terça-feira, 18 de outubro de 2011

I - Neurose, Pecado e "Conflito Metafísico"


Este artigo, que disponibilizarei aqui por partes, é de autoria do Sr. Martin F. Echevarria. A tradução, porém, do espanhol, é minha. O texto trata da Psicologia de Rudolph Allers, autor conhecido como o "Anti-Freud", e versa sobre a sua compreensão do fenômeno neurótico. Talvez, por ser dito por um intelectual de renome, o que aqui vai transcrito possa ser crido com maior segurança. Boa leitura.

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Allers distingue entre aqueles transtornos mentais que são enfermidades no sentido estrito do termo, e a neurose, que só é enfermidade por analogia. Como as enfermidades propriamente ditas são desordens do corpo, a neurose não é primeiro e principalmente um transtorno do corpo, senão da alma.

Segundo Allers, antes de tudo, há que distinguir os "sintomas neuróticos" do "caráter neurótico". Ademais, uma coisa é uma neurose propriamente constituída, e outra a aparição de características, que integram a neurose, em uma personalidade que é fundamentalmente sã. Aqui se põe de manifesto a insuficiência de um diagnóstico meramente descritivo. Para diagnosticar a neurose é necessário o conhecimento da personalidade total, de seu estilo de vida, dos fins que persegue, e sua atitude diante da vida como um todo.

É necessário saber distinguir entre a neurose que se manifesta com sintomas, sejam orgânicos, sejam puramente mentais, e o 'caráter nervoso' como dizia o Dr. Adler; também é necessário saber distinguir entre a neurose - manifesta ou não - e a aparição de certas características mais ou menos neuróticas em uma pessoa sadia. Não se deve declarar neurótico a cada indivíduo que sofre de alguma perturbação 'nervosa'; o diagnóstico da neurose repousa sempre e sem nenhuma exceção sobre o estudo da personalidade total.

Allers segue em geral a concepção adleriana da neurose. Para o fundador da psicologia do indivíduo, o caráter neurótico surge do intento supercompensatório do complexo de inferioridade através da vontade de poder, que tem como meta o sentimento de personalidade. O neurótico é uma pessoa que busca por todos os meios, ainda através da debilidade e da enfermidade, chegar a ser alguém, chegar ao topo. A esta meta, o neurótico subordina todas as suas forças cognitivas (imaginação, memória, etc) e afetivas. Este fim de superioridade se concretiza em particular através de determinadas imagens e figuras, complexos de representações, que se põem como metas ou fins "fictícios" (a masculinidade, o poder, a riqueza, etc). Deste modo o neurótico vai criando uma "técnica de vida", e mesmo às vezes a justifica com uma "filosofia de vida", que se traduz no "estilo de vida", que configura seu caráter.

Nosso autor, nestas idéias, se mantém fiel a Adler. Allers identifica a "vontade de poder" do neurótico com a Superbia, que muitas vezes pode não ser consciente, e que configura o caráter em um sentido negativo e destrutivo.

O Dr. Adler foi mais exato do que ele o sabia, quando ensinava que os traços característicos do neurótico são a expressão e a consequência desta ambição inaudita, ambição, porém, velada aos olhos do "enfermo". Mas não poderia, seja por causa de certas limitações do seu pensamento, seja por causa de outros fatores, medir toda a importância de seu descobrimento. Para dizer a verdade, este descobrimento não era novo; se encontra aqui e ali em certos tratados, muito antigos e ignorados pelos psicólogos e médicos, passagens que denotam um conhecimento surpreendente destas coisas.

O caráter fictício da vida do neurótico é chamado por Allers, mentira existencial. No fundo do caráter neurótico se daria, segundo Allers, uma subversão, consciente ou não, de ordem axiológica. A realidade se vinga desta pretensão egoísta do neurótico com o mal estar.

Temos dito que a rebelião consciente ou não, contra a ordem axiológica e a ordem da dignidade conduz necessariamente à mentira. Isto é - entre parênteses - o que faz que tantos neuróticos dêem a impressão de não ser realmente "enfermos" e por isso os demais os acusam de má vontade, de exagero e mesmo de simulação. Esta mentira é inextricável porque para rebelar-se é necessário que o homem exista, e porque existindo, está incorporado, por assim dizer, nesta ordem que ele recusa aceitar.

No homem se dá uma dualidade interior. É a dualidade constatada pela tradição cristã, por São Paulo e por Santo Agostinho, da carne que se rebela contra o espírito. Diz Allers: "O homem arrastado por uma força misteriosa, não necessariamente demoníaca (cf. o que diz Sto Agostinho da 'segunda vontade', Confissões VIII, 9) para uma atitude essencialmente insensata, contrária à objetividade, se torna por isso mesmo, em virtude de uma lei inexorável, a presa da mentira. Essa mentira se instala quando a pessoa não quer ver a realidade: "Não somente existe a mentira que afirma uma proposição contrária à verdade, senão também aquela que fecha voluntariamente os olhos diante da verdade". A mentira é também chamada por Allers "inautenticidade".

Segundo Allers, no fundo do coração do homem existe a tendência à rebelião, e esta é a causa profunda do transtorno característico chamado neurose. Allers fala também de um "conflito metafísico", pois não se trata simplesmente de uma rebelião frente a uma coisa particular, senão frente à ordem total da existência.

Não é possível explicar aqui como esta atitude de rebeldia interior, que geralmente o sujeito não reconhece como tal, constitui um fator de uma importância central na evolução das neuroses. O objeto da rebeldia não é um fato isolado, um sofrimento, um conflito, senão o fato total de não ser mais que uma criatura, limitada em seu poder, em sua existência, em seus direitos. Apesar dos milhares ou milhões de anos que se passaram depois que a serpente empurrou os primeiros homens à rebelião, as palavras do demônio não cessaram de fazer-se escutar devidamente nas profundidades do nosso eu: eritis sicut Dii.

A referência de Allers ao pecado original não é ociosa. Segundo o psiquiatra vienense, a natureza caída é a fonte desta tendência à rebelião, dessa dualidade que está na base do transtorno neurótico. Deixado a si mesmo, todo homem é virtualmente um neurótico.

A neurose surge do exagero ocorrido na divergência - que existe em toda vida humana - de vontade de poder e possibilidade de poder. Em outras palavras: é um resultado da situação puramente humana, tal como está constituída na natureza decaída. Pode igualmente dizer-se que, orientada para o mórbido e o pervertido, faz-se em consequência da rebelião da criatura contra sua finitude e impotência naturais.

Esta neurose virtual, que caracteriza a todo homem pelo fato de ter a natureza decaída e sofrer dentro de si a rebelião de seus membros contra a lei da razão, se atualiza, segundo Allers, quando se manifesta o "conflito metafísico".

O caráter nervoso se transforma em neurose manifesta desde que a situação do indivíduo ameaça pô-lo de frente ao "conflito metafísico". Em certas condições, este conflito pode ficar absolutamente ignorado. Este é o caso quando o indivíduo vive em um meio onde as leis da metafísica - e portanto da realidade - foram abolidas por algum decreto. (Realmente não podem ser abolidas, isso se entende, mas se lhe pode fazer crer às massas porque são demasiado crédulas). Seria possível haver uma diminuição da neurose onde o homem, a raça, a sociedade, o Estado são declarados o bem supremo. Mas não se poderia concluir disso que essas ideologias são mais "sadias" do que o é a filosofia cristã. Deveria somente fazer-nos julgar que estas ideologias impedem a eclosão da neurose porque ensinam à maioria dos homens um método próprio de apartar os olhos da verdade.

Martin F. Echevarria

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