Amor e Pobreza

"Despicere terrena, Caelestia desiderare"

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Jesus, Meu Tudo

O perigo das experiências espirituais imaginadas


O abuso perigoso das imagens e do símbolo pode ser constatado, por exemplo, no caso de alguém que tenta fazer surgir uma "chama viva" pelo exercício da vontade, da imaginação e do desejo e se persuade, então, a si próprio, de que teve a "experiência de Deus". Num tal caso, ter-se-ia de pagar muito caro essa evidente fabricação, pois existe uma diferença total entre os frutos de uma autêntica experiência religiosa, puro dom de Deus, e os resultados de nossa imaginação. Como declarou sem rodeios Jacob Boehme: "Onde encontramos nas Escrituras que uma prostituta pode tornar-se virgem por simples decreto?"

A experiência viva do amor divino e do Espírito Santo na "Viva Chama", a que se refere S. João da Cruz, é uma verdadeira consciência que se tem de haver morrido e ressuscitado em Cristo. É uma experiência de renovação mística, uma transformação interior ocasionada unicamente pelo poder do amor misericordioso de Deus, que implica a "morte" do ego autocêntrico e auto-suficiente e o surgir de um novo ser libertado, que vive e age "no Espírito". Mas, se o antigo eu, o ego autônomo e calculador, procura apenas imitar os efeitos de uma tal regeneração, para a satisfação e vantagem próprias, o efeito é exatamente o oposto: o ego procura afirmar-se em sua própria existência egoísta. O grão de trigo não penetrou na terra e não morreu. Permanece duro, isolado e seco; não há fruto nenhum, apenas um gabar-se mentiroso e blasfemo - um ridículo fingimento!

Se a mentira e a invenção, do ponto de vista psicológico, são perniciosas mesmo nas relações comuns com outras pessoas (uma álea onde uma certa medida de falsificação não é rara), toda falsidade é desastrosa em qualquer relação com a base de nosso próprio ser e com Deus que a nós se comunica através de nossa própria verdade interior. Falsificar nossa verdade interior, sob pretexto de nos unirmos a Deus, seria a mais trágica infidelidade, a nós mesmos em primeiro lugar, à vida, à própria realidade, é claro, a Deus

Thomas Merton, Poesia e Contemplação

A noite escura


Na "noite escura" dos sentimentos e dos sentidos, sente-se, por vezes frequentemente, angústia na oração. É necessário que assim seja, pois essa noite marca a transferência do pleno e livre controle de nossa vida interior para as mãos de um poder superior. E isso significa, também, que o tempo da obscuridade é, de fato, um tempo de riscos e difíceis opções. Começamos a sair de nós mesmos: isto é, somos arrastados para fora de nossas habituais e conscientes defesas. Essas defesas são também limitações que devemos abandonar se queremos crescer. Mas são elas, ao mesmo tempo, a seu modo, uma proteção contra as forças inconscientes demasiadamente grandes para enfrentarmos desnudados e sem proteção.

Se avançarmos nessa escuridão, teremos de encontrar-nos com essas inexoráveis forças. Teremos que enfrentar temores e dúvidas. Teremos de questionar toda a estrutura de nossa vida espiritual. Teremos que fazer uma nova apreciação daquilo que nos tem motivado a crer, a amar, a nos engajarmos em relação ao Deus invisível. E, nesse momento precisamente, toda luz espiritual é obscurecida, todos os valores perdem sua forma e se diluem, parecem não ter realidade e ficamos, por assim dizer, suspensos no vácuo.

O aspecto mais crucial dessa experiência é exatamente a tentação de duvidar do próprio Deus. Não devemos minimizar o fato de ser isso um verdadeiro risco. Pois, aqui, estamos nos adiantando e ultrapassando a fase em que Deus se tornou acessível à nossa mente por meio de simples e primitivas imagens. Estamos penetrando na noite em que Ele está presente sem qualquer imagem, invisível, imperscrutável e situado além de qualquer representação mental satisfatória.

Num momento desses, alguém que não esteja seriamente fundamentado numa autêntica fé teológica pode tudo perder do que tenha possuído. Pode sua oração tornar-se uma luta obscura e detestável para preservar as imagens e os enfeites que disfarçavam o vácuo interior. Deverá ele então enfrentar a verdade de seu vazio ou bater em retirada voltando ao domínio das imagens e analogias que não mais sirvam a uma vida espiritual madura. Poderá ele não ser capaz de enfrentar a tão terrível experiência de estar aparentemente sem fé, de maneira a nela realmente crescer. Pois é este o teste, este o fogo de purificação que queima até às cinzas os elementos humanos e acidentais da fé, de modo a libertar o profundo poder espiritual que existe no centro de nosso ser. 

Devastarei sua vinha e sua figueira, das quais dizia: eis a paga que me deram meus amantes. Farei delas um matagal, que os animais selvagens devorarão. Por isso a atrairei, conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração. Dar-lhe-ei as suas vinhas e o vale de Acor, como parte de esperança. Aí ela se tornará como no tempo de sua juventude, como nos dias em que subiu da terra do Egito. Não lhe deixarei mais na boca os nomes dos Baals e ninguém pronunciará tais nomes. Farei para eles, naquele dia, uma aliança com os animais selvagens, as aves do céu e os répteis da terra; farei desaparecer do país o arco, a espada, a guerra e os farei repousar com segurança." (Os 2, 14;16-17; 19-20).
 Thomas Merton, Poesia e Contemplação

O conhecimento místico de Deus


O conhecimento unitivo e místico de Deus é "uma escuridão inefável e, contudo, uma luz essencial. Chama-se um incompreensível e solitário deserto. E isto certamente o é. Ninguém pode encontrar seu caminho ao atravessá-lo, nem ver alguns marcos, pois não existem tais pontos de referência que, pelos homens, possam ser reconhecidos. Por "escuridão" deve-se aqui entender uma luz que jamais iluminará uma inteligência criada; uma luz que jamais poderá ser naturalmente compreendida. Chamam-na de desértica, pois não há qualquer estrada que a ela conduza. Para ali chegar tem a alma de ser levada a ultrapassar-se para além de todo o seu entendimento. Pode, então, beber das águas do riacho em sua própria fonte, daquelas águas verdadeiras e essenciais. Nessa fonte, a água é agradável, fresca e pura como todo riacho é agradável antes de haver perdido seu delicioso frescor e pureza."

Tauler, Conferências Espirituais

O mal e a tentação


"Nenhum homem sabe quão mau ele é, até que ele tenha tentado de toda maneira ser bom. Uma idéia tola, mas muito atual é que as pessoas boas não conhecem o significado ou não passam por tentações. Isto é uma mentira óbvia. Só aqueles que tentam resistir à tentação, sabem quão forte ela é. Afinal de contas, você descobre a força do exército inimigo lutando contra ele, não cedendo a ele. Você descobre a força de um vento, tentando caminhar contra ele, não se deitando ao chão. Um homem que cede ante a tentação depois de cinco minutos, simplesmente não sabe o que teria acontecido se tivesse esperado uma hora. Esta é a razão pela qual as pessoas ruins, de certa forma, sabem muito pouco sobre sua maldade. Elas viveram uma vida abrigada por estarem sempre cedendo. Nós nunca descobrimos a força do impulso mal dentro de nós, até que nós tentamos lutar contra ele: e Cristo, porque Ele foi o único homem que nunca se rendeu a tentação, também é o único homem que conhece completamente o que tentação significa–o único realista no total sentido da palavra".

C. S. Lewis

Viver eucaristicamente


Há um longo caminho entre a satisfação pessoal de ser um "bom católico", que "cumpre com seu dever", lê um "bom jornal", "faz boas escolhas", etc., mas no mais faz o que lhe agrada, até chegar a uma vida nas mãos de Deus e a partir das mãos dele, na simplicidade da criança e na humildade do cobrador de impostos. Todavia, quem uma vez já trilhou o caminho não o fará novamente. Assim, a filiação divina significa: tornar-se pequeno, mas ao mesmo tempo tornar-se grande. Viver eucaristicamente significa sair perfeitamente da estreiteza da própria vida e crescer para dentro da amplidão da vida de Cristo. Quem procurar o Senhor em sua morada não vai querer vê-lo ocupar-se apenas conosco e com os nossos assuntos pessoais. Irá começar a interessar-se pelos assuntos do Senhor.

Edith Stein, teu coração deseja mais

O amor aos outros


Se Deus está em nós e se Ele é o amor, não pode ser diferente, não podemos deixar de amar os irmãos. Por isso, nosso amor ao ser humano é nosso amor a Deus. Mas é um amor diferente do que o amor natural humano, que se aplica a esse e àquele, com os quais estamos ligados com laços de sangue, ou pelo parentesco do caráter, ou por interesses comuns. Os outros são "estranhos" que "nada nos dizem", alguns inclusive nos são ofensivos, de modo que gostaríamos de tê-los o mais distante possível.

Para o cristão não existem pessoas "estranhas". Aquele que tenho diante de mim e que mais necessita, este é cada vez o meu próximo; não importando se ele é parente ou não, se "gostamos" ou não, se ele "valoriza moralmente" a ajuda ou não.

O amor de Cristo não conhece limites e não acaba jamais, não pestaneja frente ao que é feio e sujo. Ele veio por causa dos pecadores e não por causa dos justos. E se o amor de Cristo vive em nós, então fazemos como Ele fez e vamos atrás da ovelha perdida. 

O amor natural busca ter para si as pessoas amadas, e na medida do possível possuí-las só para si. Cristo veio para reconquistar a humanidade perdida para o Pai; e quem ama com seu amor busca conquistar as pessoas para Deus e não para si. Isso é certamente, também, o caminho seguro para possuir essas pessoas eternamente; pois quando conquistamos uma pessoa em Deus, então somos na visão dele um com ela, enquanto que a busca de apoderar-se  nos leva muitas vezes - mais cedo ou mais tarde, sempre - à perda. Isso pode ser aplicado tanto para a alma do outro como para a própria, e também para os bens exteriores: quem está angustiado por ganhar e reter, este perde. Quem entrega tudo em Deus, este ganha.

Fiat voluntas tua! Seja feita a tua vontade!

Edith Stein, teu coração deseja mais
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