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domingo, 23 de setembro de 2012
quarta-feira, 20 de junho de 2012
"Vou me casar com uma noiva tão nobre e tão bonita como vocês nunca vão ver"
"Certo dia, tendo invocado mais completamente a misericórdia divina, mostrou-lhe o Senhor o que convinha fazer. A partir de então ficou tão cheio de alegria, que não cabia mais em si e, mesmo sem querer, deixou escapar alguma coisa aos ouvidos dos outros. Mas embora não pudesse calar por causa da grandeza do amor que lhe fora inspirado, era com cautela que comunicava alguma coisa, e falando em parábolas. Assim como falara ao amigo íntimo de um tesouro escondido, como dissemos, aos outros procurava falar por analogias. Dizia que não queria ir à Apúlia, mas prometia que haveria de fazer coisas nobres e estupendas em sua própria terra. Pensavam os outros que queria casar-se e lhe perguntavam: "Por acaso, você vai se casar, Francisco?" Respondia-lhes: "Vou me casar com uma noiva tão nobre e tão bonita como vocês nunca vão ver, que ganha das outras em beleza e supera a todas em sabedoria." Na verdade, a esposa imaculada do Senhor era a verdadeira religião, que ele abraçara, e o tesouro escondido era o reino dos céus, que buscou com tanto entusiasmo."
Tomás de Celano, Primeira Vida de São Francisco
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
O modo como Deus nos vê é o modo como nós somos
Sto Agostinho, nas suas especulações filosóficas, chegou à constatação de que ele não era a causa de si mesmo. Logo, devia sua existência a um outro. Esta assertiva pode parecer banal, mas a modernidade se caracteriza quase toda por negar esta verdade evidente.
As pessoas da antiguidade e do medievo se distinguem pela sobriedade e o bom senso de se saberem contingentes. Esta consciência lhes dá uma abertura para fora, para Aquilo que as causou e, diante do fato da morte, para aquilo que há para além deste vértice da vida natural. O homem se via como um ser entre duas eternidades e isto, pelo senso das proporções, lhe mantinha a modéstia e o respeito diante da dimensão do mistério.
A modernidade, no entanto, cortou as duas eternidades e rechaçou as investigações metafísicas, como se fossem qualquer coisa de misticismo, no mal sentido. Este tipo de filosofia de meia tigela produziu teóricos que afirmam bobagens como dizer que as coisas só existem porque o sujeito as percebe, etc. Não mais o homem é colocado por um outro num mundo que já existia, mas, agora, ele existe primeiro e cria o mundo ao percebê-lo. Não é preciso muito esforço para reconhecer que isto é só uma faceta do sonho adâmico de querer ser como Deus.
Pois bem. Uma pessoa que siga um tal tipo de crença terminará por fazer da sua vida uma contínua falsidade. Primeiramente, porque terá uma visão totalmente equivocada da própria existência; depois, porque não aceitaria uma vida que lhe foi dada por Outro, reclamando para si autonomia absoluta. Temos, então, um sujeito que está impossibilitado de realizar-se porque desconheceu o seu chamado individualíssimo e quis, ao invés disto, seguir os próprios devaneios.
A constatação agostiniana de que o homem não é causa de si mesmo é importantíssima. S. Francisco de Assis, um santo que nunca teve aulas de Filosofia, partilhava, no entanto, da mesma sabedoria e a expressou e completou ao dizer que o homem é o que é diante de Deus, e nada mais*. Na verdade, para saber disso, não é preciso estudar filosofia, mas tão somente ter bom senso. Em S. Francisco, porém, esta percepção é agudíssima e significa: não importa o que os homens façam nem as suas conquistas e realizações, se estas conquistas e realizações somente o são segundo seus critérios pessoais. Existem critérios reais pelos quais uma coisa se torna conquista e realização ou, ao contrário, se converte em mero fracasso floreado, em excremento enfeitado de lacinho e borrifado com lavanda.
Se alguém chega a ser aclamado como gênio mas, diante de Deus, ele não passa de um idiota, a verdade é que ele é um idiota. Eis a imbatível e irrefutável filosofia franciscana.
Com base nisto, o que deveríamos fazer? Deveríamos harmonizar os nossos critérios com os de Deus. O que Deus entende por bem, é o bem. O que Deus entende por inútil, é inútil. A conversão passa por aí: é uma adaptação de si mesmo a Deus, e não uma adaptação de Deus a si, como têm tentando fazer alguns, com resultado risível. É justamente por isto que a vida devota é por vezes referida como um processo de morte pelo qual obtemos a vida. Quem se apega à própria vida, isto é, aos seus conceitos pessoais, ao seu modo único de ver, etc., vai terminar não encontrando a vida de fato. Quem, ao contrário, aceita perder-se e desapega-se de si mesmo, encontrará o Caminho, a Verdade e a Vida, que o ensinará e o fará ver.
A nossa época é particularmente imbecil porque é a época em que cegos se vangloriam da própria cegueira e da própria escuridão, desprezando a luz e a visão. Tudo isto, contudo, não é mais que soberba e revolta. E as consequências desta infantilidade são seríssimas e podem se estender pela eternidade.
De tudo isto, podemos concluir que o modo como Deus nos vê é o modo como nós somos. Não é aviltar a nossa dignidade reconhecermos que não somos deuses. Bem pelo contrário. A nossa grandeza está em justamente aceitar e amar a nossa condição de criaturas d'Ele, elevadas à condição de Filhos. Por ora, nós não podemos ter a dimensão exata do que isto significa, por mais que tentemos. Mas é algo grandioso...
Ordenemos as nossas vidas, os nossos valores, os nossos conceitos com o Cristo e, desse modo, passaremos a viver de substância, e não mais da vã fumaça da nossa vaidade.
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* A frase franciscana completa a de Sto Agostinho porque, enquanto a de Agostinho se restringe estritamente ao início, a de S. Francisco faz referência a toda a vida, isto é, à condição da nossa total contingência e dependência de Deus que nunca cessa. Deus não apenas cria, mas sustenta na existência e tudo quanto existe, só existe por meio d'Ele. Esta existência diz respeito não somente a entes materiais, mas também a valores, como a bondade, a virtude, a honra, etc. Jesus o expressa ao dizer: "Só Deus é bom", isto é, não há bondade alternativa. S. Paulo, por sua vez, escreve: "n'Ele existimos, nos movemos e somos."
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Aos devotos de São Francisco de Assis
Francisco de Assis: Alma Simples entre todas
Depois de Jesus e de Maria, entre os inúmeros santos que a Igreja venera, haverá algum que tenha elevado o mais alto grau a simplicidade, e que seja modelo mais belo, do que Francisco, chamado o "pobre de Assis"?
A pobreza foi sua virtude preferida. Tomou-a por sua dama, sua esposa. Exaltou-a acima de tudo. Mas não será a pobreza fruto, ou melhor, o fruto especial, e como que a filha da simplicidade?
É porque a alma simples contempla a Deus, fixa e constantemente; que se esquece e se desapega de tudo mais, exclamando como São Paulo: "Olho todas as coisas como lixo, a fim de poder ganhar o Cristo."
A virtude da pobreza não poderia existir sem a simplicidade. É a simplicidade que torna possível a virtude da pobreza, gerando-a da mesma maneira que a mãe dá vida à filha.
Por isso, Francisco de Assis foi simples entre todos os simples.
A juventude, a vocação, a vida, as obras admiráveis, os últimos anos, a morte, tudo nele é simplicidade, pois nunca outro pensamento lhe ocupou o espírito, nem outro desejo o coração, que o de assemelhar-se perfeitamente a Jesus Cristo.
Como o do Salvador, seu berço é um estábulo. Assim o quer Deus, para marcar o caráter que terá toda sua vida.
Os companheiros de mocidade são unânimes em louvar-lhe a franqueza, a honestidade, a alegria, a candura da alma, em suma, a simplicidade. Essa simplicidade afasta dele a inveja, o ciúme e qualquer desconfiança; atrai-lhe a simpatia sem que a procure, faz com que seja amado de todos; e sempre que há uma festa proclamam-no rei.
É a simplicidade que o arranca ao mundo e o lança no caminho da mais alta perfeição.
Saía de um festim. Os companheiros, alegres, caminhavam cantando. De repente pára, imóvel, o olhar no céu, o rosto iluminado, em êxtase. Que vê ele? O tudo de Deus e o nada da criatura.
Está acabado: bastou-lhe o olhar de um instante. O que viu jamais esquecerá. Sua deliberação está tomada: pertence todo a Deus.
Mas como realizará essa decisão?
Abre o Evangelho e lê: "Se alguém quer ser perfeito, despoje-se de tudo o que tem e siga-me." (S.Mat. XIX,21).
Não raciocina, não discute, não atenua a palavra de Deus. Jesus diz-lhe que se despoje de tudo para segui-lO: executa a ordem ao pé da letra, e, afrontando o respeito humano, a oposição dos homens e do próprio pai, expondo-se ao ridículo, à injúria e à miséria, realmente despoja-se de tudo, até, do manto; como vestimenta, conserva apenas uma túnica e um cordão, como livro, uma cruz. Jamais alguém levara tão longe a simplicidade. Bastou-lhe uma palavra do Evangelho para chegar a esse extremo, a essa loucura, como julga o mundo.
Desde então, Francisco nunca mais retrocedeu.
Num prodígio de abandono à Providência, não conhecido nos séculos passados, funda uma ordem religiosa baseada na renúncia universal e perpétua a tudo o que não é indispensável à vida, e, para sempre proíbe aos seus que possuam qualquer bem deste mundo. Chega até a demolir com as próprias mãos um convento que havia sido construído em desacordo com suas instruções.
É simples para com os superiores. Pede ao Sumo Pontífice para confirmar a indulgência da Porciúncula, que lhe fora concedida por revelação; e, quando o Papa a confirma, retira-se. O Papa é obrigado a chamá-lo para dar-lhe um atestado escrito do insigne privilégio que acaba de obter.
É simples com os irmãos; considera-se o último dentre eles. Quer que seus discípulos se chamem mínimos, isto é, os menores.
É simples com todas as criaturas. Como o primeiro Adão, em estado de inocência, fala aos pássaros, aos peixes, aos animais; exorta toda a natureza a louvar a Deus. Quanto a ele, vê Deus em todas as obras.
A alma de Francisco é, na verdade, uma alma de criança, alma límpida e transparente, que ignora o mal e tem horror a toda duplicidade; alma de pomba, em que se reflete com toda a perfeição a simplicidade do Evangelho.
Segui-o em todas as suas jornadas, através de seus múltiplos projetos, entre os religiosos de sua ordem. Não se apega a coisa alguma de humano ou de criado; tudo desdenha. Só vê, procurar e quer a Deus, Deus meus et omnia: "Meu Deus, sois o meu tudo”: esta é sua divisa e a essência de seu espírito. Tudo, para ele, nada significa; somente Deus é seu tudo e é único!
Jesus pobre, Jesus despojado de tudo, Jesus na cruz, no auge da miséria e do abandono, eis o constante objetivo de Francisco, sua única paixão! É sempre encontrado aos pés do Crucifixo, entre os braços e sobre o coração do Salvador. Só aspira a ser pobre e crucificado como Ele, a imolar-se como Ele, pela glória de Deus e salvação das almas; e, por insigne graça, merece receber em seu corpo e em seus membros as mesmas chagas que o Redentor do mundo.
Depois desse extraordinário milagre, realizado em sua carne e visível aos olhos de todos, Francisco, mais do que nunca, torna-se motivo de entusiasmo para o povo, que, de toda parte, ocorre para ele, apressa-se, quer vê-lo, tocá-lo, beijar-lhe os estigmas sangrentos.
E tão grande é sua simplicidade, seu esquecimento total de si, sua atenção dirigida só a Deus, que não procura fugir nem esquivar-se a tais homenagens.
Alma menos simples teria tido medo de si; teria receado o amor próprio e a vã complacência. Mas Francisco está de tal forma morto para o seu eu, que o homem não existe mais nele; cedeu todo o lugar a Deus. Francisco não mais se vê; só vê a Deus que deseja glorificar-Se em Sua criatura.
E exclamar "Meus olhos não vêem mais a criatura; toda minha alma clama pelo Criador; no céu e na terra, nada há que me seja doce; tudo se dissipa perante o amor do Cristo!”(3.º Cântico)
Quando alcança o mais alto cimo da simplicidade, só lhe resta deixar o mundo para entrar no céu.
Com efeito, Deus o chama para coroá-lo. Aproximam-se os últimos instantes. Para aliviá-lo, os irmãos tentam mudar-lhe a posição no miserável grabato(leito pequeno e pobre): ele recusa, quer permanecer de costas, para melhor contemplar o céu. E mais: acha que o grabato ainda é demasiado. Exige que o depositem no chão, para nada mais conservar dos bens deste mundo. Depois desse último ato de simplicidade, feliz por se parecer mais com Jesus crucificado, o corpo meio levantado e o rosto resplandecente de amor, entrega a alma a Deus; vai unir-se, por toda a eternidade, Àquele a quem unicamente procurou e amou na terra.
Igual simplicidade ultrapassa as forças normais. Somente Deus, por meio de graças extraordinárias, pode assim elevar uma alma escolhida. Que, ao menos, seja ela como um farol luminoso que vos conduza entre os escolhos e as tempestades deste mundo! Nessa esplêndida luz, compreendei melhor as palavras da Imitação: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade, exceto amar a Deus e só a Ele servir!”
Compreendei melhor quão necessária e grande é a simplicidade que, através dos bens passageiros e através de todas as criaturas, somente ao Criador vê e procura.
Que cada uma de vós seja simples, de acordo com o próprio estado e condição e em razão da graça que Deus lhe concedeu! Que cada uma se esforce por alcançar o grau de simplicidade determinado por Deus! A vossa simplicidade marcará a medida em que pertencereis a Deus na terra e em que gozareis de Deus no céu.
Quanto mais largas e poderosas forem vossas asas de pombas, mais crescereis em graça neste mundo e em glória no outro!
(A Simplicidade segundo O Evangelho pelo Monsenhor de Gibergues, 1945)
Fonte e Grifos: A Grande Guerra
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
domingo, 10 de julho de 2011
Francisco e a Pobreza
Enquanto viveu neste vale de lágrimas, o santo pai desprezou as míseras riquezas dos filhos dos homens e, ambicionando a mais alta glória, dedicou-se de todo coração à pobreza.
Vendo que era estimada pelo Filho de Deus e estava sendo desprezada por toda a terra, quis desposá-la com um amor eterno. Apaixonado por sua beleza e querendo unir-se mais estreitamente a sua esposa, como se fossem dois em um só espírito, abandonou não só pai e mãe mas tudo. Abraçou-a por isso em ternos abraços e não quis deixar de ser seu esposo em nenhum momento. Dizia a seus filhos que ela era o caminho da perfeição, o penhor e a garantia das riquezas eternas.
Jamais houve alguém tão ambicioso de ouro quanto ele de pobreza, e nunca houve guarda mais cuidadoso de um tesouro do que ele o foi da pérola evangélica. O que mais o ofendia era ver, dentro ou fora de casa, alguma coisa nos frades que fosse contrária à pobreza. Desde sua entrada na Ordem até à morte, sua única riqueza foram uma túnica, o cordão e as calças. Sua roupa pobre mostrava que riquezas estava amontoando. Por isso, alegre, seguro e livre para correr, tinha o prazer de ter trocado as riquezas que perecem pelo cêntuplo.
Tomás de Celano, Segunda Vida de São Francisco, A Pobreza, Cap. 25. Louvor à Pobreza
sábado, 18 de junho de 2011
S. Francisco descrito pelo Chesterton
São Francisco era magro, pequeno e vivaz - fino como um cordel, vibrante como a corda de um arco, e, nos seus movimentos, semelhante a uma flecha disparada. A vida toda ele foi um conjunto de mergulhos e de fugas: correndo atrás do mendigo, ou nu pela floresta, atirando-se para o estranho navio, ou se arremessando para a tenda do sultão e propondo atirar-se ao fogo. Exteriormente, deve ter-se assemelhado ao esqueleto muito fino e amarelado de uma folha outonal, a dançar eternamente adiante do vento; em verdade, porém, ele é que era o vento.
G.K. Chesterton, Biografia de Sto Tomás de Aquino.
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