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quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sabeis o que é ser espiritual deveras?


Sta Teresa D'Avila

"Olhai que isto importa muito mais do que eu vos saberei encarecer. Ponde os olhos no Crucificado e tudo se vos fará pouco. Se Sua Majestade nos mostrou o Seu amor com tão espantosas obras e tormentos, como quereis contentá-Lo só com palavras? Sabeis o que é ser espiritual deveras? É fazer-se escravos de Deus, para que, marcados com o Seu ferrete que é a cruz, pois já Lhe deram a sua liberdade, os possa vender por escravos de todo o mundo, como Ele o foi; e não lhes faz nenhum agravo nem pequena mercê. E se a isto não se determinam, não haja medo que aproveitem muito, porque de todo este edifício - como já se disse - é seu fundamento a humildade; e se não há esta muito deveras, até para vosso bem não quererá o Senhor subi-lo muito alto, para não dar com tudo em terra. Assim, irmãs, para que leve bons alicerces, procurai ser a menor de todas e sua escrava, vendo como ou em que as podeis servir e dar-lhes prazer; pois, o que fizerdes neste caso, o fazeis mais para vós do que para elas, pondo pedras tão firmes, que não vos caia o castelo."

Castelo Interior.

sábado, 30 de julho de 2011

Verdade, Humildade e Conhecimento Próprio


Sta Teresa D'Avila


Também acontece, assim muito de repente e de maneira que nem se sabe dizer, mostrar Deus em Si mesmo uma verdade que parece deixa obscurecidas todas as que há nas cruaturas, e muito claramente dá a entender que só Ele é a verdade que não pode mentir; e dá-se bem a entender o que diz David em um salmo, que todo o homem é mentiroso; coisa que nunca jamais se entenderia assim, ainda que se ouvisse muitas vezes, e é verdade que não pode falhar. Lembro-me de Pilatos, o muito que perguntava a Nosso Senhor, quando em Sua Paixão Lhe disse: "O que é a verdade?", e de quão pouco aqui entendemos desta suma Verdade.

Eu quisera poder dar-me melhor a entender neste caso, mas não se pode dizer. Tiremos daqui, irmãs, que para nos conformarmos com o nosso Deus e Esposo em alguma coisa, será bem que procuremos muito andar sempre nesta verdade. Não digo só que não digamos mentiras, pois nisso, glória a Deus, já vejo que tendes em grande conta nestas casas de não a dizer por coisa nenhuma, mas que andemos em verdade diante de Deus e das gentes, de quantas maneiras pudermos; em especial, não querendo que nos tenham por melhores do que somos e, em nossas obras, dando a Deus o que é Seu e a nós o que é nosso, e procurando em tudo a verdade, e assim termos em pouco este mundo que é todo mentira e falsidade e, como tal, não é perdurável.

Uma vez estava eu considerando por que razão era Nosso Senhor tão amigo desta virtude da humildade, e logo se me pôs diante - a meu parecer sem eu considerar nisso, mas de repente - isto: é porque Deus é a suma Verdade, e a humildade é andar na verdade. E é muito grande verdade não termos coisa boa de nós mesmos, senão a miséria e sermos nada; e, quem isto não entende, anda em mentira. Quem melhor o entende, mais agrada à suma Verdade, porque anda nela. Praza a Deus, irmãs, nos faça mercê de não sairmos nunca deste próprio conhecimento, amen.

Sta Teresa D'Avila, Castelo Interior

A bondade divina e a maldade humana - uso de uma comparação



Sta Teresa D'Avila

Há um tipo de visão intelectual "na qual se lhe descobre [à alma] como em Deus se vêem todas as coisas, e Ele as tem todas em Si mesmo. E é de grande proveito, porque, ainda que passa num momento, fica muito gravada, e causa grandíssima confusão; vê-se mais claramente a maldade de quando oferecemos a Deus, porque no mesmo Deus - digo, estando dentro d'Ele - fazemos grandes maldades. Quero fazer uma comparação, se acertar, para vo-lo dar a entender, porque, embora isto seja assim e o ouçamos muitas vezes, ou não reparamos nisso, ou não o queremos entender, pois não parece que seria possível sermos tão atrevidos, se se entendesse tal como é.

Façamos agora de conta que Deus é como uma morada ou palácio muito grande e formoso, e que este palácio, como digo, é o mesmo Deus. Pode porventura o pecador, para fazer suas maldades, apartar-se deste palácio? Não, por certo; senão que, dentro do mesmo palácio, que é o mesmo Deus, passam-se as abominações e desonestidades e maldades que fazemos nós os pecadores. Oh! coisa temerosa e digna de grande consideração e muito proveitosa para os que sabemos pouco que não acabamos de entender estas verdades e não seria possível ter atrevimento tão desatinado! Consideremos, irmãs, a grande misericórdia e sofrimento de Deus em não nos aniquilar ali imediatamente; e demos-Lhe muitas graças, e tenhamos vergonha de nos sentirmos por cousa que se faça ou diga contra nós; que a maior maldade do mundo é ver que Deus Nosso Criador sofre tamanhas dentro de Si, mesmo às Suas criaturas, e que nós sintamos alguma vez uma única palavra que se deiga em nossa ausência, e talvez sem má intenção.

Oh! miséria humana! Quando, mas quando, filhas, imitaremos em alguma coisa este grande Deus? Oh! e não se nos vá afigurar que já fazemos algo em sofrer injúrias! Mas passemos, de muito boa vontade, por tudo  amemos a quem no-las faz, pois este grande Deus não deixou de nos amar a nós, ainda que O tenhamos ofendido muito, e assim Ele tem razão de sobejo em querer que todos perdoem, por mais agravos que lhes façam.

Sta Teresa D'Avila, Castelo Interior

Cinco razões pelas quais não se devem pedir sinais sobrenaturais na oração



Sta Teresa D'Avila, Doutora da Igreja, Mestra de Oração


A primeira, porque é falta de humildade querer que se vos dê o que nunca haveis merecido, e assim creio que não terá muita quem o desejar; porque, assim como um pequeno lavrador está longe de desejar ser rei, parecendo-lhe impossível, porque não o merece, assim também o está o humilde de coisas semelhantes; e creio eu que estas coisas nunca se darão, porque, primeiro que faça estas mercês, dá o Senhor um grande conhecimento próprio. Pois, como entenderá, com verdade, que se lhe faz uma muito grande mercê em não estar já no inferno, quem tem tais pensamentos?

A segunda, porque é muito certo ser enganado, ou estar muito em perigo de o ser; porque o demônio não precisa mais do que ver uma pequena porta aberta para fazer mil trapalhices.

A terceira; que é a mesma imaginação, quando há um grande desejo, faz entender à própria pessoa que ela vê e ouve aquilo que deseja, tal como os que andam com vontade de uma coisa durante o dia e pensando muito nela, lhes acontece virem a sonhar com ela de noite.

A quarta, é muito grande atrevimento querer eu escolher caminho, não sabendo qual o melhor, mas sim deixar ao Senhor, que me conhece, que me leve por aquele que me convém, para que em tudo faça a Sua vontade.

A quinta, pensais que são poucos os trabalhos que parecem aqueles a quem o Senhor faz estas mercês? Não, são grandíssimos e de muitas maneiras. E sabeis vós se seríeis pessoas para os sofrer? A sexta, porque talvez por aí mesmo por onde pensais ganhar, perdereis, como Saul, por ser rei.

Enfim, irmãs, além destas há outras; e crede-me que, o mais seguro, é não querer senão o que Deus quer, pois nos conhece e ama mais do que nós mesmos. Ponhamo-nos em Suas mãos, para que seja feita a Sua vontade em nós; e não poderemos errar se, com determinada vontade, nos ficamos sempre nisto.

Sta Teresa D'Avila, Castelo Interior

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Que farsa é tudo o que há no mundo...


Oh! irmãs minhas, que não é nada o que deixamos, nem nada o que fazemos, nem quanto pudermos fazer por um Deus que assim se comunica a um vermezinho! E, se temos esperança de ainda nesta vida gozar deste bem, que fazemos e em que nos detemos? Que coisa é bastante para que deixemos um só momento de buscar a este Senhor, como o fazia a Esposa, por bairros e praças? Oh! e que farsa é tudo o que há no mundo, se não nos leva e ajuda a isto, ainda mesmo que durassem para sempre os seus deleites, riquezas e gozos, todos quantos se puderemo imaginar, que tudo é asco e lixo, comparado a estes tesouros que se hão-de gozar sem fim! Mesmo estes são nada em comparação de ter por nosso o Senhor de todos os tesouros do Céu e da terra.

Oh cegueira humana! Até quando, até quando estaremos até que nos caia esta terra de nossos olhos? Pois, embora entre nós não parece ser tanta que nos cegue de todo, vejo uns argueirinhos, umas manchazinhas que, se os deixamos crescer, bastarão para nos fazer grande dano; senão que, por amor de Deus, irmãs, aproveitemo-nos destas faltas para conhecer a nossa miséria e elas nos dêem melhor vista, como a deu o lodo ao cego a quem sarou o nosso Esposo. E assim, vendo-nos tão imperfeitas, cresça mais em nós o suplicar-Lhe que tire bens das nossas misérias, para em tudo contentarmos a Sua Majestade.

Sta Teresa D'Avila, Castelo Interior.

domingo, 3 de julho de 2011

Sta Teresa trata sobre os motivos pelos quais não devemos pedir gostos sobrenaturais na oração


Primeiro, porque a primeira coisa, que para isto é mister, é amar a Deus sem interesse.

Segundo, porque não deixa de ser um pouco falta de humildade pensar que, por nossos serviços miseráveis, se há-de alcançar coisa tão grande.

Terceiro, porque a verdadeira preparação para isto é o desenho de padecer e de imitar ao Senhor e não o ter gostos, nós que, enfim, O temos ofendido.

Quarto, porque Sua Majestade não está obrigado a dar-nos gostos, como o está a dar-nos a Glória se guardarmos os Seus mandamentos, pois, sem isto [os gostos], nos poderemos salvar, e Ele sabe melhor que nós o que nos convém e quem O ama de verdade. Assim é coisa certa, eu sei-o, e conheço pessoas que vão, pelo caminho do amor como se deve ir, só para servir a seu Cristo crucificado, que não só não Lhe pedem gostos nem os desejam, mas Lhe suplicam que não olhos dê nesta vida. Isto é verdade.

A quinta, porque trabalharemos debalde, pois, como não se há-de trazer está água por aquedutos, se o manancial não a quer produzir, pouco aproveita que nos cansemos. Quero dizer que, por mais meditação que tenhamos e por mais que nos apoquentemos e tenhamos lágrimas, não é por aqui que esta água vem. Só a quem Deus quer e, muitas vezes, quando mais descuidada está a alma.

Suas somos, irmãs; faça de nós o que quiser, leve-nos por onde for servido. Creio bem que, a quem de verdade se humilhar e desapegar (digo de verdade, porque não o há-de ser só em nosso pensamento, que muitas vezes nos engana, senão que estejamos desapegadas de todo), não deixará o Senhor de nos fazer esta mercê, e outras muitas que não saberemos desejar. Seja Ele para sempre bendito. Amen.

Sta Teresa D'Avila, Castelo Interior.

sábado, 2 de julho de 2011

Em que consiste o amor


"Só quero que estejais advertidas que, para aproveitar muito neste caminho..., não está a coisa em pensar muito, senão em amar muito; e assim, o que mais vos despertar ao amor, isso deveis fazer. Talvez não saibamos o que é amar, e não me espantarei muito; porque não está no maior gosto, mas sim na maior determinação de desejar contentar a Deus em tudo e procurar, tanto quanto pudermos não O ofender, e rogarl-Lhe que vá sempre por diante a honra e glória de Seu Filho e o aumento da Igreja Católica. Estes são os sinais do amor."

Sta Teresa D'Avila

terça-feira, 28 de junho de 2011

Importantes conselhos para os que iniciam a vida espiritual

Nestas férias, um dos livros que me propus a ler direito foi o "Castelo Interior ou Sete Moradas" da Santa que é Doutora da Igreja e Mestra de Oração, Teresa D'ávila. É assunto que me interessa sobremaneira. Portanto, ficarei pondo certas transcrições do livro neste espaço que é mais pessoal e mais íntimo que o blog do Anjos. Os que quiserem ficar acompanhando, sintam-se à vontade. Santa Leitura.

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Discorrendo sobre a grande conveniência que é adentrar neste castelo e, uma fez feito, ir rumando às moradas mais interiores, vencendo as seduções do inimigo que tenta distrair a alma com as aparências de bem dispersas no mundo e em seus atrativos, Sta Teresa segue:

"Ah! Senhor meu!, aqui é mister a Vossa ajuda, pois, sem ela, não se pode fazer nada. Por Vossa misericórdia não consintais que esta alma seja enganada para deixar o que começou. Dai-lhe luz para ver como está nisto todo o seu bem e para se apartar das más companhias. Grandíssima coisa é tratar com os que tratam disto e achegar-se, não só aos que vier nestes aposentos em que está, mas também aos que entender que já entraram nos mais interiores; porque lhe será grande ajuda, e tanto poderá conversar com estes, que ali a metam consigo. Esteja sempre de sobreaviso para não se deixar vencer; porque, se o demônio a vê com uma grande determinação de que, antes perderá a vida, o descanso e tudo o que ele lhe oferece, do que voltar ao primeiro aposento, muito mais depressa a deixará. Seja varão e não dos que se deitavam a beber de bruços, quando iam para a batalha, não me lembro com quem, mas determine-se: vai pelejar com todos os demônios e não há melhores armas do que as da Cruz.

Ainda que de outras vezes tenha dito isto, importa tanto, que o torno a dizer aqui; é que não se lembre que há regalos nisto que principia, porque é maneira muito baixa de começar a construir tão precioso e grande edifício; e, se começam sobre areia, darão com tudo em terra; nunca deixarão de andar desgostosos e tentados. Porque não são estas moradas onde chove o maná; estão mais adiante, onde tudo sabe ao que uma alma quer, porque não quer senão o que Deus quer. É coisa muito engraçada que ainda estejamos com mil embaraços e imperfeições e as virtudes que ainda não sabem andar, pois só há pouco começaram a nascer, e mesmo praza a Deus que estejam começadas; e não temos vergonha de querer gostos na oração e de nos queixarmos de aridez? Nunca isto vos aconteça, irmãs; abraçai-vos com a cruz que vosso Esposo tomou sobre Si e entendei que esta deve ser a vossa empresa.

Sta Teresa D'Avila, Castelo Interior