àquela de Abraão. No infinito do deserto, ele vai descobrir a vaidade e a fragilidade do universo. O que é o homem, o que é o mundo? "Uma gota de orvalho na borda de um cântaro"< dirá mais tarde o Profeta Isaías.

Como a gota de orvalho ao sol, ao mesmo tempo em que seu eu, desaparecem as perguntas de Moisés. Ele tornou-se o mais humilde dos homens, ele fez-se húmus, Adamah, quer dizer, "terroso", "argiloso", terra nua sob o céu vertical, ele se ocupa de suas ovelhas, os negócios do Egito não têm nada a ver com ele.

Mas eis que no deserto, se não há nada, há, pelo menos, sarças, sarças espinhosas.

Do fundo dessa vacuidade nasce um murmúrio que bem poderia ser de compaixão. Em vez do nada há alguma coisa.

Como fazer para que essa alguma coisa não sofra mais ou sofra menos debaixo do sol? Pergunta espinhosa, ardente...

Ir até o fim de uma pergunta fundamental, essencial, é uma forma de travessia do deserto. Moisés foi até o fim da sua, saiu queimado, mas não consumido. Uma voz se fez escutar. O Ser não é indiferente à miséria dos homens, o mal não é uma fatalidade, ele é o estímulo para que se manifestem as faculdades cocriadoras do homem.

"YHWH diz: 'Eu vi, eu vi a miséria de meu povo que está no Egito. Escutei o clamor por causa de seus opressores [...] Agora vai, Eu te envio junto ao faraó para fazer sair o meu povo do Egito'" (Ex 3,7.10).

Mas, no deserto, Moisés esqueceu a linguagem, sua palavra tornou-se curta e hesitante. O desejo de ordenar e de conduzir deixou-o, o convívio com seus abismos levou-o a apagar-se.

"Quem sou eu para ir encontrar o faraó e para fazer sair do Egito os filhos de Israel?" (Ex 3,11). Eu não sei falar... Envia quem quiseres!

"Quem sou eu?" é uma boa pergunta a colocar-se no deserto. A resposta, após alguns dias de sede, nunca se faz esperar: "Nada!"

"Eu não sou nada." Moisés viveu mais de uma vez essa resposta, mas agora ele descobre que no coração desse nada, um nada espinhoso, vive uma força, uma Presença, um "Eu estou contigo". E é este um dos grandes presentes do deserto: descobrir que nunca se está menos só do que quando se está só. Além do eu há um puro "Eu Sou". Onde cedem nossas forças, revela-se uma nova energia. Onde pára nossa compreensão, nasce uma outra Consciência.

Descobrir que há um Eu maior que eu, mais amoroso, mais inteligente que eu, é o que nos dá a graça, como a Moisés, de voltar à cidade e convidar os amigos para irem ao deserto...

Mas Moisés era ingênuo? Pensava ele que três dias seriam suficientes ao povo para fazer uma experiência como a sua própria? Foi isso, entretanto, que ele pediu ao faraó: "Três dias de caminhada no deserto, para lá servir a Deus" (Ex 5,3)

André Neher lembra: "No projeto primitivo, o deserto não deveria ser aquilo, não seria um itinerário, mas o lugar de um momento místico".

É verdade que é suficiente um instante para "abrir mão", para renunciar às nossas ilusões e descobrir "Aquele que É", quando não somos mais nada...

Um instante, três dias, não serão suficientes para os hebreus. Eles deverão errar por quarenta anos no deserto.

Quarenta - bela cifra para simbolizar as provações, a maturidade, que virão talvez ao final de nossas identificações, de nossas representações, para que possamos tocar, enfim, a pedra preciosa, a terra prometida, o Incriado que vela no fundo do coração!

Quando de sua primeira ida ao deserto, Moisés estava sozinho com sua pergunta, só com a Presença que o mantinha de pé e despertava nele a compaixão por seus irmãos. De agora em diante, ele caminha com todo um povo, um povo de dura cerviz, que prefere o sofrimento à vacuidade, a escravidão aos grandes espaços do deserto, as cebolas e a coalhada ao maná insípido.

Ele os levava ao deserto para que se calassem e para que no silêncio eles escutassem uma Palavra que conta. E eis que eles conversam, repisam suas más lembranças, suas memórias de guerras...

Moisés tinha sonhado com um povo que não teria rei, chefe, faraó. Só "Aquele que É quem É" seria seu senhor. Mas eis que no deserto, como em qualquer outro lugar, à tirania sucede a anarquia, e Moisés está ainda sob o fogo de uma nova interrogação: haveria uma lei, uma ordem a dar para esse povo, "um logos para que o caos se transforme em cosmos?" Regras simples que cada um pudesse seguir e, dessa adesão de cada um à lei, nascesse a harmonia para todos?

Entre a anarquia e a tirania não haveria um lugar para a consciência? Consciência individual e coletiva ao mesmo tempo...? Moisés era um sonhador? A verdade é que isso foi para ele um novo deserto e o desejo nascido de um mais profundo silêncio: uma Palavra para todos. Ele se recusava a alegrar-se sozinho; "todos ou nada", dizia ele a YHWH... Foi assim que a Torá veio se inscrever, em relâmpagos, na névoa obscura de sua alma.

Mais tarde, porém, essas palavras de aliança, a harmonização do comportamento humano ao princípio que ele manifesta, tornaram-se palavras de pedra. Eles serviram antes para lapidar do que para libertar.

A lei que libertava da tirania tornou-se uma nova tirania, mais sutil ainda porque se introduzia nas dobras das subjetividades.

A alegre diferença de não se deixar conduzir por bezerros transformou-se em surda culpa de não ser como os outros.

Ousaremos dizer que o ensinamento transmitido por Moisés e que assim resumimos: "Obedece e serás feliz", não funciona mais hoje. "Tu deves", "É preciso", são imperativos que não se podem mais escutar. Muita tirania e totalitarismo derivaram do uso e abuso desses imperativos.

Alguns dirão que a lei de Moisés caducou porque foi substituída pela lei de Cristo que é uma lei de amor. Em vez de dizer "Obedece e serás feliz", é preferível dizer: "Ama e faze o que quiseres" (Santo Agostinho". Mas essa palavra também foi usada. Quantos se serviram dela para justificar seus egoísmos, quanta hipocrisia e culpa geradas por uma tal palavra? Como se se pudesse amar por imposição!

O Deserto do Sinai teria hoje uma outra palavra a nos dar, uma lei, uma ordem que viria inscrever-se dentro de nós e cuja prática restabeleceria, no momento, um pouco de ordem no indivíduo e em seguida, por via de consequência, na sociedade?

Na quarta-feira, 15 de fevereiro de 1989, uma palavra simples, quase banal (cada época não tem a palavra que merece?), uma palavra a verificar ou a encarnar, nos foi ofertada: "Sê consciente e faze o que puderes". Ela completa e integra muito bem as duas palavras precedentes.

Obedecer à lei sem consciência é renunciar a ser livre, e a prática do amor sem consciência não é senão a ruína da alma. 

Ser consciente - instante após instante - e fazer o que se pode (não o que se quer). Há aí uma espécie de realismo sadio, próprio para nos libertar de nossas esquizofrenias e paranoias contemporâneas.

"Sê consciente e faze o que puderes" - isso não é mais fácil nem menos exigente que: "Obedece e serás feliz" ou "Ama e faze o que quiseres". As palavras ouvidas por Moisés no sopro do Sinai não se apagaram, elas são ditas de outra maneira. "Tu deves" se transforma em "Tu podes".

Se quiseres, podes não ter outro deus que Deus, não ser escravo de nenhuma idéia, ideologia, imagem ou ilusão. Não há outra realidade que a Realidade. Podes preferir o Real indestrutível ao orvalho de teus sonhos.
  • Tu podes honrar teu pai e tua mãe, eles não são a fonte de tua vida, mas a vida foi doada a ti através deles.
  • Tu podes não matar, preferir o perdão ao crime, ser maior que a tua cólera ou tua honra.
  • Tu podes não roubar, ter mais prazer em ser honesto que em te enriquecer de uma maneira injusta.
  • Tu podes não mentir, ser alegre e sem medo diante da verdade.
  • Tu podes ser livre de todas as cobiças, desejar o que tu tens, amar o que tu és.
  • Em uma palavra, tu és capaz de amor, tu és capaz de consciência.
Seria preciso agora desenvolver os meios e os métodos pelos quais se pode exercer essa consciência, mas o cotidiano permanece como o maior exercício, tanto no domínio da consciência como no domínio do amor. Não há um instante a perder: cada instante é a ocasião de uma nova aliança; cada alegria como cada provação são ocasiões de uma maior consciência.

Quando Moisés desce da montanha, ele escuta gritos e danças, ruídos de festa em honra a um bezerro.

Pode-se compreender sua cólera ou seu despeito, sua vontade de reduzir a migalhas as belas palavras que acabam de ser inscritas em sua carne. O que vieram procurar no deserto esses homens e essas mulheres? Nem lei, nem amor, nem consciência. Não! Vieram procurar a satisfação e a excitação... do mundo!

Um bezerro, quer dizer, o visível, o palpável, o mensurável.

O Ser do qual Moisés fala não é visível, não é palpável, é sem medida, a alegria para ele é de sentir sua Presença "no silêncio de um sopro sutil" (veja Elias). A festa para ele é de manter-se imóvel sob o céu estrelado. Uma festa simples demais talvez, uma alegria sem objeto, alegria pura que nenhuma ausência pode embaçar.

É essa alegria que, mais tarde, conhecerão as monhas de Sainte-Catherine e das Kellia (celas) entre o Cairo e Alexandria.

Porque se o deserto não é um jardim, mas um cadinho onde nossa sarça de humanidade passa pelo fogo para se despertar ao Ser essencial, se ele é o lugar das revoltas e das saudades, se lá se lamentam seus hábitos, se lá se tem medo do desconhecido, se ele aguça nossa fome de conhecimento e de ternura... o deserto é também um jardim para aquele que cava no instante, a cada passo, o seu poço... Ele conhecerá em seus lábios ressecados o gosto sempre inesperado da Água viva...

Jean-Yves Leloup. O absurdo e a graça. Petrópolis: Vozes, 2013. p.340-347.

sábado, 9 de setembro de 2017

O filósofo tradicional


"Henri Bergson diz que os sistemas filosóficos não são mais do que a intuição de um único instante, seguida de esforços de uma vida inteira no sentido de explicitá-la e desdobrá-la discursivamente. Poderíamos dizer que onde o filósofo abandona o ato intuitivo inicial para, mudando radicalmente de plano e de postura intelectual, dedicar-se à conversão discursiva do conteúdo aí captado, o buscador espiritual - que é o mesmo que dizer: o filósofo tradicional - procura, ao contrário, persistir no estado de evidência intuitiva, de modo não só a obter novas e sucessivas evidências, mas a viver num esteado de visão, claridade e compreensão ininterruptas.

Em outros termos, onde o filósofo moderno julga terminado o trabalho da intuição, e começando o trabalho da explicitação lógica, o espiritual vê apenas a primeira de uma série de fulgurações aurorais que deve terminar por converter a sua própria pessoa em luminosidade e transparência. A mudança de direção assinalada por Bergson, a ruptura do estado intuitivo e a passagem à busca da formulação lógica só se justificam, evidentemente, quando se decreta que a finalidade da filosofia é construir sistemas dedutivos ou explicitar a pura coerência lógica do discurso; mas esta coerência já está dada - ainda que em modo compacto e implícito - na intuição inaugural; resta apenas, por assim dizer, um 'esforço físico' de selecionar os materiais da linguagem e montá-los numa ordem decente. Se a filosofia é isto, não deve valer grande coisa.

Na perspectiva tradicional, ao contrário, a tarefa do filósofo não é constituir sistemas, seja lá do que for, nem a de elaborar tecnicamente a coerência de um discurso acadêmico, mas a de buscar a sabedoria; e se o homem que busca a sabedoria for obrigado a interromper sua marcha a cada passo, para explicitar cada nova intuição, certamente não vai chegar tão cedo ao termo da viagem. Por isto as obras dos espirituais limitam-se, às vezes, a notações abreviadas e simbólicas do conhecimento obtido.

Tais notações só são de grande proveito a quem refaça pessoalmente o trajeto percorrido por eles; são marcos no caminho; tentam guiar o caminhante, não reproduzir verbalmente a viagem para um observador estranho e distante. Claro, nada impede, em princípio, que um espiritual explicite dialeticamente boa parte do seu conhecimento, e neste caso seu trabalho será muito parecido, exteriormente, ao caso de um filósofo acadêmico; é o caso de Platão, de Plotino, etc. Somente que esse excurso pela exposição dialética não é um objetivo em si mesmo, como na filosofia acadêmica, porém uma ocupação mais ou menos secundária, e que só se justificará por um destes dois motivos: seja como atividade de ensino, motivada pela misericórdia, ou como prática disciplinar, no caso de que a arte dialética faça parte do corpo de técnicas de concentração e realização espiritual da linhagem espiritual em questão; era isto, aliás, o que ocorria na academia platônica."

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Pecado, dor, ignorância e falsidade


A fim de descobrir o que vai por trás de uma aparência, há que se ter atenção e a atenção pressupõe quietude.

Um pecado, por exemplo, se desperta inquietude e agitação, impede, no mesmo ato, a correta avaliação do que se fez e de por que se o fez. Mas é comum que às vezes o incômodo gerado não proceda diretamente do ato, mas do modo como a mente antecipa o julgamento de outros a respeito do mesmo ato. Assim, ela sofre por vaidade, e, além disso, assume um incômodo postiço, produto de uma conclusão conceitual – isto é, geral -, mas que se distingue inteiramente do incômodo visceral e singular que uma experiência também singular produz ou supostamente deveria produzir.

Assumir uma postura dolorida assim é assumir uma postura falsa. E esta falsidade tende a obscurecer a visão interior a respeito do que se fez, pois ela fica como uma capa flutuante e um modo de autoengano que a pessoa produz para esconder de si mesma o agravante de não estar pesarosa pela falta cometida. Um pecado pode, então, ser um ajudante no processo de autoconhecimento, e era isso o que os Padres do Deserto diziam: “Que o teu entulho seja teu pedagogo.” Mas, para isso, é preciso uma quietude que permita que o olhar da alma se detenha na questão.

Dar-se a si mesmo uma espécie de contrição pressupõe já tê-la antes da queda, o que é contraditório. Ninguém dá o que não tem. Assim, se um pecado em particular, embora objetivamente considerado grave, não desperte a culpa que se supõe normal em tais casos, isto deve ser aproveitado não para que seja deixado para lá, mas para que seja melhor investigado. O que está por trás da aparência? Como diz um trecho do livro de Levíticos: “Não faça isso, pois isso é bondade! (Hesed)". O ser humano só pode desejar algo, ainda que seja ruim, sob o aspecto do bem. Esta afirmação geralmente pressupõe a bondade visada no objeto. Mas é possível que a bondade esteja no que cometeu o que não deveria. Por trás do que se faz, portanto, não raro se esconde uma boa intenção ou uma boa raiz má considerada. Esta posição se avizinha da de Sócrates para o qual a maldade é produto de uma espécie de ignorância, esta entendida como o estado de não saber a respeito de algo que é essencial conhecer.

Isso obviamente não permite relativizar o pecado, mas serve para brecar a afetação posterior e para reconhecer que até mesmo ele pode ter uma função pedagógica. Se todo pecado é sempre um efeito daquela primeira Queda, todo pecado possui também a possibilidade de se tornar uma "felix culpa".

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Sobre Moral, Liberdade, Egoísmo e Tristeza


"Para saborear tudo, não queiras ter gosto em coisa alguma" 
São João da Cruz

O ser humano é um ser que intelige e decide, mas não necessariamente nessa ordem, já que o objeto de intelecção já é submetido a um prévio ato de deliberação. Não apenas faço o que entendi dever fazer, mas escolho aquilo no que vou pensar. Porém, é verdade que este prévio ato deliberativo se relaciona muito mais com o desejo - uma espécie de instinto imediato - do que com a vontade. Temos então a seguinte ordem: desejo - inteligência - vontade. É possível e comum que desejo e vontade discordem. Neste caso, a vontade age como sucessora corretiva do desejo. Como este é prévio à inteligência, ele tende a ser amoral, pois agir moralmente é agir segundo regras ou motivos; é saber por que agir assim é correto ou errado. A vida moral - a não ser quando já se tem o hábito - não pode ser fruto de qualquer inspiracionismo, como se nós tendêssemos naturalmente à vida correta. Qualquer mínimo exame da nossa realidade psíquica dá conta de ver que isso não é assim. Tendemos ao mal, e não é raro que mesmo aquela ação que julgamos naturalmente boa encubra intenções e desejos que não o são.

Na vida moral, há que se distinguir, portanto, estas duas coisas: a ação objetiva e a intenção ou finalidade que se pretende alcançar com a ação. Isoladas, elas não são suficientes ainda para constituir a ação moral. Mas se pode dizer que a intenção isolada tende a ser mais desculpável para o sujeito do que a ação isolada. Claro que há nisso controvérsias. Se um dado ato irrefletido, mas munido de boas intenções, só foi executado assim na ignorância de sua efetividade real devido a alguma negligência anterior do sujeito, ele já não se torna tão desculpável assim porque o conjunto da negligência anterior contamina a intenção atual do sujeito. Por trás de sua intuição de sinceridade pessoal há de se esconder qualquer senso de vigarice, pois o desconhecimento da objetividade da situação é fruto de um vício prévio.

Quanto às ações, tomadas isoladamente, é sabido que quaisquer delas podem ser inspiradas por um sem fim de motivos internos. Uma pessoa pode dar esmolas porque quer alimentar o esfomeado, ou porque quer cultivar a imagem de honesto para os outros, ou porque quer cultivá-la para si, ou porque quer impressionar alguém, ou porque quer impressionar Deus, ou porque quer ir para o Céu, ou porque não quer ir para o Inferno, ou porque quer que o pedinte o deixe em paz, ou porque se recordou de alguma situação anterior que o empurra para essa ação, ou porque simpatizou com aquele pedinte em particular, ou porque se sentiu momentaneamente comovido e aí obedece a si mesmo nesse ímpeto atual e totalmente instintivo de dar, etc. Do ponto de vista exterior, temos somente a ação. É por isso que o julgamento das intenções só é reservado a Deus, pois uma ação nem sempre é efeito fiel de correspondentes interiores. É preciso ainda dizer que essa fonte confusa dos nossos atos nem sempre é totalmente consciente. Bem, é comum que não o seja. Nós costumamos mentir para nós mesmos, e por isso não nos agrada quando alguém nos acusa de algo justamente. Nos é preferível à sensibilidade ficar na ignorância dessas coisas. E isso é assim também conosco. Se quem tenta conhecer-se encontra nisso extrema dificuldade, imaginem que não tem interesse nisso.

O que caracterizaria então a ação moral? Parece-me poder dizer que é a conjugação de ação boa em si - isto é, tomada objetivamente - com o desinteresse pessoal, isto é, sem qualquer cálculo de ganho pessoal em quem age. Quando há dissociação entre ação e intenção, temos a clássica situação da hipocrisia. Esta pode ser mais consciente e voluntária, mas também pode sê-los menos. Uma pessoa que, enquanto faz uma boa ação, diz interiormente que não quer recompensa e que faz somente pelo outro, pode ainda assim esconder, numa região mais  interior e ao abrigo da visão atual da consciência, a intenção de comover a Deus, e, assim, alcançar d'Ele algum favor. São João da Cruz, por isso, pedia para que, quando fizéssemos um ato correto, fizéssemo-lo como se mesmo Deus nunca fosse tomar notícia dele.

É bastante comum também que um sujeito passe a agir moralmente depois de alguma experiência que o tenha comovido. Inspirados, todos tendemos a agir de modo diferente, e isso não é ruim, mas a esfera da comoção, que é o campo dos nossos sentimentos, é por natureza volúvel e não há que se construir nada nisso aí. Óbvio que este pode ser um começo, mas, em quem não o percebe, haverá uma vaga e tola esperança de que aquele estado de espírito que então se vive seja perpetuado, o que asseguraria então que a nova direção das ações pessoais estaria resguardada. Contudo, além da falsidade dessa conclusão - que, não obstante, retomamos de novo e de novo -, o próprio ato de agir quando isto dá à consciência aquele conforto característico - quando a ação é um modo de assegurar o próprio valor moral, ou a própria concordância a um ideal - torna a ação, já, maculada. Há, no fim, uma busca por auto-satisfação. Notem que o problema não é a satisfação que uma boa ação pode causar à pessoa, mas a busca por ela. O prazer e a felicidade não devem ser objetos diretos da busca humana. Eles, por natureza, são acompanhantes. Eles se vinculam a objetos. Se buscamos objetos prazerosos, eles nos darão prazer. Se buscamos somente o prazer, ele até se permitirá fruir, mas não o fará sem resistência. É por isso que os vícios tendem a produzir efeitos cada vez menores. Com a felicidade é o mesmo: ela será tanto maximizada quanto menos for o objeto de busca principal. "Nega os teus desejos e encontrarás o que deseja o teu coração".

Se uma pessoa se habitua a agir buscando o prazer e a felicidade nas coisas, ainda que inconscientemente, ela se condenará a uma série de prejuízos: terá um tipo de vida moral muito condicionada às circunstâncias, será necessariamente inconstante - pois se moverá segundo suas disposições interiores -, tenderá ao egoísmo - pois está sempre gravitando em torno dos próprios ganhos -, e, como sua consciência estará enredada no fluxo das sensações exteriores e interiores, será necessariamente inquieta e superficial, pois nunca entra fundo em si mesma, onde as coisas são mais estáveis. O produto disso tudo é uma espécie de cegueira e de depressão crônica subjacente, pois, a rigor, a alma anda perdida. E isto se torna um círculo vicioso: quando mais tristeza, mais busca desesperada por algo que a supra, e, como esta busca mantém a lógica da tristeza, esta aumenta, levando a mais ações e mais angústia. A pessoa age como alguém que, estando machucado, golpeia os pregos diante de si, e, ao aumento da dor, aumenta a violência dos golpes.

O desinteresse interior, ao contrário, reorienta a alma para além de si mesma. Isto gera uma saída do solipsismo, e ela se torna disponível a qualquer outra voz além da sua. Relativizar-se é o começo da saúde. Aceitar que Deus é Outro, e não eu mesmo, é algo que não basta compreender: é necessário intuir e saborear. Isto permite que a pessoa aja independentemente do que está sentindo no momento. Se ela passa a agir assim, chegará o dia em que já não se perguntará se o que tem de fazer é agradável ou não. Ela fará. A pessoa cessa de ter uma intenção curva - que voltava sempre pra ela mesma - e passa a ter uma intenção reta, e a intenção reta, diz o Imitação de Cristo, alcança Deus.

Para reorientar a intenção interior, não é suficiente somente um esforço de consciência, embora este já seja útil. Compreender essas verdades é fundamental para alguém que quer fazer da vida algo além de um rodopio em torno de si mesmo. Mas é preciso acrescer outras coisas: a nossa vida inteira foi vivida nessa lógica, e o nosso pecado não é senão uma culminância natural disso que ocorre na nossa alma. Se é verdade que a operação segue o ser - e é verdade -, o nosso pecado é sempre a exteriorização de um tipo de enfermidade interior. O que fazer, então? Primeiramente, compreender isso tudo, mesmo, pois a nossa consciência, embora seja atingida por esse fluxo desordenado de paixões, ainda é capaz, em geral, de, com o devido esforço, olhar como que por cima da tempestade. Estes saltos permitem-na ver. Em seguida, é preciso combater ativamente a desordem, e, para isso, não há outro meio que a mortificação. Mortificar-se é inverter a ordem. Se antes se vivia para o prazer e para o ganho sensível, agora o sujeito buscará ativamente os desprazeres e, passivamente, não reclamará nem fugirá dos desconfortos. É isso o que quer dizer ainda São João da Cruz quando escreve: "Deixa-te ensinar, deixa-te mandar e desprezar, e serás perfeito." É como quando, depois de girar muito para um lado, e já bêbados, precisamos agora girar para o outro para diminuir a tontura. Quanto menos tontura, melhor disposição interior e mais clara a visão. E quanto mais avançados nesse caminho, mais perceberemos detalhes e sutilezas. Desde já, porém, é preciso notar: não há caminho alternativo. Haveria somente se Deus coagisse a alma. E Ele de certo modo o faz quando nos dá sofrimentos. Os sofrimentos são como um empurrão por esse caminho em quem ia totalmente pelo outro lado. Mas, ainda assim, isso não é determinante, pois, em última instância, a decisão é sempre da pessoa.

Atos morais, que são totalmente bons, são os atos desinteressados e que se orientam em direção ao bem objetivo. É assim que Deus age, e é assim que o cristão deve viver: imitando-O.