Mostrando postagens com marcador Mística de Trevas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mística de Trevas. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de maio de 2013

O perigo das experiências espirituais imaginadas


O abuso perigoso das imagens e do símbolo pode ser constatado, por exemplo, no caso de alguém que tenta fazer surgir uma "chama viva" pelo exercício da vontade, da imaginação e do desejo e se persuade, então, a si próprio, de que teve a "experiência de Deus". Num tal caso, ter-se-ia de pagar muito caro essa evidente fabricação, pois existe uma diferença total entre os frutos de uma autêntica experiência religiosa, puro dom de Deus, e os resultados de nossa imaginação. Como declarou sem rodeios Jacob Boehme: "Onde encontramos nas Escrituras que uma prostituta pode tornar-se virgem por simples decreto?"

A experiência viva do amor divino e do Espírito Santo na "Viva Chama", a que se refere S. João da Cruz, é uma verdadeira consciência que se tem de haver morrido e ressuscitado em Cristo. É uma experiência de renovação mística, uma transformação interior ocasionada unicamente pelo poder do amor misericordioso de Deus, que implica a "morte" do ego autocêntrico e auto-suficiente e o surgir de um novo ser libertado, que vive e age "no Espírito". Mas, se o antigo eu, o ego autônomo e calculador, procura apenas imitar os efeitos de uma tal regeneração, para a satisfação e vantagem próprias, o efeito é exatamente o oposto: o ego procura afirmar-se em sua própria existência egoísta. O grão de trigo não penetrou na terra e não morreu. Permanece duro, isolado e seco; não há fruto nenhum, apenas um gabar-se mentiroso e blasfemo - um ridículo fingimento!

Se a mentira e a invenção, do ponto de vista psicológico, são perniciosas mesmo nas relações comuns com outras pessoas (uma álea onde uma certa medida de falsificação não é rara), toda falsidade é desastrosa em qualquer relação com a base de nosso próprio ser e com Deus que a nós se comunica através de nossa própria verdade interior. Falsificar nossa verdade interior, sob pretexto de nos unirmos a Deus, seria a mais trágica infidelidade, a nós mesmos em primeiro lugar, à vida, à própria realidade, é claro, a Deus. 

Thomas Merton, Poesia e Contemplação

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A noite escura


Na "noite escura" dos sentimentos e dos sentidos, sente-se, por vezes frequentemente, angústia na oração. É necessário que assim seja, pois essa noite marca a transferência do pleno e livre controle de nossa vida interior para as mãos de um poder superior. E isso significa, também, que o tempo da obscuridade é, de fato, um tempo de riscos e difíceis opções. Começamos a sair de nós mesmos: isto é, somos arrastados para fora de nossas habituais e conscientes defesas. Essas defesas são também limitações que devemos abandonar se queremos crescer. Mas são elas, ao mesmo tempo, a seu modo, uma proteção contra as forças inconscientes demasiadamente grandes para enfrentarmos desnudados e sem proteção.

Se avançarmos nessa escuridão, teremos de encontrar-nos com essas inexoráveis forças. Teremos que enfrentar temores e dúvidas. Teremos de questionar toda a estrutura de nossa vida espiritual. Teremos que fazer uma nova apreciação daquilo que nos tem motivado a crer, a amar, a nos engajarmos em relação ao Deus invisível. E, nesse momento precisamente, toda luz espiritual é obscurecida, todos os valores perdem sua forma e se diluem, parecem não ter realidade e ficamos, por assim dizer, suspensos no vácuo.

O aspecto mais crucial dessa experiência é exatamente a tentação de duvidar do próprio Deus. Não devemos minimizar o fato de ser isso um verdadeiro risco. Pois, aqui, estamos nos adiantando e ultrapassando a fase em que Deus se tornou acessível à nossa mente por meio de simples e primitivas imagens. Estamos penetrando na noite em que Ele está presente sem qualquer imagem, invisível, imperscrutável e situado além de qualquer representação mental satisfatória.

Num momento desses, alguém que não esteja seriamente fundamentado numa autêntica fé teológica pode tudo perder do que tenha possuído. Pode sua oração tornar-se uma luta obscura e detestável para preservar as imagens e os enfeites que disfarçavam o vácuo interior. Deverá ele então enfrentar a verdade de seu vazio ou bater em retirada voltando ao domínio das imagens e analogias que não mais sirvam a uma vida espiritual madura. Poderá ele não ser capaz de enfrentar a tão terrível experiência de estar aparentemente sem fé, de maneira a nela realmente crescer. Pois é este o teste, este o fogo de purificação que queima até às cinzas os elementos humanos e acidentais da fé, de modo a libertar o profundo poder espiritual que existe no centro de nosso ser. 

Devastarei sua vinha e sua figueira, das quais dizia: eis a paga que me deram meus amantes. Farei delas um matagal, que os animais selvagens devorarão. Por isso a atrairei, conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração. Dar-lhe-ei as suas vinhas e o vale de Acor, como parte de esperança. Aí ela se tornará como no tempo de sua juventude, como nos dias em que subiu da terra do Egito. Não lhe deixarei mais na boca os nomes dos Baals e ninguém pronunciará tais nomes. Farei para eles, naquele dia, uma aliança com os animais selvagens, as aves do céu e os répteis da terra; farei desaparecer do país o arco, a espada, a guerra e os farei repousar com segurança." (Os 2, 14;16-17; 19-20).
 Thomas Merton, Poesia e Contemplação

O conhecimento místico de Deus


O conhecimento unitivo e místico de Deus é "uma escuridão inefável e, contudo, uma luz essencial. Chama-se um incompreensível e solitário deserto. E isto certamente o é. Ninguém pode encontrar seu caminho ao atravessá-lo, nem ver alguns marcos, pois não existem tais pontos de referência que, pelos homens, possam ser reconhecidos. Por "escuridão" deve-se aqui entender uma luz que jamais iluminará uma inteligência criada; uma luz que jamais poderá ser naturalmente compreendida. Chamam-na de desértica, pois não há qualquer estrada que a ela conduza. Para ali chegar tem a alma de ser levada a ultrapassar-se para além de todo o seu entendimento. Pode, então, beber das águas do riacho em sua própria fonte, daquelas águas verdadeiras e essenciais. Nessa fonte, a água é agradável, fresca e pura como todo riacho é agradável antes de haver perdido seu delicioso frescor e pureza."

Tauler, Conferências Espirituais

domingo, 27 de maio de 2012

Que significa conhecer-vos, ó meu Deus?


Que significa conhecer-vos, ó meu Deus?

Há almas que tremem e desfalecem ao pensamento de dar-vos um nome insuficiente!

Eu acordo de noite, coberto de um suor de medo, porque ousei chamar-Vos "Ato Puro".

Quando Moisés viu o espinheiro em chamas, a arder no deserto sem se consumir, não respondestes à sua pergunta com uma definição. Dissestes: "Eu sou". Qual foi o efeito dessa resposta? Fez instantaneamente santo o pó da terra, de modo que Moisés tirou as sandálias (símbolos dos seus sentidos e do seu corpo), para que não restasse nada entre a vossa santidade e a sua adoração.

(...)

"Ser" e "ser bom", eis conceitos que nos são familiares. Pois fomos feitos à vossa imagem, dotados de um ser que é bom porque é vossa dádiva. Mas o ser e a bondade que conhecemos encontram-se tão longe de Vós que nos decepcionam quando Vo-los aplicamos tais como os conhecemos em nós.

Por isto não nos dizem eles, como deviam, que sois santo.

Thomas Merton, Homem Algum é Uma Ilha.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Presença, Ausência e Liberdade de Deus


Deus está em toda a parte e nunca nos deixa. No entanto, Ele parece, umas vezes, presente; outras, ausente. Se não O conhecemos bem, não percebemos que Ele nos pode ser mais presente, em sua ausência, do que em sua presença.

Deus tem duas espécies de ausência. Uma é a que nos condena; a outra a que nos santifica.

Na ausência que condena, Deus "não nos conhece", visto que pusemos um outro deus em seu lugar e recusamos ser conhecidos por Ele. Na ausência que santifica, Deus esvazia a alma de toda a imagem capaz de converter-se em ídolo, e de cada interesse que poderia ser obstáculo entre a nossa face e a sua.

Na primeira espécie de ausência, Deus é presente, mas essa presença é negada pela de um ídolo. Deus está em frente do inimigo que, pelo pecado mortal, colocamos entre Ele e nós.

Na segunda espécie, Ele está presente, e essa essência é afirmada e adorada pela ausência do resto. Ele está mais perto de nós do que nós mesmos, embora não O vejamos.

Quem quer que O tente agarrar e reter, perdê-Lo-á. Ele é como o vento que sopra onde lhe apraz. Quem O ama, deve amá-Lo assim vindo não se sabe donde, e indo não se sabe para onde. Nosso espírito deve esforçar-se por ter essa pureza e liberdade do seu próprio Espírito, a fim de segui-lo aonde quer que vá. Quem somos nós para nos chamar de puros e de livres, se não é Ele que nos torna tais?

Thomas Merton, Homem Algum é Uma Ilha

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Subida do Monte Carmelo - 1º Capítulo

O áudio não ficou muito bom, mas dá pra entender o que nele se diz. Abaixo, uma breve retomada do essencial.


"Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamada,
Oh! Ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
Já minha casa estando sossegada."

Pontos afirmados pelo santo:

1- Não é possível alcançar a perfeição sem passar ordinariamente por duas noites ou vias purgativas referentes às duas partes do homem - uma inferior e  outra superior.

a) A primeira, é da parte sensitiva - própria dos principiantes.
b) A segunda, é das faculdades espirituais - própria dos já aproveitados.

Dizer que saiu "quando sua casa se achava sossegada" significa que foi preciso ter pacificada a parte sensível, pois não é possível sair das penas e angústias dos apetites sem estes estarem mortificados e adormecidos.

Não era possível entrar nessa noite somente com os próprios esforços, pois é muito difícil alguém acertar desprender-se perfeitamente sozinho.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

2º Podcast S. João da Cruz - Divisão da Obra e Explicação Escrita do "Monte" pelo próprio Santo


Para escutar o Podcast, cliquem na imagem acima.

Abaixo, a explicação do "Monte" pelo próprio S. João da Cruz

Desenho original do Santo.
Esquema do Monte da Edição de Alcalá, 1618, segundo a interpretação de Diogo de Astor.

MONTE CARMELO
[No sopé do Monte]

Para vir a saborear TUDO - não queiras ter gosto em NADA
Para vir a saber TUDO - não queiras saber algo em NADA
Para vir a possuir TUDO - não queiras possuir algo em NADA
Para vir a ser TUDO - não queiras ser algo em NADA
Para vir ao que não GOSTAS - hás de ir por onde não GOSTAS
Para vir ao que não SABES - hás de ir por onde não SABES
Para vir a possuir o que não POSSUIS - hás de ir por onde não POSSUIS.
Para chegar ao que não ÉS - hás de ir por onde não ÉS
Quando reparas em algo - deixas de arrogar-te ao todo
Para vir de todo ao todo - hás de deixar-te de todo em tudo
E quando venhas de todo a ter - hás de tê-lo sem nada querer.

Nesta desnudez encontra o espírito o seu descanso, pois nada cobiçando, nada o impele para cima e nada o oprime para baixo, porque está no centro da sua humildade.

[As três sendas do Monte, da esquerda para a direita]

Caminho de Espírito de Imperfeição: 

Do céu - nem isso; glória - nem isso; gozo - nem isso; saber - nem isso; consolo - nem isso; descanso - nem isso; Quanto mais os desejei, com tanto menos me encontrei.

Senda do Monte Carmelo:

Espírito de perfeição: nada, nada, nada, nada, nada, nada e ainda no Monte, nada.

Caminho de Espírito de Imperfeição:

Da terra - nem isso; possuir - nem isso; gozo - nem isso; saber - nem isso; consolo - nem isso; descanso - nem isso - Quanto mais quis buscá-los, com tanto menos me encontrei.

[No cume do Monte, da esquerda para a direita, segundo os diversos planos]

Quando já não o queria, tenho tudo sem querer (cf. 2Cor 6,10).
Quando menos o queria, tenho tudo sem querer - Paz - Gozo - Alegria - Deleite - Sabedoria - Justiça - Fortaleza - Caridade - Piedade.

Nada me dá glória - Nada me dá pena.

Já não há caminho por aqui, porque para o justo não há lei; ele é a lei para si mesmo (cf. 1Tm 1,9; Rm 2,14).

Eu vos introduzi na terra do Carmelo, para que comêsseis o seu fruto e o melhor dlea (Jr 2,7). 

Só mora neste monte - honra e glória de Deus.

***

Na Edição de Alcalá, 1618, lê-se a seguinte explicação dos três caminhos do Monte.

Monte de Deus, monte elevado, monte alcantilado, monte em que Deus se compraz em habitar (Sl 67, 16-17).

[As três sendas do Monte, da esquerda para a direita]

Caminho de Espírito Imperfeito: Demorei mais e subi menos, porque não tomei a senda. Bens do céu - por havê-los procurado tive menos do que teria se houvesse subido pela senda.

Senda estreita da Perfeição: Estreito é o caminho que conduz à vida" (Mt 7,14).
Bens do céu: Glória - nem isso; segurança - nem isso; gozo - nem isso; consolos - nem isso; saber - nem isso. Nada, nada, nada, nada, nada. Bens da terra: Gosto - também não; ciência - também não; descanso - também não. Tanto mais algo serás, quanto menos o quiseres ser.

Caminho do Espírito Errado: Quanto mais os procurava, com tanto menos me achei. - Bens da terra - Não pude subir ao Monte por enveredar por caminho errado.

[Cimo do Monte, da esquerda para a direita, segundo os diversos planos]

Quando não o quis, com amor de propriedade, foi-me dado tudo sem que o buscasse - E no Monte, nada - Por aqui já não há caminho, pois para o justo não há lei (cf. 1Tm 1,9; Rm 2,14). - Depois que me pus em nada, acho que nada me falta. - Sabedoria, Ciência de Deus - Justiça, Força, Prudência, Temperança - Caridade, Alegria, Paz, Longanimidade, Paciência, Bondade, Benignidade, Mansidão, Fé, Modéstia, Continência, Castidade - Segurança - Fé, Amor, Esperança - Divino Silêncio - Divina Sabedoria - Perene Convívio - Só mora neste Monte - a honra e glória de Deus. - "Eu vos introduzi na terra do Carmelo, para que comêsseis o seu fruto e o melhor dela" (Jr 2,7).

S. João da Cruz, Esquemas Gráfico-Literários: "Monte de Perfeição" In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Vozes, 2002.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Saltar acima de nós mesmos


"De pé, portanto, alma nobre! Calça teus sapatos de saltar, que são o intelecto e o amor, e salta por cima do culto dos teus poderes mentais, salta por cima do teu entendimento e precipita-te no coração de Deus, no que ele tem de escondido, onde estarás escondida de todas as criaturas."

Eckhart

sábado, 26 de novembro de 2011

Bendita seja a dimensão do mistério


O Pe. Lima Vaz, grande metafísico, escreve que há, na história, dois grandes movimentos da humanidade: um de ascensão que se identifica com a abertura à transcendência, isto é, o olhar voltado àquilo que está para além do mundo. E há o movimento decadente, o da imanência, aquele em que o mundo se fecha em si mesmo, numa auto-suficiência tola. Do primeiro movimento, o transcendente, fazem parte a Filosofia Grega nos seus maiores expoentes, a Filosofia Medieval e a Religião Cristã. Do segundo movimento haverá uma prevalência na modernidade. Ao excluir o campo do Mistério, cai-se num tipo de absolutização da própria história e a redução da razão última do mundo ao mero curso dos acontecimentos. É Hegel, Feuerbach, Marx, Darwin, Freud, etc, etc. Neste tipo de "filosofia", termina-se por fazer o racional descender do irracional.

Também na nossa vida cotidiana, estamos tão acostumados ao modo de visão imanentista, que, até sem perceber, caímos em atitudes bastante subjetivistas. Fazemos mui facilmente do nosso ego o centro da realidade e reduzimos tudo quanto há à nossa medida pequena. Se aderimos a uma religião, mal aceitamos que Deus ultrapasse o nosso entendimento na prática. Nós aceitamos que Ele corresponda ao nosso conceito de supra-conceitual, ainda que não permitamos que, de verdade, Ele nos escape. Não raro, escolheremos seguir um deus à nossa imagem e semelhança e interpretaremos as verdades de fé sempre ao nosso modo. Aceitaremos aquilo que nos seja confortável e rejeitaremos o que não couber nos nossos interesses.

Até defenderemos a idéia do esvaziamento, mas sem que isto implique um real esvaziamento da nossa parte. No fundo o que nos move é o nosso próprio interesse, o nosso próprio benefício, a nossa própria reputação. Faremos tudo isto talvez sem dar-nos conta de como é repugnante essa nossa instrumentalização da Fé. Apontaremos para cima mas, na verdade, estaremos indicando o caminho para o nosso umbigo, que supomos ser a régua última de toda a existência e que, portanto, deve bem estar localizado lá em cima, no centro do universo.

Se empreendemos um projeto de conversão, começaremos com o nosso costume tosco de prever por quais caminhos teremos de passar e quais os estágios que teremos de alcançar. E, depois, começamos a andar, supondo que tudo já foi exaustivamente esquadrinhado por nós e, portanto, já nos é previamente conhecido. Não permitiremos que nada escape à nossa descrição sem que seja, na mesma medida, recusado, expurgado.

Como lidar com um Deus que absolutamente nos ultrapassa? Que é transcendente? Com este Deus não saberemos lidar e, portanto, não O entenderemos, nem O amaremos. Melhor aquele outro, fruto da nossa idéia, e que cabe direitinho na forma que nós compomos com a matéria prima da nossa soberba.

De Jesus mesmo, se continuamos agindo desse modo, nada saberemos, ainda que usemos o Seu nome para chamar o deus que nós mesmo inventamos. E passamos a vida sem aceitar o mistério, fazendo de conta que Deus está felicíssimo com tudo quanto fazemos e que, no fim, Ele é bonzinho segundo o nosso conceito de bonzinho. Ele deve identificar-se totalmente - é o que achamos - com os nossos valores e terminamos, veja só, elevando os nossos próprios critérios ao nível divino. De repente, somos o que há de mais elevado no mundo e isto sem termos feito sequer muito esforço. Eis aonde leva a "religião ao meu modo".

O Gustavo Corção, grande escritor brasileiro, escrevia com profundo senso: "uma das razões pelas quais o catolicismo me encantou é que ele era uma religião que não fora feita por mim". Era algo a que ele tinha de se adaptar ou, usando um termo mais apropriado neste terreno, a que ele tinha de se converter. Para que esta conversão se desse, era preciso que ele negasse a si mesmo, e não que negasse a religião. Se ele se nega, está a fazer justamente o que Jesus disse - quem quiser me seguir, negue-se - e a abrir-se a algo que é maior que ele e, portanto, vai rumando para a liberdade dos vastos horizontes. Se, ao contrário, ele se afirma a si mesmo ao ponto de negar o que na religião lhe desagrada, ele está, de novo, se fechando na imanência que nada mais é do que prisão, engano, redução de tudo quanto existe à própria medida, e eleição de si mesmo como redentor do mundo. Esta via do engodo foi empreendida, primeiramente, por Adão. E foi para nos libertar disto que o Cristo se fez carne e rebaixou-Se à nossa pobre condição para que pudesse nos elevar à Sua.

É como dizia S. João da Cruz: "O que Deus pretende é fazer-nos deuses por participação, sendo-o Ele por natureza".

Bendita seja a dimensão do Mistério que, acima de nós, abre uma via sem fim, sem limites e que, então, não obedece a qualquer tentativa de antecipação. Bendito seja o mistério que nos liberta de nós mesmos!

"O que o olho humano não viu, o que o ouvido não ouviu, o que o coração não imaginou... eis o que Deus tem preparado para os que O amam..."

Bendita seja a dimensão do Mistério, o oceano abismal e inesgotável de Deus.

sábado, 19 de novembro de 2011

Breve Introdução à Teologia Negativa


O caminho da vida, já dizia S. Gregório de Nissa, doutor da Igreja, é um processo das trevas para a luz e da luz para as trevas.

S. Gregório de Nissa é, na verdade, o verdadeiro pai da Teologia Apofática ou Negativa, embora tenha sido o Pseudo-Dionísio Areopagita quem recebeu maior atenção. Mas isto se deu somente porque durante muito tempo estavam a considerar que este místico fosse um discípulo direto de S. Paulo, convertido quando da pregação deste no areópago, descrita no livro dos Atos. No entanto, posteriormente, veio-se a saber que, não obstante o nome com que vinham assinadas, as suas obras descendiam pelo menos do século VI e tinham sido produzidas, provavelmente, por algum monge.

O maior clássico do Pseudo-Dionísio é, sem dúvida, a "Teologia Mística", livro que inspirou bastante a Literatura Medieval, terminando por produzir certos reflexos mesmo nas obras de gigantes como S. João da Cruz, o grande doutor da Noite e a maior autoridade da Mística Católica.

Embora provenientes de um autor que falseia o seu próprio nome, a obra do Pseudo-Dionísio não deixa de ter uma grande profundidade. Não à toa foi lida e muitíssimo comentada.

Se voltarmos, porém, a S. Gregório de Nissa, veremos que ele é, não só mais antigo, como, também, mais profundo. Uma das principais obras onde ele trata deste tema é a "Vida de Moisés", dividida em duas partes. Na primeira, há uma descrição literal da vida do Profeta. Na segunda, há a sua interpretação mística.

Moisés será o grande paradigma da Teologia Negativa, pois se reconhecerá nele este processo de que S. Gregório de Nissa fala como sendo uma ida das trevas à luz e da luz às trevas.

Outra grande obra que trata do assunto é o livro "A  Nuvem do Não Saber", de um anônimo do Séc. XVI, e que consistia, na verdade, num conjunto de orientações de um monge a um seu discípulo. Nele, o autor trata da superioridade da contemplação sobre a ação e da prática de uma oração para além dos conceitos.

A Teologia Negativa, também conhecida como Teologia das Trevas ou Mística de Trevas não é um traço exclusivamente católico. Ela está em inúmeros movimentos místicos pelo mundo, sobretudo em algumas correntes indianas. Porém, no âmbito da Fé Cristã, ela tem peculiaridades que a livram de entrar em certas aporias.

O elemento negativo é imprescindível a qualquer legítima teologia. Com relação a isto, é possível estabelecer uma divisão entre os santos, identificando uns como representantes da Teologia da Luz e outros, como adeptos da Teologia das Trevas. No primeiro caso, reconhecemos Sto Agostinho, Sto Tomás de Aquino, S. Bernardo de Claraval e, segundo alguns, até a Sta Teresa D'Avila - o que não deixa de me estranhar e, sinceramente, me coloca em dúvidas quanto a isto. No segundo grupo, temos S. João da Cruz, S. Gregório de Nissa, parece-me que Sta Teresinha de Lisieux, S. Bruno, etc. Importante notar que, nestes dois grupo de santos, todos, com exceção de S. Bruno, fundador da Cartuxa, são doutores da Igreja.

Porém, mesmo no primeiro grupo, o da Luz, notaremos claros elementos negativos. Muito conhecido é o êxtase de Sto Agostinho e sua mãe, Sta Mônica, na cidade de Óstia. Enquanto conversavam sobre as realidades celestes, viram-se, de repente, a transcender os conceitos e a mergulharem numa contemplação mais direta do objeto de suas discussões. Acabada a experiência supra-sensível, Sto Agostinho lamenta por ter de voltar ao baixo nível de suas idéias. Também Sto Tomás de Aquino, o maior doutor da Igreja, elevado certa vez a um êxtase em que contemplou o Mistério, decidiu, de volta ao ordinário da vida, parar de escrever, pois toda a sua obra, depois de ter visto o que vira, convertera-se em palha.

O elemento negativo livra o homem de cair no racionalismo da Fé que, na verdade, já não é Fé, mas adoração da razão. Cai-se, aí, numa redução absurda da dimensão do mistério e, em última instância, recai-se, de novo, num certo imanentismo, perdendo de vista o horizonte da transcendência.

Porém, se isto é mal compreendido, pode levar ao extremo oposto, ou seja, à afirmação da estrita inefabilidade do mistério e à relativização de tudo quanto seja conceito e linguagem humana. É precisamente neste erro que caem alguns orientais, entendendo a Teologia afirmativa como mera linguagem análoga, relativa e penúltima, destinada aos não agraciados pelo acesso místico. Os que, porém, conseguissem adentrar no campo obscuro da Mística se veriam, segundo esta teoria, absolutamente dispensados da observância de tudo quanto fora conceitualmente expresso. A Teologia se converte em religião de segunda categoria; em mera metáfora da realidade do Mistério.

Em outros textos, abordarei de modo mais preciso em que consiste este treva, ou nuvem, ou noite, ou obscuridade, ou, às vezes, vazio. Termino, citando o Rei Davi que, sobre Deus, escreveu: "Ele fez sua tenda nas trevas" (Cf  Sl 17,12).

Fábio

sábado, 1 de outubro de 2011

Quem é Deus?


Vez ou outra, eu fico a pensar na pessoa de Jesus e vejo, de um modo mais profundo e mais claro que eu, de fato, não sei muito a respeito d'Ele. Há momentos que eu fico a perguntar-Lhe: "Quem és?" Não é uma pergunta sem sentido... Eu poderia tranquilamente dizer que Jesus é Deus, o que é verdade, ou que Ele é amor, como diz João, o que é verdade também. Mas, peguemos essa definição: "Deus é amor". O que, de fato, isso quer dizer? Para mim, particularmente, é um mistério.

E é um mistério porque o meu conceito de amor é, por força, finito. E esta delimitação feita pelo conceito só pode ser aplicada a Deus por analogia, pois Deus a transcende absolutamente. Como saber quem é Ele? De um lado, é dito de Ele ser tão justo que o homem mais santo tem motivos suficientes para tremer e, ainda, que o poder do Seu braço é aterrador; outras vezes, ainda, sobre a timidez do Seu amor, a Sua ternura e Sua doçura. Outras tantas, Ele é o doce Sedutor que conquista a alma. Todas estas definições realmente dizem algo d'Ele, mas, diante desta variedade e, por vezes, aparente oposição de características, como saber quem, de fato, Ele é? Mesmo que tivéssemos um só conceito, como fazer uma perfeita adequação do nosso pensamento a Ele? Como conhecê-Lo de verdade, ao invés de apenas conhecermos as idéias que temos dEle?

Sim, eu e Ele temos momentos íntimos. Eu sempre O comungo. É difícil imaginar um tipo de união mais íntima, um tipo de abraço mais completo. No entanto, Ele mantém-Se escondido e eu continuo sem saber muito bem como Ele é. Por mais que eu me esforce, apenas obterei uma imagem, uma projeção, uma suposição, obviamente limitadas. E Ele está além disto. Como alcançá-Lo neste além?

Não há que se relativizar a Teologia. De modo algum. O pouco que podemos saber d'Ele nos vem por meio dela. O objeto da Teologia é, de fato, Deus, mesmo que ela se faça a partir de fórmulas conceituais humanas. A contemplação de Deus será uma experiência direta daquilo que, pelas fórmulas teológicas, já vislumbramos com o conceito.

Fico a pensar nessas coisas, e lembro-me, agora, de S. João da Cruz que, retomando S. Paulo, escreveu: "O justo viverá pela Fé". É preciso saltar no meio dessa nuvem, dessa indefinição, pois Aquele que fez nas trevas a Sua tenda está para além dos nossos conceitos e imagens. Agora, de fato, dEle temos apenas uma notícia confusa, mas um dia O veremos face a face. Conceda-nos Ele esta felicidade.

* É realmente dificílimo dizer com precisão quem é Ele, mas nos é possível afirmar o que Ele não é.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Escuridão me Basta - Poesia Texto


"Senhor, é quase meia-noite e estou Te esperando na escuridão e no grande silêncio.
Lamento todos os meus pecados.
Não me deixe pedir mais do que ficar sentado na escuridão, 
sem acender alguma luz por conta própria, nem me abarrotar com os próprios pensamentos
 para preencher o vazio da noite na qual espero por Ti.
Deixa-me virar nada para a luz pálida e fraca dos sentidos, 
a fim de permanecer na doce escuridão da Fé pura.
Quanto ao mundo, deixa-me tornar-me para ele totalmente obscuro para sempre. 
Que eu possa, deste modo, por esta escuridão, chegar enfim à Tua claridade.
Que eu possa, depois de ter me tornado insignificante para o mundo, 
estender-me em direção aos sentidos infinitos, contidos em Tua paz e Tua glória.
Tua claridade é minha escuridão. 
Eu não conheço nada de Ti e por mim mesmo nem posso imaginar como fazer para Te conhecer.
Se eu te imaginar, estarei errado.Se Te compreender, estarei enganado.
Se ficar consciente e certo que Te conheço, serei louco.
A escuridão me basta".

Thomas Merton, OCSO

sábado, 30 de julho de 2011

Cinco razões pelas quais não se devem pedir sinais sobrenaturais na oração



Sta Teresa D'Avila, Doutora da Igreja, Mestra de Oração


A primeira, porque é falta de humildade querer que se vos dê o que nunca haveis merecido, e assim creio que não terá muita quem o desejar; porque, assim como um pequeno lavrador está longe de desejar ser rei, parecendo-lhe impossível, porque não o merece, assim também o está o humilde de coisas semelhantes; e creio eu que estas coisas nunca se darão, porque, primeiro que faça estas mercês, dá o Senhor um grande conhecimento próprio. Pois, como entenderá, com verdade, que se lhe faz uma muito grande mercê em não estar já no inferno, quem tem tais pensamentos?

A segunda, porque é muito certo ser enganado, ou estar muito em perigo de o ser; porque o demônio não precisa mais do que ver uma pequena porta aberta para fazer mil trapalhices.

A terceira; que é a mesma imaginação, quando há um grande desejo, faz entender à própria pessoa que ela vê e ouve aquilo que deseja, tal como os que andam com vontade de uma coisa durante o dia e pensando muito nela, lhes acontece virem a sonhar com ela de noite.

A quarta, é muito grande atrevimento querer eu escolher caminho, não sabendo qual o melhor, mas sim deixar ao Senhor, que me conhece, que me leve por aquele que me convém, para que em tudo faça a Sua vontade.

A quinta, pensais que são poucos os trabalhos que parecem aqueles a quem o Senhor faz estas mercês? Não, são grandíssimos e de muitas maneiras. E sabeis vós se seríeis pessoas para os sofrer? A sexta, porque talvez por aí mesmo por onde pensais ganhar, perdereis, como Saul, por ser rei.

Enfim, irmãs, além destas há outras; e crede-me que, o mais seguro, é não querer senão o que Deus quer, pois nos conhece e ama mais do que nós mesmos. Ponhamo-nos em Suas mãos, para que seja feita a Sua vontade em nós; e não poderemos errar se, com determinada vontade, nos ficamos sempre nisto.

Sta Teresa D'Avila, Castelo Interior

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A Escuridão me Basta - Thomas Merton

Eu creio já ter posto este video por aqui, mas ponho-o de novo. Nele, o Monge Trapista Pe. Luis (Thomas Merton) nos brinda com um belo poema de matiz sanjuanista.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Paulo viu o Nada


Paulo levantou-se do chão e com os olhos plenamente abertos nada viu.

Na minha opinião, esse texto tem quatro sentidos: O primeiro é que, ao levantar do chão com os olhos abertos viu o "nada", e o "nada" era Deus. O segundo: ao se levantar, nada viu além de Deus. Terceiro, em todas as coisas nada mais viu além de Deus. No quarto, quando viu Deus viu todas as coisas como "nada". Esta frase "quando Paulo se levantou do chão com os olhos plenamente abertos nada viu" corresponde à experiência de São Paulo quando ia para Damasco.

A luz que Deus é brilha no escuro. Deus é que é a verdadeira luz. Para ver isso a pessoa deve estar cega e deve tirar para fora de Deus tudo o que é algo. Um mestre diz que aquele que falar de Deus através de qualquer semelhança, fala de modo simplório Dele. Mas falar de Deus através do 'nada'; é falar Dele corretamente. Quando a alma unificada entra na total auto-abnegação, encontra Deus como um Nada.

Mestre Eckhart

sábado, 23 de abril de 2011

Tempo da ausência


Certa vez, ouvi dizer que a grande inspiração da Teologia Apofática é este curto período entre a morte do Senhor e a sua ressurreição. O período da ausência. Neste momento, a saudade do ser amado se faz mais pungente, mais sofrida. A ausência é muito sentida e o amor alcança vôos muito altos. De fato, esta é a lógica da teologia negativa.

Meditando um pouco neste mistério, lembrei-me do episódio ocorrido com a Sagrada Família quando Jesus tinha seus doze anos. Em visita ao templo, seus pais se perderam dele e passaram a procurá-lo incessantemente durante três dias. Esta experiência consta como uma das dores de Nossa Senhora e, de fato, como deve ter sido aflitiva esta ausência!

Numa de suas reflexões sobre este fato, Sua Santidade Bento XVI comenta que talvez os pais de Jesus é que tenham se sentido perdidos. Jesus é quem dava alegria ao ambiente; com Ele, tudo era diferente. E agora, porém, Ele não estava. Depois de três dias, O reencontraram e quão grande deve ter sido o alívio!

Agora, porém, Jesus morreu. Humanamente, não é possível esperar que, após três dias, O houvessem de reencontrar. A cena da crucifixão, com toda a sua crueldade, não os deixa ter esperanças aparentemente ingênuas. Viram-no morrer; estavam lá. Que dor a da ausência! E os apóstolos? Depois de três anos tão intensos, como não ficaram? Como era dolorido relembrar as ocasiões felizes com Jesus; o simples conforto que a Sua presença trazia. E João? Há dois dias atrás, estava reclinado sobre o coração do mestre e agora, talvez relembre com tristeza as palavras de Jesus, já que também o discípulo amado já não tem onde reclinar a cabeça.

A mística de trevas é a mística da ausência. É onde a presença do Amado é mais que tudo desejada, é onde se inflama de vez o pequeno coração humano e se transforma como numa pura labareda. É quando a alma não se consola com mais nada, a não ser, como diz S. João da Cruz, com a Presença e com a Figura do ser amado. 

Neste sofrimento, muitas imperfeições da alma se extinguem à semelhança da ferrugem consumida pelo fogo, tornando o ferro incandescente. E é precisamente aí que os Apóstolos se prepararão para revê-Lo.

Maria, a mulher forte, tem agora o seu coração perfurado, trespassado, como o dissera, anos atrás, Simeão.
No entanto, ela nunca duvidou...

Fábio.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

As trevas da Fé


O Deus vivo, o Deus que é Deus e não uma abstração filosófica, está infinitamente para além de qualquer coisa que os nossos olhos podem ver ou o nosso espírito pode compreender. Qualquer que seja a perfeição que lhe atribuirdes, ao descrevê-Lo, tereis sempre de acrescentar que a vossa concepção tem só uma pálida analogia com a perfeição que está em Deus e que, literalmente, Ele não é o que concebeis por meio desse termo.

Ele, que é infinita luz, é tão prodigioso na Sua evidência que o nosso espírito só pode vê-lo como treva. Lux in tenebris lucet e tenebrae eam non comprehenderum.

Se nada do que se pode ver pode ser Deus ou no-Lo representar tal como Ele é, então, para encontrar Deus, temos de passar para além de tudo que pode ser visto e penetrar nas trevas. Visto que nada do que se pode ouvir é Deus, para O encontrar, temos de entrar no silêncio.

Visto que Deus não pode ser imaginado, tudo o que a nossa imaginação nos diz a respeito d'Ele é, em última análise, uma mentira, e, portanto, não podemos conhecê-Lo como Ele realmente é a não ser que ultrapassemos tudo que pode ser imaginado e entremos numa escuridão sem imagens e sem semelhança com qualquer coisa criada.

E, uma vez que Deus não pode ser nem visto nem imaginado, as visões de Deus que, segundo ouvimos, os santos têm, não são visões de Ele, mas visões a respeito de Ele; ver alguma coisa não é vê-Lo.

Deus não pode ser compreendido senão por Ele Próprio. Se devemos chegar a compreendê-Lo, só o conseguiremos transformando-nos, dalgum modo, n'Ele, de maneira a conhecê-Lo como Ele se conhece a Si Próprio. E Ele não se conhece a Si Próprio por qualquer representação de Si Próprio: o Seu Ser infinito é que é o Seu conhecimento de Si Próprio e nós não O conheceremos como Ele Se conhece até estarmos unidos àquilo que Ele é.

A fé é o primeiro passo dessa transformação, porque é um conhecimento a que se chega sem imagens nem representações, graças a uma amorável identificação com o Deus vivo, nas trevas.

A fé atinge o entendimento não através dos sentidos mas a uma luz diretamente difundida por Deus. Uma vez que esta luz não passa pelos olhos ou pela imaginação ou pela razão, a sua certeza torna-se nossa sem se revestir da aparência de qualquer criatura, sem qualquer semelhança que possa ser visualizada ou descrita. É verdade que, na sua forma expressiva, o artigo de fé a que damos a nossa adesão representa coisas que podem ser imaginadas, mas, dentro da medida em que as imaginamos, temos de formar delas uma idéia errada e tendemos a extraviar-nos. Numa palavra: não podemos imaginar a relação entre os dois termos da proposição seguinte: "Em Deus, há Três Pessoas e Uma só natureza". E tentar fazê-lo seria grande erro.

Se credes, se fazeis um simples ato de submissão à autoridade de Deus propondo qualquer artigo de fé, externamente, através da Sua Igreja, recebeis o dom de uma luz itnerior de tal modo simples que escapa a qualquer descrição e de tal modo pura que seria grosseria chamar-lhe uma impressão. É antes uma luz verdadeira, que traz ao aperfeiçoamento do juízo humano uma perfeição que ultrapassa muito a ciência. A própria obscuridade da fé é um argumento a favor da sua perfeição. É obscura para os nossos espíritos porque transcende muito a fraqueza destes. Quanto mais perfeita, mais obscura se torna. Quando mais nos aproximamos de Deus, menos a nossa fé se dilui na meia-luz das imagens e dos conceitos.

A nossa certeza aumenta com essa obscuridade, mas não sem angústia ou mesmo dúvida real, porque não achamos fácil viver num vazio onde as nossas faculdades naturais não têm nada de seu onde repousar. E é nas mais fundas trevas que, na terra, mais plenamente possuímos Deus, porque é então que os nossos espíritos estão mais verdadeiramente libertos da sua débil iluminação natural, que é apenas escuridão comparada com Ele; é então que estamos cheios da Sua Infinita Luz, que, para nós, é pura escuridão.

Thomas Merton, Sementes de Contemplação

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sobre a mística de trevas


"A experiência de identidade seria apenas a primeira tapa no caminho místico que, sem dúvida, poucos ultrapassariam, e, desse modo, esta experiência se converteria na verdadeira tentação da mística. Somente depois é que viria o estágio, muito mais doloroso, do desprendimento de si memso e a transição para a autêntica transcendência. Este estágio exigiria do homem a crucificação do abandono de si mesmo e a entrega ao arbítrio do que não tem lugar, onde já nada de terreno se sustenta, mas que agora é o que coloca o homem ante a verdadeira face de Deus, de maneira que, quando lhe é concedido penetrar nessa mística da escuridão e da fé, então considera a mística precedente da luz e da visão um pequeno prelúdio do que ele, sem vislumbrar a profundidade de Deus, havia tentado considerar anteriormente como último e total."

Joseph Ratzinger, Fé, Verdade e Tolerância, Cap.1, pg.38.