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domingo, 7 de janeiro de 2018

O despertar de Satyakam

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Satyakam era uma criança muito questionadora. Não acreditava em nada a menos que ele mesmo o houvesse experienciado. Quando ficou mais velho - ele devia ter cerca de 12 anos -, disse à mãe: "Chegou a hora. O príncipe do reino foi para a floresta para se juntar à família de um mestre. Ele tem a minha idade. Eu também quero ir, também quero aprender qual o significado desta vida."

A mãe disse: "Vai ser muito difícil, Satyakam, mas sei que você já nasceu um buscador. Eu temia que um dia você me pedisse para enviá-lo a um mestre. Sou uma mulher pobre, mas esse não é um grande empecilho. A dificuldade é que quando eu era jovem trabalhei em muitas casas - eu era pobre, mas era bonita. Não sei quem é seu pai. E, se enviá-lo a um mestre, vão lhe perguntar qual é o nome do seu pai e temo que ele possa rejeitá-lo. Mas não custa fazer um esforço. Vá e diga a verdade, da mesma maneira que eu lhe contei a verdade. Muitos homens usaram meu corpo porque eu era pobre. Diga simplesmente que você não sabe quem é seu pai. Diga ao mestre que seu nome é Satyakam, que o nome de sua mãe é Jabala e que por isso o chamam de Satyakam Jabal. E, no que diz respeito à busca da verdade, não importa quem é seu pai".

Satyakam foi até um antigo mestre na floresta e, certamente, a primeira pergunta foi: "Qual é seu nome? Quem é seu pai?"

E ele repetiu exatamente o que sua mãe havia dito.

Havia muitos discípulos - príncipes, filhos de pessoas ricas. Todos começaram a rir. Mas o velho mestre disse: "Você está aceito. Não importa quem é seu pai. O que importa é que você é autêntico, sincero, corajoso - capaz de dizer a verdade sem se sentir constrangido. Sua mãe lhe deu o nome certo, Satyakam. Satyakam significa aquele cujo único desejo é a verdade. Você tem uma bela mãe, e será conhecido como Satyakam Jabal. E como segundo a tradição só os brâmanes podem ser aceitos como discípulos, eu o declaro um brâmane, porque só um brâmane pode ter a coragem de tal verdade."

Belos dias foram aqueles. O velho profeta se chamava Uddalak. Satyakam tornou-se seu mais amado discípulo. Ele o merecia: era tão puro e tão inocente.

Mas Uddalak tinha suas próprias limitações. Embora ele fosse um homem de grande sabedoria, não era um mestre iluminado. Então, ensinou a Satyakam todas as escrituras, ensinou-lhe tudo o que foi capaz de ensinar, mas não conseguiu enganar Satyakam como havia enganado todos os demais. Não que Satyakam estivesse levantando quaisquer dúvidas; mas sua inocência tinha tal poder que o velho homem teve de confessar: "Tudo o que eu tenho lhe dito é conhecimento extraído das escrituras; não é meu próprio conhecimento. Eu não experienciei isso, não vivi isso. Sugiro que você penetre mais fundo na floresta. Conheço um homem que alcançou a realização, que se tornou uma corporificação da verdade, do amor, da compaixão. Vá até ele."

Uddalak havia ouvido falar daquele homem, mas não o conhecia pessoalmente. Uddalak era bem mais famoso, era um grande erudito. Satyakam foi procurar o outro homem. Esse homem que ensinou muitas novas escrituras, todos os Vedas, as mais antigas escrituras do mundo. E após anos disse-lhe: "Agora você já sabe tudo; não há mais nada a saber. Você pode voltar para casa."

Na sua volta para casa, primeiro ele foi ver Uddalak. Da sua janela, Uddalak viu Satyakam chegando pela trilha que vinha da floreta. Ficou chocado. Satyakam havia perdido sua inocência; no lugar da inocência havia orgulho - naturalmente, porque agora ele achava que sabia tudo o que valia a pena saber no mundo. A simples ideia disso enchia seu ego. Ele entrou, e, quando começou a tocar os pés de Uddalak, este lhe disse: "Não toque os meus pés! Primeiro eu quero saber onde você perdeu sua inocência. Parece que o enviei ao homem errado."

Satyakam disse: "Ao homem errado? Ele me ensinou tudo o que vale a pena saber."

Uddalak disse: "Antes que você toque os meus pés, eu gostaria de lhe perguntar se você experienciou alguma coisa ou se isso é apenas informação. Aconteceu alguma transformação? Você pode dizer que qualquer coisa que saiba é um conhecimento seu?"

Satyakam disse: "Não posso dizer isso. O que eu seu está escrito nas escrituras; não tive a experiência de nada."

Uddalak disse: "Então volte, mas agora vá procurar outra pessoa da qual ouvi falar enquanto você estava fora. E, a menos que tenha experienciado, não volte. Você voltou para cá não com mais do que quando eu o enviei, mas com menos! Você perdeu algo de imenso valor. E o que você chama de conhecimento - se este é emprestado, ele só encobre sua ignorância; não faz de você um conhecedor. Vá até este homem e lhe diga que você não foi até lá em busca de mais informações sobre a verdade, sobre Deus, sobre o amor. Diga-lhe que você foi para conhecer a verdade, para conhecer o amor, para conhecer Deus. Diga-lhe: 'Se você puder cumprir a promessa, fico com você; do contrário, vou procurar outro mestre'".

Satyakam foi até o homem e lhe disse exatamente isso. O mestre estava sentado debaixo de uma árvore com alguns de seus discípulos. Depois de ouvir a solicitação, ele disse: "Isso é possível, mas você está me pedindo algo muito difícil. Há tantos discípulos aqui  e todos querem mais conhecimento. Eles querem saber sobre tudo. Mas se você insiste que não está interessado em informações, que está pronto para fazer qualquer coisa, que sua devoção à verdade é total, então encontrarei um caminho para você."

Satyakam disse: "Estou pronto para sacrificar minha vida, mas não posso voltar sem conhecer a verdade. Não posso voltar para meu professor nem posso voltar para minha mãe, que me deu o nome de Satyakam. E meu velho professor me aceitou sem se importar se eu era ou não um brâmane, simplesmente baseado no simples fato de que eu era uma pessoa honesta. Então, diga-me o que tem de ser feito."

O mestre disse: "Pegue todas as vacas que vir aqui e penetre bem fundo na floresta. Vá o mais longe possível, , para que não possa entrar em contato com nenhum ser humano. O propósito disso é que você esqueça a linguagem as palavras. Viva com as vacas, cuide das vacas, toque sua flauta, dance - mas esqueça as palavras. E, quando tiver mil vacas, volte aqui."

Os outros discípulos não conseguiam acreditar no que estava acontecendo - porque ali havia apenas uma ou duas dúzias de vacas. Quanto tempo demoraria para elas se tornarem mil?

Mas Satyakam pegou as vacas, entrou o mais fundo possível na floresta, além de qualquer contato humano, de qualquer contexto humano. Durante alguns dias foi difícil, mas pouco a pouco, lentamente... as vacas eram suas únicas companhias, e elas eram criaturas muito silenciosas. Ele tocava flauta, dançava sozinho na floresta, descansava sob as árvores.

Durante alguns anos ele continuou contando as vacas. Então pouco a pouco desistiu de fazê-lo, pois lhe parecia impossível que elas se tornassem mil. Além disso, ele havia esquecido como contar; a linguagem estava desaparecendo. As palavras desapareceram; a contagem não podia ser feita.

E a história é tão imensamente bela...

As vacas ficaram preocupadas quando se tornaram mil - porque elas queriam voltar para casa e este homem havia esquecido como contar! Finalmente, elas decidiram: "Nós temos de falar; do contrário esta floresta solitária vai se tornar nosso túmulo". Então, um dia, as vacas se aproximaram dele e lhe disseram: "Escute, Satyakam, agora já somos mil e está na hora de voltarmos para casa".

E ele lhes disse: "Sou muito grato a vocês. Se não tivessem me contado... Eu havia até me esquecido de casa ou de voltar para casa. Cada momento foi tão incrivelmente belo, com tantas bênçãos. No silêncio, as flores não paravam de florescer. Eu me esqueci de tudo. Não tinha ideia de por que vim para cá, de quem eu sou. Tudo se tornou um fim em si - tocar a flauta era o bastante, descansar sob as árvores era o suficiente, ver as belas vacas sentadas em silêncio à minha volta era tão belo. Mas, se vocês insistem, vamos voltar."

Os discípulos do grande mestre viram Satyakam chegando com mil vacas. Eles relataram ao mestre: "Nunca acreditamos que ele voltaria. Ele está chegando, e nós contamos exatamente mil vacas!"

E quando ele chegou ficou ali de pé... bem no meio da multidão de vacas.

O mestre disse aos outros discípulos: "Vocês contaram errado. Há mil e uma vacas; vocês se esqueceram de contar Satyakam! Ele se moveu para além do seu mundo; penetrou no inocente, no silente, no misterioso. Não está dizendo nada, está apenas ali junto com as vacas".

O mestre dissse: "Satyakam, agora saia do grupo das vacas. Agora você tem de ir para seu outro mestre que o mandou aqui. Ele é um homem velho e deve estar esperando. Sua mãe deve estar esperando".

E quando Satyakam foi até Uddalak, seu primeiro professor... Na última vez que o havia visto, ele não lhe havia permitido tocar seus pés, pois havia perdido sua inocência; não era mais um brâmane, havia caído, havia se tornado apenas um papagaio ilustrado. Quando Uddalak o viu chegando novamente, saiu correndo pela porta dos fundos - porque agora que Satyakam poderia ter permissão de tocar seus pés, era Uddalak quem teria de tocar os pés de Satyakam! Isso porque Uddalak continuava sendo um erudito, e Satyakam não estava vindo como um erudito, mas como alguém que havia despertado.

Uddalak fugiu da casa: "Não posso encará-lo. Estou envergonhado de mim mesmo". Mas antes pediu à sua esposa: "Diga-lhe que Uddalak está morto e que agora ele pode ir até sua mãe. Diga-lhe que eu morri me lembrando dele".

Estas eram pessoas feitas de uma determinação diferente. 

Satyakam voltou para casa. Sua mãe estava muito velha, mas continuava esperando por ele. E disse: "Satyakam, você provou que a verdade sai sempre vitoriosa. E provou que ninguém nasce brâmane: um brâmane é uma qualidade a ser adquirida. Todos nascem iguais. A pessoa tem de se provar, purificando-se, cristalizando-se, tornando-se centrado e iluminado - então ela se torna um brâmane. O simples fato de nascer em uma família brâmane não faz de ninguém um brâmane".

Se você meditar sobre a história, verá que a verdadeira essência da meditação é ficar em tal silêncio que não haja, em você, movimento dos pensamentos - as palavras não chegam entre você e a realidade, toda a rede de palavras desaparece e você é deixado só.

Essa solitude, essa pureza, esse céu do seu ser, sem nuvens, é a meditação. E a meditação é a chave de ouro para todos os mistérios da vida.

Osho. Inocência, conhecimento e encantamento.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Padre Antônio


Gustavo Corção

Numa cidadezinha perdida e esquecida, lá nos confins deste tão imenso Brasil, existe uma igreja quase sem existir. Em torno, mil ou duas mil almas mais ou menos desalmadas; dentro, um velho vigário a fazer contas intermináveis, e um padre coadjutor, na sacristia, a olhar o morro, a linha férrea lá longe, o rio, talvez o céu.

Já traz cinzas na cabeça e uma curvatura nas costas, mas naquele momento o que mais lhe pesa é a solidão que cerca a velhice que se aproxima. Está ali. Não é nada. Não sente forças para fazer nada pela vila indiferente que quer viver sua vida rotineiramente encaminhada para a morte. Sente-se inútil a mais não poder. Quer que ele celebre a única missa da féria, e com uma só porta apenas entreaberta. Precaução aliás inútil porque ninguém mais aparece nas missas dos dias da semana. O povo não gostou quando o vigário tirou os santos que há mais de cem anos povoavam a velha igrejinha. Diminuiu a assistência à missa, diminuíram as confissões. A conversa com o vigário, na hora do jantar, reduz-se a monossílabos.

Padre Antônio torna a pensar nas coisas que se perderam: a água benta, a oração do terço à noite, os santinhos que dava aos moleques na rua com magnanimidade, e tudo o mais que fazia companhia, que cercava a alma da gente nas igrejinhas da roça. Por que esta devastação? O vigário não gosta de abordar o assunto. Sofre a seu modo, com a tenacidade obtusa dos animais feridos. Cerra os dentes. Não pensa. Não fala. Faz o que o bispo mandou fazer e encerra-se num mutismo quase vegetal. Às vezes parece ter gosto de transmitir seu sofrimento fazendo um outro sofrer. É seu modo de conversar, e quem paga é padre Antônio.

Um dia padre Antônio não encontrou sua velha batina e teve de pedir uma explicação a d. Ana e ao vigário. Explicaram-lhe que estava imprestável. Ganharia nova batina? Não. Clergy-man também é muito caro. Padre Antônio deveria comprar na loja do João Mansur umas calças de lonita e duas camisas esporte. E é com esta roupa pobre que padre Antônio agora se debruça na janela e consulta o infinito. Pobre, pobre padre Antônio. Ele nunca foi propriamente vaidoso e preocupado com a roupa que haveria de vestir, como aconselha Nosso Senhor. Mas essa história da batina doía-lhe ainda como se estivesse em carne viva, como se 1he tivessem arrancado a pele. E o pior é pensar que é com esta roupa por baixo, esta roupa de rua, esta roupa sem bênçãos que devecelebrar a Santa Missa. Disseram-lhe que era mais prático usar uma só alva por cima do traje esporte. E esta alva não era mais daquelas antigas, rendadas e compridas. Padre Antônio não queria as rendas para si, já que era desgracioso e escuro: queria-as para enfeitar o louvor de Deus. Mesmo porque, descontada alguma andorinha, nenhum ser vivo aparecia para assistir ao Sacrifício de nosso Salvador. Nem valia a pena bater a campainha. As novas alvas não têm rendas. São ordinárias e curtas, sim, curtas, porque o importante é aparecerem as calças para todo o mundo ver que o padre é homem, como outro homem qualquer.

Está na hora de preparar a missa da tarde, e padre Antônio sente a tristeza aumentar. Está só. Está só. Não tem com quem falar. Poderá conversar na farmácia com a turma do gamão do Frederico, mas depois a volta para a casa é ainda mais pesada. Poderá perguntar a d. Emília se está melhor do reumatismo, e a d. Maria se o marido já voltou do Rio. Mas não tem ninguém com quem possa falar, com quem possa desabafar, a quem possa explicar a desmedida tristeza de vestir por cima das calças uma alva sem rendas, e a quem possa dizer a saudade que tem da batina preta, a batina bendita em que um dia amortalhara o homem velho para viver em Cristo Nosso Senhor. E não tem ninguém a quem possa perguntar tremendo: «O que é que está acontecendo emnossa Igreja? E o Papa?» Ou então alguém, um irmão, um padre, a quem possa dizer com medida indignação: «Não pode ser! Não pode ser! As portas do inferno não prevalecerão!»

Padre Antônio olhou mais uma vez para o horizonte que a noite já escondia. O mundo começava além daquela serra... O mundo! Padre Antonio curvou a cabeça como um condenado. Estava preso! Estava preso! Abriu então as duas mãos grandes e magras que considerou com triste ternura: um dia elas tinham recebido o poder de consagrar o Pão e o Vinho, e de trazer assim ao mundo, como a Virgem Santíssima, o Corpo de Deus. Mãos grandes, mãos nervosas e escuras, mãos consagradas. Ao menos esta pele não lhe arrancam, esta marca não lhe tiram.

Num desamparo infinito padre Antônio contemplava as duas mãos frementes, tão poderosas e tão inúteis. Turvava-se o espírito, vacilava a razão e a fé. Estão ali as mãos. E o resto. E a água benta? o Latim? as coisas da Igreja? As palmas inúteis não respondiam às suas indagações, e até pareciam pedir-lhe uma resolução, uma decisão, já que a mão foi feita mais para fazer do que para pensar... O que é isto? O que é isto nas palmas das mãos? Estará chovendo? Padre Antônio, padre Antônio, o senhor está chorando. Quem foi que falou? Ninguém. Ninguém. É o próprio padre Antônio que tomou o costume de falar com o padre Antônio.

Juntam-se as mãos. E das profundezas dos abismos que todos trazemos, mesmo debaixo de uma camisa esporte, subiu um clamor de aflição: «Usquequo exaltabitur inimicus meus super me? Respice et exaudi me! Respice et exaudi me! Respice et exaudi me, Domine Deus meus...».

E então, neste momento infinito, padre Antônio teve a incomparável certeza de que não estava só.

Gustavo Corção, Fonte: Permanência

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A impressão que Aslam deixou em Emeth


- Depois ele soprou sobre mim e fez cessar todo o tremor do meu corpo, firmando-me outra vez sobre os meus pés. Após isso, não disse mais muita coisa, a não ser que voltaríamos a nos encontrar e que eu deveria seguir sempre para a frente e sempre para cima. Então voltou-se como uma tempestuosa rajada de ouro e subitamente desapareceu.

- E desde então, ó reis e damas, ando perambulando à procura dele, e minha felicidade é tão imensa que até me enfraquece como uma ferida. E a maravilha das maravilhas é ter ele me chamado de amado - a mim, que não passo de um cão...

Emeth depois do seu encontro com Aslam

As Crônicas de Nárnia, A Última Batalha, Cap. 15.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A senha do Rei Tirian de Nárnia


Nenhuma das lanças agora erguia-se em saudação; ambas estavam abaixadas e prontas para a ação.

- Qual é a senha? - disse o soldado-chefe.

- Esta é a minha senha - exclamou o rei, sacando a espada. - Dissipem-se as trevas da mentira e brilhe a luz da verdade! Agora, canalha, em guarda, pois sou Tirian de Nárnia.

C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Última Batalha, Cap. 7.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A Montanha de Aslam


- Aqui estou - disse uma voz profunda atrás deles.

Era o próprio Leão, tão luminoso, real e forte, que tudo o mais começou a parecer pálido, embaçado. Antes que pudesse respirar fundo, Jill se esqueceu do rei morto de Nárnia e se lembrou apenas de como causara a queda de Eustáquio no penhasco, dos sinais esquecidos, das brigas e impertinências acontecidas. Queria dizer "sinto muito" mas não conseguia falar. O Leão, com os olhos, puxou as crianças para perto dele  e tocou-lhes os rostos pálidos com a língua. E falou:

- Não pensem mais nisso. Não me zango o tempo todo. Vocês cumpriram a missão que lhes foi confiada.

- Por favor, Aslam - disse Jill -, podemos ir para casa agora?

- Podem. Vim para levá-los.

Aslam abriu a boca e soprou. Dessa vez não tiveram a impressão de voar: em vez disso, era como se estivessem firmes no chão, e o hálito de Aslam soprasse para longe o navio, o rei morto, o castelo, a neve, o céu de inverno. Todas essas coisas flutuavam no ar como anéis de fumaça. Viram, de súbito, que estavam envolvidos por uma brilhante luminosidade de verão, em cima de um gramado, entre árvores grossas, à margem de um riacho límpido. Perceberam que se encontravam de novo na Montanha de Aslam, muito acima e muito além da terra de Nárnia. Estranho é que a marcha fúnebre do rei Caspian prosseguia, sem que se pudesse dizer de onde vinha. Caminhavam à beira do riacho com o Leão à frente: ele estava tão belo e a música era tão angustiante, que Jill não sabia de onde onde subiam as lágrimas.

Aslam parou e as crianças olharam para o riacho. Lá dentro, nos seixos dourados do leito do rio, estava o rei Caspian, morto, com a água deslizando por ele como se fosse um cristal líquido. As longas barbas brancas balouçavam como plantas aquáticas. Todos os três choraram. Até o Leão chorou: enormes lágrimas de leão, e cada lágrima era mais preciosa do que toda a Terra, ainda que esta fosse um imenso diamante. E Jill observou que Eustáquio não parecia um menino chorão, mas um homem ferido de dor adulta. Ali, naquela montanha, as pessoas não pareciam ter uma idade determinada.

- Filho de Adão - disse Aslam -, vá até aquele matagal e traga para mim o espinho que por lá encontrar.

- Eustáqui obedeceu. O espinho tinha três palmos de comprimento e espetava como um punhal.

- Enfie este espinho em minha pata, Filho de Adao - disse Aslam, estendendo uma pata dianteira para Eustáquio.

- Devo mesmo fazer isso? - perguntou o menino.

- Sim - respondeu Aslam.

Eustáquio apertou os dentes e enfiou o espinho na pata do Leão, de onde correu uma grande gota de sangue, mais vermelha do que se possa imaginar. E a gota correu e espalhou-se no riacho sobre o corpo do rei. E este começou a transformar-se: a barba branca ficou cinzenta, depois amarela, depois mais curta e desapareceu; as faces encovadas tomaram cores e formas; as rugas alisaram-se; os olhos abriram-se; olhos e lábios sorriram; de repente, o rei ergueu-se, ficando em pé perto deles. Era um homem muito jovem, talvez um rapaz. (Não se podia dizer com certeza, pois as pessoas não têm uma idade precisa no país de Aslam.) O rei passou os braços em torno do pescoço de Aslam, dando-lhe beijos viris de rei, respondidos com beijos agrestes de leão.

Por fim Caspian voltou-se para os outros, rindo-se com espantada alegria:

- Eustáquio! Eustáquio! Quer dizer que você conseguiu alcançar o fim do mundo! Que aconteceu com a minha espada que você quebrou na Serpente do Mar?

Eustáquio deu uns passos na direção dele, as duas mãos estendidas, recuando logo com uma expressão perturbada.

- Olhe aqui - gaguejou o menino. - Está tudo muito bem, mas... é você mesmo? Quero dizer...

- Não seja tolo - falou Caspian.

- Mas - prosseguiu Eustáquio, olhando para Aslam - ele afinal não... morreu?

- Morreu - respondeu o Leão tranquilamente, quase como se estivesse satisfeito (foi o que Jill achou). - Ele morreu. Isso acontece muito, como você deve saber. Até eu morri. Há muitos poucos que não morreram.

- Ah - disse Caspian -, estou entendendo: você está pensando que eu sou um fantasma ou outro absurdo qualquer. Mas pense melhor: eu seria um fantasma em Nárnia, pois de Nárnia não sou mais. Mas ninguém é fantasma em sua própria terra. No eu mundo eu seria um fantasma. Será? Já que estão aqui, talvez aquele mundo também não seja mais o de vocês.

Uma grande esperança alvoroçou o coração das crianças. Mas Aslam balançou a cabeça felpuda.

- Não, meus queridos. Quando me encontrarem aqui outra vez, então ficarão. Agora, não. Precisam voltar ao mundo de vocês por algum tempo.

C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Cadeira de Prata, Cap. 16.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A fidelidade a Nárnia contra a retórica do submundo



Para entender o que vai abaixo, saiba o leitor que a cena se dá dentro de um mundo subterrâneo, tão abaixo da superfície que lhes é estranho e distante tudo o que se passa aqui em cima. Note ainda como a argumentação sofística da bruxa se assemelha, em vários pontos, à retórica ateísta.

***

A bruxa nada disse, mas andou vagarosamente pela sala, conservando os olhos fixos no príncipe. Ao chegar a uma arca não longe da lareira, abriu-a, apanhando lá dentro um punhado de pó verde, que atirou ao fogo. Não fez o fogo arder muito, mas um aroma muito doce e inebriante encheu a sala. Durante a conversa que se seguiu o cheiro foi ficando mais intenso, dificultando o ato de pensar. Em seguida, ela pegou um instrumento meio parecido com um bandolim e começou a tocar um repenicado monótono que se fez despercebido depois de poucos minutos. Também isso atrapalhava o raciocínio. Depois de ter tocado por algum tempo, com o aroma doce cada vez mais forte, começou a dizer numa voz macia:

- Nárnia? Nárnia? Ouvi Vossa Alteza pronunciar esse nome durante os delírios. Querido príncipe, você está muito doente. Não há nenhuma terra chamada Nárnia.

- Há sim, madame - interrompeu Brejeiro. - Eu mesmo passei lá minha vida inteira.

- Que interessante! - disse a bruxa. - Mas diga-me por favor uma coisa: onde é essa terra?

- Lá em cima - respondeu Brejeiro, decidido, apontando para o teto. - Mas onde fica exatamente, não sei.

- Como assim? - perguntou a rainha, com uma risadinha musical. - Existe então um país lá em cima, no meio das pedras e do reboco do teto?

- Não - respondeu Brejeiro, respirando com certa dificuldade. - O país fica por cima. É o Mundo de Cima.

- E onde fica... como é o nome... esse Mundo de Cima?

- Oh, deixe de bancar a boba - disse Eustáquio, que lutava contra o encantamento produzido pelo doce aroma e o repenicar do bandolim. - Como se não estivesse cansada de saber! É lá em cima, lá onde você pode ver o céu, o Sol e as estrelas. Esta é boa! Você já esteve lá! Nós nos encontramos lá!

- Peço perdão, irmãozinho - riu-se a bruxa, uma delícia de riso. - Não me lembro desse encontro. Quando sonhamos é que costumamos encontrar os nossos amigos em lugares estranhos. Mas, a não ser que sonhemos o mesmo sonho, não é razoável pedir que se lembrem.

- Senhora - disse o príncipe gravemente -, já lhe disse que sou filho do rei de Nárnia.

- E será, meu amigo - disse a rainha numa voz ciciante, como se estivesse acalmando uma criança -, será rei de muitas terras imaginárias.

- Também estivemos lá - falou Jill com impertinência. Estava furiosa por perceber que o feitiço ia tomando conta dela.

- E você também é rainha de Nárnia, não é, minha belezinha? - disse a feiticeira, na mesma voz insinuante, mas meio zombeteira.

- Negativo - respondeu Jill, batendo com o pé. - Nós somos de outro mundo.

- Ah, que maravilha! Diga-me, senhorita, onde fica esse outro mundo? Quais os navios e carruagens que fazem o transporte para cá?

Uma cachoeira de lembranças caiu sobre Jill: o Colégio Experimental, sua casa, aparelhos de rádio, automóveis, aviões, engarrafamento, filas. Mas pareciam imagens apagadas e distantes. (Drim-drim-drim, repenicava o bandolim) Jill não conseguia lembrar-se das coisas de nosso mundo. E dessa vez não lhe ocorreu que estava sendo enfeitiçada, pois a magia atingira o auge. Surpreendeu-se dizendo (e era um alívio dizê-lo) o seguinte:

- Acho que o outro mundo deve ser um sonho.

- Claro. O outro mundo é um sonho - disse a bruxa, sempre repenicando.

- Um sonho - repetiu Jill.

- Nunca existiu esse mundo - disse a feiticeira.

Jill e Eustáquio falaram ao mesmo tempo:

- Nunca existiu esse mundo.

- Só existe um mundo - continuou a bruxa -, o meu.

- Só existe o seu mundo - disseram eles.

Brejeiro ainda tentava resistir:

- Não sei direito o que você entende por um mundo - disse, como alguém que não respira ar suficiente. - Mas pode tocar essa rabeca até que seus dedos caiam no chão; mesmo assim nunca vou me esquecer de Nárnia. E nem do Mundo de Cima. Imagino que nunca mais o veremos, pois é bem provável que o tenha obscurecido como fez a este mundo. Mas vou saber sempre que estive lá. Já vi o céu cheio de estrelas. Já vi o Sol nascente no mar e sumindo atrás das montanhas ao cair da noite. E vi também o Sol ao meio dia, cujo brilho nos fere a vista.

As palavras de Brejeiro tiveram um efeito estimulante. Os outros três respiraram de novo e se olharam como pessoas que despertam.

- Que Aslam abençoe o nosso bom paulama - disse o príncipe. - Estivemos sonhando. Como iríamos esquecer? Todos nós já vimos o Sol.

- É claro que sim! - gritou Eustáquio. - Muito bem, Brejeiro. Você é o único aqui que não perdeu o juízo.

E mais uma vez se ouviu a voz da feiticeira arrulhando como uma pombarola no alto da árvore de um velho quintal, às três horas de uma sonolenta tarde de verão:

-  De que sol vocês estão falando? Essa palavra significa alguma coisa?

- Significa muito! - respondeu Eustáquio.

- Poderiam contar-me como é o sol? (Drum-drim-drim)

- Por obséquio, Majestade - disse o príncipe, com fria polidez. - Vê aquela lâmpada redonda e amarela iluminando a sala? O que chamamos Sol é parecido, só que é muito maior e muito mais brilhante e ilumina todo o Mundo de Cima. E em vez de estar preso no teto, está solto no céu.

- Solto onde? - E enquanto pensavam na resposta, ela prosseguiu, com uma de suas risadinhas melodiosas: - Estão vendo? Quando vocês procuram saber o que deve ser realmente o tal de sol, não conseguem. Só sabem dizer que parece uma lâmpada. O sol de vocês é um sonho, e não há nesse sonho nada que não tenha sido copiado de uma lâmpada. A lâmpada é real; o sol não passa de uma invenção, uma história para crianças.

- Ah, sim, é verdade - disse Jill com uma voz pesada e sem esperança. - Deve ser isso mesmo. - E acreditava que estava sendo muito sensata.

Lenta, gravemente, a feiticeira repetia: "Não há Sol." E eles nada mais diziam. "Não há Sol" - ela repetia, com a voz mais branda e profunda. Depois de uma pausa e de um conflito em seus espíritos, todos os quatro disseram: "Certo. Não há Sol". Era um alívio desistir e reconhecer que o Sol nunca existira.

Nos últimos minutinhos Jill sentira que havia alguma coisa da qual, a todo custo, tinha de se lembrar. E agora conseguia. Era entretanto tremendamente difícil dizê-la. Sentia como se enormes fardos pesassem em sua boca. Por fim, com um esforço que pareceu axauri-la, disse:

- Aslam existe.

- Aslam? - disse a feiticeira, apressando ligeiramente o repenicado de seu instrumento. - Que lindo nome! Que significa Aslam?

- Aslam é o grande Leão que nos chamou de nosso mundo - disse Eustáquio - e aqui nos enviou em busca do príncipe Rilian.

- Leão, o que é um leão? - perguntou a bruxa;

- Ora, não amole - respondeu Eustáquio. - Não sabe? Como é que eu vou descrever um leão? Já viu um gato?

- Claro, adoro gatos - respondeu a feiticeira.

- Bem, um leão é um pouquinho... só um pouquinho, hein... parecido com um gato enorme com uma juba. E é amarelo. E é incrivelmente forte.

A feiticeira balançou a cabeça:

- Acho que o leão de vocês vale tanto quanto o sol. Viram lâmpadas, e acabaram imaginando uma lâmpada maior e melhor, a que deram o nome de sol. Viram gatos, e agora querem um gato maior e melhor, chamado leão. É puro faz-de-conta, mas, francamente, já estão meio crescidos demais para isso. Já repararam que esse faz-de-conta é copiado do mundo real, do meu mundo, que é o único mundo? Já estão grandes demais para isso, jovens. Quanto ao meu príncipe, um homem feito, que vergonha! Brincando depois de grande! Venham. Esqueçam essas fantasias infantis. Tenho trabalho para vocês no mundo real. Não há Nárnia, não há Mundo de Cima, não há céu, nem Sol, nem Aslam. Agora, cama. E vamos começar vida nova amanhã. Primeiro, cama. Dormir. Dormir bem, um travesseirinho macio, um sono sem sonhos bobos.

O príncipe e as duas crianças estavam de cabeça caída, as faces coradas, os olhos semicerrados; fugira-lhes toda a energia, o sortilégio era quase total. Mas Brejeiro, juntando desesperadamente o resto de suas forças, caminhou até a lareira. E praticou então uma proeza de rara coragem. Sabia que não doeria tanto quanto em um ser humano, pois seus pés (sempre nus) eram membranosos, duros e frios como pés de pato. Mas sabia que iria doer bastante; mesmo assim o fez: espezinhou as brasas, apagando um pouco o fogo. Três coisas aconteceram.

Primeiro: o doce e pesado aroma diminuiu muito. O cheiro de paulama assado, que não é inebriante, predominou na sala. O cérebro de todos ficou mais limpo. O príncipe e as crianças ergueram as cabeças e abriram os olhos.

Segundo: a feiticeira, num tom terrível, completamente diferente da voz doce que havia usado até então, de um berro:

- O que está fazendo? Se ousar tocar no meu fogo outra vez, porcalhão imundo, vou transformar em fogo o sangue de suas veias!

Terceiro: a própria dor esclareceu completamente a cabeça de Brejeiro, pois não há nada como um impacto doloroso para desfazer certas espécies de magia.

- Uma palavrinha, dona - disse ele, mancando de dor -, uma palavrinha: tudo o que disse é verdade. Sou um sujeito que gosta logo de saber tudo para enfrentar o pior com a melhor cara possível. Não vou negar nada do que a senhora disse. Mas mesmo assim uma coisa ainda não foi falada. Vamos supor que nós sonhamos, ou inventamos, aquilo tudo - árvores, relva, sol, lua, estrelas e até Aslam. Vamos supor então que esta fossa, este seu reino, seja o único mundo existente. Pois, para mim, o seu mundo não basta. E vale muito pouco. E o que estou dizendo é engraçado, se a gente pensar bem. Somos apenas uns bebezinhos brincando, se é que a senhora tem razão, dona. Mas quatro crianças brincando podem construir um mundo de brinquedo que dá de dez a zero no seu mundo real.

C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Cadeira de Prata, Cap. 12.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Conversa entre Jill e Aslam


Ao parar, Jill sentiu uma sede enorme. Havia chorado de cara contra o chão, mas agora estava sentada. As aves não cantavam mais. O silêncio seria total, não fosse um barulhinho insistente que parecia vir de longe. Ouviu com atenção e teve quase certeza de que se tratava de água corrente.

Levantou-se e olhou em torno, atenta. Nenhum sinal do Leão [1], mas, com tantas árvores por ali, podia ser que ele estivesse por perto. A sede era intolerável e ela juntou coragem para localizar a água. Na ponta dos pés, escondendo-se de árvore em árvore, espreitando por todos os cantos, avançou. A floresta estava tão quieta que não era difícil descobrir de onde vinha o ruído. Numa clareira corria o riacho, brilhante como um espelho. Apesar da visão da água multiplicar sua sede, não correu logo para beber. Ficou paradinha, como se fosse de pedra, boquiaberta. Motivo: o Leão estava postado exatamente à beira do riacho, cabeça erguida, patas dianteiras esticadas. Não havia dúvida de que a vira, pois olhou dentro dos olhos dela por um instante e virou-se para o lado, como se a conhecesse há muito tempo e não precisasse dar-lhe muita atenção.

Ela pensou: "Se eu correr, ele me pega; se eu ficar, ele me come." [2]

De qualquer forma, mesmo que tivesse tentado, não teria saído do lugar. Não tirava os olhos de cima do Leão. Quanto tempo durou isso não saberia dizer. Pareciam horas. A sede era tão forte que chegou a pensar que pouco se importaria em ser comida pelo animal, desde que desse tempo de beber um bom gole.

- Se está com sede, beba. [3]

Eram as primeiras palavras que ouvia desde que Eustáquio falara com ela à beira do abismo. Por um segundo procurou descobrir quem falara.

A voz voltou:

- Se está com sede, venha e beba.

Lembrou-se naturalmente do que dissera Eustáquio sobre os animais falantes daquele outro mundo e percebeu que era a voz do Leão. Não se parecia com a voz humana: era mais profunda, mais selvagem, mais forte. Não ficou mais amedrontada do que antes, mas ficou amedrontada de um modo diferente.

- Não está com sede? - perguntou o Leão.

- Estou morrendo de sede.

- Então, beba.

- Será que eu posso... você podia... podia arredar um pouquinho para lá enquanto eu mato a sede?

A resposta do Leão não passou de um olhar e um rosnado baixo. Era (Jill se deu conta disso ao defrontar o corpanzil) como pedir a uma montanha que saísse do seu caminho.

O delicioso murmúrio do riacho era de enlouquecer.

- Você promete não fazer... nada comigo... se eu for?

- Não prometo nada - respondeu o Leão. [4]

A sede era tão cruel que Jill deu um passo sem querer.

- Você come meninas? - perguntou ela.

- Já devorei meninos e meninas, homens e mulheres, reis e imperadores, cidades e reinos - respondeu o Leão, sem orgulho, sem remorso, sem raiva, com a maior naturalidade.

- Perdi a coragem - suspirou Jill.

- Então vai morrer de sede.

- Oh, que coisa mais horrível! - disse Jill dando um passo à frente. - Acho que vou ver se encontro outro riacho.

- Não há outro - disse o Leão. [5]

Jamais passou pela cabeça de Jill duvidar do Leão [6]; bastava olhar para a gravidade de sua expressão. De repente, tomou uma resolução. Foi a coisa mais difícil que fez na vida, mas caminhou até o riacho, ajoelhou-se  [7] e começou a apanhar água na concha da mão. A água mais fresca e pura que já havia bebido. E não era preciso beber muito para matar a sede. Antes de beber, havia imaginado sair em disparada logo depois de saciada. Percebia agora que seria a coisa mais perigosa. Ergueu-se de lábios ainda molhados.

- Venha cá - disse o Leão.

E ela foi. Estava agora quase entre as patas dianteiras do Leão, olhando-o diretamente nos olhos. Mas não aguentou isso por muito tempo e desviou o olhar. [8]

- Criança humana - disse o Leão -, onde está o menino?

- Caiu no abismo - respondeu Jill, acrescentando: - ... Senhor. [9] - Não sabia como tratá-lo e seria uma desfeita não lhe dar tratamento algum.

- Como foi isso?

- Ele estava querendo me segurar, para eu não cair.

- Por que você chegou tão perto do abismo, criança humana?

- Eu queria fazer bonito, senhor.

- Gostei da resposta, criança [10]. Não faça mais isso. - Pela primeira vez a face do Leão mostrou-se um pouco menos severa. - O menino está bem. Foi soprado para Nárnia. A sua missão é que ficou mais difícil.

- Qual missão, por favor?

- A missão que me fez chamá-los aqui, fora do mundo de vocês.

Jill ficou intrigadíssima, achando que o Leão a tomava por outra pessoa. Não tinha coragem de revelar isso, apesar de sentir que podia dar uma confusão medonha.

- Diga o que está pensando, criança. [11]

- Eu estava imaginando... quer dizer... não está havendo um engano? Acontece que ninguém chamou a gente aqui. Nós é que pedimos para vir. Eustáquio disse que devíamos chamar... alguém... não me lembro do nome... e que esse alguém talvez nos deixasse entrar. Foi o que fizemos, e então encontramos a porta aberta.

- Não teriam chamado por mim se eu não houvesse chamado por vocês. [12]

- Então o senhor é o Alguém? - perguntou Jill.

- Sim."

C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Cadeira de Prata, Cap. 2.

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A numeração no texto foi feita por mim. Quero somente comentar brevemente a respeito destes pontos.

1- Penso ser sabido que as Crônicas de Nárnia são uma estória de fundo cristão. Aslam é naturalmente um símbolo de Jesus. Interessante ser o Cristo representado por um Leão, pois: 1- O leão comumente simboliza a majestade; 2- "Leão de Judá" é um dos nomes dados a Jesus na Sagrada Escritura.
2- Uma suposição errada fundamentada no medo e que só faz perder tempo. Muito comum.
3- Assemelha-se ao que Jesus diz: "Quem estiver com sede, venha a Mim, e beba". Deste modo, o riacho pode querer representar o próprio Aslam, ou o Cristo.
4- Só compreendendo como o Aslam é bondoso para apreciar o gracejo. Além disto, é óbvio que Ele não poderia prometer não influenciar de nenhum modo; isso seria impossível. Mas o fato de não explicar a expressão, revela um bom humor delicioso que Lewis atribui a Deus.
5- Aqui parece haver uma referência à absoluta exclusividade do Cristo. De fato, não há outro em quem podemos nos saciar, ou, nos dizeres de S. Pedro: "A quem iremos se só Tu tens a vida?"
6- Sendo o Cristo a própria verdade, não é possível duvidar d'Ele quando estamos na Sua presença, a menos que sejamos totalmente corruptos interiormente.
7- O fato de ajoelhar-se antes de beber da fonte é muito significativo.
8- Aqui há uma coisa interessante. S. João da Cruz, expressando o olhar de Cristo, escreve: "Aparta-os, Amado, que eu alço vôo". Sta Teresa diz o mesmo, completando que, embora o olhar enamorado do Cristo seja o que a pessoa mais deseja, no entanto, ela como que não o suporta e termina por pedir que Ele os afaste. Estas referências místicas parecem se fundamentar no livro dos Cânticos, onde se diz algo similar.
9- O fato de Jill querer usar algum tipo de tratamento, demonstra que ela reconhecia estar diante de uma autoridade. Jesus, embora despido de suas vestes reais, é Rei pela própria natureza. Sta Teresa D'Avila dizia justamente isto: "a Realeza é algo que Lhe pertence". Na primeira das Crônicas de Nárnia, o castor, referindo-se a Aslam, diz: "Ele é Rei, digo e repito". Quando estamos diante d'Ele, é natural que assumamos uma atitude de máximo respeito. Observar a atitude dos reis Magos quando, ultrapassando o véu das aparências, deram-se conta de Quem estava diante deles. Comentando sobre este episódio, S. Pedro Julião Eymard escreve: "curvar-se-iam até as entranhas da terra, se pudessem".
10- Jesus é grande amigo da sinceridade. Lembremos da parábola da festa, onde alguém surge sem as vestes apropriadas. Interrogado sobre a causa de estar ali sem a roupa devida, o rapaz não responde nada. Não disse nada porque não é possível dissimular ou inventar desculpas diante do Cristo. Nosso Senhor ama a verdade. Diante d'Ele, é preciso uma total sinceridade e transparência.
11- Aqui, mais uma vez, Jill pretendia ocultar algo que pensava. Mas Aslam lhe pede mantenha a transparência.
12- Lembrar aqui do que Jesus fala: "Ninguém vem a Mim se antes o Pai não o atrair".

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Despedida de Nárnia - Aslam também está em nosso mundo


"Quando o sol nasceu, desvaneceu-se a visão das montanhas. As crianças saíram do bote e começaram a patinhar para o sul, com a parede de água à esquerda. Não sabiam por que fizeram assim; era o destino. Apesar de a bordo do Peregrino se sentirem muito crescidos, agora tinham a sensação contrária e davam-se as mãos entre os lírios.

Nunca se sentiram tão cansados. A água estava morna e era cada vez menos funda. Por fim, caminhavam na areia e depois na relva - por uma extensa planície de relva rasteira e bela, que se estendia em todas as direções, quase no mesmo nível do Mar de Prata.

Como sempre acontece em uma planura sem árvores, parecia que o céu se juntava com a relva, lá longe. Quando avançaram mais, tiveram a estranha sensação de que, pelo menos ali, o céu descia de fato e unia-se à terra - em uma parede muito azul, muito brilhante, mas real e concreta, parecendo vidro. Depois tiveram a certeza total. Estavam agora muito perto. Entre eles e a base do céu havia algo tão branco que, até mesmo com seus olhos de águia, dificilmente poderiam fitar. Continuaram e viram que era um cordeiro.

- Venham almoçar - disse o Cordeiro na sua voz doce e meiga.

Notaram que ardia sobre a relva uma fogueira, na qual se fritava peixe. Sentaram-se e comeram, sentindo fome pela primeira vez desde muitos dias. E aquela comida era a melhor de todas as que haviam provado.

- Por favor, Cordeiro - disse Lúcia -, é este o caminho para o país de Aslam?

- Para vocês, não - respondeu o Cordeiro - Para vocês, o caminho de Aslam está no seu próprio mundo.

- No nosso mundo também há uma entrada para o país de Aslam? - perguntou Edmundo.

- Em todos os mundos há um caminho para o meu país - falou o Cordeiro. E, enquanto ele falava, sua brancura de neve transformou-se em ouro quente, modificando-se também sua forma. E ali estava o próprio Aslam, erguendo-se acima deles e irradiando luz de sua juba.

- Aslam! - exclamou Lúcia. - Ensina para nós como poderemos entrar no seu país partindo do nosso mundo.

- Irei ensinando pouco a pouco. Não direi se é longe ou perto. Só direi que fica do lado de lá de um rio. Mas nada temam, pois sou eu o grande Construtor da Ponte. Venham. Vou abrir uma porta no céu para enviá-los ao mundo de vocês.

- Por favor, Aslam - disse Lúcia -, antes de partirmos, pode dizer-nos quando voltaremos a Nárnia? Por favor, gostaria que não demorasse...

- MInha querida - respondeu Aslam muito docemente, você e seu irmão não voltarão mais a Nárnia.

- Aslam! - exclamaram ambos, entristecidos.

- Já são mutio crescidos. Têm de chegar mais perto do próprio mundo em que vivem.

- Nosso mundo é Nárnia - soluçou Lúcia. - Como poderemos viver sem vê-lo?

- Você há de encontrar-me, querida - disse Aslam.

- Está também em nosso mundo? - perguntou Edmundo.

- Estou. Mas tenho outro nome. Têm de aprender a conhecer-me por esse nome. Foi pro isso que os levei a Nárnia, para que, conhecendo-me um pouco, venham a conhecer-me melhor."

C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Viagem do Peregrino da Alvorada, Cap. 16.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Você é um homem ou um rato? A determinação de Ripchip


Nesse tempo em que o GRAA passa por certas dificuldades e, com o barco encostado, discute-se sobre o seu futuro, eis um texto muito apropriado: a tripulação de Caspian, tendo chegado a uma certa ilha e deparando-se com um banquete digno de um rei e que se estenderia pelos dias indefinidamente, hesita em prosseguir até o Fim do Mundo. O Peregrino, o barco que utilizam, esperava perto da praia. Alguns integrantes da população estavam indecisos e pareciam querer voltar. Então Rinelfo, um dos mais leais a Caspian, falou o seguinte:

**
- Majestades, meus senhores e minhas senhoras, gostaria apenas de lembrar uma coisa: ninguém veio obrigado a esta viagem. Viemos todos por livre e espontânea vontade. Muitos, que estão agora olhando para esta mesa como doidos, proclamavam em voz bem alta, no dia da partida, em Cair Paravel, que haveriam de correr as mais fantásticas aventuras e juravam não voltar sem ter chegado ao Fim do Mundo. No cais ficaram muitos que tudo dariam para vir conosco. Não sei se entendem o que quero dizer. Mas, na minha opinião, aquele que desistir agora, depois de tantas aventuras por estes mares, será mais estúpido do que os Tontos*. Ora, chegar ao princípio do Fim do Mundo e não ter a coragem de prosseguir!

Alguns marinheiros aplaudiram, mas outros não gostaram nada.

- Isto não vai ser brincadeira - murmurou Edmundo para Caspian. - Que iremos fazer se estes caras não quiserem ir?

- Calma: ainda tenho um trunfo!

- Você não diz nada, Ripchip? - sussurrou Lúcia.

- Não. Por que acha Vossa Majestade que devo falar? - respondeu o rato, numa voz que quase todos ouviram.

- Os meus planos estão traçados. Enquanto puder, navegarei para o oriente no Peregrino. Quando o perder, remarei no meu bote. Quando o bote for ao fundo, nadarei com as minhas patas. E, quando não puder nadar mais, se ainda não tiver chegado ao país de Aslam, ou atingido a extremidade do mundo, afundarei com o nariz voltado para o leste, e outro será o líder dos ratos falantes de Nárnia."

* Tontos era uma raça engraçada de ex-anões que não se distinguia pela inteligência.

C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Viagem do Peregrino da Alvorada, Cap. 14

Antes de ver Aslam, é preciso estar amadurecido


Lúcia seguiu o Leão pelo corredor e viu de repente, vindo na direção deles, um homem idoso, descalço e de túnica vermelha. Coroava-lhe o cabelo branco uma grinalda de folhas de carvalho, a barba chegava-lhe à cintura, e ele apoiava-se num bastão todo trabalhado. Fez uma referência profunda ao ver Aslam e disse:

- Bem-vindo à mais humilde das casas, senhor.

- Está aborrecido, Coriakin, por ter de governar uns súditos tão apalermados como os que lhe dei?

- Não - respondeu o mágico. - São de fato muito estúpidos, mas não são perigosos. Já estou até gostando deles. Algumas vezes perco um pouco a paciência, esperando o dia em que poderão ser governados pela sabedoria e não por esta magia rudimentar.

- Tudo a seu tempo, Coriakin - disse Aslam.

- Vai aparecer para eles? - perguntou o ancião.

- Não - disse o leão com um rugido, que queria dizer (pensou Lúcia) o mesmo que uma risada. - Ficariam assustados demais. Muitas estrelas envelhecerão e virão descansar nas ilhas antes que o seu povo esteja amadurecido para isso.

C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Viagem do Peregrino da Alvorada, Cap. 11

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A chegada de Aslam, para imensa alegria de alguns e terror de outros.


- Que aconteceu, Aslam? - perguntou Lúcia, com os olhos a bailar e os pés desejosos de fazer o mesmo.

- Vamos, minhas filhas - disse ele. - Hoje vão andar outra vez nas minhas costas.

- Que bom! - gritou Lúcia.

E as duas meninas subiram para o dorso quente e fulvo, como tinham feito sabe-se lá há quantos anos. Todo o grupo se pôs em movimento. Aslam à frente, seguido de Baco e das mênades - que corriam e saltavam e davam cambalhotas -, depois os animais cabriolando e finalmente Sileno, montado no seu burro.

Cortaram à direita, lançaram-se por uma encosta a pique e foram sair no Passo do Beruna. Da água emergiu uma cabeça coroada de juncos, maior que a de um homem e com a barba a pingar. Olhou para Aslam e disse, numa voz grave:

- Salve, Senhor! Liberte-me dos meus grilhões.

- Quem é? - perguntou Susana num murmúrio.

- Psiu! - disse Lúcia. - Deve ser o deus do rio.

- Baco, liberte-o das cadeias! - ordenou Aslam.

"Deve estar falando da ponte" - pensou Lúcia.

E era, de fato. Baco e sua gente avançaram chapinhando pela água pouco profunda; um instante depois, aconteciam as coisas mais estranhas. Troncos grossos e fortes enrolavam-se pelos pilares da ponte e, alastrando-se como o fogo, envolviam as pedras, separando-as, fazendo-as estalar. As grades da ponte transformaram-se por um momento em bonitas sebes de espinheiro branco. De repente, toda a construção desabou com estrondo e foi engolida pelas águas. Entre nuvens de salpicos e gritos de riso, parte do alegre grupo atravessou o rio a vau, enquanto outros o atravessaram a nado ou a bailar, saltando para a outra margem. Entraram todos na cidade.

- Viva! É outra vez o Passo do Beruna! - gritaram as meninas.

Ao vê-los, toda a gente da cidade desatou a correr.

A primeira casa que encontraram foi uma escola, uma escola de meninas, onde uma porção de alunas de Nárnia, com o cabelo muito esticado e golas muito apertadas e feias, e usando meias muito grossas, assistia a uma aula de História.

A História que se aprendia em Nárnia durante o reinado de Miraz era mais insípida do que a história mais verdadeira que se possa imaginar e muito menos verdadeira do que o mais apaixonante conto de aventuras.

- Goendolina, se continuar olhando para fora e não prestar atenção, dou-lhe um castigo! - disse a professora.

- Por favor... - disse Goendolina.

- Ouviu ou não ouviu o que eu disse?

- Mas, professora - insistiu  Goendolina - lá fora tem um leão!

- Em vez de um, vou lhe dar dois castigos, para você não dizer bobagens. E agora...

Um rugido cortou-lhe a palavra. E a hera começou a crescer e enroscar-se pelas janelas da sala de aula. As paredes ficaram atapetadas de um verde cintilante e o teto cobriu-se de folhas. De repente, a professora percebeu que estava na floresta, numa clareira relvada. Quis agarrar-se à carteira para apoiar-se e viu que esta se transformava numa roseira. Gente selvagem, como ela nunca imaginara que pudesse existir, comprimia-se ao redor. Ao ver o Leão, começou a gritar e a fugir, e com ela toda a classe, formada na maior parte por meninas rechonchudas e de pernas roliças. Goendolina hesitou.

- Quer ficar conosco, querida? - perguntou Aslam.

- Posso? Mesmo? Muito obrigada.

E imediatamente deu a mão a duas mênades, que a fizeram rodopiar numa dança frenética e a ajudaram a despir parte da roupa desnecessária e incômoda que trazia.

Por todos os lados por onde passavam, a cena se repetia. A maioria das pessoas fugia e umas poucas juntavam-se a eles. Quando saíram da cidade formavam um grupo muito maior e mais animado.

Correram pelos campos planos da margem esquerda do rio. De todas as quinas saíam animais que vinham ter com eles. Burros velhos e tristes, que nunca tinham conhecido uma hora de alegria, rejuvenesciam de um momento para outro; cães que estavam presos quebravam as correntes; os cavalos escoiceavam até deixar as carroças em frangalhos e acompanhavam o bando a galope - clope, clope, clope -, relinchando e sacudindo a lama dos cascos.

Junto de um poço, num pátio, um homem espancava um rapaz. O chicote transformou-se numa flor. O homem tentou soltá-la, mas estava agarrada à sua mão. Seu braço transformou-se num ramo, o corpo num tronco, os pés criaram raízes. O rapaz, que há pouco chorava, desatou a rir e foi com eles.

Numa cidadezinha, a meio caminho do Dique dos Castores, encontraram outra escola, onde uma mocinha com ar de cansado ensinava Aritmética a uns meninos muito parecidos com porquinhos. A mocinha olhou pela janela e viu o grupo brincalhão. Tremeu de alegria. Aslam parou debaixo da janela e olhou para ela.

- Oh, não! Queria muito, mas não posso. Tenho de trabalhar. As crianças morreriam de suste se vissem você.

- Morrer de susto? - disse um menino que, mais do que qualquer outro, parecia um leitão. - Com quem está falando? Temos de dizer ao diretor que ela fica conversando com as pessoas à janela quando a obrigação dela é dar aula.

- Só quero ver quem é! - disse outro menino, e todos se levantaram.

Mas no momento em que as carinhas bobocas assomaram à janela, Baco soltou o seu auan-euan-eoooi, e os meninos começaram a gritar assustados e atropelaram-se para sair pela porta ou saltar pela janela. Diz-se que esses meninos nunca mais foram vistos, mas que nessa região apareceu uma raça muito apurada de porquinhos que até então nunca havia existido.

- Venha, minha cara - disse Aslam à senhorita. E ela foi.

No Dique dos Castores voltaram a atravessar o rio e chegaram a uma casinha onde uma menina chorava.

- Por que chora, meu bem? - perguntou Aslam.

A criança, que nunca vira um leão, nem mesmo desenhado, não se assustou.

- Minha tia está muito doente e vai morrer.

Aslam quis entrar pela porta, mas era pequena demais para ele. Enfiou a cabeça, fez força com os ombros (nessa altura, Lúcia e Susana escorregaram e caíram) e, levantando toda a casa, colocou-a abaixo.

Na cama, agora ao ar livre, via-se deitada uma velhinha franzina, que parecia ter sangue de anão. Estava às portas da morte, mas, quando abriu os olhos e viu a juba brilhante do Leão, não gritou nem desfaleceu. Exclamou apenas:

- Oh, Aslam! Sabia que era verdade. Esperei a vida toda por este momento. Veio para me levar?

- Sim, minha querida - disse Aslam. - Mas ainda não para a viagem final.

E, enquanto falava, como o rubor que se insinua nas nuvens ao nascer do sol, a cor voltou-lhe ao rosto pálido, os olhos readquiriram brilho e, sentando-se, ela disse:

- Estou muto melhor. Acho que seria capaz de comer alguma coisa.

- Aqui, titia - disse Baco, enchendo uma bilha no poço.

Mas a bilha, em vez de água, continha o mais perfumado dos vinhos, vermelho como geléia de groselha, suave como o azeite, forte como um bom bife, reconfortante como o chá, geladinho como o orvalho.

- Oh! - exclamou a velha. - O poço mudou, sem dúvida. Está muito melhor assim! - E saltou da cama.

- Suba às minhas costas - disse Aslam, e, para as duas meninas: - Vocês terão de ir a pé.

- Adoramos correr. - E partiram imediatamente.

- Foi assim que, entre saltos, danças, cantos e ruídos de animais, o bando chegou finalmente ao lugar onde o exército de Miraz se alinhava, de espadas no chão e mãos para o ar, e onde os homens de Pedro, com uma expressão severa mas alegre, e ainda de armas nas mãos, cercavam, ofegantes, os vencidos. Então, a velha desceu das costas de Aslam e correu para Caspian... e caíram nos braços um do outro. Porque era, nem mais nem menos, a velha ama do príncipe.

Ao ver Aslam, os soldados telmarinos ficaram lívidos, seus joelhos começaram a bater, e muitos caíram de cara no chão. Nunca tinham acreditado em leões, e a descrença aumentava ainda mais seu terror. Os próprios anões vermelho,s que sabiam que vinha como amigo, ficaram boquiabertos e mudos. Alguns dos anões negros, que tinham tomado o partido de Nikabrik, correram a esconder-se. Os animais falantes, porém, reuniram-se todos à volta do Leão. Alegres, rosnavam, guinchavam, relinchavam, ora acariciando o Leão, roçando-se nele, farejando-o delicadamente, ora andando de um lado para outro, por entre suas pernas. Se alguma vez você já viu um gatinho fazendo festas a um cachorro grande, no qual confia, poderá imaginar o que foi aquilo tudo.

C.S. Lewis, Crônicas de Nárnia, Príncipe Caspian, Cap 14-15.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Caspian começa a ficar livre


"Dormir ao ar livre, beber apenas água, alimentar-se quase exclusivamente de nozes e frutos do mato foi uma experiência completamente nova para quem, como Caspian, estava habituado a deitar em lençóis de linho no quarto atapetado de um palácio, a ter as refeições servidas numa antecâmara, em baixelas de prata e ouro, com muitos criados prestimosos. Nunca Caspian fora tão feliz. Nunca o sono o deixara tão descansado, nem a comida lhe parecera tão saborosa: assim, começou a ficar maduro de espírito, e seu rosto adquiriu uma expressão régia.

C.S.Lewis, As Crônicas de Nárnia, Príncipe Caspian, Cap. 7.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

The fisherman and the banker


An american banker was walking on a beautiful beach in a small Mexican village. He saw a fisherman in his boat with a few fish on it.

"Great fish!", he said. "How long did it take you to catch them?"

"Not very long", answered the fisherman.

"Why didn't you stay at sea longer to catch some more?", asked the banker.

"There are just enough fish here to feed my family", answered the Mexican.

Then the american asked: "But what do you do the rest of time?"

"I sleep late, I fish a little, I play with my kids, I have siestas. In the evening, I go to see my friends in the village. We drink wine and play the guitar. I'm busier than you think. Life here isn't as..."

The American interrupted him: "I have an MBA from Harvard University and I can help you. You're not fishing for longer periods of time, you'll get enough money from selling the fish to buy a bigger boat. Then with the money you'll get from catching and selling more fish, you could sell them directly to a fish factory, or even open your own factory. Then you'll be able to leave your little village for Mexico City and finally move to New York, where you could direct the company".

"How long will that take?", asked the Mexican.

"About 15 to 20 years", answered the banker.

"And then?"

"Then it gets more interesting", said the American, smiling and talking more quickly. "When the moment comes, you can put your company on the stock market and you will make millions."

"Millions? But then what?"

"Then you can retire, live in a small village by the sea, go to the beach, sleep late, play with your kids."

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Um pequeno pobre


Aquele pequeno gostava de, todos os dias, subir a pequena elevação de pedra que dava para um abismo. Lá embaixo, um belo vale avistava-se e era alheio a toda escravidão.

O pequeno subia e saltava e gostava de, com a alma vazia, sentir o vento a lhe acarinhar o rosto, a lhe mover os cabelos e se sentia amigo dos pássaros, destes seres livres que, não raro, acompanhavam o seu vôo.

Saltava o pequeno e era abraçado pela imensidão.

Um dia, porém, tendo feito o mesmo percurso, percebeu uma receptividade diferente. O vale como que se enamorara pelo rapaz e, tendo este saltado, foi abraçado de modo único. E foi único por dois motivos: por ter sido diferente de todos os anteriores; e por nunca mais ter se repetido. Foi único, primeiro e último.

E a alma do rapazinho? Ela feriu-se e ao lago, no vale, ele juntou umas poucas lágrimas. Parece que o vento não soube que sofrera. O menino, porém, nunca deixou de saltar, pois sua alegria era ser pobre e sabia que isto implicava em não se defender.

Fábio