quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O ego cartesiano e a intuição metafísica do Ser


Em nossa avaliação da consciência moderna, temos de levar em conta a importância ainda imensa do cogito cartesiano. O homem moderno, na medida em que ainda é cartesiano (vai, é claro, muito além de Descartes em muitos aspectos), é um sujeito para quem a consciência do seu próprio eu, como um "eu" que pensa, observa, mede e calcula, é absolutamente primordial. É para ele a única indubitável "realidade" e todas as verdades têm aí início. Quanto mais for capaz de desenvolver sua consciência, como um sujeito acima e em confronto com objetos, tanto mais poderá entender as coisas e objetos em favor de seus próprios interesses. Mas, ao mesmo tempo, mais tende a isolar-se em sua prisão subjetiva, para tornar-se um observador solitário, separado de tudo mais, numa espécie de bolha de sabão transparente, alienada, que contém toda a realidade na forma de uma experiência puramente subjetiva. A consciência moderna, então, ou a conscientização, tende a criar essa bolha solipsística de "estar ciente" - um auto-ego encarcerado em sua própria consciência, isolado e sem contato com outros seres iguais a ele na medida em que são todos "coisas" em lugar de pessoas.

Foi essa espécie de conscientização, exacerbada ao extremo, que tornou inevitável a assim chamada "Morte de Deus". O pensamento cartesiano começou pela tentativa de alcançar Deus como objeto, partindo do eu pensante. Mas, quando Deus se torna objeto, mais cedo ou mais tarde "morre", pois Deus como objeto é, afinal, coisa impensável. Deus como objeto não é apenas mero conceito abstrato, mas conceito que contém tantas contradições internas que se torna "não negociável", exceto quando é transformado, enrijecido em um ídolo mantido na existência apenas por forte ato de vontade. Por muito tempo o homem continuou a ser capaz de exercer esse ato de vontade; agora, porém, o esforço tornou-se exaustivo e muitos cristãos compreendem a sua inutilidade. Relaxando o esforço, abriram mão do "Deus-objeto" que seus pais e avós esperavam ainda manejar para seus próprios fins. O cansaço desses cristãos explica o elemento de ressentimento que fez disso um "assassinato" consciente da divindade. Libertada da tensão de querer manter voluntariamente na existência o Deus-objeto, a consciência cartesiana permanece ainda assim aprisionada em si mesma. Daí a necessidade de sair de si para estar com "o outro" no "encontro", na "abertura", na "fraternidade", na "comunhão".

No entanto, o grande problema está no fato de que, para o cartesiano conscientizado, o "outro" é também um objeto. Não é preciso aqui nos alongarmos sobre o esforço moderno, de grande importância para restaurar no homem a consciência do "outro", irmão seu, dando-lhe o status de "eu-tu". Será possível uma autêntica relação "eu-tu", de fato, em se tratando de um sujeito puramente cartesiano?

Lembremo-nos, entretanto, de que outra conscientização metafísica ainda está ao alcance do homem moderno. Tem início não no sujeito pensante e autoconsciente mas no Ser visto como estando ontologicamente para além e antes da divisão sujeito-objeto. Subjacente à experiência do ser individual, há a experiência imediata do Ser. Isso é totalmente diverso da experiência autoconsciente. É completamente não objetiva. Nada tem da divisão e da alienação que ocorrem quando o sujeito se torna consciente de si como quase-objeto. A conscientização do Ser (seja que o consideremos positiva ou negativamente e apofaticamente, como no budismo é experiência imediata que vai além da tomada de consciência refletida) não é "consciência de" mas "pura conscientização" em que o sujeito como tal "desaparece".

Posteriormente a essa experiência imediata, de uma base que transcende a experiência, emerge o sujeito com sua autoconsciência. Porém, como as religiões orientais e o misticismo cristão o têm sublinhado, esse sujeito autoconsciente não é algo de finalizado ou absoluto; é uma autoconstrução provisória, que existe por motivos práticos, apenas numa esfera de relatividade. Sua existência tem sentido na medida em que não ocorre a fixação ou a centralização sobre si mesmo, como fim, e aprende a funcionar não como seu próprio centro mais como "de Deus" e "para os outros". O termo cristão "de Deus" implica aquilo que as filosofias religiosas não teístas concebem como um Único Centro hipotético de todos os seres. É o que T. S. Eliot denominava "o ponto imóvel do mundo que gira", mas  que o budismo, por exemplo, não vê como um "ponto", mas como um "vazio". (E, evidentemente, o vazio não é visto de modo algum).

Em resumo, essa forma de conscientização assume uma espécie de autopercepção totalmente diferente da do eu pensante cartesiano, que tem em si mesmo sua própria justificação. Aqui, o indivíduo tem consciência de si como um eu-a-ser-dissolvido no dar-se, no amor, na "entrega", no êxtase, em Deus - há muitas maneiras de expressá-lo.

O eu não é o seu próprio centro e não gravita em torno de si; está centrado em Deus, o único centro de todos, que está "em toda parte e em nenhum lugar", em quem todos se encontram, de quem todos procedem. Assim, logo de início essa consciência está disposta a encontrar "o outro" como quem já está unido, de qualquer forma, "em Deus".

A intuição metafísica do Ser é uma intuição sobre uma base de abertura, de fato, uma espécie de abertura ontológica e uma infinita generosidade que se comunica a tudo que existe. "O bem é difusivo de si próprio", ou "Deus é Amor". A abertura não é algo a ser adquirido. É, sim, do radical que foi perdido e tem de ser reencontrado (embora, em princípio, ainda esteja "ali", nas raízes de nosso ser criado). Essa linguagem é mais ou menos metafísica, mas há também um modo não-metafísico de declará-lo. Não considera Deus como Imanente ou como Transcendente e sim como graça e presença. Portanto, não como "Centro" imaginado em algum lugar "ali fora", nem, tampouco, "dentro de nós". Encontra-o, não como Ser, mas como Liberdade e Amor. Eu diria desde o início que o importante não consiste em opor este conceito gracioso e profético à ideia metafísica e mística de união com Deus, e sim em demonstrar onde as duas ideias procuram realmente expressar a mesma espécie de conscientização, ou, pelo menos, dela aproximar-se por maneiras variadas.

Thomas Merton, Zen e as aves rapina

sábado, 11 de maio de 2019

C.S. Lewis lê Chesterton pela primeira vez


"Foi aqui que li pela primeira vez um volume dos ensaios de Chesterton. Jamais ouvira falar dele e não tinha a menor ideia do que ele representava; tampouco posso explicar por que ele me conquistou tão prontamente. Talvez fosse de esperar que meu pessimismo, ateísmo e ódio do sentimentalismo fizessem dele para mim o menos atraente de todos os escritores. Parece até que a Providência, ou alguma 'causa segunda' de uma espécie bem obscura, supera nossas inclinações anteriores quando decide aproximar duas mentes.

Gostar de um autor pode ser tão involuntário e improvável como se apaixonar. Eu já era então um leitor suficientemente experiente para distinguir gosto de concordância. Não precisava aceitar o que Chesterton dizia para gostar do que ele escrevia. Seu humor é do tipo que mais me agrada - não 'piadas' incrustadas na página como passas num bolo, e menos ainda (o que nem consigo suportar) um tom genérico de irreverência e jocosidade; mas o humor que não é de modo algum separável do argumento, e sim (como diria Aristóteles) a 'florescência' na própria dialética. A espada brilha não porque o espadachim decide fazê-la brilhar, mas porque está lutando pela sua vida e, portanto, movimentando-a bem agilmente.

Pelos críticos que julgam Chesterton frívolo ou 'paradoxal', preciso muito me esforçar mesmo para sentir dó; a solidariedade está totalmente descartada. Além do mais, por estranho que pareça, gostei dele por sua virtude moral. Posso atribuir livremente esse gosto a mim mesmo (ainda naquela idade) porque era um gosto pela virtude moral que nada tinha a ver com qualquer tentativa de ser eu mesmo virtuoso. Jamais senti aversão pela virtude moral, que parece tão comum em homens melhores que eu. 'Complacente' e 'complacência' eram termos de desaprovação que jamais haviam tido espaço no meu vocabulário crítico. Faltava-me o faro cínico, a odora canum vis ou a sensibilidade do sabujo pela hipocrisia ou pelo farisaísmo. Era uma questão de gosto: sentia o 'charme' da virtude moral  como um homem sente o charme de uma mulher que não pretende esposar. É, na verdade, a tal distância que seu 'charme' é mais visível.

Na leitura de Chesterton, como na de MacDonald, eu não sabia aquilo em que me estava enredando. O jovem que deseja se conservar ateu ortodoxo não pode ser suficientemente seletivo nas leituras. As ciladas estão em toda parte - 'Bíblias abertas, milhões de surpresas', como diz Herbert, 'finas malhas e armadilhas'. Deus é, se é que posso dizê-lo, muito inescrupuloso."

C.S. Lewis, Surpreendido pela alegria. Viçosa: Ultimato, 2015. p.170-171.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

C.S. Lewis conta como "apreciava" as festas para as quais era convidado quando criança


"Para mim, esses bailes eram um tormento - no qual a simples timidez tinha um papel discreto. Era a falsa pose (que eu já tinha capacidade de perceber) que me atormentava; saber que consideravam você uma mera criança, e mesmo assim ser forçado a participar de uma atividade essencialmente adulta, sentindo que todos os adultos presentes eram meio amáveis, meio debochados, e fingiam tratá-lo como alguém que você não era. Acrescente-se a isso o desconforto do terno justo e da camisa sufocante, as dores nos pés, a testa em chamas e o simples cansaço de ser forçado a ficar acordado muitas horas depoi da hora habitual de dormir.

Mesmo os adultos, chego a pensar, não achariam as festas noturnas lá muito toleráveis sem a atração do sexo oposto e a do álcool. Mas então como é que um menino pequeno, que não pode nem paquerar nem beber, poderia gostar de saracotear num piso polido até de madrugada? Logicamente, eu não tinha a menor noção dos vínculos sociais. Nunca me dei conta de que determinadas pessoas se viam obrigadas, pelas regras da educação, a me convidar porque conheciam meu pai ou tinham conhecido minha mãe.

Para mim tudo era uma perseguição inexplicável e gratuita. E quando, como frequentemente acontecia, tais compromissos caíam na última semana das férias e nos roubavam uma enorme quantidade de horas, das quais cada minuto valia ouro, eu sentia verdadeiramente que poderia esquartejar minha anfitriã membro a membro. Por que ela insistia em me infernizar? Eu nunca haia feito nada de mau contra ela, nem jamais a convidara para uma festa.

Meus incômodos foram agravados pelo comportamento totalmente antinatural que, segundo eu pensava, era obrigado a adotar num baile; isso veio à tona de uma forma bem engraçada. Lendo muito e me misturando pouco com as crianças de minha idade, eu já tinha, antes de ir à escola, desenvolvido um vocabulário que certamente (hoje vejo) soava bastante engraçado vindo dos lábios de um molequinho rechonchudo de paletó escolar. Quando eu sacava minhas 'palavras compridas', os adultos pensavam, e não sem razão, que eu estava me exibindo. Nisso eles estavam bem equivocados. Eu usava as únicas palavras que conhecia.

O correto era na verdade bem o contrário daquilo que eles supunham; eu me orgulharia de usar a gíria escolar, se a soubesse, em vez da linguagem livresca que (inevitavelmente, pelas circunstâncias) vinha naturalmente à minha boca. E não faltavam adultos que me incentivavam com fingido interesse e fingida seriedade - até o momento em que eu percebia, de repente, que estava sendo ridicularizado. Então, claro, meu sofrimento era intenso. Depois de uma ou duas dessas experiências, baixei a severa regra de que em 'ocasiões sociais' (como secretamente eu as chamava) eu jamais deveria, sob nenhum pretexto, falar de qualquer assunto pelo qual eu sentisse o mínimo interesse, nem em palavras que naturalmente me ocorressem.

E observei essa regra com extrema meticulosidade; desde então, assumi, conscientemente como um ator assume seu papel, um comportamento social que envolvia a imitação tola e balbuciante da fala mais rasa de um adulto e a ocultação deliberada de tudo o que eu realmente pensava e sentia sob uma espécie de débil jocosidade e entusiasmo. O 'papel' era sustentado com tédio indizível e abandonado com um gemido de alívio assim que meu irmão e eu afinal saltávamos no cabriolé para voltar para casa (este, sim, o único prazer da noite)."

C.S. Lewis, Surpreendido pela alegria. Viçosa: Ultimato, 2015. p.49-50.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Quando o amor o chamar...


"Quando o amor o chamar, 
se guie,
embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados.

E quando ele vos envolver com suas asas,
cedei-lhe,
embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos.

E quando ele vos falar,
acreditai nele,
embora a sua voz possa despedaçar vossos sonhos 
como o vento devasta o jardim.

Pois da mesma forma que o amor vos coroa, 
assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para o vosso crescimento,
trabalha para vossa poda.

E da mesma forma que alcança vossa altura 
e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
assim também desce até vossas raízes e a sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração,
ele vos debulha para expor a vossa nudez;
ele vos peneira para libertar-vos das palhas;
ele vos mói até extrema brancura;
ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.

Então ele vos leva ao fogo sagrado 
e vos transforma no pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas o amor operará em vós
para que conheçais os segredos de vossos corações.
E com esse conhecimento,
vos convertais no pão místico do banquete divino.

Todavia, se no vosso temor 
procurardes somente a paz do amor, o gozo do amor,
então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez, 
abandonásseis a ira do amor 
para entrar num mundo sem estações onde rireis, 
mas não todos os vossos risos;
e chorareis, 
mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá, se não de si próprio,
E nada recebe, se não de si próprio.
O amor não possui nem se deixa possuir,
pois o amor basta-se a si mesmo.

Quando um de vós ama, 
que não diga 'Deus está no meu coração',
mas que diga antes: 'Eu estou no coração de Deus'.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
pois o amor, se vos achar dignos, 
determinará ele próprio vosso curso.

O amor não tem outro desejo se não o de atingir a sua plenitude
Se contudo amardes e precisardes ter desejos, 
sejam estes os vossos desejos:
de vos diluírdes no amor 
e serdes como um riacho que canta sua melodia para a noite;
de conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
de ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor;
e de sangrardes de boa vontade e com alegria;

de acordardes na aurora com o coração alado
e agradecerdes por um novo dia de amor;
de descansardes ao meio-dia 
e meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes pra casa à noite com gratidão,
e de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado, 
e, nos lábios, uma canção de bem-aventurança".

sábado, 16 de junho de 2018

Mais uma primavera...

Estou aqui no começo do meu dia pensando em como manter a tradição de escrever, como geralmente faço nessas ocasiões. Estes textos exprimem as evoluções ou involuções do meu espírito. O que eu posso dizer é que hoje em dia a minha vida é muito singular, no sentido de que o que ela é agora, em certo sentido parece não poder ser reduzido a uma mera e óbvia culminância do que já era. Pelo menos, parece. A vida humana é sempre misteriosa e nela coabitam, ao lado daquilo que percebemos, coisas subliminares, escondidas, discretas, mas reais. Há um estranho preconceito de que o que está submerso, subjacente, é mais real do que aquilo que aparece. E há um preconceito em tomar o termo "preconceito" por algo necessariamente ruim e falso. A vida parece ser um processo de desenrolar de uma espécie de essência que vai, aos poucos, tomando forma, realizando-se, tornando-se ato e fazendo com que o eu seja isso mesmo: atual. O ideal vai tomando corpo e vamos aparecendo, adensando ontologicamente, o nosso futuro não sendo somente o desabrochar do que já tínhamos existencialmente em estado de latência, mas a criação real de um quê - que procede do ideal - que é irredutível ao que já havia e que vem somar-se isso. De algum modo, somos mais o que já somos na medida em que já não somos o que fomos.

Este é um dia feliz. Pelo menos é o modo que eu tendo a considerar os aniversários, muito embora a essa altura do campeonato a gente já comece a lamentar mais um ano que se passou. Mas cá estamos, depois de mais 4 estações, e de tantas coisas vividas, e sofridas, e ridas. Tudo vai tomando lugar, se encaixando, formando esse mosaico que dá uma unidade gradativamente mais perfeita e significativa a todo o conjunto. Neste processo, mesmo o que não foi tão bom tem o seu lugar e dá o seu tom à personalidade e ao vibrar do ser. Somos vozes divinas que se sucedem durante um tempo. Dir-se-ia que daqui a alguns anos eu alcanço a linha de transição e passo ao início do fade-out. Mas como a voz é divina, embora a sua manifestação seja sucessiva, a sua natureza é imortal. A voz é um veículo de efetivação de uma ideia que é imediata e eterna. Sou eterno por participação.

É um dia privilegiado, porque por toda a parte vemos manifestações de carinho, e fica evidente se algum bem nós fizemos a alguém. Claro que estas coisas são enfatizadas e vistas às vezes com lentes de aumento. Mas como somos entes carentes, é importante que uma vez ao ano, pelo menos, alguém nos recorde da nossa importância e valor e do bem que, propositalmente ou não, conseguimos fazer. O aniversário é um símbolo do Céu, que invade a nossa vida de exílio e nos toca. É uma liturgia solene em que Deus dá uma espécie de direito particular ao agraciado. É um dia que lhe é separado, e, não houvesse gente sofrendo muito e até morrendo nessas ocasiões, dir-se-ia que tudo nos parece favorável. Nem sempre será assim, no entanto. E nem sempre o foi, pra falar a verdade. E nem é. O ponto é que a nossa alegria transfigura a vida, o mundo, e tudo reflete o que nos vai na alma.

Neste meu dia, sou grato a Deus pelo dom da existência, da vida, da família e dos amigos que eu tenho, e de tantas outras coisas com as quais Ele me presenteou e me presenteia. Minhas rebeldias excessivas recordam-me do Seu amor sobreexcessivo, e as minhas iniquidades me fazem contemplar, com mais relevo, a superabundância da Sua graça. E é por ser de graça que é amor. É como os raios do sol que vêm bater contra a superfície de uma porta. Nada é preciso fazer além de abri-la, para que aquela luz ilumine o interior. E então a casa será luz por participação. O material da alma humana, recorda-nos Sta Teresa, é de tal modo brilhante que recepciona perfeitamente aqueles dardos do sol divino e resplandece. Queria sempre resplandecer, mas as misérias que me habitam, os demônios que falta exorcizar, limitam muito a operação normal desse pobre grão de areia. Mas Deus o ama e, por isso, ele resiste. Deus é bom, e essa é uma verdade inconcussa que se obstina a manter-se, sem nenhum mínimo abalo, diante dos caprichos infantis dessa existência. Os braços amorosos de um pai são fortes o bastante para conterem o esperneio do filho. Na mente da criança, tudo é caos, mas só o pai é realista.

Quero passar os meus dias crendo no realismo do meu Pai, e não nas minhas perspectivas sempre tão limitadas. Espero também crescer sempre um pouco mais a fim de que o meu olhar seja sempre mais reto, mais verdadeiro, mais profundo. Mas o que importa, nisso tudo, é que Deus é invencível e sitia, diz o visceral Léon Bloy, certas almas com todo o Seu poder. Que belo presente seria se Ele me elegesse para isso. "Que terrível é cair nas mãos de Deus", escreveu São Paulo. E que terrivelmente belo e saboroso isso deve ser... Que eu jamais me aparte daí. "Ó meu astro amado, fascinai-me, a fim de que não me seja possível mais sair de vossa irradiação", escreveu Sta Teresa Elisabete da Trindade. E eu, que da santidade não tenho nem a poeira, ouso pedir o mesmo, e sou feliz desde já porque Ele me concedeu o dom da existência. Desde então, perceba eu ou não, Ele é mais íntimo de mim do que eu mesmo. Jamais estarei só. Mais um ano é menos um ano. E então tudo se descortinará, e o sorriso será pra sempre. Assim espero. Assim o creio.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

"É mais urgente pensar no que se deve ser do que no que se deve fazer" Mestre Eckhart

Imagem relacionada



Deves saber que jamais alguém renunciou tanto nesta vida que não encontre a que ainda não devesse renunciar. São poucos os que têm plena consciência disto e se mantêm firmes. No fundo, trata-se de uma troca proporcional e de um negócio justo: na medida em que sais de todas as coisas, nesta mesma medida - nem mais nem menos - Deus entra em ti com tudo o que Ele tem. Mas somente com a condição de que tu em todas as coisas te despojes completamente de ti mesmo. Começa com isso e paga para isto o quanto puderes.

É mais urgente pensar no que se deve ser do que pensar no que se deve fazer. Se as pessoas e suas atitudes forem boas, suas obras brilham com toda claridade. És justo, então tuas obras serão justas. Não se pense em fundamentar a santidade num fazer; antes deve-se fundamentar a santidade num ser, pois as obras não nos santificam; nós é que santificamos as obras. Por mais santas que forem as obras, elas, enquanto obras, jamais chegam a nos santificar. Mas na medida em que nosso ser e nossa natureza forem santos, nesta mesma medida santificamos todas as nossas obras como o comer, o dormir, o acordar, ou outra coisa qualquer. De nada valem as obras, pouco importa quais, daqueles que não são portadores de uma natureza elevada. Tira disto a seguinte lição: coloca todo o teu empenho em ser bom; não te preocupes com o que fazes ou com o tipo de obras que fazes, mas com o fundamento e o motivo das obras.

Mestre Eckhart, Conselhos espirituais

domingo, 7 de janeiro de 2018

O despertar de Satyakam

Resultado de imagem para satyakama jabala

Satyakam era uma criança muito questionadora. Não acreditava em nada a menos que ele mesmo o houvesse experienciado. Quando ficou mais velho - ele devia ter cerca de 12 anos -, disse à mãe: "Chegou a hora. O príncipe do reino foi para a floresta para se juntar à família de um mestre. Ele tem a minha idade. Eu também quero ir, também quero aprender qual o significado desta vida."

A mãe disse: "Vai ser muito difícil, Satyakam, mas sei que você já nasceu um buscador. Eu temia que um dia você me pedisse para enviá-lo a um mestre. Sou uma mulher pobre, mas esse não é um grande empecilho. A dificuldade é que quando eu era jovem trabalhei em muitas casas - eu era pobre, mas era bonita. Não sei quem é seu pai. E, se enviá-lo a um mestre, vão lhe perguntar qual é o nome do seu pai e temo que ele possa rejeitá-lo. Mas não custa fazer um esforço. Vá e diga a verdade, da mesma maneira que eu lhe contei a verdade. Muitos homens usaram meu corpo porque eu era pobre. Diga simplesmente que você não sabe quem é seu pai. Diga ao mestre que seu nome é Satyakam, que o nome de sua mãe é Jabala e que por isso o chamam de Satyakam Jabal. E, no que diz respeito à busca da verdade, não importa quem é seu pai".

Satyakam foi até um antigo mestre na floresta e, certamente, a primeira pergunta foi: "Qual é seu nome? Quem é seu pai?"

E ele repetiu exatamente o que sua mãe havia dito.

Havia muitos discípulos - príncipes, filhos de pessoas ricas. Todos começaram a rir. Mas o velho mestre disse: "Você está aceito. Não importa quem é seu pai. O que importa é que você é autêntico, sincero, corajoso - capaz de dizer a verdade sem se sentir constrangido. Sua mãe lhe deu o nome certo, Satyakam. Satyakam significa aquele cujo único desejo é a verdade. Você tem uma bela mãe, e será conhecido como Satyakam Jabal. E como segundo a tradição só os brâmanes podem ser aceitos como discípulos, eu o declaro um brâmane, porque só um brâmane pode ter a coragem de tal verdade."

Belos dias foram aqueles. O velho profeta se chamava Uddalak. Satyakam tornou-se seu mais amado discípulo. Ele o merecia: era tão puro e tão inocente.

Mas Uddalak tinha suas próprias limitações. Embora ele fosse um homem de grande sabedoria, não era um mestre iluminado. Então, ensinou a Satyakam todas as escrituras, ensinou-lhe tudo o que foi capaz de ensinar, mas não conseguiu enganar Satyakam como havia enganado todos os demais. Não que Satyakam estivesse levantando quaisquer dúvidas; mas sua inocência tinha tal poder que o velho homem teve de confessar: "Tudo o que eu tenho lhe dito é conhecimento extraído das escrituras; não é meu próprio conhecimento. Eu não experienciei isso, não vivi isso. Sugiro que você penetre mais fundo na floresta. Conheço um homem que alcançou a realização, que se tornou uma corporificação da verdade, do amor, da compaixão. Vá até ele."

Uddalak havia ouvido falar daquele homem, mas não o conhecia pessoalmente. Uddalak era bem mais famoso, era um grande erudito. Satyakam foi procurar o outro homem. Esse homem que ensinou muitas novas escrituras, todos os Vedas, as mais antigas escrituras do mundo. E após anos disse-lhe: "Agora você já sabe tudo; não há mais nada a saber. Você pode voltar para casa."

Na sua volta para casa, primeiro ele foi ver Uddalak. Da sua janela, Uddalak viu Satyakam chegando pela trilha que vinha da floreta. Ficou chocado. Satyakam havia perdido sua inocência; no lugar da inocência havia orgulho - naturalmente, porque agora ele achava que sabia tudo o que valia a pena saber no mundo. A simples ideia disso enchia seu ego. Ele entrou, e, quando começou a tocar os pés de Uddalak, este lhe disse: "Não toque os meus pés! Primeiro eu quero saber onde você perdeu sua inocência. Parece que o enviei ao homem errado."

Satyakam disse: "Ao homem errado? Ele me ensinou tudo o que vale a pena saber."

Uddalak disse: "Antes que você toque os meus pés, eu gostaria de lhe perguntar se você experienciou alguma coisa ou se isso é apenas informação. Aconteceu alguma transformação? Você pode dizer que qualquer coisa que saiba é um conhecimento seu?"

Satyakam disse: "Não posso dizer isso. O que eu seu está escrito nas escrituras; não tive a experiência de nada."

Uddalak disse: "Então volte, mas agora vá procurar outra pessoa da qual ouvi falar enquanto você estava fora. E, a menos que tenha experienciado, não volte. Você voltou para cá não com mais do que quando eu o enviei, mas com menos! Você perdeu algo de imenso valor. E o que você chama de conhecimento - se este é emprestado, ele só encobre sua ignorância; não faz de você um conhecedor. Vá até este homem e lhe diga que você não foi até lá em busca de mais informações sobre a verdade, sobre Deus, sobre o amor. Diga-lhe que você foi para conhecer a verdade, para conhecer o amor, para conhecer Deus. Diga-lhe: 'Se você puder cumprir a promessa, fico com você; do contrário, vou procurar outro mestre'".

Satyakam foi até o homem e lhe disse exatamente isso. O mestre estava sentado debaixo de uma árvore com alguns de seus discípulos. Depois de ouvir a solicitação, ele disse: "Isso é possível, mas você está me pedindo algo muito difícil. Há tantos discípulos aqui  e todos querem mais conhecimento. Eles querem saber sobre tudo. Mas se você insiste que não está interessado em informações, que está pronto para fazer qualquer coisa, que sua devoção à verdade é total, então encontrarei um caminho para você."

Satyakam disse: "Estou pronto para sacrificar minha vida, mas não posso voltar sem conhecer a verdade. Não posso voltar para meu professor nem posso voltar para minha mãe, que me deu o nome de Satyakam. E meu velho professor me aceitou sem se importar se eu era ou não um brâmane, simplesmente baseado no simples fato de que eu era uma pessoa honesta. Então, diga-me o que tem de ser feito."

O mestre disse: "Pegue todas as vacas que vir aqui e penetre bem fundo na floresta. Vá o mais longe possível, , para que não possa entrar em contato com nenhum ser humano. O propósito disso é que você esqueça a linguagem as palavras. Viva com as vacas, cuide das vacas, toque sua flauta, dance - mas esqueça as palavras. E, quando tiver mil vacas, volte aqui."

Os outros discípulos não conseguiam acreditar no que estava acontecendo - porque ali havia apenas uma ou duas dúzias de vacas. Quanto tempo demoraria para elas se tornarem mil?

Mas Satyakam pegou as vacas, entrou o mais fundo possível na floresta, além de qualquer contato humano, de qualquer contexto humano. Durante alguns dias foi difícil, mas pouco a pouco, lentamente... as vacas eram suas únicas companhias, e elas eram criaturas muito silenciosas. Ele tocava flauta, dançava sozinho na floresta, descansava sob as árvores.

Durante alguns anos ele continuou contando as vacas. Então pouco a pouco desistiu de fazê-lo, pois lhe parecia impossível que elas se tornassem mil. Além disso, ele havia esquecido como contar; a linguagem estava desaparecendo. As palavras desapareceram; a contagem não podia ser feita.

E a história é tão imensamente bela...

As vacas ficaram preocupadas quando se tornaram mil - porque elas queriam voltar para casa e este homem havia esquecido como contar! Finalmente, elas decidiram: "Nós temos de falar; do contrário esta floresta solitária vai se tornar nosso túmulo". Então, um dia, as vacas se aproximaram dele e lhe disseram: "Escute, Satyakam, agora já somos mil e está na hora de voltarmos para casa".

E ele lhes disse: "Sou muito grato a vocês. Se não tivessem me contado... Eu havia até me esquecido de casa ou de voltar para casa. Cada momento foi tão incrivelmente belo, com tantas bênçãos. No silêncio, as flores não paravam de florescer. Eu me esqueci de tudo. Não tinha ideia de por que vim para cá, de quem eu sou. Tudo se tornou um fim em si - tocar a flauta era o bastante, descansar sob as árvores era o suficiente, ver as belas vacas sentadas em silêncio à minha volta era tão belo. Mas, se vocês insistem, vamos voltar."

Os discípulos do grande mestre viram Satyakam chegando com mil vacas. Eles relataram ao mestre: "Nunca acreditamos que ele voltaria. Ele está chegando, e nós contamos exatamente mil vacas!"

E quando ele chegou ficou ali de pé... bem no meio da multidão de vacas.

O mestre disse aos outros discípulos: "Vocês contaram errado. Há mil e uma vacas; vocês se esqueceram de contar Satyakam! Ele se moveu para além do seu mundo; penetrou no inocente, no silente, no misterioso. Não está dizendo nada, está apenas ali junto com as vacas".

O mestre dissse: "Satyakam, agora saia do grupo das vacas. Agora você tem de ir para seu outro mestre que o mandou aqui. Ele é um homem velho e deve estar esperando. Sua mãe deve estar esperando".

E quando Satyakam foi até Uddalak, seu primeiro professor... Na última vez que o havia visto, ele não lhe havia permitido tocar seus pés, pois havia perdido sua inocência; não era mais um brâmane, havia caído, havia se tornado apenas um papagaio ilustrado. Quando Uddalak o viu chegando novamente, saiu correndo pela porta dos fundos - porque agora que Satyakam poderia ter permissão de tocar seus pés, era Uddalak quem teria de tocar os pés de Satyakam! Isso porque Uddalak continuava sendo um erudito, e Satyakam não estava vindo como um erudito, mas como alguém que havia despertado.

Uddalak fugiu da casa: "Não posso encará-lo. Estou envergonhado de mim mesmo". Mas antes pediu à sua esposa: "Diga-lhe que Uddalak está morto e que agora ele pode ir até sua mãe. Diga-lhe que eu morri me lembrando dele".

Estas eram pessoas feitas de uma determinação diferente. 

Satyakam voltou para casa. Sua mãe estava muito velha, mas continuava esperando por ele. E disse: "Satyakam, você provou que a verdade sai sempre vitoriosa. E provou que ninguém nasce brâmane: um brâmane é uma qualidade a ser adquirida. Todos nascem iguais. A pessoa tem de se provar, purificando-se, cristalizando-se, tornando-se centrado e iluminado - então ela se torna um brâmane. O simples fato de nascer em uma família brâmane não faz de ninguém um brâmane".

Se você meditar sobre a história, verá que a verdadeira essência da meditação é ficar em tal silêncio que não haja, em você, movimento dos pensamentos - as palavras não chegam entre você e a realidade, toda a rede de palavras desaparece e você é deixado só.

Essa solitude, essa pureza, esse céu do seu ser, sem nuvens, é a meditação. E a meditação é a chave de ouro para todos os mistérios da vida.

Osho. Inocência, conhecimento e encantamento.