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terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Dimensões da Oração

O homem deve encontrar Deus com tudo o que ele é, pois Deus é o Ser de tudo; é esse o sentido da injunção bíblica de amar a Deus 'com todas as nossas forças'.

Ora, uma das dimensões que caracterizam o homem de facto é que ele vive para o exterior e, mais ainda, tende aos prazeres; é o que chamamos de exterioridade e concupiscência. Ele deve renunciar a elas em face de Deus, pois, em primeiro lugar, Deus está presente em nós mesmos e, em segundo, o homem deve poder encontrar prazer em si mesmo e independentemente dos fenômenos sensoriais.

Mas tudo o que nos aproxima de Deus tem por isso mesmo sua beatitude; elevar-se, orando, acima das imagens e dos ruídos da alma é uma libertação pelo Vazio divino e pela Infinitude; é a estação da serenidade.

É verdade que os fenômenos exteriores, por sua nobreza e seu simbolismo - ou sua participação nos Arquétipos celestes - podem ter uma virtude interiorizante, e toda coisa pode ser boa a seu tempo; isso não impede que se deva realizar o desapego, sem o que o homem não tem direito à exterioridade legítima, e sem o que ele cairia numa exterioridade sedutora e numa concupiscência mortal para a alma. Assim como o Criador, por sua transcendência, é independente da criação, também o homem deve ser independente do mundo em vista de Deus. É esse apanágio do homem que é o livre-arbítrio; só o homem é capaz de resistir a seus instintos e desejos. Vacare Deo.

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Outro apanágio do homem é o pensamento racional e a palavra; esta dimensão deve, por consequência, atualizar-se quando deste encontro com Deus que é a oração. O homem não se salva apenas pela abstenção do mal, ele se salva também, e a fortiori, pelo cumprimento do Bem; ora, a melhor das obras é aquela que tem Deus por objeto e o nosso coração por agente, ou seja, a "lembrança de Deus".

A essência da oração é a fé, portanto a certeza; o homem a manifesta precisamente pelo discurso, ou pelo apelo, dirigido ao Sumo Bem. A oração, ou a invocação, é igual à certeza de Deus e de nossa vocação espiritual.

A ação vale pela intenção; é evidente que não deve haver na oração nenhuma intenção tingida por qualquer ambição; ela deve ser pura de toda vaidade mundana, sob pena de provocar a Cólera do Céu.

A oração íntegra é proveitosa não só para aquele que a realiza, ela irradia-se também à sua volta, e sob este aspecto ela é um ato de caridade.

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Todo homem está em busca da felicidade; eis outra dimensão da natureza humana. Ora, não há felicidade perfeita fora de Deus; toda felicidade terrestre tem necessidade da bênção do Céu. A oração nos coloca em presença de Deus, que é pura Beatitude; se temos consciência disso, encontraremos nela a Paz. Feliz o homem que tem o senso do Sagrado e que abre assim seu coração para este mistério.

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Outra dimensão da oração resulta do fato de que, por um lado, o homem é mortal e, por outro lado, tem uma alma imortal; ele deve passar pela morte e, sobretudo, deve preocupar-se com a Eternidade, que está nas mãos de Deus.

Neste contexto, a oração será ao mesmo tempo um apelo à Misericórdia e um ato de fé e de confiança.

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O apanágio fundamental do homem é uma inteligência capaz de conhecimento metafísico; por consequência, esta capacidade determina necessariamente uma dimensão da oração, que coincide então com a meditação; o tema desta é, em primeiro lugar, a realidade absoluta do Princípio Supremo e, depois, a não-realidade - ou a realidade relativa - do mundo, que o manifesta.

Contudo, o homem não deve utilizar intenções que superam sua natureza; se não é um metafísico, ele não deve sentir-se obrigado a sê-lo. Deus ama as crianças como Ele ama os sábios; e Ele ama a sinceridade da criança que sabe permanecer criança.

Em outras palavras, há, na oração, dimensões que se impõem a todo homem, e outras que ele pode, por assim dizer, saudar de longe; pois o que importa nesta confrontação não é que o homem seja grande ou pequeno, é que ele se coloque sinceramente em face de Deus. Por um lado, o homem é sempre pequeno em face de seu Criador; por outro lado, há sempre grandeza no homem quando ele se dirige a Deus; e, em última análise, toda qualidade e todo mérito pertencem ao Sumo Bem.

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Há uma dimensão da oração meditativa, dissemos, cujo tema é a realidade absoluta do Princípio; e depois, correlativamente, a não realidade -ou a menor realidade - do mundo, que o manifesta.

Mas não basta saber que "Deus é a realidade, o mundo é a aparência"; é preciso saber também que "a alma não é senão Deus". Esta segunda verdade nos lembra que nós podemos, se nossa natureza o permite, tender para o Princípio Supremo não somente em modo intelectual, mas também em modo existencial; o que resulta do fato de que nós possuímos, não somente a inteligência capaz de conhecimento objetivo, mas também a consciência do eu, que é capaz, em princípio, de união subjetiva. Por um lado, o ego está separado da Divindade imanente pelo fato de que ele é manifestação, não Princípio; por outro lado, ele não é senão o Princípio enquanto este se manifesta; assim como o reflexo do Sol num espelho não é o Sol, mas não obstante "não é senão ele" enquanto ele - o reflexo - é a luz solar e nada mais.

Consciente disso, o homem não cessa de se postar diante de Deus, que é ao mesmo tempo transcendente e imanente; e é Ele, e não nós, que decide quanto à envergadura de nossa consciência contemplativa e ao mistério de nosso destino espiritual. Sabemos que conhecer Deus unitivamente significa que Deus mesmo se conhece em nós; mas não podemos saber em que medida Ele quer realizar em nós essa divina Consciência de Si; e não tem importância que o saibamos ou não. Nós somos o que somos, e tudo está nas mãos da Providência.

Frithjof Schuon, Transfiguração do Homem

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Reclamações de Sta Teresa D'Avila a Jesus


Certo é que me regalei hoje com o Senhor, e ousei queixar-me de Sua Majestade, dizendo-lhe: "Deus meu! Não basta que me conserveis presa nesta vida miserável, e que por vosso amor eu a aceite submetendo-me a viver onde sou forçada a comer, dormir, ocupar-me de negócios e tratar com todos? Bem sabeis, Senhor meu, que tudo isso é grandíssimo tormento para mim, que, entretanto, suporto-o por amor de vós. São embaraços que me impedem de me regozijar convosco. E será possível que nos poucos momentos que me restam para estar convosco, ainda vos escondais de mim? Como conciliar isto com a vossa misericórdia? Como o pode sofrer o amor que me tendes? Creio, Senhor, que se fora possível esconder-me de vós como vos escondeis de mim, jamais o consentiríeis, pelo amor que me tendes. Mas vós estais comigo e sempre me vedes... Não pode ser assim, Senhor meu, Reconhecei, suplico-vos, que isto é injuriar aquela que tanto vos ama."

Estas e outras coisas aconteceu-me dizer (...) Algumas vezes o amor tanto me desatina, que não sei mais de mim, e é com muita convicção que prorrompo nestas queixas, e o Senhor tudo me permite. Louvado seja tão bom Rei!

Sta Teresa D'Avila, Livro da vida, Cap.37, n.8-9.

domingo, 22 de junho de 2014

Uma experiência da transfiguração no hesicasmo


- Meu amigo, estamos ambos neste momento no Espírito de Deus [...] Por que não queres olhar para mim?

- Não posso olhar para vós, meu Pai, porque vossos olhos projetam clarões; vosso rosto se tornou mais brilhante que o sol e sinto dor nos olhos em vos olhar.

- Não tenhas medo de nada. Neste momento te tornaste tão claro como eu. Também estás agora na plenitude do Espírito de Deus; de outra maneira, não poderias ver-me como me vês.

E, inclinado para mim, ele me disse baixinho ao ouvido:

- Dá graças ao Senhor Deus por sua bondade infinita para conosco. Como observaste, nem mesmo fiz o sinal da cruz; bastou apenas que eu orasse a Deus em pensamento, no meu coração, dizendo interiormente: Senhor, torna-o digno de ver claramente com seus olhos corporais esta descida de teu Espírito, que proporcionas a teus servos, quando te dignas aparecer-lhes na luz magnífica de tua glória. E como podes ver, meu amigo, o Senhor atendeu imediatamente esta oração do humilde Serafim [...] Como devemos ser reconhecidos a Deus por este dom inefável concedido a nós dois! Mesmo os pais do deserto nem sempre tiveram tais manifestações de sua bondade. É que a graça de Deus - como uma mãe cheia de ternura para com seus filhos - dignou-se consolar vosso coração aflito, pela intercessão da própria Mãe de Deus [...] Por que, então, meu amigo, não queres olhar-me direto na face? Olha francamente, sem medo: o Senhor está conosco [...].

Encorajado com estas palavras, olhei e fui tomado de um terror piedoso. Imaginem vocês a face do homem que lhes fala, no meio do sol, no brilho de seus raios escaldantes do meio-dia. Vocês podem ver o movimento de seus lábios, a expressão mutante de seus olhos, podem ouvir sua voz e sentir suas mãos pousarem sobre os ombros de vocês, mas não vêem nem suas mãos, nem o corpo de seu interlocutor - nada além da luz resplandescente que se propaga longe, a algumas toesas ao redor, iluminando com seu brilho o prado coberto de neve e os flocos brancos que não param de cair [...].

E o Padre Serafim me perguntou:

- O que é que sentes?

- Um bem-estar infinito, respondi.

- Mas que tipo de bem-estar? Em que precisamente?

- Sinto uma tal tranquilidade, uma tal paz na minha alma, que não encontro palavras para me exprimir.

- É, meu amigo, a paz da qual falava o Senhor quando disse a seus discípulos: "Eu vos dou a minha paz"; a paz que o mundo não pode dar [...]; "a paz que ultrapassa toda compreensão". O que sentes ainda? 

- Uma alegria infinita no meu coração.

E o Padre Serafim continuou:

- Quando o Espírito de Deus desce sobre o ser humano e o envolve na plenitude de sua presença, então a alma transborda de uma alegria indizível, pois o Espírito Santo cumula de alegria todas as coisas que Ele toca [...] Se as primícias da alegria futura já enchem a nossa alma de uma tal doçura, de uma tal felicidade, que diremos da alegria que espera no Reino celeste todos aqueles que choram aqui na terra? Também tu, meu amigo, também tu choraste no curso de nossa vida terrestre, mas verás a alegria que o Senhor te envia para te consolar desde aqui na terra.

Então esta alegria que sentimos neste momento, parcial e breve, aparecerá em toda a sua plenitude, cumulando nosso ser de delícias inefáveis que ninguém poderá arrebatar-nos.

Colóquios de São Serafim In: Escritos sobre o hesicasmo, uma tradição contemplativa esquecida. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 2011. p.116-118.

domingo, 5 de maio de 2013

O perigo das experiências espirituais imaginadas


O abuso perigoso das imagens e do símbolo pode ser constatado, por exemplo, no caso de alguém que tenta fazer surgir uma "chama viva" pelo exercício da vontade, da imaginação e do desejo e se persuade, então, a si próprio, de que teve a "experiência de Deus". Num tal caso, ter-se-ia de pagar muito caro essa evidente fabricação, pois existe uma diferença total entre os frutos de uma autêntica experiência religiosa, puro dom de Deus, e os resultados de nossa imaginação. Como declarou sem rodeios Jacob Boehme: "Onde encontramos nas Escrituras que uma prostituta pode tornar-se virgem por simples decreto?"

A experiência viva do amor divino e do Espírito Santo na "Viva Chama", a que se refere S. João da Cruz, é uma verdadeira consciência que se tem de haver morrido e ressuscitado em Cristo. É uma experiência de renovação mística, uma transformação interior ocasionada unicamente pelo poder do amor misericordioso de Deus, que implica a "morte" do ego autocêntrico e auto-suficiente e o surgir de um novo ser libertado, que vive e age "no Espírito". Mas, se o antigo eu, o ego autônomo e calculador, procura apenas imitar os efeitos de uma tal regeneração, para a satisfação e vantagem próprias, o efeito é exatamente o oposto: o ego procura afirmar-se em sua própria existência egoísta. O grão de trigo não penetrou na terra e não morreu. Permanece duro, isolado e seco; não há fruto nenhum, apenas um gabar-se mentiroso e blasfemo - um ridículo fingimento!

Se a mentira e a invenção, do ponto de vista psicológico, são perniciosas mesmo nas relações comuns com outras pessoas (uma álea onde uma certa medida de falsificação não é rara), toda falsidade é desastrosa em qualquer relação com a base de nosso próprio ser e com Deus que a nós se comunica através de nossa própria verdade interior. Falsificar nossa verdade interior, sob pretexto de nos unirmos a Deus, seria a mais trágica infidelidade, a nós mesmos em primeiro lugar, à vida, à própria realidade, é claro, a Deus. 

Thomas Merton, Poesia e Contemplação

terça-feira, 16 de abril de 2013

Oração de Edith Stein - "que eu seja como se não fosse"


"Minha mãe, hoje já foi como um dia de despedida. Nos próximos dois dias devo estar ocupada com preparativos exteriores, e não poderei mais ficar completamente em silêncio junto a ti e contigo junto ao Senhor. Por isso, peço novamente a ti com todo o coração para que me ajudes a dispor-me para a hora do matrimônio. Sobretudo com um arrependimento ardoroso, para queimar em mim tudo que impeça minha união com o Senhor. Faze que, como tu, eu seja como se não fosse, que eu não tenha mais vida senão a vida de Jesus, que se esqueça de mim e saiba apenas dele. Sei que isso que falei e escrevi sobre a verdade me compromete com bastante rigor. Recorda-me sempre disso se por acaso eu escorregar e decair do verdadeiro ser para algo de aparente."

Sta Teresa Benedita da Cruz

domingo, 10 de março de 2013

Oração do Cardeal S. Wyszynski


Ajuda-me, Senhor,
a não esperar mais da minha vida
o contentamento e a satisfação,
o saciar dos meus desejos pessoais.
Ensina como comportar-me
para saber como renunciar aos meus sentimentos 
demasiado egoístas
que não aproveitam a ninguém,
nem a Ti, nem aos Teus filhos, nem mesmo a mim!
Desperta em mim a vontade de me esquecer,
consciente que não vale a pena 
perder a energia por si mesmo.
Que poderia sem Ti?
Não desejo senão estar contigo,
construir, fazer, trabalhar, para Ti somente,
para a Tua glória.
Oh Pai de verdade
não permitas nenhuma distância 
entre os meus pensamentos e as minhas palavras.
Se eu digo que Te amo impede-me de mentir.
Se exprimo os meus desgostos, que eles sejam sinceros.
Defende-me, Pai, de abusar das palavras.
Defende-me de fazer literatura, de efabular,
proíbe-me a inflação das palavras...
Que mesmo os meus pensamentos se calem
quando estou diante de Ti,
que lês nos pensamentos e nos corações.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Senhor, tende piedade de mim...



Senhor, tende piedade de mim!... sofro, sim..., mas quisera que meu sofrimento não fosse tão egoísta; quisera, Senhor, sofrer por tuas dores na Cruz, pelos olvidos dos homens, pelos pecados próprios e alheios..., por tudo, meu Deus, menos por mim."

S. Rafael Arnaiz Barón

sábado, 30 de junho de 2012

Aprenda a rezar, rezando.


Pergunta: Se o senhor pudesse e quisesse dar às pessoas um breve conselho sobre como rezar, o que o senhor diria?

Resposta: Se você quiser aprender a nadar, pule na piscina. Esta é a única maneira. Só quem reza descobre o significado, o gosto e a alegria de rezar. Não dá para aprender a rezar sentado numa poltrona macia. Quando estiver pronto para se ajoelhar, para se arrepender com sinceridade, para levantar os olhos e aos mãos para o Céu, então muitas coisas lhe serão reveladas. Você até pode ler livros, ouvir palestras, conversar -- estas coisas também são importantes e ajudam a entender melhor a questão. Mas de que valem essas coisas se você não der o primeiro passo? Se você não começar a rezar?

Pe. Gabriel Bunge

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Guerra e Ternura


Ontem, meditando sobre a minha vida espiritual, sobre as minhas tantas negligências, dei-me conta, de um modo mais acentuado, de como ando distante de Deus. Na verdade, eu sempre estou percebendo, olhando e vendo isso. Porém, ontem eu contrastei esta situação - ruim, tíbia - com a ternura com que eu costumava olhar para Deus e que constitui parte essencial da minha espiritualidade pessoal.

E, enquanto me dava conta destas coisas, eu li em S. Josemaria Escrivá o seguinte:

"A guerra! - A guerra - dizes - tem uma finalidade sobrenatural desconhecida do mundo; a guerra foi feita para nós... A guerra é o obstáculo máximo do caminho fácil. - Mas temos de amá-la, ao fim e ao cabo, como o religioso deve amar as suas disciplinas." (Caminho, nº 311.)

Estas coisas parecem contraditórias à primeira vista, não? Pois é! Mas não são! Muito pelo contrário. É preciso fazer guerra a si mesmo a fim de manter a ternura e o frescor do amor a Deus. É preciso lutar muito para manter a integridade, não apenas o vigor da ação positiva, mas também a delicadeza e a sutileza da alma, sem as quais compreenderemos o Cristo muito pouco.

Lembrava-me de uma frase de S. João da Cruz que muito me impressionou na ocasião em que a li pela primeira vez: "É preciso tornar-se delicado para que a delicadeza encontre a Delicadeza". E, quem conhece S. João da Cruz, saberá que, ao fundo de sua ternura única e do seu imenso carinho por Cristo, há toda uma estratégia de guerra contra a soberba, explicada passo a passo, milímetro a milímetro e que espanta pela violência e pelo rigor. Brincando um pouco com isso, ironizava com o santo, o Thomas Merton: "será mesmo ele o mesmo escritor de 'Viva Chama de Amor'?"

Pois bem: é preciso amar a guerra e manter a ternura da alma. Nestes tempos difíceis, temos de ter o cuidado de não embrutecer o espírito, de não cair no engodo de uma espiritualidade seca sob pretexto de que este é o caminho dos fortes. De fato, as emoções e intensos afetos sensíveis não fazem necessariamente parte da vida espiritual e devem ser deixados de lado, com certa indiferença, a fim de abrirem espaço a um amor mais puro e forte. Porém, disto não se deduz que a pessoa deva tornar-se ríspida, supondo que Nosso Senhor despreza as pequenas atitudes, os ternos gestos, a amabilidade da alma para com Ele. É preciso, sim, que nos tornemos delicados, não de uma delicadeza romântica moderna, cheia de susceptibilidades e 'não-me-toques', mas de uma delicadeza viril, do homem que, experimentado nos combates da vida - sejam estes morais ou doutrinários - e sem tempo ou saco de deter-se em contemplações inúteis quando é preciso agir - sejam estas as das próprias supostas virtudes ou das dificuldades do caminho -, contudo não renuncia deter-se terna e amorosamente na contemplação de Jesus, no trato íntimo e enamorado com Ele, na doce e calma quietude que permite olhá-Lo em cada gesto e palavra, que permite participar do Seu silêncio e tê-Lo por companhia deliciosa.

Sim.. Devemos entender a oração não como um mero compromisso enfadonho ao qual devemos nos submeter de modo heróico, passando por cima da nossa própria vontade que, sinceramente, não quer nada daquilo, preocupada que está com futilidades. Não. Devemos, antes, ter uma concepção diferente da oração: é uma oportunidade, uma feliz ocasião de estarmos, de novo, com Ele. Sta Teresa D'Avila já dizia: "A oração não consiste em dizer muito, mas em amar muito". E é preciso redescobrir este tesouro, este sumo bem que é o trato íntimo com Nosso Senhor. E é preciso descobri-lo de um modo muito pessoal.

Guerra e ternura cultivemos, como um verdadeiro cavaleiro cruzado. Que Nosso Senhor nos ensine. Ámen.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Oração do Meio Dia


Na mesma hora em que Jesus, o Cristo, 
sofreu a sede, sobre a cruz pregado, 
conceda a sede de justiça e graça 
a quem celebra o seu louvor sagrado. 

Ao mesmo tempo ele nos seja a fome 
e o Pão divino que a Si mesmo dá; 
seja o pecado para nós fastio, 
só no bem possa o nosso gozo estar. 

A unção viva do divino Espírito 
impregne a mente dos que cantam salmos; 
toda frieza do seu peito afaste, 
no coração ponha desejos calmos, 

Ao Pai e ao Cristo suplicamos graça, 
com seu Espírito, eterno Bem; 
Trindade Santa, protegei o orante, 
guardai o povo em caridade. Amém.

Via Frei Rojão.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Saltar acima de nós mesmos


"De pé, portanto, alma nobre! Calça teus sapatos de saltar, que são o intelecto e o amor, e salta por cima do culto dos teus poderes mentais, salta por cima do teu entendimento e precipita-te no coração de Deus, no que ele tem de escondido, onde estarás escondida de todas as criaturas."

Eckhart

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Conhecer as próprias faltas



“O publicano não ousava levantar os olhos aos céus. Por que ele não olhava o céu? Porque ele se olhava a si mesmo. E eis que, examinando-se a si mesmo, começou a ter desgosto e é assim que ele agradou a Deus.
Tu, ao contrário, tu te elevas, tu elevas a cabeça. Ora, o Senhor diz ao orgulhoso: Tu não queres olhar tua miséria? Pois bem, eu a olharei! Tu queres que eu desvie meus olhos dela? Então, não desvie os teus.
O publicano não ousa levantar os olhos aos céus: ele se examina, ele se condena. Ele faz de si mesmo seu próprio juiz, e Deus defende sua causa. Ele se pune, e Deus lhe faz misericórdia. Ele se acusa, e Deus o defende. Deus o defende tão bem que seu juízo foi: O publicano desceu para sua casa justificado, e o outro não; pois quem quer que se exalte será humilhado e quem quer que se humilhe será exaltado. Ele examinou sua consciência, diz o Senhor, e Eu, Eu não quis examiná-la. Eu o ouvi clamar em minha direção: Desviai os olhos de meus pecados! (Salmo L, 11). Mas quem pode pronunciar tais palavras, a não ser aquele que diz também: Minha falta, eu a conheço (Salmo L, 5)?
Sto Agostinho.
Fonte: Montfort

domingo, 1 de janeiro de 2012

"Há mais saliva que sangue..."


"Cuidemos de que as obras não sejam apenas folhagem seca, sem seiva, sem o humilde afundamento das raízes na terra, que é penhor realista de todos os sonhos de maturidade dos frutos. O brado audaz da assembléia pública perde-se no ar viciado se não for acompanhado da oração silenciosa de quem o lança, oração secreta no segredo do seu quarto. A multiplicidade dos trabalhos apostólicos e das obras de caridade pode vir a ser um ornamento vão, mesmo uma ilusão, sem a corrente oculta de vida que só em Deus se encontra (...) a falta de eco da voz dos cristãos e os seus fracassos, devem-se ao fato de bradarem para fora em vez de clamarem para dentro (...) como disse Thibon: No mundo atual, há mais saliva que sangue."
  
(Por um cartuxo anônimo)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

S. Rafael Arnaiz Barón - A Simplicidade


"E, à medida que nos vamos desprendendo 
de tanto amor desordenado às criaturas, 
e a nós mesmos, 
me parece que nos vamos acercando mais e mais ao único amor, 
ao único desejo, ao único anelo desta vida, 
à verdadeira santidade que é Deus."

S. Rafael Arnaiz Barón

sábado, 19 de novembro de 2011

Breve Introdução à Teologia Negativa


O caminho da vida, já dizia S. Gregório de Nissa, doutor da Igreja, é um processo das trevas para a luz e da luz para as trevas.

S. Gregório de Nissa é, na verdade, o verdadeiro pai da Teologia Apofática ou Negativa, embora tenha sido o Pseudo-Dionísio Areopagita quem recebeu maior atenção. Mas isto se deu somente porque durante muito tempo estavam a considerar que este místico fosse um discípulo direto de S. Paulo, convertido quando da pregação deste no areópago, descrita no livro dos Atos. No entanto, posteriormente, veio-se a saber que, não obstante o nome com que vinham assinadas, as suas obras descendiam pelo menos do século VI e tinham sido produzidas, provavelmente, por algum monge.

O maior clássico do Pseudo-Dionísio é, sem dúvida, a "Teologia Mística", livro que inspirou bastante a Literatura Medieval, terminando por produzir certos reflexos mesmo nas obras de gigantes como S. João da Cruz, o grande doutor da Noite e a maior autoridade da Mística Católica.

Embora provenientes de um autor que falseia o seu próprio nome, a obra do Pseudo-Dionísio não deixa de ter uma grande profundidade. Não à toa foi lida e muitíssimo comentada.

Se voltarmos, porém, a S. Gregório de Nissa, veremos que ele é, não só mais antigo, como, também, mais profundo. Uma das principais obras onde ele trata deste tema é a "Vida de Moisés", dividida em duas partes. Na primeira, há uma descrição literal da vida do Profeta. Na segunda, há a sua interpretação mística.

Moisés será o grande paradigma da Teologia Negativa, pois se reconhecerá nele este processo de que S. Gregório de Nissa fala como sendo uma ida das trevas à luz e da luz às trevas.

Outra grande obra que trata do assunto é o livro "A  Nuvem do Não Saber", de um anônimo do Séc. XVI, e que consistia, na verdade, num conjunto de orientações de um monge a um seu discípulo. Nele, o autor trata da superioridade da contemplação sobre a ação e da prática de uma oração para além dos conceitos.

A Teologia Negativa, também conhecida como Teologia das Trevas ou Mística de Trevas não é um traço exclusivamente católico. Ela está em inúmeros movimentos místicos pelo mundo, sobretudo em algumas correntes indianas. Porém, no âmbito da Fé Cristã, ela tem peculiaridades que a livram de entrar em certas aporias.

O elemento negativo é imprescindível a qualquer legítima teologia. Com relação a isto, é possível estabelecer uma divisão entre os santos, identificando uns como representantes da Teologia da Luz e outros, como adeptos da Teologia das Trevas. No primeiro caso, reconhecemos Sto Agostinho, Sto Tomás de Aquino, S. Bernardo de Claraval e, segundo alguns, até a Sta Teresa D'Avila - o que não deixa de me estranhar e, sinceramente, me coloca em dúvidas quanto a isto. No segundo grupo, temos S. João da Cruz, S. Gregório de Nissa, parece-me que Sta Teresinha de Lisieux, S. Bruno, etc. Importante notar que, nestes dois grupo de santos, todos, com exceção de S. Bruno, fundador da Cartuxa, são doutores da Igreja.

Porém, mesmo no primeiro grupo, o da Luz, notaremos claros elementos negativos. Muito conhecido é o êxtase de Sto Agostinho e sua mãe, Sta Mônica, na cidade de Óstia. Enquanto conversavam sobre as realidades celestes, viram-se, de repente, a transcender os conceitos e a mergulharem numa contemplação mais direta do objeto de suas discussões. Acabada a experiência supra-sensível, Sto Agostinho lamenta por ter de voltar ao baixo nível de suas idéias. Também Sto Tomás de Aquino, o maior doutor da Igreja, elevado certa vez a um êxtase em que contemplou o Mistério, decidiu, de volta ao ordinário da vida, parar de escrever, pois toda a sua obra, depois de ter visto o que vira, convertera-se em palha.

O elemento negativo livra o homem de cair no racionalismo da Fé que, na verdade, já não é Fé, mas adoração da razão. Cai-se, aí, numa redução absurda da dimensão do mistério e, em última instância, recai-se, de novo, num certo imanentismo, perdendo de vista o horizonte da transcendência.

Porém, se isto é mal compreendido, pode levar ao extremo oposto, ou seja, à afirmação da estrita inefabilidade do mistério e à relativização de tudo quanto seja conceito e linguagem humana. É precisamente neste erro que caem alguns orientais, entendendo a Teologia afirmativa como mera linguagem análoga, relativa e penúltima, destinada aos não agraciados pelo acesso místico. Os que, porém, conseguissem adentrar no campo obscuro da Mística se veriam, segundo esta teoria, absolutamente dispensados da observância de tudo quanto fora conceitualmente expresso. A Teologia se converte em religião de segunda categoria; em mera metáfora da realidade do Mistério.

Em outros textos, abordarei de modo mais preciso em que consiste este treva, ou nuvem, ou noite, ou obscuridade, ou, às vezes, vazio. Termino, citando o Rei Davi que, sobre Deus, escreveu: "Ele fez sua tenda nas trevas" (Cf  Sl 17,12).

Fábio

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O que se fazer na oração


"Você me diz que não faz nada em oração. Mas o que é que você quer fazer em oração além do que está fazendo, que é apresentar e representar seu nada e sua miséria a Deus? Quando os mendigos expõem suas úlceras e suas necessidades à nossa vista, esse é o melhor apelo que podem fazer. Mas, pelo que me diz, você, às vezes, não faz nada disso, mas fica lá como uma sombra ou uma estátua. Colocam-se estátuas em palácios simplesmente para agradar aos olhos do príncipe. Contente-se com ser isso mesmo na presença de Deus: Ele dará vida à estátua quando bem entender."

S. Francisco de Sales

Oração e Desejo


"Quase não tenho desejos, mas, 
se tivesse de nascer outra vez, não teria desejo nenhum. 
Não deveríamos pedir nada nem recusar nada, 
mas abandonar-nos nos braços da Providência divina, 
sem perder tempo com qualquer desejo, 
exceto desejar o que Deus deseja de nós."

S. Francisco de Sales