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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Prova da Imortalidade da alma em Sócrates


FÉDON – Se não me engano, depois que concordamos com ele e que todos se manifestaram de acordo com a existência real de uma idéia a que corresponde cada coisa, sobre a participação no que se refere a estas idéias de tudo o que, não sendo elas mesmas, delas recebe a denominação, depois disso, ele perguntou:

- Se tal é, pois, a tua doutrina, será que, afirmando que Símias é maior do que Sócrates e menor do que Fédon, não afirmarás que há em Símias as duas qualidades, a grandeza e a pequenez?

- Sim.

- Mas, na realidade, acrescentou, quando dizes que Símias é maior do que Sócrates, concordas em que a verdade verdadeira não é precisamente a que decorre da expressão verbal, não é? E que, de fato, Símias é maior, não por sua própria natureza, isto é, como Símias, mas sim por motivo da grandeza que possui, não é assim? E, de outro lado, que ele é maior do que Sócrates não porque Sócrates seja Sócrates, mas somente porque Sócrates tem a pequenez relativamente à grandeza de Símias?

- É verdade.

- E também porque, se Símias é menor que Fédon, isso se verifica não porque Fédon seja Fédon, mas porque Fédon tem a grandeza em relação à pequenez de Símias?

- É isso mesmo.

- Desse modo, por conseguinte, a denominação que pertence a Símias é tanto “ser grande” como “ser pequeno”, pois ele está entre os dois e à grandeza de um, para que esta o supere, ele submete sua pequenez, enquanto ao outro o que ele apresenta é a sua grandeza, que ultrapassa a pequenez deste...

E, com um sorriso, acrescentou:

- Tenho o ar de falar como um redator de contratos. Mas, em todo o caso, as coisas são aproximadamente assim.

Cebes assentiu.

- E falo deste modo, continuou, porque desejo que partilhes da minha própria opinião. Ora, parece-me que não somente a grandeza por si mesma não deseja jamais ser grande e pequena ao mesmo tempo como, também, a grandeza que está em nós não quer jamais acolher a pequenez e muito menos ser superada, e, então, das duas uma: ou foge e cede o lugar quando o seu contrário, a pequenez, se aproxima dela, ou então, pelo próprio fato desta aproximação, ela cessa de existir. Quanto a permanecer firme no seu lugar e receber em si a pequenez, isso ela não quer absolutamente. Uma comparação: eu, uma vez que recebi a pequenez, continuando a ser aquele que precisamente sou, eu, este mesmo Sócrates, sou pequeno; ela, ao contrário, a grandeza, sendo grande, não pode tolerar ser pequena. E do mesmo modo também a pequenez que está em nós recusa-se sempre tornar-se grande ou ser grande; e assim também qualquer outro contrário, enquanto for o que precisamente é, recusa-se tornar-se ou ser ao mesmo tempo o seu próprio contrário. Mas, se lhe acontece o que acabo de dizer, ou ele se afasta, ou cessa de existir.

- Isso me parece de uma absoluta evidência, disse Cebes.

Um dos presentes (não me recordo quem) tomou então a palavra:

- Pelos deuses! Mas, de acordo com o que dizíeis antes, não se tinha chegado a um entendimento sobre o inverso precisamente do que se assevera agora? Não se afirmou que é do menor que nasce o maior, e do maior o menor? Que aquilo que realmente constitui a geração para os contrários é provir dos contrários? Ora, presentemente, o que se diz, parece-me, é que isso jamais se pode produzir!

Sócrates voltou a cabeça para o lado de onde vinha a voz.

- És um bravo, disse ele, pois nos lembraste isso! Não refletes, todavia, sobre a diferença existente entre o que se diz presentemente e o que se dizia antes. Efetivamente, o que se dizia é que da coisa contrária nasce coisa que lhe é contrária; mas agora se diz que é o contrário em si que não poderia tornar-se o seu próprio contrário, nem o que está em nós, nem o que está na natureza. Sim, meu caro, naquele momento tratava-se das coisas que têm em si os contrários e às quais damos o nome destes; mas agora se trata dos próprios contrários, cuja denominação, com a sua presença nas coisas qualificadas, passa a estas; e os contrários em questão, jamais, diremos, consentiriam em receber um dos outros a geração.

E, ao mesmo tempo, olhando Cebes, disse:

- Será que, por acaso, tu também, Cebes, te deixaste perturbar pela dúvida acerca daquilo de que falou aquele homem?

- Não, disse Cebes, de nenhum modo. Não é esse o meu caso. Isso, entretanto, não significa que não haja certas pequenas coisas que me perturbam.

- Estaremos de acordo, prosseguiu Sócrates, sem restrições, em que jamais o contrário será o seu próprio contrário?

- Perfeitamente, disse Cebes.

- Prossigamos então, disse ele. Faze-me o favor de examinar se, sobre isto, estamos de acordo. Há uma coisa que chamas quente e outra frio, não é?

- Sem dúvida.

- É isso, precisamente, a que chamas neve e fogo?

- Oh! Certamente que não, por Zeus!

- Então, o calor é coisa diferente do fogo, e o frio diferente da neve?

- Sim.

- Mas, então, suponho, segundo a tua opinião, jamais uma neve autêntica, que tiver, da maneira que antes dizíamos, recebido em si o calor, continuará a ser o que precisamente ela é, sendo neve com calor; pelo contrário, à medida que o calor aumenta, ela ou lhe cederá o lugar ou deixará de existir.

- Certamente.

- E o fogo, por sua vez, quando o gelo se aproxima dele, ou se afasta ou é destruído, sem resolver jamais, depois de haver recebido em si a frialdade, ser ainda aquilo que precisamente é, sendo fogo com frio.

- É exato, disse ele.

Pode acontecer, pois, continuou Sócrates, que em certos exemplos análogos tudo se passe de tal modo que não somente a idéia em si mesma tenha direito a seu próprio nome por uma duração eterna, mas que haja ainda outra coisa que, ainda que não sendo a idéia de que se trata, possua contudo o caráter desta, e isso pela inteira duração de sua própria existência. Mas eis ainda aqui casos que esclarecem o que digo. O ímpar tem sempre direito a não se separar deste nome de ímpar que lhe damos presentemente, não é assim?

- Sem nenhuma dúvida.

- E isto se passa com esta realidade somente (pois este é o problema que eu proponho) ou também com outra que, sem ser o próprio ímpar, todavia, usa de direito sempre o seu nome, junto ao próprio nome, pois sua natureza é tal que o ímpar jamais a desacompanha? Ora, digo eu, é o caso que se passa com o três, e com outras coisas. Considera o caso do três: não és de opinião que tanto o seu próprio nome deve sempre servir para designá-lo como o do ímpar, ainda que o ímpar não seja a mesma coisa que o três? Pois bem. Entretanto, se essa é a natureza do três, ela é também a do cinco e da metade inteira da série dos números, e, ainda que não sendo a mesma coisa que o ímpar, cada um deles é sempre ímpar. O dois, de outro lado, e o quatro e a totalidade ainda da outra fileira da numeração não são a mesma coisa que é o par, e contudo cada um destes números é sempre par. Concordas com isso, ou não?

- Como não concordar? respondeu ele.

- Pois bem, continuou Sócrates, presta atenção agora no que pretendo demonstrar. Eis aqui: evidentemente, não são somente estes primeiros contrários que não se recebem uns aos outros; há também todas as coisas que, sem serem mutuamente contrárias, possuem sempre estes contrários e que, verossimilmente, não receberiam também tal qualidade, que seria o contrário da que existe neles; mas, à aproximação desta qualidade, deixam de existir ou cedem o lugar. Não diremos, em relação ao três, que ele cessará de existir, que sofrerá qualquer vicissitude, mas que não suportará, continuando a ser três, tornar-se par?

- É absolutamente certo, disse Cebes.

- É certo também, disse Sócrates, que o dois não é o contrário do três?

- Certamente que não.

- Não são, pois, somente as idéias contrárias que não suportam a aproximação uma da outra; mas há também outras coisas que não suportam a aproximação dos contrários.

- É a própria verdade, disse Cebes.

- Queres, então – continuou Sócrates – que determinemos, se formos capazes, de que espécie são estas últimas coisas?

- Oh! Certamente.

- Não seriam aquelas, Cebes, que, se qualquer outra coisa conseguem dominar, constrangem essa coisa não somente a possuir a sua própria natureza, mas também a de um contrário que tem sempre um contrário?

- Que dizes?

- O que dizíamos há apenas um instante. Vejamos: sabes bem que tudo aquilo que sofre o domínio da natureza do três não é necessariamente apenas três, mas também ímpar.

- É exato.

- Por conseguinte, dizemos nós, a uma coisa da mesma espécie do três não poderá jamais sobrevir uma natureza tal que se opusesse como contrário ao caráter daquela que produz o três.

- Não, certamente.

- Ora, a idéia que, como se sabe, o produz é sem dúvida a do ímpar?

- Sim.

- E não é contrária a esta a idéia do par?

- Sim.

- Ao três, por conseguinte, jamais sobrevirá a natureza do par?

- Não, certamente!

- Em conseqüência, o par não é o atributo do três.

- Não é o seu atributo.

- Ímpar é, pois, a idéia do três.

- Sim.

- Eis aí, em suma, o que eu chamava determinar de que espécie são as formas que, sem serem o contrário de tal outra, não recebem todavia esse contrário. Como se vê, no exemplo citado, o três, não sendo o contrário do par, não o recebe por isso, porque traz sempre consigo o contrário do par; como o dois, o contrário do ímpar; o fogo, o contrário do frio; e outras numerosas formas. Pois bem! Vejamos agora, se aceitas esta definição: não é somente o contrário que não recebe em si o contrário, mas também esta forma que leva consigo, vá para onde for, um contrário; essa forma, digo, que leva consigo um seu contrário não poderá jamais acolher em si o contrário do contrário que por ela é levado. Procura lembrar-te: não é um mal ouvir repetir a mesma coisa. O cinco não receberá nele a natureza do par; nem o dez, que é o duplo, a do ímpar. O duplo, também por si mesmo, é contrário de outra coisa; entretanto, ele jamais receberá em si a natureza do ímpar. E, assim, uma fração como o 3/2 e todas as outras deste gênero, como 1/2, que têm por denominador o 2, não recebem a idéia do inteiro; e também não recebem frações como 1/3 e todas as outras do mesmo gênero que têm por denominador o 3. Suponho que hajas acompanhado o meu raciocínio e partilhes da minha opinião.

- Acompanhei o teu raciocínio e sou inteiramente da tua opinião, disse Cebes.

- Agora, disse Sócrates, voltemos ao ponto de partida e fala-me sem empregar para responder as mesmas palavras da minha pergunta, mas tomando-me como exemplo. Eu me explico: ao lado da resposta de que eu falava, da segura resposta a que aludi primeiramente, eu percebo, à luz das nossas últimas palavras, uma outra certeza. Se me perguntasses: “Que é que, apresentando-se no corpo, fará com que ele fique quente?”, eu não te daria a segura resposta em questão, segura, mas não sábia: “É o calor que o fará”, mas sim outra mais hábil, tirada daquilo que acabamos de dizer: “É o fogo que o fará”. E, ainda, se perguntares o que é que, apresentando-se num corpo, fará com que ele fique doente, eu não direi também que é a doença, mas que será a febre. Assim também: “Quem é que apresentando-se em um número par fará com que ele fique ímpar?”; eu não responderei que é a imparidade, mas que será a unidade. E assim por diante. Vê, agora, se compreendes o que quero dizer:

- Sim, compreendo-o bem, disse Cebes.

- Então, responde: o que é que, apresentando-se em um corpo faz com que ele seja vivo?

- É a alma, disse ele.

- E será sempre assim?

- Como negá-lo?

- Assim, a qualquer objeto de que se apodere, a alma traz consigo a vida?

- É o que acontece sempre, respondeu ele.

- Ora, há um contrário da vida ou não?

- Há, respondeu ele.

- Qual?

- A morte.

- Não é verdade que a alma jamais deverá receber nela o contrário, o contrário daquilo que, por si, ela traz sempre consigo, e que a este respeito o acordo deve resultar do que se disse precedentemente?

- Perfeitamente, respondeu Cebes.

- E que se segue? Que nome dávamos há pouco àquilo que não recebe em si a natureza do par?

- Ímpar, disse ele.

- E o que não recebe em si o justo? E o que não é capaz de receber em si o culto?

- Inculto, disse; e o primeiro: injusto.

- Pois bem; e aquilo que não pode receber em si a morte, como o chamamos?

- Imortal, disse.

- A alma não recebe em si a morte, não é?

- Não.

- A alma é, então, uma coisa imortal?

- É uma coisa imortal.

(Nota: Primeira conclusão – a alma não recebe em si a morte. Alma não-viva é coisa tão contraditória como febricitante não-quente. Ela é, pois, não-mortal.)

- Prossigamos. Até aqui, tudo ficou bem provado; ou não te parece que assim seja?

- Tudo foi muito bem exposto, Sócrates.

- E que se segue, Cebes? continuou ele. Se para o ímpar era uma necessidade ser indestrutível, seria possível que o três não fosse indestrutível?

- Como não o haveria de ser?

- E, se também para o não-quente fosse uma necessidade ser indestrutível, seria que, todas as vezes que sobre a neve se aplicasse o quente, a neve não se afastaria intata, sem liquefazer-se? Pois, com certeza, a neve não poderia deixar de existir, e, de outro lado, ela não poderia suportar, ficando firme em seu lugar para receber o calor.

- É a verdade, disse Cebes.

- Do mesmo modo, penso, se fosse para o não-frio uma necessidade ser indestrutível, jamais o fogo, no caso de ser atacado por algo frio, extinguir-se-ia; ele também não o cessaria de existir, mas escapar-se-ia, pondo-se a salvo pelo afastamento.

- Isso era necessário, disse ele.

- Não é também uma necessidade, continuou Sócrates, exprimir-se deste modo a respeito do imortal? O imortal é também indestrutível? Neste caso, não será possível à alma, quando lhe sobrevenha a morte, cessar de existir. Pois a alma – é uma conseqüência certa do que foi dito antes – não receberá a morte, e não será alma morta; do mesmo modo como o três, nós o dissemos, não será par e muito menos o ímpar; e o fogo também não será frio, e muito menos o calor que está no fogo. “Mas que impede”, poderá alguém perguntar, “não que o ímpar se torne par com a aproximação deste, sobre o que há se chegou a acordo, mas que, morrendo este ímpar, em seu lugar se gere o par?” Em resposta a tais palavras, nós não deveríamos dizer que o ímpar não cessa de existir: eis que o não-par não é indestrutível; pois, se chegássemos a acordo, ser-nos-ia fácil responder que, ante a aproximação do par, o ímpar e o três vão-se embora e se distanciam. Para o caso do fogo e do quente, como para todos os outros casos, tal teria sido a nossa resposta, não é?

- Certamente.

- Por conseguinte, também agora, se, no que se refere ao imortal, estamos de acordo com que ele também seja indestrutível, a alma, além da não-mortalidade, teria também a indestrutibilidade. Se não estivermos de acordo, teremos que recomeçar.

- Recomeçar? De nenhum modo, pelo menos em relação a este ponto! Portanto, dificilmente se poderia admitir a existência de algo que fosse refratário à destruição, se fosse preciso admitir a destruição para o imortal, ao qual pertence a eternidade!

(Nota: ora, não-sadio e não-frio podem ser destruídos pelos seus contrários, de modo que a febre ceda e o fogo se extinga. Mas não-mortal é por definição indestrutível. A alma é assim (segunda conclusão) indestrutível.)

- Todavia, disse Sócrates, acerca da Divindade, assim como da própria idéia da vida, e de tudo o mais que possa existir de imortal, suponho que ninguém deixará de admitir que isso jamais será destruído.

- Ninguém, certamente, por Zeus! disse Cebes. Nem homens, nem, por mais fortes razões, deuses!

- E se também o imortal não pode ser destruído, a alma, que é imortal, não será também indestrutível?

- Necessariamente.

- Quando, em conseqüência, a morte chega ao homem, é, como parece, o que há de mortal nele que morre enquanto o que ele possui de imortal vai, salvo da destruição, cedendo o lugar à morte.

- É evidente.

- Por conseguinte, Cebes, mais do que qualquer outra coisa, a alma é não-mortal e não pode ser destruída, disse Sócrates. É pois certo que as nossas almas habitarão o Hades.

- Sem nenhuma dúvida, disse Cebes. Quanto a mim, Sócrates, nada tenho a acrescentar depois do que disseste, nem nenhum motivo de incerteza em relação a esses raciocínios. Se houver, entretanto, alguma coisa que Símias, aqui presente (ou qualquer outro), tenha a dizer, ele não deverá permanecer silencioso. Eu me pergunto, então, se haverá outra ocasião, a não ser a que agora se oferece, em que se poderá falar ou ouvir falar de questões semelhantes!

- Pois bem, respondeu Símias. Eu também não tenho mais motivo para duvidar, pelo menos em relação ao que foi alegado. Todavia, a magnitude do problema de que tratamos e a desconfiança em que tenho esta nossa fraqueza humana obrigam-me a guardar em meu foro íntimo alguma incerteza a respeito destas teses.

- E não é isso somente, Símias, disse Sócrates. Mas a justeza de tuas palavras aplica-se também às nossas premissas: seja qual for o crédito que elas mereçam de tua parte, elas não merecem menos, por isso, um exame mais detido. Se vós todos conseguirdes apreendê-las o bastante para vossa persuasão, acreditarei, então, que passei a seguir o raciocínio, pelo menos da melhor forma possível aos homens. E, quando estiverdes sinceramente convencidos, não tereis então de levar mais adiante as vossas indagações.

- É a própria verdade, disse ele.


Há, entretanto, continuou Sócrates, pelo menos uma coisa sobre a qual vós todos deveis refletir: se a alma é verdadeiramente imortal, ela precisa do nosso cuidado, não somente durante o tempo que dura o que chamamos vida, mas durante a totalidade do tempo. E, depois do que se disse, não cuidar dela, segundo parece, seria um grave perigo. Certamente, se a morte fosse uma libertação de todas as coisas, que fortuna não seria para os maus, os quais, morrendo, ao mesmo tempo em que se sentiriam livres do corpo, sê-lo-iam também, com a alma, da sua própria maldade! Mas, na realidade, agora que a alma se revelou imortal, não há nenhuma saída para seus males, nenhuma outra salvação, senão a de se tornar a melhor possível e a mais sábia. Portanto, a alma nada mais leva consigo, ao chegar ao Hades, do que a sua formação moral e seu modo de vida, que é justamente, segundo a tradição, o que mais beneficia ou prejudica a quem morre, desde o começo de sua viagem para o além.

PLATÃO. Fédon. Trad. Miguel Ruas. São Paulo: Martins Claret, 2002. p.84-93.

domingo, 29 de julho de 2012

"Só no Céu haverá alegria sem anuviamento"


Bonitos para mim eram os dias em que meu "rei querido" me levava à pescaria consigo. Tinha tanto amor ao campo, às flores e às aves! Tentava às vezes pescar com minha varinha, mas de preferência ia sentar sozinha na relva florida. Meus pensamentos aprofundavam-se bastante e, sem saber o que era meditar, minha alma mergulhava em autêntica oração... Ouvia ruídos ao longe... O murmúrio do vento e até a música indecisa de soldados, cuja sonoridade me chegavam aos ouvidos, melancolizavam suavemente meu coração... A terra parecia-me lugar de degredo, e eu sonhava com o Céu... A tarde passava rápida, e dentro em pouco era hora de regressar aos Buissonnets. Antes de partir, porém, tomava o lanche trazido no meu cestinho. Mudara de aspecto, a linda merenda com geléia de fruta que me tínheis preparado. Em lugar da cor ativa, já não via senão uma ligeira mancha cor de rosa, toda ressequida e amarfanhada... Então a terra se me apresentava mais tristonha ainda, e compenetrava-me de que só no Céu haverá alegria sem anuviamento... 

 Sta Teresinha de Lisieux, História de Uma Alma

"Não quero ser santa pela metade"


"Mais tarde, quando se me tornou evidente o que era perfeição, compreendi que para se tornar santa era preciso sofrer muito, ir sempre atrás do mais perfeito e esquecer-se a si mesmo. Compreendi que na perfeição havia muitos graus e que cada alma era livre no responder às solicitações de Nosso Senhor, no fazer muito ou pouco por Ele, numa palavra, no escolher entre os sacrifícios que exige. Então, como nos dias de minha primeira infância, exclamei: "Meu Deus, escolho tudo". Não quero ser santa pela metade. Não me faz medo sofrer por vós, a única coisa que me dá receio é a de ficar com minha vontade. Tomai-a vós, pois "escolho tudo" o que vós quiserdes" 

 Sta Teresinha de Lisieux, História de Uma Alma

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Sou o que sou diante de Deus, e nada mais


A sinceridade é o ato pelo qual me coloco a mim mesmo sob o olhar de Deus. Não há sinceridade de outro modo. Pois somente para Deus não há mais espetáculo, não há mais aparência. Ele próprio é a pura presença de tudo o que é. Quando me volto para ele, nada mais conta em mim, a não ser o que eu sou. 

Pois Deus não é apenas o olho sempre aberto ao qual nada posso dissimular do que sei de mim mesmo, ele é a luz que atravessa as trevas e que me revela tal como sou, sem que eu soubesse que era. O amor próprio que me ocultava de mim mesmo é uma roupa que cai de repente. Um outro amor me envolve, tornando minha alma transparente.

Enquanto a vida persiste em nós, conservamos ainda a esperança de mudar o que somos ou de dissimulá-lo. Mas quando nossa vida é ameaçada ou está perto de acabar, somente o que somos importa. Só diante da morte somos perfeitamente sinceros, porque a morte é irrevogável e dá à nossa existência, completando-a, o caráter do absoluto. É o que exprimimos ao imaginar o olhar de um juiz a quem nada escapa e que, logo após a morte, vê a verdade da nossa alma até nos seus meandros mais remotos. E o que significa esse olhar senão a impossibilidade em que estamos de acrescentarmos algo ao que fizemos, de nos evadirmos num novo futuro, de distinguirmos ainda nosso ser real do nosso ser manifesto e, no momento em que a vontade se torna impotente, de não abarcarmos num ato de contemplação pura esse ser agora realizado, ele que até então era apenas um esboço sempre sujeito a retoques?

Não basta à sinceridade evocar a Deus como testemunha, ela deve evocá-lo também como modelo. Pois a sinceridade não é somente ver-se em sua luz, mas realizar-se conforme sua vontade. Que sou eu, senão o que ele me pede para ser? Mas uma distância infinita logo se revela a mim entre o que faço e esse poder que está em mim e que meu único desejo é exercer: é que não cesso de faltar a ele e, na medida mesma em que falto, não sou mais para mim e para outrem senão uma aparência que um sopro dissipa e que a morte abolirá.

Tal é o verdadeiro sentido que devemos dar a estas palavras: "Todo aquele, portanto, que se declarar por mim diante dos homens, também eu me declararei por ele diante de meu Pai que está nos Céus. Aquele, porém, que me renegar diante dos homens, também o renegarei diante de meu Pai que está nos Céus" (Mt 10,32-33).

Louis Lavelle

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Estamos a caminho de algo grandioso...


O mundo, a vida, a existência, fazem parte de um belíssimo plano, de um fenomenal projeto. E nós, tão pequenos, temos a honra de poder fazer parte disso. Que coisa imensa! Todos assistiremos ao desfecho da história. Saberemos que, aquilo que críamos com tanta hesitação, era verdade. E quereremos voltar para viver tudo de novo com mais firmeza. Naquele dia, na vida totalmente desperta, tudo nos ficará claro; "então, não me perguntareis mais coisa alguma", disse Ele. Todos estamos rumando para lá. Vamos mais ou menos distraídos com as nossas coisas, caminhamos como ébrios.. pobre condição a nossa. Mas um dia acordaremos e, então, que belo!... Queira Deus que, naquela ocasião, nós tenhamos cultivado a Sua amizade.

sábado, 26 de novembro de 2011

Bendita seja a dimensão do mistério


O Pe. Lima Vaz, grande metafísico, escreve que há, na história, dois grandes movimentos da humanidade: um de ascensão que se identifica com a abertura à transcendência, isto é, o olhar voltado àquilo que está para além do mundo. E há o movimento decadente, o da imanência, aquele em que o mundo se fecha em si mesmo, numa auto-suficiência tola. Do primeiro movimento, o transcendente, fazem parte a Filosofia Grega nos seus maiores expoentes, a Filosofia Medieval e a Religião Cristã. Do segundo movimento haverá uma prevalência na modernidade. Ao excluir o campo do Mistério, cai-se num tipo de absolutização da própria história e a redução da razão última do mundo ao mero curso dos acontecimentos. É Hegel, Feuerbach, Marx, Darwin, Freud, etc, etc. Neste tipo de "filosofia", termina-se por fazer o racional descender do irracional.

Também na nossa vida cotidiana, estamos tão acostumados ao modo de visão imanentista, que, até sem perceber, caímos em atitudes bastante subjetivistas. Fazemos mui facilmente do nosso ego o centro da realidade e reduzimos tudo quanto há à nossa medida pequena. Se aderimos a uma religião, mal aceitamos que Deus ultrapasse o nosso entendimento na prática. Nós aceitamos que Ele corresponda ao nosso conceito de supra-conceitual, ainda que não permitamos que, de verdade, Ele nos escape. Não raro, escolheremos seguir um deus à nossa imagem e semelhança e interpretaremos as verdades de fé sempre ao nosso modo. Aceitaremos aquilo que nos seja confortável e rejeitaremos o que não couber nos nossos interesses.

Até defenderemos a idéia do esvaziamento, mas sem que isto implique um real esvaziamento da nossa parte. No fundo o que nos move é o nosso próprio interesse, o nosso próprio benefício, a nossa própria reputação. Faremos tudo isto talvez sem dar-nos conta de como é repugnante essa nossa instrumentalização da Fé. Apontaremos para cima mas, na verdade, estaremos indicando o caminho para o nosso umbigo, que supomos ser a régua última de toda a existência e que, portanto, deve bem estar localizado lá em cima, no centro do universo.

Se empreendemos um projeto de conversão, começaremos com o nosso costume tosco de prever por quais caminhos teremos de passar e quais os estágios que teremos de alcançar. E, depois, começamos a andar, supondo que tudo já foi exaustivamente esquadrinhado por nós e, portanto, já nos é previamente conhecido. Não permitiremos que nada escape à nossa descrição sem que seja, na mesma medida, recusado, expurgado.

Como lidar com um Deus que absolutamente nos ultrapassa? Que é transcendente? Com este Deus não saberemos lidar e, portanto, não O entenderemos, nem O amaremos. Melhor aquele outro, fruto da nossa idéia, e que cabe direitinho na forma que nós compomos com a matéria prima da nossa soberba.

De Jesus mesmo, se continuamos agindo desse modo, nada saberemos, ainda que usemos o Seu nome para chamar o deus que nós mesmo inventamos. E passamos a vida sem aceitar o mistério, fazendo de conta que Deus está felicíssimo com tudo quanto fazemos e que, no fim, Ele é bonzinho segundo o nosso conceito de bonzinho. Ele deve identificar-se totalmente - é o que achamos - com os nossos valores e terminamos, veja só, elevando os nossos próprios critérios ao nível divino. De repente, somos o que há de mais elevado no mundo e isto sem termos feito sequer muito esforço. Eis aonde leva a "religião ao meu modo".

O Gustavo Corção, grande escritor brasileiro, escrevia com profundo senso: "uma das razões pelas quais o catolicismo me encantou é que ele era uma religião que não fora feita por mim". Era algo a que ele tinha de se adaptar ou, usando um termo mais apropriado neste terreno, a que ele tinha de se converter. Para que esta conversão se desse, era preciso que ele negasse a si mesmo, e não que negasse a religião. Se ele se nega, está a fazer justamente o que Jesus disse - quem quiser me seguir, negue-se - e a abrir-se a algo que é maior que ele e, portanto, vai rumando para a liberdade dos vastos horizontes. Se, ao contrário, ele se afirma a si mesmo ao ponto de negar o que na religião lhe desagrada, ele está, de novo, se fechando na imanência que nada mais é do que prisão, engano, redução de tudo quanto existe à própria medida, e eleição de si mesmo como redentor do mundo. Esta via do engodo foi empreendida, primeiramente, por Adão. E foi para nos libertar disto que o Cristo se fez carne e rebaixou-Se à nossa pobre condição para que pudesse nos elevar à Sua.

É como dizia S. João da Cruz: "O que Deus pretende é fazer-nos deuses por participação, sendo-o Ele por natureza".

Bendita seja a dimensão do Mistério que, acima de nós, abre uma via sem fim, sem limites e que, então, não obedece a qualquer tentativa de antecipação. Bendito seja o mistério que nos liberta de nós mesmos!

"O que o olho humano não viu, o que o ouvido não ouviu, o que o coração não imaginou... eis o que Deus tem preparado para os que O amam..."

Bendita seja a dimensão do Mistério, o oceano abismal e inesgotável de Deus.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Primavera Chegando...



Quando uma flor se agita aos primeiros raios do sol, é uma suave lição, que podemos aproveitar; ela indica-nos um outro sol, cuja luz nos aquece o coração; quando se apraz crescer entre as urzes, ensina-nos a humildade e a vida oculta; quando nos olha e parece suplicar-nos que a reguemos a fim de reparar a vida quase extinta, ensina-nos a solicitar também o verdadeiro orvalho das almas. Enfim quando pende e morre, faz-nos sinal, e recorda-nos que a nossa vida será em breve descolorida; mostra-nos que a existência da flor e a do homem, que pareciam tão diferentes na duração, se confundem perante a eternidade, em que mil anos são como um dia.

Monsenhor Landriot

domingo, 24 de abril de 2011

Ressuscitou! Que alegria!


Enfim, chega o Domingo. As mulheres, ainda pesarosas, levantam-se cedo e rumam para o sepulcro onde, dias atrás, tinham sepultado Jesus. Além dos cuidados comuns aos judeus com os corpos dos defuntos, talvez o fato de se aproximarem do corpo d'Ele mais uma vez como que pudesse, quem sabe, estender um pouco aquela primavera que tinham vivido junto àquele terno nazareno.

Mas a saudade era tamanha que sequer notaram que aquele não era simplesmente um novo dia, mas o primeiro dia de uma nova criação. A dor de seus corações lhes impedia de notar que, naquela manhã, toda a terra como que respirava outros ares, como se invadida por um sopro de vida, à semelhança de uma criança perdida que vê, de repente, atrás de si a presença tão conhecida e única do seu pai.

E lá foram elas. De repente, viram o túmulo vazio e a pesada pedra movida da entrada. Roubaram o Seu corpo? Mas quem poderia ter feito isto? Suposições meramente humanas e de horizonte estreito. Dois seres celestiais, presentes à cena, anunciam com grande alegria a novidade: "por que procurais entre os mortos Aquele que vive? Ele não está aqui... ressuscitou como havia dito!"

E, então, se fez dia também naquelas almas...

A alegria de sabê-Lo vivo? Como poderei descrever? Não posso...

Viram-No depois. Nada era mentira... Tudo quanto Ele tinha falado era a mais pura e concreta verdade. Que alegria! Que alegria! Que alegria! Só posso dizer que aquela alegria era ainda prelúdio de uma vindoura. "E ninguém vos tirará a vossa alegria!" Ah... que nobre esperança! E esta é a alegria de um amor real: o amor dAquele que crucificaram e que agora vive!

Bendito seja Deus! Bendita seja a Cruz pela qual fomos reconciliados com Deus! Ó mistério dos mistérios! Ó alegria verdadeira! Mil graças sejam dadas a Nosso Senhor!

"Eis que estareis convosco até o fim dos tempos..."

Ahhh...

Dizia S. Francisco de Assis: o cristão é aquele que não consegue esconder a alegria por ter descoberto tão precioso tesouro...

Que assim seja.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Beleza divina


A beleza divina, infinita em plenitude, é algo que nós não podemos sequer imaginar. Toda a beleza existente nas criaturas é, mesmo, uma participação daquela beleza, mas, Deus transcende estas belezas participadas infinitamente a ponto de não ser parecido com elas.

É preciso muita delicadeza para contemplar a beleza divina. Dizia Plotino que, a menos que os olhos humanos se transformem em sol, eles não poderão contemplar dignamente a maior estrela da nossa via láctea. Do mesmo modo, somente se nos tornarmos de algum modo semelhantes a Deus é que poderemos apreciar algo desta beleza sublime que é Ele.

O mundo, embotado em seus vícios e em sua sujeira, esqueceu de Deus e cegou-se à Sua luz. Mas o Sangue adorável de Cristo cura a nossa cegueira e nos permite vislumbrar algo daquelas paragens, daquela beleza que, uma vez contemplada, nos extasiará de amor.

Por vezes, as criaturas, alguma música, alguma coisa torna-se como uma janela por onde, de repente, nos apercebemos de algo daquela luz sutil. E, por um átimo em que somos contemplativos, o nosso coração parece retomar sua saúde, uma saúde que não suspeitávamos que tivéssemos, e nos vemos abrasados por algo que, embora possamos nomear, é-nos, porém, indefinido, como uma luz obscura, como uma beleza escondida que fulgiu por mínimo segundo e que a nossa alma, eternamente à espera, naturalmente abraçou e suspirou.

Ahh... Se soubéssemos...
Não percamos a oportunidade de contemplar a Deus no céu. Tudo diante disso é nada...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Um arco íris no céu...


Neste exato momento, um arco-íris no céu me moveu, primeiramente, à sua contemplação. Para tal, me levantei de meu acento e me dirigi à porta a fim de vê-lo melhor. Como se sabe, este sinal simboliza a Primeira Aliança que Deus fez com a humanidade. Quando os homens supunham que Deus estava irado com eles, Deus põe o seu "arco", com o qual se acreditava fizesse-lhes guerra, no céu. Tal ato, portanto, simboliza o fim das tensões entre Deus e a humanidade e estabelece, no horizonte da história, a expectativa da reconciliação definitiva.

Ora, a Primeira Aliança naturalmente nos faz lembrar da Segunda e Eterna Aliança que Deus fez com a humanidade por Seu Filho Jesus Cristo. Se a Primeira estabelecia uma expectativa, a Segunda trouxe a realização da espera.

Jesus, tendo vindo ao mundo, tendo vindo habitar em nosso meio, tendo vindo ser um de nós, é um sinal muito mais eficaz do fim da inimizade divina do que um símbolo, ainda que muito sugestivo, impresso no céu. Se este seria efeito fugaz da presença da divindade, em Jesus temos a própria divindade fazendo sua tenda entre nós.

Tal reconciliação definitiva se faz notar de forma muito singular já no batismo do Senhor, quando S. João, o Precursor, vê os céus se abrindo. Como se sabe, até a Redenção operada por Jesus, o Céu estava fechado aos homens. Agora, porém, os céus se abrem, como quando um amigo abre sua casa ao outro amigo. Era o início de novas relações entre Deus e os homens.

Contemplar o arco-íris, então, me faz lembrar o esponsal entre Cristo e a natureza humana. Em Cristo se realiza o desejo da enamorada dos Cânticos: "encontrei Aquele que meu coração ama, e não O largarei".

O Novo Arco-Íris também deve mover-nos. A ordem "vem e segue-me" exige que nos levantemos e empreendamos viagem. Primeiramente, porém, contemplamos Aquele que nos faz aquele chamado e é nesta contemplação que nos apaixonamos... "Quanta razão hé de te amar", suspira a Esposa dos Cantares... E como o amor é aquilo que, posto na vontade, faz movê-la em direção a quem se ama, ao contemplarmos Nosso Senhor, somos movidos a seguir-lhe os passos. Dizia Sto Afonso: "O amor faz semelhante o que ama ao amado" e S. Pedro Julião Eymard: "o amor, forçosamente, quer imitar".

Como eu dizia acima, para melhor ver o arco íris, dirigi-me à porta. Assim também, quem quer que deseje contemplar Jesus mais de perto, deve dirigir-se à porta do Céu, a Virgem Santíssima, que é Quem lho apresenta. Também os reis magos, na viagem a Belém, foram apresentados ao Menino Deus por Aquela Bendita Mulher. Não é diferente hoje. Esta porta é a via direta para Deus. É ainda aquela porta dos Cânticos onde a esposa pressente a presença do Amado. Apenas este passa a Sua mão na maçaneta da porta, e a alma amante estremece.

Maria, a Virgem Puríssima é aquela que, pela Sua saudação, faz Isabel e João Batista ainda em seu ventre pressentirem a presença do Verbo Divino  e, com isto, estremecem...

Amar a Cristo, contemplar-Lhe a beleza, seguir-Lhe os passos e, para tal, dirigir-me àquela Porta bendita... Enfim, unir-me neste esponsal e, então, poder dizer: "encontrei Aquele que meu coração ama e não o largarei..."

Que a Virgem Maria, Mãe do Verbo, nos conduza pela mão.

sábado, 7 de novembro de 2009

Que alegria ouvir uma pregação sobre os Novíssimos!!!


O Pe. Iran não cessa de me surpreender. Ultimamente, graças a Deus, ele tem se apresentado sempre de batina, tem falado expressamente do "Santo Sacrifício da Missa" e, ontem, para minha feliz surpresa, o ouvi pregar sobre os Novíssimos!!! Falou claramente sobre o Inferno e que há sim quem para lá rume; tratou do Purgatório e disse que lá há quem ficará até o fim dos tempos.. enfim, falou da alegria do Céu...

Ah.. Que bom é ouvir uma pregação com tal clareza, com tal fidelidade ao ensino da Igreja, sem as misturas ideológicas que se costumam fazer, sem as manipulações de sentido das passagens evangélicas... Ah padre, fiquei muito feliz...

Que Deus o guarde e santifique, para a Glória do Pai, para a sua salvação e para o bem das almas ao senhor confiadas...

Arigato Gozaimasu!

Fábio.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Os sofrimentos e a vida eterna - Imitação de Cristo


Jesus Cristo - Filho, não esmoreças nos trabalhos que empreendeste por Meu amor, nem desanimes com as tribulações, mas em todas as circunstâncias a Minha promessa te deve dar força e alegria.

Posso, com efeito, recompensar-te acima de todas as medidas e limites. Não trabalharás aqui durante muito tempo, nem sempre viverás oprimido pelos sofrimentos. Espera um pouco, e verás quão depressa acabam os males.

Chegará a hora em que cessarão todas as fadigas e angústias. Tudo aquilo que passa com o tempo é pouco e breve.

Faz com cuidado o que deves fazer; trabalha conscienciosamente na Minha vinha; a tua paga serei Eu.

Escreve, lê, suspira, guarda silêncio, fala, reza, sofre varonilmente a adversidade; a vida eterna bem merece ser comprada por estes e por outros combates ainda maiores.

A paz há-de chegar no dia que só o Senhor conhece, e não haverá mais dias e noites, como no tempo presente, mas será uma luz eterna, um esplendor infinito, uma paz inalterável, um repouso seguro.

Então não dirás: "Quem me libertará deste corpo de morte?" (Rm 7,24). Nem exclamarás: "Ai de mim, que se prolongou o meu exílio" (Sl 119,5). Porque a morte será destruída e a salvação será eterna ; não haverá mais ansiedade, mas alegria bem-aventurada, doçura da sociedade celeste e da formosura do Paraíso.

Oh! Se visses as coroas imortais que os Meus Santos possuem no Céu, e a glória de que agora gozam aqueles que neste mundo eram desprezados e até julgados indignos de viver! Certamente prostrar-te-ias até ao chão e preferirias antes estar sujeito a todos os homens do que mandar apenas num.

Não cobiçarias os dias felizes desta vida; pelo contrário, quererias ser atribulado por amor de Deus e considerarias grande vantagem ser tido por nada entre os homens.

Oh! Se experimentasses estas coisas e elas penetrassem até ao fundo do teu coração, como ousarias queixar-te uma vez que fosse?

Não te parece que para alcançar a vida eterna todas as penas se tornam toleráveis? Será pouca coisa perder ou conquistar o reino de Deus?

Levante os olhos para o Céu. Ali é onde Eu habito com todos os Meus Santos; eles travaram na terra grandes combates; agora regozijam-se e estão cheios de consolação e segurança; agora descansam em paz e permanecerão para sempre comigo no reio de Meu Pai.

Alma - Ó beatíssima mansão da cidade celestial! Ó dia luminoso da eternidade que nenhuma noite obscurece, mas que sempre brilha com os raios da soberana Verdade! Ó dia sempre alegre, sempre tranquilo, livre de qualquer vicissitude!

Quem me der que despontasse já este dia e findassem todas as preocupações materiais! Com efeito, este dia já resplandece para os Santos com a sua perpétua e esplêndida luz; porém, para nós, só se vislumbra ao longe e como através de um espelho.

Imitação de Cristo, Livro III, Cap XLVII.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Rever a Deus



O filósofo francês e católico Léon Bloy testemunha, num de seus escritos, que algo que o emociona profundamente é a idéia de que um dia irá rever a Deus. Oh.. que esperança benfazeja! Se é a sede o que nos faz caminhar neste deserto, a promessa da Água que nos saciará move-nos violentamente e, num misterioso paradoxo, ao mesmo tempo em que dá-nos como que um antegozo daquele dia, também nos aviva a ferida da saudade.

No entanto, nosso bondoso Deus não quis esperar tanto para nos rever. Claro que, naquela futura ocasião, a visão será face a face e a saciedade será completa. Desde já, porém, dá-nos a graça de revê-Lo. "Eis que estou todos os dias convosco; podes rever-me quando quiseres"... "Buscai a Deus enquanto Ele se deixa encontrar"... Nosso Senhor se deixa ver e rever... Ah, se soubéssemos que dom maravilhoso é poder olhá-Lo enquanto reis e profetas ansiaram por esta experiência.

Daqui a pouco estarei indo à Santa Missa, e então, pela graça de Deus, me será dado rever, com os olhos da Fé, o amabilíssimo Jesus. Então, serei como que aceito aos pés da Sua cruz onde, quieto e recolhido, O olharei.

A Santa Missa é, já, o antegozo do Céu; é o Céu na terra... É, de fato, onde podemos rever a Deus, embora ainda pela Fé. Isto, no entanto, não diminui a Presença. Aprendamos a olhá-Lo, a amá-Lo, a estar com Ele.

S. João, no seu Evangelho, nos diz que o Filho repousava no seio do Pai; por esse motivo, o Filho, conhecendo o segredo do Pai, deu-Lhe a conhecer. Também o Apóstolo, na última Ceia, reclinava-se no peito de Jesus; não à toa o seu Evangelho é considerado o mais perfeito. É dessa intimidade com o Esposo que João dá a conhecer o mistério do Amado Senhor. Da mesma forma, além de revê-Lo, na Santa Missa podemos reclinar no Seu peito e, não apenas isso, podemos adentrar no Seu coração e adentrá-Lo no nosso.

Este "rever" a Jesus, estando muito além de uma experiência ótica, é a causa da verdadeira alegria, da verdadeira vida do Cristão. É neste abraço inefável que Cristo nos ressoa ao ouvido: "Que a minha alegria esteja em vós, e que a vossa alegria seja plena".

Fábio Luciano