domingo, 1 de outubro de 2017

O deserto, o vazio, do "tu deves" ao "tu podes".


Jean-Yves Leloup

"YHWH disse a Abraão: 'Vai para ti mesmo, deixa teu país, teus parentes, a casa de teu pai, vai para o lugar que eu te indicarei.'" (Gn 12,1)

Ir para o deserto é, inicialmente, partir em direção a si mesmo. É para isso que somos convidados. Para conhecer-se verdadeiramente a si mesmo, trata-se de deixar um certo número de memórias com as quais confundimos nossa identidade. Deixar o conhecido, o reconhecido que cremos ser, pelo desconhecido, o desprezado que somos. Inútil aqui detalhar os múltiplos apegos ou referências, todos legítimos, à casa, ao pai, à mãe, que nos evitam o face a face com o nosso nada. Fílon de Alexandria diz que deixar a casa de seu pai é deixar a linguagem, quer dizer, as referências que nos estruturam. Quando a consciência não tem mais uma palavra, nem uma imagem, nem um conceito para dizer a si mesmo, ela entra em um espaço infinito que simboliza bem o espaço sem limites do deserto.

Mas esta marcha através do silêncio, em direção ao infinito e ao sem-limite de si mesmo, não é tentativa de aniquilamento. Ela faz as pazes com o que o homem tem de eterno, este eterno que está nele mesmo e que as ocupações e preocupações do tempo lhe escondem.
Para Abraão, este eterno é um Outro, uma Alteridade que o fundamenta. "Conhecer-se a si mesmo é descobrir-se conhecido", dirá mais tarde o Evangelho de Tomé. Na imensidão e imobilidade do deserto, sabemos que não nos criamos a nós mesmos, abemos que a menor das nossas respirações vem de outro lugar.

Conhecer-se a si mesmo é conhecer o Vivente que nos concee ser o que somos e conhecer que este Vivente está sempre pronto a nos retirar, como a nos oferecer, o sopro de nossas narinas.

Há pretensões e autossuficiências que não resistem a um real quarto de hora de meditação no deserto.

Abraão e seus patriarcas gostavam, ao cair da noite, de sentar-se diretamente na terra nua, olhando as estrelas, bendizendo seu cansaço, sorrindo de seus desejos irrisórios. Acontecia-lhes de estar ali, terrivelmente ali! A ponto de não fazerem senão um com "aquele que está ali, presente", Ya-Hou, Oh! Ele! o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, Presença ardente e silenciosa. Presença do Ser, Presença do Outro, que nos apaga e fundamenta.

Pode-se ir ao deserto para conhecer-se a si mesmo ou para encontrar o Outro, que nos fundamenta. Pode-se ir lá também para fugir, fugir do mundo, fugir da injustiça. Pode-se ir lá porque uma pergunta nos atormenta e não conheceremos o repouso antes de termos recebido a resposta.

A primeira vez que Moisés foi ao deserto foi para fugir, fugir do Estado totalitário que ele acabara de descobrir e que mantinha seus irmãos na escravidão. À violência ele tinha respondido pela violência, matando um guarda que maltratava um hebreu sem defesa... A história de Moisés nos lembra a de um outro príncipe, também educado na corte, ao abrigo de todos os sofrimentos e que um dia descobriu a dor e a morte: o Príncipe Sidarta Gautama. Ele também, depois desse encontro com o sofrimento, partiu para o deserto, com esta pergunta que é a sua, que foi a de Moisés e que é, sempre, a nossa: Por que o sofrimento, por que o mal, por que a injustiça?

O que é preciso fazer para sair disso, para ser libertado do sofrimento, do mal, da injustiça?

O que Moisés descobre no deserto é que, antes de se colocar a questão do mal, é preciso colocar-se a questão da existência. Antes de se perguntar por que há sofrimento no mundo, é preciso perguntar por que há um mundo: "Por que, em vez de nada, há alguma coisa?"

A experiência de Moisés vai se juntar àquela de Abraão. No infinito do deserto, ele vai descobrir a vaidade e a fragilidade do universo. O que é o homem, o que é o mundo? "Uma gota de orvalho na borda de um cântaro"< dirá mais tarde o Profeta Isaías.

Como a gota de orvalho ao sol, ao mesmo tempo em que seu eu, desaparecem as perguntas de Moisés. Ele tornou-se o mais humilde dos homens, ele fez-se húmus, Adamah, quer dizer, "terroso", "argiloso", terra nua sob o céu vertical, ele se ocupa de suas ovelhas, os negócios do Egito não têm nada a ver com ele.

Mas eis que no deserto, se não há nada, há, pelo menos, sarças, sarças espinhosas.

Do fundo dessa vacuidade nasce um murmúrio que bem poderia ser de compaixão. Em vez do nada há alguma coisa.

Como fazer para que essa alguma coisa não sofra mais ou sofra menos debaixo do sol? Pergunta espinhosa, ardente...

Ir até o fim de uma pergunta fundamental, essencial, é uma forma de travessia do deserto. Moisés foi até o fim da sua, saiu queimado, mas não consumido. Uma voz se fez escutar. O Ser não é indiferente à miséria dos homens, o mal não é uma fatalidade, ele é o estímulo para que se manifestem as faculdades cocriadoras do homem.

"YHWH diz: 'Eu vi, eu vi a miséria de meu povo que está no Egito. Escutei o clamor por causa de seus opressores [...] Agora vai, Eu te envio junto ao faraó para fazer sair o meu povo do Egito'" (Ex 3,7.10).

Mas, no deserto, Moisés esqueceu a linguagem, sua palavra tornou-se curta e hesitante. O desejo de ordenar e de conduzir deixou-o, o convívio com seus abismos levou-o a apagar-se.

"Quem sou eu para ir encontrar o faraó e para fazer sair do Egito os filhos de Israel?" (Ex 3,11). Eu não sei falar... Envia quem quiseres!

"Quem sou eu?" é uma boa pergunta a colocar-se no deserto. A resposta, após alguns dias de sede, nunca se faz esperar: "Nada!"

"Eu não sou nada." Moisés viveu mais de uma vez essa resposta, mas agora ele descobre que no coração desse nada, um nada espinhoso, vive uma força, uma Presença, um "Eu estou contigo". E é este um dos grandes presentes do deserto: descobrir que nunca se está menos só do que quando se está só. Além do eu há um puro "Eu Sou". Onde cedem nossas forças, revela-se uma nova energia. Onde pára nossa compreensão, nasce uma outra Consciência.

Descobrir que há um Eu maior que eu, mais amoroso, mais inteligente que eu, é o que nos dá a graça, como a Moisés, de voltar à cidade e convidar os amigos para irem ao deserto...

Mas Moisés era ingênuo? Pensava ele que três dias seriam suficientes ao povo para fazer uma experiência como a sua própria? Foi isso, entretanto, que ele pediu ao faraó: "Três dias de caminhada no deserto, para lá servir a Deus" (Ex 5,3)

André Neher lembra: "No projeto primitivo, o deserto não deveria ser aquilo, não seria um itinerário, mas o lugar de um momento místico".

É verdade que é suficiente um instante para "abrir mão", para renunciar às nossas ilusões e descobrir "Aquele que É", quando não somos mais nada...

Um instante, três dias, não serão suficientes para os hebreus. Eles deverão errar por quarenta anos no deserto.

Quarenta - bela cifra para simbolizar as provações, a maturidade, que virão talvez ao final de nossas identificações, de nossas representações, para que possamos tocar, enfim, a pedra preciosa, a terra prometida, o Incriado que vela no fundo do coração!

Quando de sua primeira ida ao deserto, Moisés estava sozinho com sua pergunta, só com a Presença que o mantinha de pé e despertava nele a compaixão por seus irmãos. De agora em diante, ele caminha com todo um povo, um povo de dura cerviz, que prefere o sofrimento à vacuidade, a escravidão aos grandes espaços do deserto, as cebolas e a coalhada ao maná insípido.

Ele os levava ao deserto para que se calassem e para que no silêncio eles escutassem uma Palavra que conta. E eis que eles conversam, repisam suas más lembranças, suas memórias de guerras...

Moisés tinha sonhado com um povo que não teria rei, chefe, faraó. Só "Aquele que É quem É" seria seu senhor. Mas eis que no deserto, como em qualquer outro lugar, à tirania sucede a anarquia, e Moisés está ainda sob o fogo de uma nova interrogação: haveria uma lei, uma ordem a dar para esse povo, "um logos para que o caos se transforme em cosmos?" Regras simples que cada um pudesse seguir e, dessa adesão de cada um à lei, nascesse a harmonia para todos?

Entre a anarquia e a tirania não haveria um lugar para a consciência? Consciência individual e coletiva ao mesmo tempo...? Moisés era um sonhador? A verdade é que isso foi para ele um novo deserto e o desejo nascido de um mais profundo silêncio: uma Palavra para todos. Ele se recusava a alegrar-se sozinho; "todos ou nada", dizia ele a YHWH... Foi assim que a Torá veio se inscrever, em relâmpagos, na névoa obscura de sua alma.

Mais tarde, porém, essas palavras de aliança, a harmonização do comportamento humano ao princípio que ele manifesta, tornaram-se palavras de pedra. Eles serviram antes para lapidar do que para libertar.

A lei que libertava da tirania tornou-se uma nova tirania, mais sutil ainda porque se introduzia nas dobras das subjetividades.

A alegre diferença de não se deixar conduzir por bezerros transformou-se em surda culpa de não ser como os outros.

Ousaremos dizer que o ensinamento transmitido por Moisés e que assim resumimos: "Obedece e serás feliz", não funciona mais hoje. "Tu deves", "É preciso", são imperativos que não se podem mais escutar. Muita tirania e totalitarismo derivaram do uso e abuso desses imperativos.

Alguns dirão que a lei de Moisés caducou porque foi substituída pela lei de Cristo que é uma lei de amor. Em vez de dizer "Obedece e serás feliz", é preferível dizer: "Ama e faze o que quiseres" (Santo Agostinho". Mas essa palavra também foi usada. Quantos se serviram dela para justificar seus egoísmos, quanta hipocrisia e culpa geradas por uma tal palavra? Como se se pudesse amar por imposição!

O Deserto do Sinai teria hoje uma outra palavra a nos dar, uma lei, uma ordem que viria inscrever-se dentro de nós e cuja prática restabeleceria, no momento, um pouco de ordem no indivíduo e em seguida, por via de consequência, na sociedade?

Na quarta-feira, 15 de fevereiro de 1989, uma palavra simples, quase banal (cada época não tem a palavra que merece?), uma palavra a verificar ou a encarnar, nos foi ofertada: "Sê consciente e faze o que puderes". Ela completa e integra muito bem as duas palavras precedentes.

Obedecer à lei sem consciência é renunciar a ser livre, e a prática do amor sem consciência não é senão a ruína da alma. 

Ser consciente - instante após instante - e fazer o que se pode (não o que se quer). Há aí uma espécie de realismo sadio, próprio para nos libertar de nossas esquizofrenias e paranoias contemporâneas.

"Sê consciente e faze o que puderes" - isso não é mais fácil nem menos exigente que: "Obedece e serás feliz" ou "Ama e faze o que quiseres". As palavras ouvidas por Moisés no sopro do Sinai não se apagaram, elas são ditas de outra maneira. "Tu deves" se transforma em "Tu podes".

Se quiseres, podes não ter outro deus que Deus, não ser escravo de nenhuma idéia, ideologia, imagem ou ilusão. Não há outra realidade que a Realidade. Podes preferir o Real indestrutível ao orvalho de teus sonhos.
  • Tu podes honrar teu pai e tua mãe, eles não são a fonte de tua vida, mas a vida foi doada a ti através deles.
  • Tu podes não matar, preferir o perdão ao crime, ser maior que a tua cólera ou tua honra.
  • Tu podes não roubar, ter mais prazer em ser honesto que em te enriquecer de uma maneira injusta.
  • Tu podes não mentir, ser alegre e sem medo diante da verdade.
  • Tu podes ser livre de todas as cobiças, desejar o que tu tens, amar o que tu és.
  • Em uma palavra, tu és capaz de amor, tu és capaz de consciência.
Seria preciso agora desenvolver os meios e os métodos pelos quais se pode exercer essa consciência, mas o cotidiano permanece como o maior exercício, tanto no domínio da consciência como no domínio do amor. Não há um instante a perder: cada instante é a ocasião de uma nova aliança; cada alegria como cada provação são ocasiões de uma maior consciência.

Quando Moisés desce da montanha, ele escuta gritos e danças, ruídos de festa em honra a um bezerro.

Pode-se compreender sua cólera ou seu despeito, sua vontade de reduzir a migalhas as belas palavras que acabam de ser inscritas em sua carne. O que vieram procurar no deserto esses homens e essas mulheres? Nem lei, nem amor, nem consciência. Não! Vieram procurar a satisfação e a excitação... do mundo!

Um bezerro, quer dizer, o visível, o palpável, o mensurável.

O Ser do qual Moisés fala não é visível, não é palpável, é sem medida, a alegria para ele é de sentir sua Presença "no silêncio de um sopro sutil" (veja Elias). A festa para ele é de manter-se imóvel sob o céu estrelado. Uma festa simples demais talvez, uma alegria sem objeto, alegria pura que nenhuma ausência pode embaçar.

É essa alegria que, mais tarde, conhecerão as monhas de Sainte-Catherine e das Kellia (celas) entre o Cairo e Alexandria.

Porque se o deserto não é um jardim, mas um cadinho onde nossa sarça de humanidade passa pelo fogo para se despertar ao Ser essencial, se ele é o lugar das revoltas e das saudades, se lá se lamentam seus hábitos, se lá se tem medo do desconhecido, se ele aguça nossa fome de conhecimento e de ternura... o deserto é também um jardim para aquele que cava no instante, a cada passo, o seu poço... Ele conhecerá em seus lábios ressecados o gosto sempre inesperado da Água viva...

Jean-Yves Leloup. O absurdo e a graça. Petrópolis: Vozes, 2013. p.340-347.

sábado, 9 de setembro de 2017

O filósofo tradicional


"Henri Bergson diz que os sistemas filosóficos não são mais do que a intuição de um único instante, seguida de esforços de uma vida inteira no sentido de explicitá-la e desdobrá-la discursivamente. Poderíamos dizer que onde o filósofo abandona o ato intuitivo inicial para, mudando radicalmente de plano e de postura intelectual, dedicar-se à conversão discursiva do conteúdo aí captado, o buscador espiritual - que é o mesmo que dizer: o filósofo tradicional - procura, ao contrário, persistir no estado de evidência intuitiva, de modo não só a obter novas e sucessivas evidências, mas a viver num esteado de visão, claridade e compreensão ininterruptas.

Em outros termos, onde o filósofo moderno julga terminado o trabalho da intuição, e começando o trabalho da explicitação lógica, o espiritual vê apenas a primeira de uma série de fulgurações aurorais que deve terminar por converter a sua própria pessoa em luminosidade e transparência. A mudança de direção assinalada por Bergson, a ruptura do estado intuitivo e a passagem à busca da formulação lógica só se justificam, evidentemente, quando se decreta que a finalidade da filosofia é construir sistemas dedutivos ou explicitar a pura coerência lógica do discurso; mas esta coerência já está dada - ainda que em modo compacto e implícito - na intuição inaugural; resta apenas, por assim dizer, um 'esforço físico' de selecionar os materiais da linguagem e montá-los numa ordem decente. Se a filosofia é isto, não deve valer grande coisa.

Na perspectiva tradicional, ao contrário, a tarefa do filósofo não é constituir sistemas, seja lá do que for, nem a de elaborar tecnicamente a coerência de um discurso acadêmico, mas a de buscar a sabedoria; e se o homem que busca a sabedoria for obrigado a interromper sua marcha a cada passo, para explicitar cada nova intuição, certamente não vai chegar tão cedo ao termo da viagem. Por isto as obras dos espirituais limitam-se, às vezes, a notações abreviadas e simbólicas do conhecimento obtido.

Tais notações só são de grande proveito a quem refaça pessoalmente o trajeto percorrido por eles; são marcos no caminho; tentam guiar o caminhante, não reproduzir verbalmente a viagem para um observador estranho e distante. Claro, nada impede, em princípio, que um espiritual explicite dialeticamente boa parte do seu conhecimento, e neste caso seu trabalho será muito parecido, exteriormente, ao caso de um filósofo acadêmico; é o caso de Platão, de Plotino, etc. Somente que esse excurso pela exposição dialética não é um objetivo em si mesmo, como na filosofia acadêmica, porém uma ocupação mais ou menos secundária, e que só se justificará por um destes dois motivos: seja como atividade de ensino, motivada pela misericórdia, ou como prática disciplinar, no caso de que a arte dialética faça parte do corpo de técnicas de concentração e realização espiritual da linhagem espiritual em questão; era isto, aliás, o que ocorria na academia platônica."

Olavo de Carvalho, Astros e Símbolos.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Pecado, dor, ignorância e falsidade


A fim de descobrir o que vai por trás de uma aparência, há que se ter atenção e a atenção pressupõe quietude.

Um pecado, por exemplo, se desperta inquietude e agitação, impede, no mesmo ato, a correta avaliação do que se fez e de por que se o fez. Mas é comum que às vezes o incômodo gerado não proceda diretamente do ato, mas do modo como a mente antecipa o julgamento de outros a respeito do mesmo ato. Assim, ela sofre por vaidade, e, além disso, assume um incômodo postiço, produto de uma conclusão conceitual – isto é, geral -, mas que se distingue inteiramente do incômodo visceral e singular que uma experiência também singular produz ou supostamente deveria produzir.

Assumir uma postura dolorida assim é assumir uma postura falsa. E esta falsidade tende a obscurecer a visão interior a respeito do que se fez, pois ela fica como uma capa flutuante e um modo de autoengano que a pessoa produz para esconder de si mesma o agravante de não estar pesarosa pela falta cometida. Um pecado pode, então, ser um ajudante no processo de autoconhecimento, e era isso o que os Padres do Deserto diziam: “Que o teu entulho seja teu pedagogo.” Mas, para isso, é preciso uma quietude que permita que o olhar da alma se detenha na questão.

Dar-se a si mesmo uma espécie de contrição pressupõe já tê-la antes da queda, o que é contraditório. Ninguém dá o que não tem. Assim, se um pecado em particular, embora objetivamente considerado grave, não desperte a culpa que se supõe normal em tais casos, isto deve ser aproveitado não para que seja deixado para lá, mas para que seja melhor investigado. O que está por trás da aparência? Como diz um trecho do livro de Levíticos: “Não faça isso, pois isso é bondade! (Hesed)". O ser humano só pode desejar algo, ainda que seja ruim, sob o aspecto do bem. Esta afirmação geralmente pressupõe a bondade visada no objeto. Mas é possível que a bondade esteja no que cometeu o que não deveria. Por trás do que se faz, portanto, não raro se esconde uma boa intenção ou uma boa raiz má considerada. Esta posição se avizinha da de Sócrates para o qual a maldade é produto de uma espécie de ignorância, esta entendida como o estado de não saber a respeito de algo que é essencial conhecer.

Isso obviamente não permite relativizar o pecado, mas serve para brecar a afetação posterior e para reconhecer que até mesmo ele pode ter uma função pedagógica. Se todo pecado é sempre um efeito daquela primeira Queda, todo pecado possui também a possibilidade de se tornar uma "felix culpa".

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Sobre Moral, Liberdade, Egoísmo e Tristeza


"Para saborear tudo, não queiras ter gosto em coisa alguma" 
São João da Cruz

O ser humano é um ser que intelige e decide, mas não necessariamente nessa ordem, já que o objeto de intelecção já é submetido a um prévio ato de deliberação. Não apenas faço o que entendi dever fazer, mas escolho aquilo no que vou pensar. Porém, é verdade que este prévio ato deliberativo se relaciona muito mais com o desejo - uma espécie de instinto imediato - do que com a vontade. Temos então a seguinte ordem: desejo - inteligência - vontade. É possível e comum que desejo e vontade discordem. Neste caso, a vontade age como sucessora corretiva do desejo. Como este é prévio à inteligência, ele tende a ser amoral, pois agir moralmente é agir segundo regras ou motivos; é saber por que agir assim é correto ou errado. A vida moral - a não ser quando já se tem o hábito - não pode ser fruto de qualquer inspiracionismo, como se nós tendêssemos naturalmente à vida correta. Qualquer mínimo exame da nossa realidade psíquica dá conta de ver que isso não é assim. Tendemos ao mal, e não é raro que mesmo aquela ação que julgamos naturalmente boa encubra intenções e desejos que não o são.

Na vida moral, há que se distinguir, portanto, estas duas coisas: a ação objetiva e a intenção ou finalidade que se pretende alcançar com a ação. Isoladas, elas não são suficientes ainda para constituir a ação moral. Mas se pode dizer que a intenção isolada tende a ser mais desculpável para o sujeito do que a ação isolada. Claro que há nisso controvérsias. Se um dado ato irrefletido, mas munido de boas intenções, só foi executado assim na ignorância de sua efetividade real devido a alguma negligência anterior do sujeito, ele já não se torna tão desculpável assim porque o conjunto da negligência anterior contamina a intenção atual do sujeito. Por trás de sua intuição de sinceridade pessoal há de se esconder qualquer senso de vigarice, pois o desconhecimento da objetividade da situação é fruto de um vício prévio.

Quanto às ações, tomadas isoladamente, é sabido que quaisquer delas podem ser inspiradas por um sem fim de motivos internos. Uma pessoa pode dar esmolas porque quer alimentar o esfomeado, ou porque quer cultivar a imagem de honesto para os outros, ou porque quer cultivá-la para si, ou porque quer impressionar alguém, ou porque quer impressionar Deus, ou porque quer ir para o Céu, ou porque não quer ir para o Inferno, ou porque quer que o pedinte o deixe em paz, ou porque se recordou de alguma situação anterior que o empurra para essa ação, ou porque simpatizou com aquele pedinte em particular, ou porque se sentiu momentaneamente comovido e aí obedece a si mesmo nesse ímpeto atual e totalmente instintivo de dar, etc. Do ponto de vista exterior, temos somente a ação. É por isso que o julgamento das intenções só é reservado a Deus, pois uma ação nem sempre é efeito fiel de correspondentes interiores. É preciso ainda dizer que essa fonte confusa dos nossos atos nem sempre é totalmente consciente. Bem, é comum que não o seja. Nós costumamos mentir para nós mesmos, e por isso não nos agrada quando alguém nos acusa de algo justamente. Nos é preferível à sensibilidade ficar na ignorância dessas coisas. E isso é assim também conosco. Se quem tenta conhecer-se encontra nisso extrema dificuldade, imaginem que não tem interesse nisso.

O que caracterizaria então a ação moral? Parece-me poder dizer que é a conjugação de ação boa em si - isto é, tomada objetivamente - com o desinteresse pessoal, isto é, sem qualquer cálculo de ganho pessoal em quem age. Quando há dissociação entre ação e intenção, temos a clássica situação da hipocrisia. Esta pode ser mais consciente e voluntária, mas também pode sê-los menos. Uma pessoa que, enquanto faz uma boa ação, diz interiormente que não quer recompensa e que faz somente pelo outro, pode ainda assim esconder, numa região mais  interior e ao abrigo da visão atual da consciência, a intenção de comover a Deus, e, assim, alcançar d'Ele algum favor. São João da Cruz, por isso, pedia para que, quando fizéssemos um ato correto, fizéssemo-lo como se mesmo Deus nunca fosse tomar notícia dele.

É bastante comum também que um sujeito passe a agir moralmente depois de alguma experiência que o tenha comovido. Inspirados, todos tendemos a agir de modo diferente, e isso não é ruim, mas a esfera da comoção, que é o campo dos nossos sentimentos, é por natureza volúvel e não há que se construir nada nisso aí. Óbvio que este pode ser um começo, mas, em quem não o percebe, haverá uma vaga e tola esperança de que aquele estado de espírito que então se vive seja perpetuado, o que asseguraria então que a nova direção das ações pessoais estaria resguardada. Contudo, além da falsidade dessa conclusão - que, não obstante, retomamos de novo e de novo -, o próprio ato de agir quando isto dá à consciência aquele conforto característico - quando a ação é um modo de assegurar o próprio valor moral, ou a própria concordância a um ideal - torna a ação, já, maculada. Há, no fim, uma busca por auto-satisfação. Notem que o problema não é a satisfação que uma boa ação pode causar à pessoa, mas a busca por ela. O prazer e a felicidade não devem ser objetos diretos da busca humana. Eles, por natureza, são acompanhantes. Eles se vinculam a objetos. Se buscamos objetos prazerosos, eles nos darão prazer. Se buscamos somente o prazer, ele até se permitirá fruir, mas não o fará sem resistência. É por isso que os vícios tendem a produzir efeitos cada vez menores. Com a felicidade é o mesmo: ela será tanto maximizada quanto menos for o objeto de busca principal. "Nega os teus desejos e encontrarás o que deseja o teu coração".

Se uma pessoa se habitua a agir buscando o prazer e a felicidade nas coisas, ainda que inconscientemente, ela se condenará a uma série de prejuízos: terá um tipo de vida moral muito condicionada às circunstâncias, será necessariamente inconstante - pois se moverá segundo suas disposições interiores -, tenderá ao egoísmo - pois está sempre gravitando em torno dos próprios ganhos -, e, como sua consciência estará enredada no fluxo das sensações exteriores e interiores, será necessariamente inquieta e superficial, pois nunca entra fundo em si mesma, onde as coisas são mais estáveis. O produto disso tudo é uma espécie de cegueira e de depressão crônica subjacente, pois, a rigor, a alma anda perdida. E isto se torna um círculo vicioso: quando mais tristeza, mais busca desesperada por algo que a supra, e, como esta busca mantém a lógica da tristeza, esta aumenta, levando a mais ações e mais angústia. A pessoa age como alguém que, estando machucado, golpeia os pregos diante de si, e, ao aumento da dor, aumenta a violência dos golpes.

O desinteresse interior, ao contrário, reorienta a alma para além de si mesma. Isto gera uma saída do solipsismo, e ela se torna disponível a qualquer outra voz além da sua. Relativizar-se é o começo da saúde. Aceitar que Deus é Outro, e não eu mesmo, é algo que não basta compreender: é necessário intuir e saborear. Isto permite que a pessoa aja independentemente do que está sentindo no momento. Se ela passa a agir assim, chegará o dia em que já não se perguntará se o que tem de fazer é agradável ou não. Ela fará. A pessoa cessa de ter uma intenção curva - que voltava sempre pra ela mesma - e passa a ter uma intenção reta, e a intenção reta, diz o Imitação de Cristo, alcança Deus.

Para reorientar a intenção interior, não é suficiente somente um esforço de consciência, embora este já seja útil. Compreender essas verdades é fundamental para alguém que quer fazer da vida algo além de um rodopio em torno de si mesmo. Mas é preciso acrescer outras coisas: a nossa vida inteira foi vivida nessa lógica, e o nosso pecado não é senão uma culminância natural disso que ocorre na nossa alma. Se é verdade que a operação segue o ser - e é verdade -, o nosso pecado é sempre a exteriorização de um tipo de enfermidade interior. O que fazer, então? Primeiramente, compreender isso tudo, mesmo, pois a nossa consciência, embora seja atingida por esse fluxo desordenado de paixões, ainda é capaz, em geral, de, com o devido esforço, olhar como que por cima da tempestade. Estes saltos permitem-na ver. Em seguida, é preciso combater ativamente a desordem, e, para isso, não há outro meio que a mortificação. Mortificar-se é inverter a ordem. Se antes se vivia para o prazer e para o ganho sensível, agora o sujeito buscará ativamente os desprazeres e, passivamente, não reclamará nem fugirá dos desconfortos. É isso o que quer dizer ainda São João da Cruz quando escreve: "Deixa-te ensinar, deixa-te mandar e desprezar, e serás perfeito." É como quando, depois de girar muito para um lado, e já bêbados, precisamos agora girar para o outro para diminuir a tontura. Quanto menos tontura, melhor disposição interior e mais clara a visão. E quanto mais avançados nesse caminho, mais perceberemos detalhes e sutilezas. Desde já, porém, é preciso notar: não há caminho alternativo. Haveria somente se Deus coagisse a alma. E Ele de certo modo o faz quando nos dá sofrimentos. Os sofrimentos são como um empurrão por esse caminho em quem ia totalmente pelo outro lado. Mas, ainda assim, isso não é determinante, pois, em última instância, a decisão é sempre da pessoa.

Atos morais, que são totalmente bons, são os atos desinteressados e que se orientam em direção ao bem objetivo. É assim que Deus age, e é assim que o cristão deve viver: imitando-O.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Guénon sobre o Wu-wei


Se, de uma maneira geral, conveio-se reprovar à doutrina indiana menosprezar a ação, é sobretudo ao falar do taoísmo onde se sente a necessidade de falar mais expressamente ainda do "quietismo", e isso por causa do papel que joga ali o "não-atuar" (Wu-wei), cuja verdadeira significação os orientalistas não compreendem em modo algum, e que alguns dentre eles fazem sinônimo de "inatividade", de "passividade" e inclusive de "inércia". No entanto, há alguns que se deram conta de que há nisso um erro; mas, não compreendendo também no fundo do que se trata, e confundindo igualmente ação e atividade, negam-se então a traduzir wu-wei por "não-atuar", e substituem este termo por perífrases mais ou menos vadias e insignificantes, que diminuem o alcance da doutrina e não deixam perceber já nada de seu sentido profundo e especificamente inicial. Em realidade, a tradução por "não-atuar" é a única aceitável, mas, por causa da incompreensão ordinária, convém explicar como se deve entender: não só este "não-atuar" não é a inatividade, senão que, segundo o que indicamos precedentemente, é ao invés a suprema atividade, e isso porque está tão longe como é possível do domínio da ação exterior, e completamente liberado de todas as limitações que se lhe impõem a esta por sua própria natureza; se o "não-atuar" não estivesse, por definição mesma, além de todas as oposições, se poderia dizer pois que é em certo modo o extremo oposto da meta que o quietismo atribui ao desenvolvimento da espiritualidade.

Não há que dizer que o "não atuar", ou o que é seu equivalente na parte inicial das demais tradições, implica, para aquele que chegou a ele, um perfeito desapego a respeito da ação exterior, como pelo demais de todas as demais coisas contingentes, e isso porque um tal ser se situa no centro mesmo da "roda cósmica", enquanto essas coisas não pertencem mais do que a sua circunferência; se o quietismo professa por seu lado uma indiferença que parece recordar em alguns aspectos este desapego, é certamente por razões muito diferentes. Do mesmo modo que fenômenos similares podem dever-se a causas muito diversas, assim também maneiras de atuar (ou, em alguns casos, de abster-se de atuar) que são exteriormente as mesmas podem proceder das intenções mais diferentes; mas, naturalmente, para aqueles que ficam nas aparências, disso podem resultar muitas assimilações. Efetivamente, sob esta relação, há alguns fatos estranhos aos olhos dos profanos, que poderiam ser invocados por eles em apoio da aproximação errônea que querem estabelecer entre o quietismo e tradições de ordem inicial.

René Guénon, Contra o Quietismo.

Ao final do precedente capítulo, fazíamos alusão a algumas maneiras de atuar mais ou menos extraordinárias que podem proceder, segundo os casos, de algumas razões diferentes; é verdade que, de uma maneira geral, implicam sempre que a ação exterior se considera de maneira muito diferente a como o é pela maioria dos homens, e que, a essa ação, tomada em si mesma, não se lhe dá a importância que se lhe atribui comumente; mas a este respeito há que fazer muitas distinções. Devemos precisar primeiramente que o desapego da ação, de que falávamos a propósito do "não-atuar" é antes de mais nada uma perfeita indiferença no que diz respeito aos resultados que podem obter-se dela, já que esses resultados, quaisquer que sejam, não afetam já realmente ao ser que chegou ao centro da "roda cósmica". Ademais, é evidente que um tal ser jamais atuará por necessidade de atuar, e que, por outra parte, se deve atuar por um motivo qualquer, não sem plena consciência de que essa ação nada mais é do que uma simples aparência contingente, ilusória como tal para seu próprio ponto de vista (não dizemos, bem entendido, para o ponto e vista dos demais seres que são testemunhas dela), não a cumprirá forçadamente de uma maneira que difira exteriormente da dos demais homens, a menos que tenha para isso também motivos particulares em alguns casos determinados. Se compreenderá sem esforço que isso é algo totalmente diferente da atitude dos quietistas e de outros místicos mais ou menos "irregulares", que, pretendendo tratar a ação como algo desdenhável (enquanto, no entanto, estão muito longe de ter chegado no ponto desde onde a ação aparece como puramente ilusória), encontram nisso sobretudo um pretexto para fazer indistintamente não importa o que, seguindo os impulsos da parte instintiva ou "subconsciente" de seu ser, o que, evidentemente, corre o risco de ocasionar toda sorte de abusos, de bagunças ou de desvios, e o que, em todo caso, tem ao menos o grave perigo de deixar às possibilidades inferiores desenvolverem-se livremente e sem controle, em lugar de fazer para dominá-las um esforço que seria pelo demais incompatível com a extrema passividade que caracteriza os místicos deste gênero.

René Guénon, Loucura aparente e Sbedoria oculta

quinta-feira, 16 de junho de 2016

+1, -1 ... ∞


"Time waits for nobody", diz uma das músicas do Freddie Mercury de que eu gosto. A frase, dita assim, parece um lamento. E de fato o é. Grande parte da vida humana é ou desejar que o tempo passe, ou lamentar que ele tenha passado. Até os vinte anos, prevalece a primeira atitude. Depois, a gente vai olhando pra trás e vai querendo sabotar a engrenagem do tempo, para que corra mais devagar. Se isso fosse possível... Mesmo assim, às vezes eu observo alguns idosos e fico impressionado com a resignação que eles têm com isso. Já foram jovens. Já tiveram toda vitalidade. Mas parecem ver como natural o estado no qual se encontram. Aceitaram. Talvez seja a tal sabedoria dos anciãos. E isso me remonta ao Mickey, do filme Rocky, que dizia: "A natureza é sábia. O mundo vai nos tirando as coisas, nos deixando desapegados, até que num momento a gente percebe que não tem mais o que fazer aqui." O tempo, assim, aparece como uma espécie de desnudamento progressivo. E o que acontece quando ficarmos totalmente nus? Nascemos. "Aparecerei diante de Deus com as mãos vazias", dizia Sta Teresinha de Lisieux.

Isto por acaso significa que a vida deve tornar-se uma lamentação ou uma ânsia pela morte? Não. É verdade que esta vida só tem seu valor real - não um valor imaginado que, em última instância, não pode muito além de autoproduzir um prazer fugidio que aumenta ainda mais o blue da coisa - se posta em relação com a eternidade. Mas justamente este aspecto fá-la ser uma antecipação. Embora a espera se ordene à presença, ela tem a sua própria beleza. E o risco de não culminar com aquela visão, misturado com a esperança de tê-la, serve como que de tempero, dando variados sabores aos dias que correm, ou como um espectro de multicores que colore o ambiente com infindas combinações. "Em pensar naquele reencontro, meus olhos enchem de lágrimas", dizia o visceral Léon Bloy, cuja vida não lhe permitia muita coisa além de esperar.

Mas "o tempo é a imagem móvel da eternidade", dizia Platão. A eternidade é um instante fixo, "posse simultânea de todos os bens", escreveu Boécio. Nela não há passado ou futuro, pois estes, dirá Agostinho, são frutos de uma alma partida, efeito da Queda. De posse d'Aquele que nos completa, e possuídos por Ele, seremos inteiros. O presente é, portanto, o símbolo da vida total, e enquanto ele estiver a correr, saberemos que a vida total ainda não chegou. Nisto se dá um paradoxo: lamentamos que a nossa vida vai ficando para trás, e este lamento nos distrai do lugar onde estritamente ela acontece, ainda que premida num espaço estreitíssimo: o presente. Ser fiel ao Céu, destino eterno do homem - o que não o impede de frustrar este destino - é habituar-se, desde já, a viver no presente. "Para amar-Te, oh meu Deus, só tenho hoje." A beleza poética da espera só é possível hoje. A luz feliz e inquieta da esperança também só é possível hoje. A oscilação da Fé, igualmente. O agora tem a sua beleza por ser símbolo da eternidade. A espera é símbolo da presença. Não é bom, portanto, lamentar-se. Os que vão ficando velhos são os que vão terminando o tempo de gestação: voltarão a nascer, mas agora no eterno presente.

Esta vida inteira possui, então, duas faces: uma que se volta para o futuro, pelo que é espera; e uma que se volta para o agora, pelo que é fruição. Uma fruição que se apega é uma fruição na qual se imiscuiu a preocupação com o tempo, sobretudo com o passado. É o medo de perder que faz entrar no gozo do agora a sombra do ego. O agora é instante. Nele não há divisão. Vivê-lo é aproveitar a vida, com suas durezas e seus prazeres, recebendo-a de mãos abertas. É claro que isto não implica nenhum tipo de inconsciência ou irreflexão. Isto implica, ao invés, inteireza e não distração. É o que os budistas chamam de "mindfullness". Acima do fluxo desta vida, está a Rocha inconcussa que é Deus e sobre a qual tudo se fundamenta. Não nos distraiamos disso: Deus é futuro e presente. Aristóteles dizia que o mundo tira seu movimento do fato de ser atraído por Deus, beleza infinita, pois é próprio do belo atrair. O tempo é imagem móvel. Que o tempo da nossa vida seja puxado por aquela Beleza, "assim como a mariposa é atraída pela chama, e se queima", escreve São João da Cruz. Aquele fogo será a totalidade da nossa vida. Corramos para lá, mas já apreciando o calor que desde agora aquele Lume nos projeta. Brigado, Senhor, por mais um ano, e por menos um ano. Obrigado por esta alma imortal, cuja vida faz digno de nada o tempo.

A cena do Rocky que mencionei acima e de que gosto bastante.