quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Nós estávamos, em bom português nordestino, ferrados...


Nós, os humanos, fomos feitos.. Isto é fato! As coisas exigem um início. O nada, não sendo nada, tampouco pode vir a tornar-se alguma coisa. O nada sequer existe. E Deus fez tudo o que há. Fez-nos também e nos criou num estado de amizade com Ele, o que chamamos tecnicamente de Estado de Graça. No entanto, como sabemos, os primeiros humanos desobedeceram a Deus e contraíram pecado e, por este meio, entrou no mundo a morte, como diz S. Paulo.

Muita gente gosta de decrescer esta história, como se fosse conto infantil. Mas observemos algumas coisas pra entender bem o que que aconteceu, compreender as implicâncias desta desobediência e ver como estávamos em muito maus lençóis. 

Geralmente olhamos para Adão como se fosse alguém parecido conosco, só que lá no início. Acontece, porém, que a nossa experiência no mundo já é posterior àquela desobediência. Por causa disso, nós herdamos uma desordem na sensibilidade, o que nos inclina fortemente ao prazer egoísta, nem que para isso nós tenhamos de transigir certas regras. Porém, Adão não tinha essa inclinação.

Nós, os homens, possuímos uma hierarquia de potências que é a seguinte: abaixo, vai a sensibilidade. Esta se submete à vontade que se submete, por sua vez, à inteligência. Portanto, a sensibilidade, no homem original, não se voltaria para um objeto que a inteligência visse como mau e que a vontade, portanto, consideraria digna de ódio. Se perguntarmos a um drogado hoje, ele dirá que a droga é repugnante aos seus olhos e, no entanto, ele a quer. Desordem das potências. Mas isso é consequência daquela desobediência. Em Adão, porém, o ser era perfeitamente ordenado.

Isso é fundamental para que percebamos a gravidade do seu ato. Adão foi criado perfeito: inteligência profunda que atingia a verdade sem esforço; uma vontade capaz de amar com facilidade; uma sensibilidade que acrescentava à alegria da sua alma, também a do seu corpo, fazendo com que ele fosse uma harmônica unidade.

Porém, Deus tinha lhe proibido comer do fruto daquela tal arvorezinha. Daí, aparece o demônio na forma de uma serpente, e diz que Deus mentiu, e convence Eva a comer do fruto e dá-lo a Adão.

Lembremos que não havia propriamente tentação tal qual a entendemos hoje, como uma inclinação da sensibilidade para algo errado. Adão recebe aquela proposta da serpente e se decide, de modo frio, pela desobediência. Ora, para entendermos a gravidade de um pecado, convém considerar três coisas:

1- O conhecimento de que aquilo é errado;
2- A liberdade com que se realiza o tal ato;
3- A dignidade do ser que foi ofendido com o pecado.

Nos três casos, Adão se meteu numa enrascada, pois ele tinha pleno conhecimento de que o que fazia era errado. Como não havia uma inclinação da sensibilidade, Adão peca por fria resolução, num abuso da sua liberdade. Ele investe naquilo a vontade, iluminada pela sua inteligência. Por fim, o Ser ofendido possuía uma dignidade infinita, pois era Deus.

Este ato deliberado dos dois teve uma dupla consequência, semelhantemente a todo e qualquer pecado. A primeira consequência foi a culpa; esta destruiu a graça santificante que fazia Adão amigo de Deus, e isto lhe pôs num estado de morte na alma. A partir de agora, Adão, que fora criado para fruir Deus pela eternidade, se verá, por causa de seu pecado, totalmente impedido de cumprir o fim para o qual existia. Sua natureza viu-se frustrada. 

A segunda consequência é a pena; por esta, bagunçou-se aquela ordem e harmonia das potências. A sensibilidade se rebelou. A inteligência cegou-se e ficou rasteira e a vontade, feita para amar a Deus e, n'Ele, todas as coisas, uma vez que deixou de ser bem conduzida pela inteligência, passou a apegar-se a tudo quanto o intelecto, agora míope, lhe apresentava como bem. Enfraqueceu-se, ainda, o vínculo que unia alma e corpo e fazia com que aquela comunicasse a este os seus atributos, como a imortalidade, a incorruptibilidade, a leveza, etc. Agora, o homem conhecerá a morte, tanto física quanto espiritual, e experimentará a dor e toda sorte de suplícios.

Esses seres decaídos são os que gerarão a humanidade. Toda ela provirá deles e lhes herdará as penas do pecado. 

O homem estava em dívida com Deus. Este conhecimento permaneceu na alma humana, meio que de modo intuitivo, mesmo depois de muito tempo passado deste fato. Todas as civilizações e religiões antigas traziam a idéia de que Deus ou os deuses estavam irados por algum motivo. A única forma de lhes mitigar a ira era a partir dos sacrifícios. Mas, por que justamente um sacrifício?

Vejamos. Desnecessário é aqui remontar à etimologia do termo que, embora sugestiva, contribui menos para compreender, por ora, a importância deste ato. Importa, antes, entender em que consiste propriamente o sacrifício. O pecado original foi um pecado de soberba - Superbia - que é o mesmo que egoísmo. É uma preferência absoluta por si mesmo em detrimento de tudo mais. Este ato gera desordem porque faz que o homem se veja como o centro de tudo, quando, na verdade, ele não é. Deus é o centro. Portanto, a soberba, coerente com o seu prefixo Super, faz que o homem se pretenda Deus e caia numa idolatria de si. Lembremos que a proposta a Adão era justamente a de tornar-se semelhante a Deus e isto sem o auxílio de Deus; por conta própria. Adão restringe-se, limita-se a observar apenas a sua pequenez e perde aquele senso de grandeza legítima. Não à toa a sua inteligência fica rasteira, pois ela deixa de se elevar às coisas altas.

O sacrifício é, precisamente, outra coisa! É quando nós amamos tanto algo fora de nós que investimos, por este algo, o que temos, ainda que nos seja caro. É como um esquecer-se de si, ou pôr-se limites a si mesmo em função daquele outro que é mais importante. O sacrifício é, portanto, o guarda da humildade e da legítima grandeza. Estas duas são como irmãs gêmeas.

O sacrifício implica uma espécie de morte que faça, por sua entrega, merecer a vida. É como uma violência que o sujeito se faz para que não se feche em si mesmo. É, portanto, um modo de transcendência. É um sair de si. Esta última característica, o sair de si - êxtase - é um traço inerente ao amor. Daí que amor e sacrifício andam sempre juntos. O sacrifício, pondo o homem para além de si mesmo, mantém pura a inteligência, fazendo-a voar mais alto. Naturalmente, a vontade adquire mais luz e maior capacidade de amor. A sensibilidade, por sua vez, aborrecida pelo sacrifício, vai deixando de impôr-se com tanta força, até voltar à sua obediência às demais potências. Ora, se o sacrifício é capaz de fazer isso tudo, convém colocá-lo de modo decisivo dentro da própria vida dos homens. Daí que a teologia ascética vai afirmar que a mortificação é uma necessidade da vida espiritual.

Geralmente, os que fazem sacrifícios, desde a antiguidade, são chamados de sacerdotes. Notemos que é o mesmo radical que é participado nas duas palavras. Ambas provêm do termo "sacer" que traz sempre a idéia de transcendência, de algo que toca uma outra dimensão para além desta. Por isso, desde muito tempo, os sacerdotes eram aqueles que serviam de mediadores entre o povo e os deuses.

Quando Deus disse a Adão para não comer daquele fruto, ele fazia de Adão um sacerdote, pois ele deveria sacrificar. Isto asseguraria a sua dignidade enquanto homem. No entanto, Adão pecou precisamente pela recusa em agir como sacerdote. É natural, portanto, que os homens, ainda que intuitivamente, como pus acima, saibam que é pelo sacrifício - o ofício do sacerdote - que deverão aplacar a ira de Deus.

No entanto, isto não resolvia a questão, porque, se foi toda a humanidade que herdou o pecado original, ela toda, então, deveria ser sacrificada. Mas, sem considerar o absurdo dessa hipótese, nem desse modo eles conseguiriam seu intento, porque o ato redentor deve ser universal, mas não apenas no sentido geográfico, como também no cronológico. Esse ato deveria incluir necessariamente todos os homens desde o início. Obviamente, nenhum homem era capaz de tal.

Além disto, a morte de um criminoso não pode servir de expiação por outros. A morte do pecador seria tão somente um ato de justiça. Muitos criminosos foram sacrificados, sobretudo nas religiões tribais, mas isto não os limpava da culpa. Era preciso a morte de um inocente para que, por seu sacrifício, o valor pudesse ser aplicado a outros. No entanto, aqui há mais dois problemas: primeiro, que a dignidade de qualquer inocente humano é incapaz de conseguir abarcar toda a humanidade. Depois, porque o sacrifício de um inocente é, pela própria natureza, outra injustiça e, portanto, outro pecado. Não obstante, tentativas foram feitas e o que há de mais puro, as crianças e as virgens, foram, também, sacrificadas.

Nos sacrifícios judaicos, povo ao qual Deus falou por primeiro, não havia sacrifícios humanos. Ao invés, eles sacrificavam animais e faziam um tipo de "projeção de culpas" naqueles bichos que iam ser mortos. Havia inclusive uma orientação divina de que o sacerdote faria o sacrifício de um cordeiro em vista da purificação de um povo - delimitação geográfica - pelo espaço de um ano - delimitação cronológica. O cordeiro foi, em geral, o animal usado por dois motivos: 1- porque é absolutamente dócil ao sacrifício. 2- porque vai prefigurar o Filho de Deus. Daí a importância de ser um cordeiro sem defeitos, assim como o Filho de Deus será sem mancha.

Tal sacrifício de cordeiros, porém, era limitado, como vimos. E, se o objeto da redenção devia ser a humanidade inteira, a situação era difícil. Como se não bastasse, o sacrifício deveria se elevar à dignidade do ofendido. Ora, o ofendido era Deus. Somente um Deus pode igualar Deus em valor. No entanto, isso era absurdo! Primeiro, porque Deus não tinha pecado, e deveria, como vimos, ser um ser que traga sobre si a culpa dos pecados, para ser sacrificado. Depois, a idéia de Deus sofrer é totalmente contraditória! Deus é impassível! Não sofre e, tampouco, morre.

Retomemos as exigências para o tal sacrifício.
1- Deveria ser alguém que pudesse estender a eficácia do seu sacrifício de modo universal, seja no aspecto espacial, seja no aspecto temporal. Portanto, deve ser alguém que esteja além do tempo e espaço. Nenhum homem podia fazê-lo.
2- O ser sacrificado deveria ser pecador, pelo que seu sacrifício não implicaria em injustiça. Mas deveria, também, ser inocente, pelo que sua morte servisse de expiação por outros. Ora, como ser pecador e inocente ao mesmo tempo?
3- Deveria ser alguém cujo sacrifício fosse feito em total liberdade, com puro consentimento, tal como os cordeiros sacrificados. Qual o homem que, ferido pelo egoísmo, poderia se elevar com perfeição a um tal nível de amor?
4- Deveria ser homem, para poder sofrer e morrer. Mas deveria ser Deus, para poder elevar a um nível divino o seu sacrifício. Homem e Deus? Complicado.

Se fosse deixado por si mesmo, o homem estava perdido. Não havia o que fazer.

Porém, Deus resolve esse problema para os homens. De tal modo amou Deus o mundo que fez o seguinte:

- Era preciso ser Deus e homem. Deus se faz homem. "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós".
- Era preciso estar além do tempo e do espaço. Este Deus humanado será Aquele que dirá: "Antes que Abraão fosse, eu sou" e "glorificai-me com a glória que eu tinha junto de Ti antes da criação do mundo".
- Deveria ser um ato de plena liberdade e consentimento: Dirá também o Redentor do mundo: "Ninguém me tira a vida; eu a dou por mim mesmo".
- Deveria ser pecador e inocente. Dele, se dirá: "não havia mentiras em sua boca, nem crime algum que tenha cometido", e, no entanto, ele será batizado por João, num batismo de remissão dos pecados, assumindo, desse modo, os pecados da humanidade. João dirá dele: "Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo" e Paulo dirá: "Ele se fez pecado por nós".

E Jesus, o Deus feito homem, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sofreu e morreu por nós. D'Ele, Isaías tinha escrito: "Por Suas chagas fomos curados". Sobre Ele se descarregou toda a seriedade e violência da Justiça divina e n'Ele se satisfez a infinita misericórdia de Deus pelos homens.

É por isso que os Apóstolos dirão que nenhum outro nome foi dado aos homens para que se salvassem. Por mais que um homem tenha sido virtuoso ou nobre, seja Buda, seja Ghandi, seja quem for, nada disso sequer sonha em ser suficiente para a redenção nem de si mesmos, quanto mais de todo o gênero humano.

Compreende-se também como o ato de rejeição deste Amor adquira uma gravidade tal que mereça a eternidade de suplício. "De Deus não se zomba", dirá S. Paulo. E, de fato, Deus é muito sério.

Para terminar esta primeira exposição, cito uma frase que Ele falou para uma mística franciscana:

"Não foi para rir que eu te amei".

Fábio.

Um comentário:

Junior disse...

Impressionante.. :)