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quarta-feira, 24 de junho de 2020

Retrato e vida do artista


Por fim, chegamos a uma espécie de modelo do mundo do artista, e esse modelo é que há outros planos mais altos de realidade, sobre os quais nada podemos provar, mas dos quais originam-se nossas vidas, nosso trabalho, nossa arte. Essas esferas tentam se comunicar com as nossas. 

Quando Blake disse que a Eternidade está apaixonada pelas criações do tempo, referia-se àqueles planos de puro potencial, que não são definidos pelo tempo, lugar ou espaço, mas que anseiam dar vida às suas visões aqui, neste mundo limitado pelo tempo e pelo espaço.

O artista é o servo dessa intenção, desses anjos, dessa Musa. O inimigo do artista é o medíocre Ego, que gera Resistência, que é o dragão que guarda o ouro. É por isso que o artista tem que ser um guerreiro e, como todos os guerreiros, com o tempo os artistas adquirem modéstia e humildade. Podem alguns deles adotar uma atitude exibicionista em público. Mas sozinhos com seu trabalho são simples e naturais. Sabem que não são a origem das criações às quais dão vida. Apenas facilitam a tarefa. São apenas portadores. são os instrumentos hábeis e dispostos dos deuses e deusas a quem servem.

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Você é um escritor inato? Veio ao mundo para ser um pintor, um cientista, um apóstolo da paz? Ao final, a pergunta só pode ser respondida pela ação.

Fazer ou não fazer o trabalho.

Pode ajudar pensar dessa forma. Se você foi destinado a descobrir a cura do câncer, escrever uma sinfonia, conseguir realizar a fusão a frio e não o fizer, você não apenas causará mal a si próprio. Ou até mesmo se destruirá. Você causará mal a seus filhos. Causará mal a mim. Causará mal ao planeta. 

Você envergonha os anjos que o protegem e contraria o Todo-Poderoso, que criou você e apenas você com seus dons exclusivos, com o único objetivo de empurrar a raça humana um milímetro para a frente, em seu longo caminho de volta a Deus.

O trabalho criativo não é um ato egoísta ou um pedido de atenção por parte do ator. É uma dádiva para o mundo e para todo ser vivo que o habita. Não nos prive de sua contribuição. Dê-nos o que você possui.

Steven Pressfield, A guerra da arte

domingo, 21 de junho de 2020

Resistência e Crítica


Se você se vir criticando outras pessoas, provavelmente estará agindo assim por Resistência. Quando vemos os outros começando a viver suas vidas autênticas, ficamos loucos se não estivermos vivendo a nossa própria vida real. 

Os indivíduos que se sentem realizados em suas próprias vidas quase nunca criticam os outros. Quando falam, é para oferecer encorajamento. Observe-se. De todas as manifestações de Resistência, a maioria causa danos apenas a nós mesmos. A crítica e a crueldade ferem a outros também.

Steven Pressfield, A Guerra da Arte.

Resistência e Vitimização


 Os médicos estimam que setenta a oitenta por cento de suas atividades não estão relacionadas à saúde. As pessoas não estão doentes, estão fazendo drama. Às vezes, a parte mais difícil do trabalho médico é manter uma expressão impassível. Como Jerry Seinfeld observou a respeito dos seus vinte anos de encontros amorosos: "É muito tempo fingindo-se fascinado".

A aquisição de uma condição empresta significado à existência de uma pessoa. Uma doença, uma cruz a carregar. Algumas pessoas vão de condição em condição; curam uma e outra surge para ocupar seu lugar. A condição torna-se uma obra de arte em si mesma, uma versão espúria do verdadeiro ato criativo que a vítima evita ao despender tantos cuidados em cultivar sua condição.

Colocar-se na condição de vítima é uma forma de agressão passiva. Busca alcançar gratificação não por intermédio do trabalho honesto, de uma contribuição feita a partir do amor, insight ou experiência pessoal, mas da manipulação dos outros por meio da ameaça silenciosa (e nem tão silenciosa). A vítima compele os outros a virem em seu resgate ou a se comportarem da forma como deseja, mantendo-os reféns da perspectiva de agravamento de sua própria doença/colapso/dissolução mental, ou simplesmente ameaçando tornar suas vidas tão miseráveis, que elas fazem o que a vítima deseja.

Fazer-se de vítima é a antítese de realizar o seu trabalho. Não o faça. Se estiver agindo assim, pare agora.

A Guerra da Arte, Steven Pressfield

sábado, 16 de junho de 2018

Mais uma primavera...

Estou aqui no começo do meu dia pensando em como manter a tradição de escrever, como geralmente faço nessas ocasiões. Estes textos exprimem as evoluções ou involuções do meu espírito. O que eu posso dizer é que hoje em dia a minha vida é muito singular, no sentido de que o que ela é agora, em certo sentido parece não poder ser reduzido a uma mera e óbvia culminância do que já era. Pelo menos, parece. A vida humana é sempre misteriosa e nela coabitam, ao lado daquilo que percebemos, coisas subliminares, escondidas, discretas, mas reais. Há um estranho preconceito de que o que está submerso, subjacente, é mais real do que aquilo que aparece. E há um preconceito em tomar o termo "preconceito" por algo necessariamente ruim e falso. A vida parece ser um processo de desenrolar de uma espécie de essência que vai, aos poucos, tomando forma, realizando-se, tornando-se ato e fazendo com que o eu seja isso mesmo: atual. O ideal vai tomando corpo e vamos aparecendo, adensando ontologicamente, o nosso futuro não sendo somente o desabrochar do que já tínhamos existencialmente em estado de latência, mas a criação real de um quê - que procede do ideal - que é irredutível ao que já havia e que vem somar-se isso. De algum modo, somos mais o que já somos na medida em que já não somos o que fomos.

Este é um dia feliz. Pelo menos é o modo que eu tendo a considerar os aniversários, muito embora a essa altura do campeonato a gente já comece a lamentar mais um ano que se passou. Mas cá estamos, depois de mais 4 estações, e de tantas coisas vividas, e sofridas, e ridas. Tudo vai tomando lugar, se encaixando, formando esse mosaico que dá uma unidade gradativamente mais perfeita e significativa a todo o conjunto. Neste processo, mesmo o que não foi tão bom tem o seu lugar e dá o seu tom à personalidade e ao vibrar do ser. Somos vozes divinas que se sucedem durante um tempo. Dir-se-ia que daqui a alguns anos eu alcanço a linha de transição e passo ao início do fade-out. Mas como a voz é divina, embora a sua manifestação seja sucessiva, a sua natureza é imortal. A voz é um veículo de efetivação de uma ideia que é imediata e eterna. Sou eterno por participação.

É um dia privilegiado, porque por toda a parte vemos manifestações de carinho, e fica evidente se algum bem nós fizemos a alguém. Claro que estas coisas são enfatizadas e vistas às vezes com lentes de aumento. Mas como somos entes carentes, é importante que uma vez ao ano, pelo menos, alguém nos recorde da nossa importância e valor e do bem que, propositalmente ou não, conseguimos fazer. O aniversário é um símbolo do Céu, que invade a nossa vida de exílio e nos toca. É uma liturgia solene em que Deus dá uma espécie de direito particular ao agraciado. É um dia que lhe é separado, e, não houvesse gente sofrendo muito e até morrendo nessas ocasiões, dir-se-ia que tudo nos parece favorável. Nem sempre será assim, no entanto. E nem sempre o foi, pra falar a verdade. E nem é. O ponto é que a nossa alegria transfigura a vida, o mundo, e tudo reflete o que nos vai na alma.

Neste meu dia, sou grato a Deus pelo dom da existência, da vida, da família e dos amigos que eu tenho, e de tantas outras coisas com as quais Ele me presenteou e me presenteia. Minhas rebeldias excessivas recordam-me do Seu amor sobreexcessivo, e as minhas iniquidades me fazem contemplar, com mais relevo, a superabundância da Sua graça. E é por ser de graça que é amor. É como os raios do sol que vêm bater contra a superfície de uma porta. Nada é preciso fazer além de abri-la, para que aquela luz ilumine o interior. E então a casa será luz por participação. O material da alma humana, recorda-nos Sta Teresa, é de tal modo brilhante que recepciona perfeitamente aqueles dardos do sol divino e resplandece. Queria sempre resplandecer, mas as misérias que me habitam, os demônios que falta exorcizar, limitam muito a operação normal desse pobre grão de areia. Mas Deus o ama e, por isso, ele resiste. Deus é bom, e essa é uma verdade inconcussa que se obstina a manter-se, sem nenhum mínimo abalo, diante dos caprichos infantis dessa existência. Os braços amorosos de um pai são fortes o bastante para conterem o esperneio do filho. Na mente da criança, tudo é caos, mas só o pai é realista.

Quero passar os meus dias crendo no realismo do meu Pai, e não nas minhas perspectivas sempre tão limitadas. Espero também crescer sempre um pouco mais a fim de que o meu olhar seja sempre mais reto, mais verdadeiro, mais profundo. Mas o que importa, nisso tudo, é que Deus é invencível e sitia, diz o visceral Léon Bloy, certas almas com todo o Seu poder. Que belo presente seria se Ele me elegesse para isso. "Que terrível é cair nas mãos de Deus", escreveu São Paulo. E que terrivelmente belo e saboroso isso deve ser... Que eu jamais me aparte daí. "Ó meu astro amado, fascinai-me, a fim de que não me seja possível mais sair de vossa irradiação", escreveu Sta Teresa Elisabete da Trindade. E eu, que da santidade não tenho nem a poeira, ouso pedir o mesmo, e sou feliz desde já porque Ele me concedeu o dom da existência. Desde então, perceba eu ou não, Ele é mais íntimo de mim do que eu mesmo. Jamais estarei só. Mais um ano é menos um ano. E então tudo se descortinará, e o sorriso será pra sempre. Assim espero. Assim o creio.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

"É mais urgente pensar no que se deve ser do que no que se deve fazer" Mestre Eckhart

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Deves saber que jamais alguém renunciou tanto nesta vida que não encontre a que ainda não devesse renunciar. São poucos os que têm plena consciência disto e se mantêm firmes. No fundo, trata-se de uma troca proporcional e de um negócio justo: na medida em que sais de todas as coisas, nesta mesma medida - nem mais nem menos - Deus entra em ti com tudo o que Ele tem. Mas somente com a condição de que tu em todas as coisas te despojes completamente de ti mesmo. Começa com isso e paga para isto o quanto puderes.

É mais urgente pensar no que se deve ser do que pensar no que se deve fazer. Se as pessoas e suas atitudes forem boas, suas obras brilham com toda claridade. És justo, então tuas obras serão justas. Não se pense em fundamentar a santidade num fazer; antes deve-se fundamentar a santidade num ser, pois as obras não nos santificam; nós é que santificamos as obras. Por mais santas que forem as obras, elas, enquanto obras, jamais chegam a nos santificar. Mas na medida em que nosso ser e nossa natureza forem santos, nesta mesma medida santificamos todas as nossas obras como o comer, o dormir, o acordar, ou outra coisa qualquer. De nada valem as obras, pouco importa quais, daqueles que não são portadores de uma natureza elevada. Tira disto a seguinte lição: coloca todo o teu empenho em ser bom; não te preocupes com o que fazes ou com o tipo de obras que fazes, mas com o fundamento e o motivo das obras.

Mestre Eckhart, Conselhos espirituais

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Pecado, dor, ignorância e falsidade


A fim de descobrir o que vai por trás de uma aparência, há que se ter atenção e a atenção pressupõe quietude.

Um pecado, por exemplo, se desperta inquietude e agitação, impede, no mesmo ato, a correta avaliação do que se fez e de por que se o fez. Mas é comum que às vezes o incômodo gerado não proceda diretamente do ato, mas do modo como a mente antecipa o julgamento de outros a respeito do mesmo ato. Assim, ela sofre por vaidade, e, além disso, assume um incômodo postiço, produto de uma conclusão conceitual – isto é, geral -, mas que se distingue inteiramente do incômodo visceral e singular que uma experiência também singular produz ou supostamente deveria produzir.

Assumir uma postura dolorida assim é assumir uma postura falsa. E esta falsidade tende a obscurecer a visão interior a respeito do que se fez, pois ela fica como uma capa flutuante e um modo de autoengano que a pessoa produz para esconder de si mesma o agravante de não estar pesarosa pela falta cometida. Um pecado pode, então, ser um ajudante no processo de autoconhecimento, e era isso o que os Padres do Deserto diziam: “Que o teu entulho seja teu pedagogo.” Mas, para isso, é preciso uma quietude que permita que o olhar da alma se detenha na questão.

Dar-se a si mesmo uma espécie de contrição pressupõe já tê-la antes da queda, o que é contraditório. Ninguém dá o que não tem. Assim, se um pecado em particular, embora objetivamente considerado grave, não desperte a culpa que se supõe normal em tais casos, isto deve ser aproveitado não para que seja deixado para lá, mas para que seja melhor investigado. O que está por trás da aparência? Como diz um trecho do livro de Levíticos: “Não faça isso, pois isso é bondade! (Hesed)". O ser humano só pode desejar algo, ainda que seja ruim, sob o aspecto do bem. Esta afirmação geralmente pressupõe a bondade visada no objeto. Mas é possível que a bondade esteja no que cometeu o que não deveria. Por trás do que se faz, portanto, não raro se esconde uma boa intenção ou uma boa raiz má considerada. Esta posição se avizinha da de Sócrates para o qual a maldade é produto de uma espécie de ignorância, esta entendida como o estado de não saber a respeito de algo que é essencial conhecer.

Isso obviamente não permite relativizar o pecado, mas serve para brecar a afetação posterior e para reconhecer que até mesmo ele pode ter uma função pedagógica. Se todo pecado é sempre um efeito daquela primeira Queda, todo pecado possui também a possibilidade de se tornar uma "felix culpa".

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Sobre Moral, Liberdade, Egoísmo e Tristeza


"Para saborear tudo, não queiras ter gosto em coisa alguma" 
São João da Cruz

O ser humano é um ser que intelige e decide, mas não necessariamente nessa ordem, já que o objeto de intelecção já é submetido a um prévio ato de deliberação. Não apenas faço o que entendi dever fazer, mas escolho aquilo no que vou pensar. Porém, é verdade que este prévio ato deliberativo se relaciona muito mais com o desejo - uma espécie de instinto imediato - do que com a vontade. Temos então a seguinte ordem: desejo - inteligência - vontade. É possível e comum que desejo e vontade discordem. Neste caso, a vontade age como sucessora corretiva do desejo. Como este é prévio à inteligência, ele tende a ser amoral, pois agir moralmente é agir segundo regras ou motivos; é saber por que agir assim é correto ou errado. A vida moral - a não ser quando já se tem o hábito - não pode ser fruto de qualquer inspiracionismo, como se nós tendêssemos naturalmente à vida correta. Qualquer mínimo exame da nossa realidade psíquica dá conta de ver que isso não é assim. Tendemos ao mal, e não é raro que mesmo aquela ação que julgamos naturalmente boa encubra intenções e desejos que não o são.

Na vida moral, há que se distinguir, portanto, estas duas coisas: a ação objetiva e a intenção ou finalidade que se pretende alcançar com a ação. Isoladas, elas não são suficientes ainda para constituir a ação moral. Mas se pode dizer que a intenção isolada tende a ser mais desculpável para o sujeito do que a ação isolada. Claro que há nisso controvérsias. Se um dado ato irrefletido, mas munido de boas intenções, só foi executado assim na ignorância de sua efetividade real devido a alguma negligência anterior do sujeito, ele já não se torna tão desculpável assim porque o conjunto da negligência anterior contamina a intenção atual do sujeito. Por trás de sua intuição de sinceridade pessoal há de se esconder qualquer senso de vigarice, pois o desconhecimento da objetividade da situação é fruto de um vício prévio.

Quanto às ações, tomadas isoladamente, é sabido que quaisquer delas podem ser inspiradas por um sem fim de motivos internos. Uma pessoa pode dar esmolas porque quer alimentar o esfomeado, ou porque quer cultivar a imagem de honesto para os outros, ou porque quer cultivá-la para si, ou porque quer impressionar alguém, ou porque quer impressionar Deus, ou porque quer ir para o Céu, ou porque não quer ir para o Inferno, ou porque quer que o pedinte o deixe em paz, ou porque se recordou de alguma situação anterior que o empurra para essa ação, ou porque simpatizou com aquele pedinte em particular, ou porque se sentiu momentaneamente comovido e aí obedece a si mesmo nesse ímpeto atual e totalmente instintivo de dar, etc. Do ponto de vista exterior, temos somente a ação. É por isso que o julgamento das intenções só é reservado a Deus, pois uma ação nem sempre é efeito fiel de correspondentes interiores. É preciso ainda dizer que essa fonte confusa dos nossos atos nem sempre é totalmente consciente. Bem, é comum que não o seja. Nós costumamos mentir para nós mesmos, e por isso não nos agrada quando alguém nos acusa de algo justamente. Nos é preferível à sensibilidade ficar na ignorância dessas coisas. E isso é assim também conosco. Se quem tenta conhecer-se encontra nisso extrema dificuldade, imaginem que não tem interesse nisso.

O que caracterizaria então a ação moral? Parece-me poder dizer que é a conjugação de ação boa em si - isto é, tomada objetivamente - com o desinteresse pessoal, isto é, sem qualquer cálculo de ganho pessoal em quem age. Quando há dissociação entre ação e intenção, temos a clássica situação da hipocrisia. Esta pode ser mais consciente e voluntária, mas também pode sê-los menos. Uma pessoa que, enquanto faz uma boa ação, diz interiormente que não quer recompensa e que faz somente pelo outro, pode ainda assim esconder, numa região mais  interior e ao abrigo da visão atual da consciência, a intenção de comover a Deus, e, assim, alcançar d'Ele algum favor. São João da Cruz, por isso, pedia para que, quando fizéssemos um ato correto, fizéssemo-lo como se mesmo Deus nunca fosse tomar notícia dele.

É bastante comum também que um sujeito passe a agir moralmente depois de alguma experiência que o tenha comovido. Inspirados, todos tendemos a agir de modo diferente, e isso não é ruim, mas a esfera da comoção, que é o campo dos nossos sentimentos, é por natureza volúvel e não há que se construir nada nisso aí. Óbvio que este pode ser um começo, mas, em quem não o percebe, haverá uma vaga e tola esperança de que aquele estado de espírito que então se vive seja perpetuado, o que asseguraria então que a nova direção das ações pessoais estaria resguardada. Contudo, além da falsidade dessa conclusão - que, não obstante, retomamos de novo e de novo -, o próprio ato de agir quando isto dá à consciência aquele conforto característico - quando a ação é um modo de assegurar o próprio valor moral, ou a própria concordância a um ideal - torna a ação, já, maculada. Há, no fim, uma busca por auto-satisfação. Notem que o problema não é a satisfação que uma boa ação pode causar à pessoa, mas a busca por ela. O prazer e a felicidade não devem ser objetos diretos da busca humana. Eles, por natureza, são acompanhantes. Eles se vinculam a objetos. Se buscamos objetos prazerosos, eles nos darão prazer. Se buscamos somente o prazer, ele até se permitirá fruir, mas não o fará sem resistência. É por isso que os vícios tendem a produzir efeitos cada vez menores. Com a felicidade é o mesmo: ela será tanto maximizada quanto menos for o objeto de busca principal. "Nega os teus desejos e encontrarás o que deseja o teu coração".

Se uma pessoa se habitua a agir buscando o prazer e a felicidade nas coisas, ainda que inconscientemente, ela se condenará a uma série de prejuízos: terá um tipo de vida moral muito condicionada às circunstâncias, será necessariamente inconstante - pois se moverá segundo suas disposições interiores -, tenderá ao egoísmo - pois está sempre gravitando em torno dos próprios ganhos -, e, como sua consciência estará enredada no fluxo das sensações exteriores e interiores, será necessariamente inquieta e superficial, pois nunca entra fundo em si mesma, onde as coisas são mais estáveis. O produto disso tudo é uma espécie de cegueira e de depressão crônica subjacente, pois, a rigor, a alma anda perdida. E isto se torna um círculo vicioso: quando mais tristeza, mais busca desesperada por algo que a supra, e, como esta busca mantém a lógica da tristeza, esta aumenta, levando a mais ações e mais angústia. A pessoa age como alguém que, estando machucado, golpeia os pregos diante de si, e, ao aumento da dor, aumenta a violência dos golpes.

O desinteresse interior, ao contrário, reorienta a alma para além de si mesma. Isto gera uma saída do solipsismo, e ela se torna disponível a qualquer outra voz além da sua. Relativizar-se é o começo da saúde. Aceitar que Deus é Outro, e não eu mesmo, é algo que não basta compreender: é necessário intuir e saborear. Isto permite que a pessoa aja independentemente do que está sentindo no momento. Se ela passa a agir assim, chegará o dia em que já não se perguntará se o que tem de fazer é agradável ou não. Ela fará. A pessoa cessa de ter uma intenção curva - que voltava sempre pra ela mesma - e passa a ter uma intenção reta, e a intenção reta, diz o Imitação de Cristo, alcança Deus.

Para reorientar a intenção interior, não é suficiente somente um esforço de consciência, embora este já seja útil. Compreender essas verdades é fundamental para alguém que quer fazer da vida algo além de um rodopio em torno de si mesmo. Mas é preciso acrescer outras coisas: a nossa vida inteira foi vivida nessa lógica, e o nosso pecado não é senão uma culminância natural disso que ocorre na nossa alma. Se é verdade que a operação segue o ser - e é verdade -, o nosso pecado é sempre a exteriorização de um tipo de enfermidade interior. O que fazer, então? Primeiramente, compreender isso tudo, mesmo, pois a nossa consciência, embora seja atingida por esse fluxo desordenado de paixões, ainda é capaz, em geral, de, com o devido esforço, olhar como que por cima da tempestade. Estes saltos permitem-na ver. Em seguida, é preciso combater ativamente a desordem, e, para isso, não há outro meio que a mortificação. Mortificar-se é inverter a ordem. Se antes se vivia para o prazer e para o ganho sensível, agora o sujeito buscará ativamente os desprazeres e, passivamente, não reclamará nem fugirá dos desconfortos. É isso o que quer dizer ainda São João da Cruz quando escreve: "Deixa-te ensinar, deixa-te mandar e desprezar, e serás perfeito." É como quando, depois de girar muito para um lado, e já bêbados, precisamos agora girar para o outro para diminuir a tontura. Quanto menos tontura, melhor disposição interior e mais clara a visão. E quanto mais avançados nesse caminho, mais perceberemos detalhes e sutilezas. Desde já, porém, é preciso notar: não há caminho alternativo. Haveria somente se Deus coagisse a alma. E Ele de certo modo o faz quando nos dá sofrimentos. Os sofrimentos são como um empurrão por esse caminho em quem ia totalmente pelo outro lado. Mas, ainda assim, isso não é determinante, pois, em última instância, a decisão é sempre da pessoa.

Atos morais, que são totalmente bons, são os atos desinteressados e que se orientam em direção ao bem objetivo. É assim que Deus age, e é assim que o cristão deve viver: imitando-O.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Vivem como que esperando e não esperam nada


"Quase todos os homens vivem num nevoeiro, perseguem objetivos imediatos que saem por um instante da bruma, esse bem que convém adquirir, aquele lugar entre os seus semelhantes, tal prazer; quando atingem um deles, surge outro da bruma, e, assim, vão como à deriva oscilando e objetivo imediato em objetivo imediato, sem uma linha de vida.

Não têm idéia clara da hierarquia dos valores. Não há um que seja o fim a que os outros se deverão ordenar. Ou, então, põem o fim num bem temporal, um Homem, uma mulher, o dinheiro, a Pátria.

E muitos estão como numa sala de espera em que não esperam nada. Estão na vida sem se terem perguntado porquê; vivem porque estão na vida; obedecem ao instinto obscuro que se agarra à vida. Mas, não têm nada a fazer dela.

Vivendo em presente, tratam de estar o melhor ou o menos mal possível. Trabalham se é necessário para viver: senão, não fazem nada. Prevêem na medida de alguns fins imediatos. Quanto à morte, evitam pensar nela e permanecem na vida porque estão como que esperando e não esperam nada.

Isto é o que provoca o tom cinzento geral da vida. A maior parte dos homens tem pouca alegria; o máximo que obtêm é uma espécie de ausência de dor sofregamente conservada. Nada mais instrutivo do que passar entre pessoas que se divertem, ver a expressão dos seus rostos e ouvir as suas reflexões.

Dizem-nos especialmente que para se divertir bem numa reunião alegre é preciso beber um bocado de maneira que a cabeça não esteja totalmente firme.

A sua vida é um torpor habitual de que só saem sob o influxo da necessidade ou da paixão.

Aliás, nada há de tão triste como ver que pouca gente é feliz. Quando, afinal, a felicidade está ao alcance da mão e à vista, na Natureza e em nós mesmos. Regnum Dei intra vos est."

Pe Jacques Leclercq

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Qualidades para a gravidade do pecado


As condições para que um pecado possa ser qualificado como mortal ou venial são três: Matéria, Consciência e Liberdade. Explico:

A Matéria é a situação específica, se foi grave ou não, se se roubou ou se se mentiu, se houve ou não agravantes, etc. Assim, uma mentira pode ser venial ou mortal a depender das circunstâncias ou das consequências. Tais circunstâncias ou consequências são agravantes. Uma coisa é mentir a idade apenas por vaidade; outra é menti-la para que se obtenha um benefício, como um emprego; outra, ainda, é dissimulá-la a fim de isentar-se de um serviço obrigatório.

A consciência é naturalmente a auto-percepção de estar a fazer algo errado. Um ato errado sem consciência obviamente não pode ser culpabilizado. Se eu aperto um botão crendo que ele irá libertar animais presos, e, no entanto, o que ele faz é detonar uma bomba numa escola infantil, eu não posso ser culpado pelas consequências uma vez que não tinha consciência delas. Óbvio que se pode aqui questionar se tal ignorância é ou não culpável. Isto envolve um outro exame. Mas, a rigor, se faltou consciência, a culpa não pode ser aplicada. É o caso de pessoas que se casam e, depois de muitos anos, percebem que são parentes de primeiro grau. Neste caso, a culpa não lhes é imputada.

Por fim, a liberdade é a livre decisão de fazer ou não o ato referido. Roubar é errado. Porém, a gravidade da fome ou da pobreza dos parentes pode minorar - sem tornar lícito, frise-se - este ato. Do mesmo modo, certas compulsões mentais tiram ao sujeito a liberdade de agir de um modo diferente. A necessidade do ato torna-o, novamente, isento de culpa, ainda que a pessoa tivesse consciência da imoralidade do feito. Suponhamos ainda que alguém tem fobia por aranhas e está num hospital de idosos em que o silêncio é necessário. Ao ver o objeto temido, a descarga de ansiedade lhe faz gritar, e isto causa um incômodo considerável nos velhinhos, fazendo inclusive com que alguns precisem ser atendidos. Se estava em posse da pessoa não gritar, o fato de ter gritado torna-se culpável. Mas se não lhe era possível não fazê-lo, então ela não pode ser responsabilizada. Deve ser, obviamente, retirada do ambiente, mas não tem culpa. Algo similar ocorre com a blasfêmia: se feita livremente, é pecado gravíssimo. Se feita num momento de crise, a culpa pode ser minorada. Se feita porque alguém nos pôs uma arma na cabeça e ameaçou disparar se não blasfemássemos, a culpa poderá ser até nula.

Há, porém, um outro componente que julgo importante constar para que se avalie a moralidade de uma ação: é a intenção. Uma pessoa pode ter consciência de que um ato é mau, pode estar livre para fazê-lo, pode querer fazê-lo, mas ainda assim pode ter uma intenção que não é má. É o caso, por exemplo, de quem, conhecendo as regras da Igreja sobre o estado de graça necessário à comunhão, decide, num momento de inspiração, arriscar, fazer um ato de confiança cega na misericórdia divina, e tomar a santíssima espécie. Esta situação parece mais frequente do que se imagina. É claro que isto não a isenta da gravidade do ato, mas consideremos que uma coisa é que ela vá a comungar com a intenção de cometer um sacrilégio, e outra, muito diferente, é a de que esteja a fazer um ato extremado de Fé. Vê-se como a intenção é importante para uma justa avaliação dos atos. E os santos insistem particularmente nisto: a pureza de intenção. Pode-se, porém, esclarecer que, no exemplo citado, a consciência da pessoa está reduzida, uma vez que, embora conheça os ditames da Igreja, parece neles não confiar de todo, o que implica uma falta de consciência. Assim, nos casos em que a intenção é boa mas a ação não o é, tem-se um caso de ignorância, e, como dissemos, há que se investigar as causas desse defeito para se descubra se há culpa pessoal nisso ou não. Assim, embora a intenção só não seja suficiente para a moralidade de um ato, ela tampouco é dispensável.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

As preocupações do homem fútil são como teias de aranha


"Apesar de sua aparente consistência, a teia de aranha desfaz-se e desaparece ao mais leve toque da mão. Assim, a vida do homem implicado nas preocupações fúteis - como se se tratasse de fios suspensos no ar - tece inutilmente sua teia inconsistente; basta submetê-la a um questionamento mais sistemático, e a frívola preocupação escapa à prisão e desaparece.

Tudo o que se persegue nesta vida só existe na opinião e não na realidade: a honra, a dignidade, a glória, a fortuna e tudo aquilo a que se dedicam as aranhas da vida...

Aqueles que sobem em direção aos cimos escapam com a leveza de seu vôo às tramas das aranhas do mundo; pelo contrário, aqueles que, à semelhança das moscas, são pesados e desprovidos de energia, permanecem grudados aos viscos da vida, estão presos e acorrentados como que por redes às honras, prazeres, elogios e múltiplos desejos, tornando-se assim a presa da Besta que procura capturá-los."

São Gregório de Nissa

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Procurar-se é limitar-se e limitar o ilimitado




"O homem que só se procura a si na arte, na ciência, na caridade, na piedade, que pensa em si, que se admira e busca as sensações ou as impressões, ou a satisfação de ser sábio ou artista, ou de estar unido a Deus, ou que procura a glória que estas coisas proporcionam, não encontra nelas o desenvolvimento que tudo isso lhe deve trazer. Não é verdadeiramente acrescentado com elas; o cuidado de si próprio impede-o de se perder, de perder a estreiteza do seu ser nos valores que o ultrapassam. Não vê estes valores senão através de si mesmo e ele é um ser 'limitado'. Limita-se, portanto, o ilimitado, e então o ilimitado deixa de ser o ilimitado. A preocupação por si próprio faz de anteparo entre estas realidades espirituais e ele, e nunca chega ao verdadeiro sentido da beleza, da verdade, do bem - de Deus."

Jacques Laclerco

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O cristianismo é mais que filosofia religiosa

Thomas Merton e Dr. Suzuki

... Se a revelação é considerada simplesmente como um sistema de verdade sobre Deus; uma explicação para o começo do universo e sobre o que eventualmente lhe sucederá; sobre qual o escopo da vida cristã, quais as suas normas morais; as recompensas das pessoas virtuosas; e assim por diante, - o cristianismo é, de fato reduzido a simples ótica "mundana". Por vezes, isso pode ser apenas filosofia religiosa ou pouco mais, impondo uma Lei, sustentada num culto mais ou menos vistoso, numa disciplina moral e num código rígido. Num tal quadro teológico, a "experiência" do sentido interior da revelação cristã sofrerá forçosamente distorção e será diminuída. Qual será essa experiência? Não tanto uma experiência teologal vivenciada na presença de Deus, no mundo e na humanidade, através do mistério cristão, mas antes uma sensação de segurança em relação à nossa própria atitude "correta". A pessoa experimentará sentimento de confiança de estar salva, confiança baseada na "consciência reflexa" que a pessoa tem de que sua ótica está correta em relação à criação e à finalidade do mundo e ao próprio comportamento como capaz de receber a recompensa na outra vida.

Thomas Merton, Zen e as aves de rapina.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O princípio do prazer e o pensamento

Quando pensamos, porque pensamos o que pensamos? A Psicanálise freudiana trabalha com a idéia de determinismo psíquico, que equivale a dizer que todos os nossos pensamentos são causados por relações que ocorrem numa esfera inconsciente. Isso se daria em conjunção com os eventos externos. Esta combinação geraria o pensamento, ao mesmo tempo que negaria qualquer tipo de liberdade. Será isto verdade? Estaria eu escrevendo estas linhas porque estou obrigado a isso por quaisquer interesses inconscientes que eu tenha e dos quais não me dou conta? Ora, é muito fácil sustentar como prova disso o próprio fato de que eu não o percebo. Seria possível provar qualquer coisa. Por exemplo, eu posso dizer ao leitor que ele tem uma profunda vontade inconsciente de levar uma injeção. E por que ele não percebe? Justamente porque é inconsciente, oras. É um conceito falho e que nega aquilo que sabemos por uma intenção direta: somos livres e podemos decidir o que fazemos, e, também, o que pensamos.

Aqui há um problema. Alguém poderia redarguir e dizer que, embora quisesse, não consegue ficar sem se distrair. Logo, não é verdade que há total liberdade psicológica à moda cartesiana. Antes de entrar neste problema, notemos o seguinte. A consciência tem uma natureza intencional, o que significa dizer que ela sempre se dirige a um objeto, é sempre "consciência de". Antes, porém, de ela se dirigir a uma realidade em particular, é preciso um ato de volição. Por isso, embora seja verdade que a vontade segue a inteligência, também é verdade que a inteligência, no seu caráter intencional, é precedida por um ato de deliberação.

Aristóteles diz, na sua Ética, que todo ato humano, sem exceção, busca a eudaimonia ou felicidade. A felicidade deve ser entendida como a realização de si mesmo. Jesus diz algo parecido: "onde está o teu tesouro, aí estará o teu coração." Coração aqui pode ser entendido como vontade, pensamento, atenção, etc. Se todos os nossos atos visam, então, essa realização do eu, e sendo o pensamento um ato, logo podemos dizer que os nossos pensamentos gravitam em torno dos nossos interesses. Se na própria matriz das nossas ações há essa seleção epicurista feita pelo nosso eu, é óbvio, então, que as nossas distrações seguirão a mesma lógica.

O que é uma distração? É como um pensamento que se insinua por baixo de um outro no qual está atualmente a nossa atenção. O que, contudo, caracteriza a distração não é exatamente o pensamento, mas a atenção que então abandona o seu atual objeto de foco e como que dá uma olhadela no outro. A distração, assim, seria um tipo de salto entre idéias; se este salto é dado numa direção de fuga do assunto atual, dizemos que, então, houve uma desatenção, ou falta de atenção no objeto devido.

Por que, no entanto, há esse movimento centrífugo? Dizíamos que a consciência é intencional, e, portanto, há, antes da atenção, a deliberação sobre a direção da atenção, o que configura um ato. Todo ato visa a felicidade. Logo, as nossas distrações se dão em função de objetos do nosso interesse. Pensemos: para onde vai a nossa mente quando, numa aula, nos distraímos? E por que nos distraímos? 

É fácil nos distrairmos quando o objeto visado atualmente não nos causa interesse particular. Outras vezes, ele até nos interessa, mas somente em função do seu fim; o processo pelo qual atingimos aquele fim, ao contrário, nos parece enfadonho, e daí temos o sono ou as distrações. Isso ocorre muito quando estudamos. Ninguém leria uma declaração de amor de forma distraída. Já uma bula de remédio pegada a esmo quase não consegue "cativar" a atenção. Uma dos fatores distrativos é a monotonia. Sabemos que rezar é algo excelente. No entanto, orações como o terço, etc., tendem a nos dar sono tão logo as consideremos como possibilidade.

Quando nos distraímos, a nossa mente vaga por objetos de nosso interesse, através de situações que podemos chamar positivas e negativas. As positivas são quando consideramos diretamente realidades que desejamos: uma namorada, um amigo, uma comida, um divertimento, um passeio, uma viagem, etc. As negativas são quando temos medo de perder alguma coisa: uma doença, uma briga, uma demissão, etc.

Dito isto, devemos considerar de que modo podemos adquirir uma liberdade maior com relação a esse magnetismo imanente à consciência. São João da Cruz condensa seu método na seguinte recomendação: "não queira ter gosto em coisa alguma." Isto é: não considerar mais o atrativo das coisas para fazê-las, nem o desconforto que elas causam para deixar de realizá-las. O nosso intuito deve se concentrar, antes, no dever de fazê-las ou não. Isso, no entanto, se nos revela um tanto difícil, pois nossas considerações se dão já depois da seleção natural operada pela nossa consciência. Além disso, uma vez que é traço inerente de todo ato humano o buscar a felicidade, de que modo podemos ter uma ação que não siga essa lógica?

A orientação para a felicidade, inclinação humana visceral e imparável, é a própria raiz do condicionamento dos nossos atos aos nossos interesses. Onde estiver o nosso tesouro, lá estará o nosso coração, a nossa atenção. No entanto, como sabemos, os nossos atos, embora orientados para a felicidade, podem manifestar-se no sentido oposto. Na perspectiva cristã, os desejos satisfeitos de modo equivocado antes afastam o sujeito da felicidade do que o aproximam, isto é, contrariam, na sua própria efetivação, a sua razão de ser. Isso instaura uma divisão no homem: ele segue tendendo para a felicidade, mas age no sentido oposto, ainda que esta ação nasça daquela disposição. É fácil concluir que em continuar satisfazendo-se, ocorrerá o progressivo distanciamento do fim visado e, como este fim é a causa dos desejos, estes desejos são frustrados no ato mesmo em que são satisfeitos. O único modo de corrigir os atos a fim de que se harmonizem com o princípio é regrando-os através da auto-imposição em direção a um dever, sem levar em consideração o apelo ou a aversão que tal dever exerce sobre a vontade. Esta prática é o que os cristãos chamam de mortificação e que tem como efeito a libertação da vontade das suas inclinações tanáticas ou patológicas. A vontade, livre das suas dependências de estímulos imediatos, recupera-se de sua miopia e cessa de constranger a inteligência que, então, abre-se novamente a dimensões superiores, redimensionando todo o organismo espiritual da pessoa.

É preciso, portanto, vencer o princípio de prazer, que tira a sua razão de ser da orientação transcendente do homem à felicidade ao mesmo tempo em que o afasta desta vocação. Isto significa necessariamente que alguém que vença essas inclinações será uma pessoa menos distraída e com maior capacidade de foco. Ainda que não sejam consideradas as vantagens espirituais em senso estrito, a vitória sobre esta escravidão fundamental de todos nós que é o de buscar somente o que nos agrada favorecerá o próprio indivíduo na sua vida comum.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Trecho tirado de "A Cabana" - Expectativa e Responsabilidade


O trecho que vai abaixo é retirado do livro "A Cabana", de William P. Young, que, na mesma medida em que é famoso, é repudiado por católicos. De fato, a sua leitura deve ser feita com bastante atenção, pois há dissonâncias, mesmo, com a doutrina católica. No entanto, muitas das críticas que se divulgam por aí são meras afetações de gente que provavelmente nem leu, ou, se o fez, vestiu-se de pré-conceitos, isto é, já tinha uma idéia pré-concebida da obra bem antes de percorrer-lhe as páginas. Eu li esse livro há pelo menos uns quatro anos, e, na época, causou-me viva impressão. Em todo esse tempo, sempre me lembrava particularmente do trecho que ponho logo abaixo. Peço ao leitor, católico ou não, que se dispa de suas idéias prévias sobre a obra. Estranhe-a no sentido de permitir que ela se mostre. Isso é, antes de tudo, uma atitude de respeito, e é este respeito a pré-condição para qualquer compreensão genuína. "Sei que eu não sei", era a atitude que Sócrates gostava de desenvolver nos seus interlocutores, pois é só aí que o conhecimento torna-se possível. No excerto abaixo, comento vez ou outra naquilo que se distanciar claramente da doutrina católica ou que eu achar conveniente, e o farei entre parênteses e em vermelho. No entanto, não permita que essas desarmonias com a verdade vos impeçam de notar as excelentes intuições que o autor do texto pôs no que segue. 


Situando vocês: o protagonista, Mack ou Mackenzie, está numa mesa, junto com as três pessoas da Trindade Santíssima, e as interroga. o Espírito Santo é referido pelo nome de Sarayu. Boa leitura.

***

- Por que vocês nos amam, os humanos? Eu acho... - Percebeu que não havia formulado bem a pergunta. - Acho que o que eu quero perguntar é: por que vocês me amam, quando não tenho nada a oferecer?

- Pense um pouco nisso, Mack - respondeu Jesus. - Você não experimenta uma forte sensação de liberdade ao saber que não pode nos oferecer nada, pelo menos nada capaz de acrescentar ou diminuir o que somos? Isso deve trazer um grande alívio, porque elimina qualquer exigência de comportamento.

- E você ama mais os seus filhos quando eles se comportam bem? - Acrescentou Papai.

- Não. Estou entendendo. - Mack fez uma pausa. - Mas eu me sinto mais realizado porque eles estão na minha vida. E vocês?

- Não - respondeu Papai. - Já somos totalmente realizados em nós mesmos. Vocês estão destinados a viver em comunhão também, já que são feitos à nossa imagem. Assim, sentir isso por seus filhos ou por qualquer coisa que "acrescente" é perfeitamente natural e certo. Lembre-se, Mackenzie, que por natureza eu não sou um ser humano, apesar de termos escolhido estar com você neste fim de semana. Sou verdadeiramente humano em Jesus, mas sou algo totalmente separado em minha natureza. (Aqui o modo de expressão não foi muito feliz. Alguns afirmam que o autor da obra tem uma perspectiva unitarista de Deus, como se as três pessoas fossem, na verdade, uma só. Isso parece ser indicado quando Deus Pai diz que é humano em Jesus. Na verdade, eles são pessoas distintas, ainda que tenham a mesma natureza.)

(...)
- Vocês sabem como me sinto grato por tudo, mas jogaram coisas demais no meu colo neste fim de semana. O que faço quando voltar? Qual é sua expectativa com relação a mim, agora?

Jesus e Papai se viraram para Sarayu, que estava com o garfo cheio de alguma coisa a caminho da boca. Ela pousou-o lentamente de volta no prato e depois respondeu à expressão confusa de Mack.

- Mack - começou ela -, você deve perdoar esses dois. Os humanos têm uma tendência a estruturar a linguagem de acordo com sua independência e com sua necessidade de comportamento. Assim, quando ouço a linguagem sofrer abusos em favor das regras e não ser usada para compartilhar a vida conosco, é difícil permanecer em silêncio.

- Como deve ser - acrescentou Papai.

- Então o que foi exatamente que eu disse? - Perguntou Mack, agora bastante curioso.

- Mack, vá em frente e termine de mastigar. Nós podemos conversar enquanto você come.

Mack percebeu que também estava com o garfo a caminho da boca. Mastigou agradecido o bocado enquanto Sarayu começava a falar. À medida que fazia isso, ela pareceu se alçar da cadeira e tremeluzir com uma dança de tons e cores sutis, enchendo suavemente a sala com uma variedade de aromas.

- Deixe-me responder com uma pergunta. Por que você acha que nós criamos os Dez Mandamentos?

De novo Mack estava com o garfo a meio caminho da boca, mas mesmo assim mastigou o bocado enquanto pensava na resposta. 

- Acho, pelo menos foi o que me ensinaram, que é um conjunto de regras que vocês esperavam que os humanos obedecessem para viver com retidão e em estado de graça perante vocês.

- Se isso fosse verdade, e não é - respondeu Sarayu -, quantos você acha que viveram com retidão suficiente para entrar em nossas boas graças? (Dizer que não é verdade é excessivo, pois sabe-se que a graça de Deus está numa pessoa que não cometeu pecado mortal, isto é, que não transgrediu um dos 10 mandamentos. No entanto, isto não significa que cumprir a Lei está ao nosso alcance, e que, portanto, isso reforçaria a auto-suficiência, pois a Graça é a ajuda divina em nós. O autor não é católico, portanto não tem muito saber sobre esse ponto. Mas a sua argumentação seguinte segue válida nas suas intuições. Para esclarecer as relações entre pecado, Lei e graça, leia-se o livro de Romanos, capítulos 7 e 8.)

- Não muitos, se as pessoas são como eu.

- Na verdade, só um conseguiu: Jesus. Ele obedeceu à letra da Lei e realizou completamente o espírito dela. Mas entenda, Mackenzie: para fazer isso, ele teve de confiar totalmente em mim e depender totalmente de mim.

- Então por que vocês nos deram esses mandamentos?

- Na verdade, queríamos que vocês desistissem de tentar ser justos sozinhos. Era um espelho para revelar como o rosto fica imundo quando se vive com independência.

- Mas tenho certeza de que vocês sabem que há muitos que acham que se tornam justos seguindo as regras.

- Mas é possível limpar o rosto com o mesmo espelho que mostra como você está sujo? Não há misericórdia nem graça nas regras, nem mesmo para um erro. Por isso Jesus realizou todas elas por vocês, para que não tivessem mais poder sobre vocês.

Agora ela estava com força total, as feições crescendo e movendo-se.

- Mas tenha em mente que, se você viver sua vida sozinho e de forma independente, a promessa é vazia. Jesus afastou a exigência da lei. Ela não tem mais poder de acusar ou comandar. Jesus é a promessa e o cumprimento.

- Está dizendo que não preciso seguir as regras? - Agora Mack havia parado completamente de comer e estava concentrado na conversa.

- Sim. Em Jesus você não está sob nenhuma lei. Todas as coisas são legítimas. (Por mais que isso possa fazer franzir a testa do leitor, lembremos do que diz Sto Agostinho: "Ama e faze tudo o que queres". Obviamente, isto não significa dizer que todos os crimes e pecados estão, a partir de então, permitidos e liberados. Quer apenas dizer que uma pessoa que ama, ou, segundo o texto, que está em Jesus, agirá de modo correcto naturalmente, sem precisar regrar obsessivamente o seu comportamento.)

- Não pode estar falando sério! - gemeu Mack.

- Criança - interrompeu Papai -, você ainda não ouviu nada.

- Mackenzie - continuou Sarayu - só têm medo da liberdade os que não podem confiar que nós vivemos neles. Tentar manter a lei é na verdade uma declaração de independência, um modo de manter o controle.

- É por isso que gostamos tanto da lei? Para nos dar controle? - perguntou Mack.

- É muito pior do que isso - retomou Sarayu. - Ela dá o poder de julgar os outros e de se sentir superior a eles. Vocês acreditam que estão vivendo num padrão mais elevado do que aqueles a quem vocês julgam. Aplicar regras, sobretudo em suas expressões mais sutis, como responsabilidade e expectativa, é uma tentativa inútil de criar a certeza a partir da incerteza. As regras não podem trazer a liberdade. Elas só têm o poder de acusar.

- Uau! - De repente Mack percebeu o que Sarayu havia dito. - Está dizendo que a responsabilidade e a expectativa são apenas outra forma de regra? Ouvi direito?

- É - exclamou Papai de novo. - Agora chegamos ao ponto: Sarayu, ele é todo seu!

Mack tentou concentrar-se em Sarayu, o que não era uma tarefa simples.

Sarayu sorriu para Papai e de novo para Mack. Começou a falar lenta e decididamente:

- Mackenzie, eu sempre prefiro um verbo a um substantivo. Parou e esperou. Mack não tinha muita certeza de ter entendido.

- Hein?

- Eu - ela abriu as mãos para incluir Jesus e Papai (mais uma vez, atente-se que Deus é unidade de natureza, mas tríade de pessoas) - sou um verbo. Sou o que sou. Serei o que serei. (isso aqui não tem sentido) Sou um verbo! Sou viva, dinâmica, sempre ativa e em movimento. Sou um ser-verbo.

Mack tinha uma expressão vazia no rosto. Entendia as palavras, mas ainda não achava o sentido.

- E, como minha essência é um verbo - continuou ela -, sou mais ligada a verbos do que a substantivos. Verbos como confessar, arrepender-se, viver, amar, responder, crescer, colher, mudar, semear, correr, dançar, cantar e assim por diante. Os humanos, por outro lado, gostam de pegar um verbo vivo e cheio de graça e transformá-lo num substantivo ou num princípio morto que fede a regras. Os substantivos existem porque existe um universo criado e uma realidade física, mas, se o universo for apenas uma massa de substantivos, ele está morto. A não ser "eu sou", não existem verbos e os verbos são o que torna o universo vivo.

- E... - Mack ainda estava lutando, mas pareceu que um brilho de luz começava a iluminar seu pensamento. - E isso significa exatamente o quê?

- Sarayu pareceu não se perturbar com sua falta de entendimento.

- Para que alguma coisa se mova da morte para a vida, você precisa colocar algo vivo e móvel na mistura. Passar de uma coisa que é apenas um substantivo para algo dinâmico e imprevisível, para algo vivo e no tempo presente - um verbo -, é mover-se da lei para a graça. Posso dar alguns exemplos?

- Por favor. Sou todo ouvidos.

Jesus deu um risinho e Mack piscou para ele antes de se voltar para Sarayu. A sombra levíssima de um sorriso atravessou o rosto dela enquanto retomava:

- Então vamos usar suas duas palavras: responsabilidade e expectativa. Antes que suas palavras se tornassem substantivos, eram nomes que continham movimento e experiência: a capacidade de reagir e a prontidão. Minhas palavras são vivas e dinâmicas, cheias de vida e possibilidades. As suas são mortas, cheias de leis, medo e julgamento. Por isso você não encontrará a palavra responsabilidade nas Escrituras.

- Minha nossa! - Mack franziu a testa, começando a perceber onde isso ia dar. - Por outro lado, nós a usamos um bocado.

Ela continuou:

- A religião usa a lei para ganhar força e controlar as pessoas de que precisa para sobreviver. (Essa crítica, obviamente, não se aplica à essência religiosa, mas se aplica a movimentos religiosos que fogem aos princípios) Eu, ao contrário, dou a capacidade de reagir e sua reação é estar livre para amar e servir em todas as situações. Por isso, cada momento é diferente, único e maravilhoso. Como sou capacidade de reagir livremente, tenho de estar presente em vocês. A responsabilidade seria uma tarefa a realizar, uma obrigação a cumprir, algo para vencer ou fracassar.

- Minha nossa, minha nossa - disse Mack outra vez, sem muito entusiasmo.

- Usemos o exemplo da amizade e veremos que remover o elemento de vida de um substantivo pode alterar um relacionamento. Mack, se você e eu somos amigos, há uma prontidão dentro de nosso relacionamento. Quando nos vemos ou quando estamos separados, há a prontidão de estarmos juntos, de rirmos e falarmos. Essa prontidão não tem definição concreta: é viva, dinâmica, e tudo que emerge do fato de estarmos juntos é um dom único que não é compartilhado por mais ninguém. Mas o que acontece se eu mudar "prontidão" por "expectativa", verbalizada ou não? Subitamente a lei entra no nosso relacionamento. Agora você espera que eu aja de um modo que atenda às suas expectativas. Nossa amizade viva se deteriora rapidamente e se torna uma coisa morta, com regras e exigências. Não tem mais a ver com nós dois, mas com o que os amigos devem fazer ou com as responsabilidades de um bom amigo.

- Ou - observou Mack - com as responsabilidades de marido, de pai, empregado ou qualquer outra coisa. Entendi. Prefiro viver na prontidão.

- Eu também - disse Sarayu.

- Mas - argumentou Mack -, se não tivéssemos expectativas e responsabilidades, tudo não iria simplesmente desmoronar?

- Só se você fizer parte do mundo fora de mim, regido pela lei. As responsabilidades e as expectativas são a base para a culpa, a vergonha e o julgamento. Elas fornecem a estrutura que faz do comportamento a base para a identidade e o valor de alguém. Você sabe muito bem como é não atender às expectativas de alguém.

- Sei mesmo! - murmurou Mack. - É uma idéia que me traz tristes lembranças. - Parou brevemente, com um novo pensamento relampejando. - Você está dizendo que não tem expectativas com relação a mim?

Agora Papai falou:

- Querido, eu nunca tive expectativas com relação a você nem a ninguém. A idéia por trás disso exige que alguém não saiba o futuro ou o resultado e esteja tentando controlar o comportamento do outro para chegar ao resultado desejado. Os humanos tentam esse controle principalmente por meio das expectativas. Eu o conheço e sei tudo sobre você. Por que teria uma expectativa diferente daquilo que já sei? Seria idiotice. E, além disso, como não a tenho, vocês nunca me desapontam.

- O quê? Você nunca ficou desapontado comigo? - Mack estava se esforçando bastante pra digerir isso.

- Nunca! - declarou Papai enfaticamente. - O que tenho é uma prontidão constante e viva no nosso relacionamento e lhe dou a capacidade de reagir a qualquer situação e circunstância em que você se encontrar. Se passar a contar com expectativas e responsabilidades, você não me conhece nem confia em mim.

- E pela mesma razão - exclamou Jesus - você vive no medo.

- Mas... - Mack não estava convencido. - Mas você não quer que a gente estabeleça prioridades? Você sabe: Deus primeiro, depois sei lá o quê, seguido por mais não sei o quê?

- O problema de viver segundo prioridades - disse Sarayu - é que se vê tudo como uma hierarquia, uma pirâmide, e você e eu já falamos sobre isso. Se você puser Deus no topo, o que isso realmente significa? Quanto tempo você me dá antes de poder cuidar do resto do seu dia, da parte que lhe interessa muitíssimo mais?

Papai interrompeu de novo.

- Mack, não quero ser o primeiro da sua lista de valores. Quero estar no centro de tudo. Quando vivo em você, podemos viver juntos tudo que acontece com você. Em vez de uma pirâmide, quero ser como centro de um móbile, onde tudo em sua vida - seus amigos, sua família, seu trabalho, os pensamentos, as atividades - esteja ligado a mim, mas se movimente ao vento, para dentro e para fora, para trás e para frente, numa incrível dança do ser.

- E eu - concluiu Sarayu - sou o vento. - Ela deu um sorriso enorme e fez uma reverência.

Houve silêncio enquanto Mack procurava se controlar. Estivera segurando a borda da mesa com as duas mãos, como se quisesse agarrar algo tangível diante daquele tiroteio de idéias e imagens.

- Bom, chega disso - declarou Papai, levantando-se da cadeira. - É hora de diversão! Vocês vão em frente enquanto eu tiro as coisas que podem estragar. Cuido dos pratos mais tarde.

A Cabana, p. 154-160