sábado, 20 de agosto de 2011

5º Mistério Gozoso - A perda e o encontro do menino Jesus no Templo


Estamos uns doze anos depois do nascimento de Jesus. Ele e seus pais, como autênticos judeus, costumavam ir anualmente visitar o Templo de Jerusalém. Era sempre uma alegria essa viagem. Iam em caravanas e é neste contexto que devemos entender, primariamente, as palavras do Salmista: "Que alegria quando ouvi que me disseram: vamos à casa do Senhor; e agora, nossos pés já se detêm, Jerusalém, em tuas portas."

E lá ia Jesus, com seus pais. Chegados no templo, Lucas não fala dos pormenores. Mas, segundo alguns, era comum que as crianças de várias famílias ficassem juntas, de modo que os pais não se preocupavam, supondo que eles estavam com conhecidos. Quando Jesus chega ao Templo, não podemos sondar o que seu passou na sua alma. Erra, porém, quem pensa que Ele rejeitou o templo. De modo algum. Lembremos que, anos depois, o mesmo Jesus se levantará energicamente contra o comércio no interior do templo e sua desvirtuação do culto. Depois de ter derrubado bancas e lançado seu chicote contra os cambistas, os Apóstolos O olharão e lembrarão da Escritura: "O zelo por tua casa me consome". Jesus amava o templo.

Pois bem. Não temos como dizer, como já o adiantamos, os pormenores dessa visita. O que o Evangelista Lucas nos relata de modo mais claro é o que se deu quando esses judeus voltavam, já, às suas casas. José e Maria iam juntos e Jesus estava ausente. A suposição, como dissemos, é que Ele estivesse em alguma outra caravana. No entanto, ao final de três dias, perceberam que algo não estava certo. Depois de perguntar a todos os seus conhecidos e constatar que Jesus não estava entre eles, a aflição tomou conta do coração de Maria e de José. Decidiram voltar imediatamente ao templo de Jerusalém, com a esperança de encontrá-Lo lá.

Aqui a Virgem Santíssima nos dá uma grande lição. Sabemos, pela teologia, que perdemos a amizade com Nosso Senhor toda vez que caímos em pecado mortal. É então que se dá algo similar a essa perda de Jesus. Maria nos ensina o que fazer: procurá-Lo imediatamente, pois tudo é nada sem Ele. Para encontrá-Lo não se devem medir os esforços. Lembremos de Maria Madalena que, vendo como o corpo de Jesus não estava na tumba no terceiro dia após a Sua morte, pergunta aflita: "Onde O puseram? Digam-me e eu irei buscá-Lo". 

Também a esposa dos Cantares dirá coisa similar: 

"Durante as noites, no meu leito, busquei Aquele que meu coração ama; procurei-O, sem encontrá-Lo. Vou levantar-me e percorrer as ruas e as praças, em busca d'Aquele que meu coração ama; procurei-O sem encontrá-lO. Os guardas encontraram-me quando faziam sua ronda na cidade. "Viste acaso Aquele que meu coração ama?" Mal passara por eles, encontrei Aquele que meu coração ama. Segurei-O e não O largarei."

S. João da Cruz, numa poesia baseada neste livro dos Cânticos, põe a esposa a falar com os transeuntes nestes termos: "Se vires o meu Amado, dizei-lhe que adoeço, peno e morro"

Não podemos descrever a dor de Nossa Senhora ao supor ter perdido Jesus. Assim como Madalena se propunha a ir buscar o corpo do Senhor sem atentar à sua própria fraqueza física, também em Maria sumira-lhe o cansaço e todo o seu ser se voltava a um único objetivo: encontrar Jesus.

Esta deveria ser a nossa atitude toda vez que O perdemos pelo pecado mortal. Notemos que Maria volta imediatamente ao templo. Também nós, uma vez perdida a Graça, devemos retomá-la no templo, na Igreja, pelo Sacramento da Confissão. A esposa dos Cantares, vendo-se sem o Amado, O busca no leito, sem encontrá-lO. Isto pode referir-se a nós quando, hesitando em ir à confissão, tentamos retomar, por nós mesmos, isto que está muito além de nossas forças. Não O encontraremos desse modo. Ao ler este trecho dos cantares, associei os guardas aos sacerdotes da Igreja, que são os guardas dos Sacramentos e da doutrina. Diz a esposa que, tão logo passou por eles, encontrou o Amado. Assim é quando, arrependidos e com a disposição de não mais pecar, acorremos ao sacerdote. Reencontramos o Cristo.

Aqui, porém, Maria continua a sua angústia. Chegando ao templo, procuram apressadamente e, de repente, um nuance familiar lhe acelera o coração: era Jesus. Que alívio! Depois de tê-lO encontrado, Maria, por fim, se dá conta do que está a acontecer: Jesus está no meio de doutores da lei, homens extremamente inteligentes e conhecedores das Escrituras, e, coisa admirável, Jesus os deixa boquiabertos por Sua inteligência, não obstante tivesse apenas 12 anos. Naturalmente, Maria se surpreende... Depois, indo a Jesus, lhe faz uma censura: "Por que fizeste isto conosco?" ao que Jesus responde: "Por que vos preocupáveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?". 

De novo, há muito o que meditar aqui. Maria, a Mãe de Jesus, estava preocupada com o sumiço do seu Filho. E era um motivo bastante compreensível e justo. No entanto, Jesus mostra a Sua Mãe que, para além das convenções e cuidados humanos, Deus merece a absoluta primazia. Ele mesmo dirá, anos depois: "Não penseis que vim trazer a paz; vim trazer a espada: por minha causa, mãe se porá contra filho e irmão contra irmão". E isto porque, aquele que adere ao projeto de Nosso Senhor, naturalmente adentra num ambiente de largos horizontes e de valores muito diferentes dos de cá de baixo. Lembremos ainda o que Jesus diz: "Vós sois daqui. Eu sou de cima". Se tornar cristão é assumir esta descendência do alto; é descobrir-se exilado e reconhecer que os valores de cima é que são os verdadeiros. Isto, claro, causa uma grande incompreensão dos demais. É, talvez, fácil ver alguma arrogância ou irresponsabilidade em Jesus, neste episódio e em outros. Mas isto se dá porque O julgamos com critérios muito terrenos. Dirá Ele, no Antigo Testamento: "Meus pensamentos estão tão acima dos vossos pensamentos, como o céu dista da terra". Aderir a Jesus, portanto, expõe o cristão a uma série de coisas: o torna solitário, separando-o; e lhe atrai as reprimendas e as críticas dos que não o compreendem. Isto sempre foi assim. Lembremos do profeta que se lamentava: "Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir; por Tua causa e por Teu nome estão todos contra mim"

Depois, há uma interessantíssima associação de idéias. Jesus fala que deve ocupar-se das coisas de Seu Pai imediatamente depois de ter demonstrado uma inteligência singular. Dedicar-se às coisas de Deus surge, no contexto cristão, como a verdadeira sabedoria. Esta constatação estará em S. Paulo, uma vez que ridicularizará a sabedoria deste mundo, chamando-a de estultícia. Ser sábio é, para este Apóstolo, aderir à "loucura da Cruz". Ser verdadeiramente sábio é abrir-se à transcendência de Deus e fazer d'Ele a prioridade da própria vida. É, nas palavras de Jesus, "ocupar-se das Suas coisas", ainda quando estas contrastam com outras coisas, mesmo que legítimas. É que nada é bom sem Ele. "Só Deus é bom", dirá Jesus. Sem Ele, portanto, nada é bom. 

Maria parecia não ter compreendido profundamente o que Jesus havia dito ali. No entanto, Lucas a descreve como "Aquela que guardava tudo no seu coração", e o coração é justamente, na linguagem bíblica, a sede da sabedoria no homem. 

Em seguida, Lucas conclui que Jesus permanecia obediente aos seus pais, e crescia em sabedoria, tamanho e em graça.

Por este mistério, e pela intercessão da Virgem Maria, peçamos a graça de ter a Nosso Senhor como centro absoluto da nossa vida, de sofrer quando d'Ele estamos distantes e de desejar, sobretudo, a Sua intimidade.

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