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quarta-feira, 18 de julho de 2012

O que a mística não é...


Se, hoje em dia, em pleno século XXI, era da ciência e herdeira dos ideais iluministas, alguém ainda assim quiser ser um espiritual, como é que faz? É só querer? É nada... Queira o quanto possa, a coisa não vai só assim.. "Ah, mas eu escuto o Pe. Fábio de Melo e leio os livros do Augusto Cury.. não é suficiente?" Quê?! É mais fácil se tornar um espiritual assistindo anime japonês do que por aí...

Interessante que, hoje em dia, esse é o tipo de afirmação que causa revolta nalguns pretensos elevados. Esse é o tempo em que nada pode ser dito com clareza; tudo tem de fazer parte de uma sopa de ingredientes indefinidos.. é suficiente que cheire bem. A sensibilidade foi elevada ao critério de verdade. No mundo moderno, há um grande repúdio pela clareza. Uma coisa clara é uma coisa definida, isto é, é algo que é de um modo e não é de outro. Portanto, não convém fazer afirmações claras, porque isto fere susceptibilidades alheias. Ser bom, hoje, é respeitar todas as idéias, correntes, ideologias, etc, etc. Quem pensa assim, vive numa espécie de contínua ebriedade; ela não tem noção clara de nada; apenas tem idéias nubladas, fragmentadas e erige sempre como critério a própria simpatia. Foi simpático a uma idéia? A idéia é boa. A idéia não agradou? É ruim. São incapazes de fazer a pergunta: mas porque tal coisa me causa simpatia ou antipatia? E o bêbado vai caminhando, escutando Pe. Fábio de Melo e lendo Augusto Cury, projetando um deus da sua simpatia, dormindo no conforto das próprias suposições e vendo com maus olhos qualquer um que ouse definir bem as coisas, separando a luz das trevas. 

Nós vivemos num tempo humanista. Os maiores valores são aqueles que promovem o bem estar. Estar em paz com Deus virou sinônimo de estar tranquilo e agradável. Misteriosamente, se crê que Deus obedece real e servilmente os movimentos inconstantes da alma. Oh que sacro e inconcusso vínculo este da alma com Deus que a permite reconhecer imediatamente em si a atual disposição divina para consigo.. E como o sabe? O sabe pela sensibilidade.. está a se sentir bem, foi à Missa e se sentiu tocada... que maior garantia de que Deus a observa do alto com um sorriso largo no rosto e quase que se segura para não dizer-lhe: "eis o meu filho bem amado..."?

Religião serve para quê? "Ora, é para promover o bem estar!", dizem.. C.S. Lewis diz que uma garrafa de cachaça cumpriria melhor esse papel. Não à toa ela tem se convertido num novo ídolo. Mas, se é o bem estar o valor supremo, então vamos fazer uma religião à nossa imagem e semelhança, à altura do homem; importa que seja criação nossa, um novo bezerro de ouro, e o chamaremos de Deus, ou de Jesus, ou do que quer que seja. Apenas não aceitaremos que alguém de fora nos ensine; não aceitaremos aprender; não aceitaremos que as coisas já sejam de antemão... Não aceitaremos que alguma pretensa deidade venha nos dizer "Eu sou", porque, na verdade, "nós é que somos". Partimos do pressuposto de que, desde sempre, nós conhecemos a natureza deste negócio e ele é assim como dizemos que é. Se alguém não se sente bem, a gente adapta.. Toca aquela música lá.. põe essa ênfase aqui.. diz aquela frasesinha tola e clichê que provoca arrepios.. diz que ele vai ser acolhido no céu de todo jeito... Penitência? Mortificação? Ora, deixemos de medievalidades.. Naqueles tempos obscuros, o povo aceitava uma religião pretensamente ensinada pelo próprio Deus. Hoje, em pleno século XXI, a gente sabe que não é bem assim. Tudo é simbólico e, em última instância, somos nós que interpretamos os símbolos. 

Já não se observa mais que a verdade existe e é objetiva. Não se observa mais que o bem existe e é objetivo. Tudo pode ser distorcido, puxado de um lado, estendido de outro, segundo a divindade do nosso próprio conforto. Um Deus numa cruz? Que coisa medonha! Tira daí.. Põe a cruz vazia, ou então, põe Ele sem a cruz... Cruz pra quê? Importa que a gente se ame...

E o amor fica raso... e ninguém sabe exatamente o que é o amor.. E as pessoas acreditam que amar é dissimular, ter respeitos humanos, onde a regra suprema é não incomodar o outro. Tornam-se cúmplices silenciosos de crimes e pecados mútuos, e se sorriem, e se vão empurrando e crendo que, pelo fato de não haver atrito, estão a atingir o sumo grau da caridade.

Ai, Deus.. Quem ensinou o homem a ser tão tolo? Nada disso é mística. Nada disso é caridade. Nada disso é espiritualidade. Nada disso é cristianismo... Não vai nem perto. Não avista nem de longe.

Em qualquer lugar em que, na terra, houver alguém confortável, pode-se acreditar que o cristianismo ali não foi aceito. Como dizia Gustavo Corção, "é terrível a seriedade do cristianismo". 

O humanismo é tolo, é fragmentário, é falso, é satânico: "sereis como deuses". O homem só encontra a sua dignidade quando se abre à severa objetividade daquele Outro. Enquanto não O aceita tal qual é, prosseguirá na sua brincadeira medíocre de se auto-projetar, só mais um jeito confortável de acreditar ser, ele mesmo, seu próprio deus. A serpente do Éden é a verdadeira rainha deste mundo... e um dos seus maiores divertimentos é compor discursos pseudo-católicos. Mas como dizia Nosso Senhor: "quem tiver olhos, que veja!", pois eu não vos fiz cegos. 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A Insinceridade com Deus é uma Blasfêmia


A verdadeira razão por que tão poucos acreditam em Deus é que cessaram de crer que um Deus pode amá-los. Mas o seu desespero é, talvez, mais respeitável do que a insinceridade de quantos julgam poder burlar a Deus, para que Ele os ame pelo que não são. Essa forma de dobrez é bem comum entre os que se dizem "crentes", e se apegam conscientemente à esperança de um Deus aplacado pela oração, que suporta o seu egoísmo e insinceridade, e os ajudará a realizar seus fins interesseiros. A adoração que prestam vale-lhes pouco, e não honra a Deus. Não se limitam a considerá-lo como um rival em potência (e, por conseguinte, se põem em pé de igualdade com Ele), mas ainda O pensam bastante vil para fazer com eles um arranjo clandestino, o que é uma grande blasfêmia.

Thomas Merton, Homem Algum é Uma Ilha.

sábado, 7 de abril de 2012

Amor, liberdade, verdade e a "vontade de poder"


Diz um dos meus professores que Nietzsche é um filósofo pra adolescente, pois ele só sabe falar mal de tudo. Embora eu concorde no geral, há, no entanto, umas sacadas dele que são muito corretas. Não o conheço a fundo. Li pouca coisa dele - aliás, li pouco de tudo o que li, sem falsa modéstia -, mas tem uns pontos em que ele realmente acerta.

Problematizando, por exemplo, sobre o que seja a moral e discursando sobre como este conceito tenha se formado, ele diz que, em geral, ela é tão somente um meio de dominação, isto é, um modo de expressão da tal "vontade de poder". 

Bom. Dizer que a moral seja só isso é, de fato, simplório. Porém, embora a moral seja algo real e fundamental, ela bem pode ser instrumentalizada para este fim. E é fácil constatar isso. Um amigo que é generoso com outro apenas para provocar neste outro um certo senso do dever para com ele; uma mãe que enche o filho de mimos e que, sob a aparência de afeto e doação, apenas pratica um seu modo muito particular de dominação  sobre o pequeno e, às vezes, de mera ostentação. Um namorado que, sob a capa de uma certa fragilidade, chantageia a namorada para que, presa e constrangida, ela faça o que ele pretende, etc. Isto, infelizmente, é muito comum por causa do nosso egoísmo. E este tipo de "tráfico com a alma alheia", para usar uma expressão do Thomas Merton, é algo realmente pavoroso, não apenas pela sua natureza perversa, mas ainda porque, para conseguir seu intento, se transveste do que há de mais puro, que é o amor.

O legítimo amor somente pode respirar num ambiente onde existam duas coisas essenciais: a verdade e a liberdade. Quem usa o amor para prender o outro está sendo falso e, logo, está fazendo algo a que se pode chamar de qualquer coisa, menos de amor. Todo amor, ainda que exista mesclado com o egoísmo, não pode florescer se não se cultiva a verdade e a liberdade, e terminará morrendo sob o jugo da auto-adoração do indivíduo; sim, porque tal coisa é, por força, uma mentira e para para manter semelhante atitude, o ego do próprio sujeito tem de ser visto como uma divindade no altar da qual ele deverá sacrificar a liberdade da outra pessoa e a verdade do amor entre ambos.

Existem os que fazem isto conscientemente; há outros que o fazem num misto de consciência e inconsciência: sabem, lá no fundo, que estão apelando mas, ao mesmo tempo, olham para si próprios e vêem qualquer coisa de correto e sincero; e há, ainda, os que o fazem inconscientemente. Nos três, a verdade deixa de ter qualquer valia, pois a posse do outro parece-lhes algo tão essencial e fundamental que pouco importa que ele não seja uma extensão sua e que seja dotado de uma vida própria e tenha, portanto, direitos particulares. Aos seus olhos, todos estes direitos e vontades alheias só deverão ser considerados quando a sua posse estiver garantida. Aí, então, haverá tempo para ser sincero e pensar numa certa liberdade condicional deste outro.

O amor, porém, é algo muito diferente.  Sóbrio, doado e desprendido de si, ele respeita ao máximo a outra parte, embora o respeite sempre dentro do campo mesmo da verdade ao qual todos - inclusive o outro - deverão se submeter e no qual todos devem viver. Ceder à mentira para agradar ao outro não é próprio do amor. Esta preocupação exagerada em fazer-lhes os caprichos demonstra, de novo, uma instrumentalização do afeto a fim de que o outro lhe esteja garantido. É como um caçador que desconsidera o valor do outro em si; apenas lhe atribui valor quando o tem consigo.

E tudo isto, muito próprio das relações humanas, pode ser feito com Deus. Só que aí o buraco é mais embaixo. Brincar de amor com Deus significa quebrar a cara. As rasteiras que, então, o sujeito irá levar são monumentais. Nenhum filme de kung fu, dos mais mentirosos, será capaz de reproduzir as cenas. E, no entanto, um dos tais riscos é que o sujeito aprenda a amar, de fato, pois Deus só deseja o nosso bem. É como diz a música:


"O teu amor cegou o olhar perdido da maldade; paralisou os passos largos da mentira
Quando a minha miséria se encontrou com a terra santa do teu coração, 
assim como a morte e a cruz, vida brotou"

Todos nós, sem exceção, quando começamos a amar a Deus, o fazemos de modo muito impuro. Se não vemos impureza nos nossos atos e intenções, isto não significa que dela sejamos isentos. O nosso nível de auto-conhecimento é que é ainda muito modesto. Haverá de chegar o dia em que passaremos a maior parte do tempo envergonhados porque, de repente, Ele nos permitiu ver a baixeza da nossa vaidade e a vileza das nossas estratégias. Mas o único modo de purificar-nos é saber-nos ruins e mesquinhos. E isto só o fazemos, de fato, na luz de Deus. É por este relacionamento que as nossas outras relações, com quem quer que seja, podem passar a um maior nível de pureza e gratuidade. Nesta altura, Nietzsche já estará superado há muito tempo.

Que Deus nos conceda amar.. O amor é a dilatação da bondade. E a bondade, como dizia o Chesterton, é o que há de mais importante no mundo. E como diz Nosso Senhor: "Só Deus é bom".

sábado, 17 de março de 2012

Agora vemos confusamente; mas, então, o que é sombra dará lugar à luz e o erro de dissipará diante da verdade


Tudo o que for confuso, tudo o que estiver nublado, obscuro; tudo o que sobreviver sob falsas aparências, todo equívoco e engano, toda afetação, hipocrisia, dissimulação e duplicidade, toda calúnia e difamação, toda mentira, todo disfarce, toda suposição errada, tudo isso tem os seus dias contados.

"Naquele dia não me perguntareis mais coisa alguma"
"Naquele dia, o que se falou aos ouvidos será gritado em cima dos telhados"
"Nada há de oculto que não venha, naquele dia, a ser descoberto".

Os mentirosos serão surpreendidos; deles somente se ouvirá o grito desesperado voltado às montanhas: "caiam sobre nós e nos escondam da ira da Verdade".

Que assim seja. E que seja com força, a força infinita do braço divino e de sua santa e justíssima indignação.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O Sair de si mesmo e alguns paralelos da Escritura


Sigamos com a nossa exposição sobre o modo de lidar com as neuroses.

Compreendamos, primeiramente, que o desejo e o medo têm uma íntima relação, sendo este último basicamente um desejo de que algo não aconteça. Quando, por exemplo, nós temos medo de ir para o inferno - e realmente devemos temer isso -, o que na verdade estamos fazendo é desejando não ir ao inferno. Pois bem. 

O desejo é basicamente uma tensão da alma em direção a algo. Logo, o medo seria uma tensão da alma em direção oposta a algo. Se assim é, uma pessoa que se põe a desejar inúmeras coisas, como a temê-las também, viverá com a alma tensa. A tranquilidade, então, se faria quando tanto os desejos quanto os medos cessassem. Esta tranquilidade é fundamental para que o sujeito possa ter uma visão clara e objetiva das coisas. Diz Deus por meio de um salmista: "Cessai, e vede que eu sou Deus". Por "Cessai", Ele está dizendo: "Pare com essa tua busca desenfreada, com essa tua agitação, com esse drama das TUAS coisas e dos TEUS interesses.. Parai.. cessai.. e vede que sou Deus.". É interessante notar ainda outro episódio. 

Certa vez, Jesus estava com os discípulos no alto mar. Acontece que, de um lado, o mar estava revolto e ameaçava pela sua violência; do outro lado, Jesus dormia, rsrs... Com este fato, Jesus parece fazer uma troça das nossas agitações, do nosso esperneamento. Os apóstolos, porém, se viam na iminência da morte. Então, acordaram a Jesus, que, criticando-os pela falta de Fé, olhou, em seguida, para a tempestade e o furor das águas, e simplesmente disse: "silêncio..."

Quando as coisas se acalmaram, os apóstolos então puderam colocar a sua atenção em Jesus e fazer uma pergunta que os levaria a uma resposta importantíssima: "Quem é este que até o vento e o mar obedecem?" Eles chegariam, a partir desta questão, àquilo que concluiu o beato Tito de Brandsma: "tudo é bom perto de ti". Esta quietude que se estabeleceu é importante para que as coisas sejam bem vistas, e é este o estado de alma que Jesus pretendia que os seus discípulos assumissem, quando lhes disse: "Nada temam; creiam somente."

Sta Teresinha, discípula eminente do divino mestre, aprendeu a lição de modo perfeito, e por isso escreveu, fazendo uma menção com o episódio que relatamos acima: 

"Viver de amor quando Jesus dormita: 
eis o repouso entre os escarcéus. 
Jesus, não temas que eu te acorde aflita; 
espero em paz o alvorecer dos céus." 

A analogia com o aspecto neurótico é, aqui, por demais conveniente, pois, embora fosse evidente aos Apóstolos o fato de que estavam ameaçados, é claro que não havia, na verdade, nenhuma possibilidade de morrerem ou se machucarem, pois Jesus estava com eles. Só o notarão, porém, quando estabelecida a calmaria. 

A diferença aqui é que a tranquilidade é estabelecida pelo próprio Deus. Com relação à neurose, é óbvio que Nosso Senhor está a nos ajudar e quer, muito mais do que nós mesmos, que saiamos dessas armadilhas; porém, o passo decisivo é nosso.

Abordemos ainda outra passagem. Há uma ocasião em que Pedro se comporta basicamente como neurótico. De novo, eles estão num barco, e já são três horas da madrugada. Dessa vez, o mar não está agitado. Porém, Jesus aparece ao longe andando sobre as águas. A primeira reação dos Apóstolos é ficarem com medo e pensarem em fantasmas. Jesus, porém, lhes esclarece que era Ele. Escutando isso, Pedro toma uma resolução interessante: "Se és Tu, manda que eu vá ter contigo sobre as águas", ao que Jesus responde: "vem". Esta atitude de Pedro é importantíssima; porém, mal começa a dar passos, ele volta a olhar para as supostas evidências de perigo e começa a preocupar-se - é tipo o outro que sai da redoma pela primeira vez. Pedro desvia os seus olhos da Verdade e volta a acreditar somente nas próprias suposições, o que faz com que comece a afundar.

O que Jesus propõe, sempre e em todo o tempo, é que o sujeito abandone o limite estreito dos seus interesses e preocupações, isto é, dos seus desejos e medos, e se lance acima disso, abandonando-se a si mesmo. Se Pedro tivesse feito isto, não teria afundado.

Interessante também é o caso do rapaz que vai ter com Jesus a fim de saber o que deve fazer para ser salvo. Jesus lhe indica a prática dos mandamentos. Quando alguém obedece regras, isto significa que ele reconhece uma autoridade externa a si mesmo; já não vive apenas para o próprio umbigo. Isto é fundamental. No entanto, o rapaz responde que faz isto desde a juventude. Jesus então, olha-o, ama-o - isto é dito pelo Evangelista - e, por fim, diz: "se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres; depois, vem e segue-me." Obviamente, o que Jesus oferece, agora, é uma radicalização do "viver para Outro" que o rapaz já tinha iniciado na juventude. O problema é que, no caso do jovem, a prática dos mandamentos tinha sido adotada porque isto não lhe exigia ultrapassar a si mesmo. Era-lhe confortável, natural e ele não se sentia pressionado a, na prática, abandonar a si mesmo. Os mandamentos funcionavam como uma legitimação dele próprio, do seu modo de vida; como um espelho que lhe confirmava a própria beleza; como uma garantia de que ele valia alguma coisa. Porém, quando Jesus lhe pede segui-Lo na nudez do espírito, - e só o pediu porque o amou muito, reforcemos - o sujeito sentiu-se ameaçado e, simplesmente, hesitando deixar-se a si mesmo, volta para casa "triste, porque tinha muitos bens". Aqui está um segredo profundo: os muitos bens significam muitos cuidados e estes se inserem naquela estrutura de que falávamos no início: a satisfação de muitos desejos e a verificação constante de possíveis ameaças. A princípio, parece-nos que a posse de muitos bens seria causa de uma grande alegria. Este sujeito, porém, nos confirma a fragilidade de nossas suposições. A alegria, a liberdade parecem estar justamente no abandono de si mesmo em função de um Outro. Ávido, assim, de tantos bens, o sujeito não possui a clareza suficiente para enxergar as coisas de modo profundo. É por isto que S. Francisco de Assis exigia dos seus discípulos uma pobreza completa.

O problema aqui não está estritamente nos bens materiais. S. João da Cruz explicando esse tema da pobreza, diz mais ou menos o que segue: "os bens materiais, por serem exteriores à alma, nada podem fazer, por si mesmos, a ela. O que a enfeia e obscurece é o desejo e o apego que a eles ela investe." O apego, aqui, poderia ser entendido como um medo de deixá-las. Como vimos, este tipo de atitude aprisiona e faz que a pessoa permaneça limitada nos seus próprios interesses, sem abrir-se à Verdade maior.

Jesus, ao contrário, propõe um caminho de liberdade: "Negue-se a si mesmo e siga-me".

É preciso, portanto, transcender o limite dos próprios desejos e medos, e isto se faz por meio do abandono. Quem quer que viva assim, de modo correto, experimentará que sua alma retoma uma saúde que ela nem suspeitava que tinha. E se a pessoa se decide trilhar, de fato, a via da santidade, notará que sua vida vai rendendo, em satisfação, como que cem por um.

Se a neurose se caracteriza por uma proteção pessoal contra supostas ameaças, para desfazê-la, o sujeito deverá munir-se de uma absoluta confiança em algo fora de si. Porém, esta confiança não pode surgir do nada. É preciso adquiri-la e, para tal, o indivíduo terá de iniciar a prática do abandono, isto é, de sair de si e fazê-lo com gratuidade, sem esperar respostas imediatas. Apenas fazê-lo.

Quando uma pessoa vive somente de desejos e medos, ela faz com que sua alma esteja sempre tensa, como já dissemos, e tende a adquirir modos grosseiros, perdendo a sua delicadeza. Isto acontece porque, como ela pretende ser a garantia de seu próprio bem, toda ação da qual for sujeita se ordenará ou para agarrar (pegar por si mesmo) algo que considere um bem (que lhe possa causar prazer, o que é raiz do pecado), ou para afastar violentamente o que considere ser um mal (o que lhe cause desprazer), atitude que é a raiz da nossa dificuldade de aderir à virtude, à mortificação, aos sacrifícios, etc.

Agarrar e empurrar: eis a vida do neurótico. Ambas se caracterizam por movimentos bruscos. Como uma pessoa assim poderá amar profundamente, sendo o amor, basicamente, doação de si mesmo? Como poderá ter uma religiosidade profunda se esta supõe, sempre, amor a Deus e, portanto, abandono? Não é que lhe seja impossível amar ou ser religiosa; é que, para amar profundamente e ter uma religiosidade autêntica, ela terá de contrariar este seu hábito soberbo. A vivência de um amor autêntico, sobretudo com Deus, pode sim ensinar-lhe a dar este salto sobre si mesmo, ao ponto de oferecer-se inteiramente a um outro. A constituição de uma família, neste sentido, também é fundamental. Diz-se, por aí, que quando uma pessoa casa, ela muda pra melhor - em alguns casos sim, rs. E isto se dá porque, a partir do momento em que o sujeito deixa de pensar só em si, só na própria segurança, só no próprio gozo, e nota que os outros são realmente outros, e não objetos para aquisição de prazer, ele como que se reencontra consigo mesmo, e descobre o que significa ser um homem - um humano.

Sobre isso, escreve Thomas Merton: "fazer o bem e renunciar ao mal não é, ainda, a santidade. É tão somente o tornar-se homem. Um animal não pode ser um santo".

Ainda sobre estes modos bruscos do neurótico que se pretende a garantia de si mesmo, escreve S. João da Cruz que o santo deve passar por um longo processo de educação: "para que a delicadeza encontre a Delicadeza". Para encontrar-se com Nosso Senhor é preciso aprender a amar como Ele ama. É o que mais ou menos dizia Plotino: "para que nosso olho pudesse contemplar perfeitamente o sol, teria de tornar-se algo semelhante a ele. Assim, para contemplarmos a beleza, é forçoso que a nossa alma se torne, também, beleza".

Adão quis agarrar o fruto proibido e quis agarrar a condição de ser igual a Deus. É basicamente esta atitude que reside no íntimo de cada alma humana e que é causa de toda rebelião contra Deus, isto é, contra a verdade; é a raiz de toda auto-suficiência, de toda recusa da gratuidade, de toda recusa da confiança num Outro e, portanto, de todo pecado e de todo desamor. O que é o pecado senão um agarrar, de modo ilegítimo e grosseiro, um prazer? O que é o pecado senão uma satisfação bruta do próprio egoísmo? E é justamente este egoísmo que, rebelando-se contra a verdade, confecciona os medos imaginários.

Sobre isto, escreve o Apóstolo S. João: "onde há medo, o amor não é perfeito". Pensem nisso... Abandonem a si mesmos; arrisquem-se. Diz Jesus aos que ficam temerosos: "os pardais não ajuntam em celeiros; no entanto, embora sejam tantos, Deus os alimenta. Os lírios não tecem nem fiam; no entanto, embora sejam tantos e de tão curta duração, Deus os veste de modo mais belo do que qualquer rei jamais conseguiu se enfeitar. Acordem: vocês valem mais que pássaros; vocês valem mais que lírios..."

Por fim, Nosso Senhor, embora seja Deus, está tão sedento do nosso bem que Ele praticamente apela: "Se não credes pelas minhas palavras, crede pelo menos ao verdes as obras que eu faço..." e ainda "a obra de meu Pai é que vocês creiam nAquele que Ele enviou".

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Neste post, não abordei exatamente o que prometi no último, mas penso que estes paralelos com ensinamentos de Nosso Senhor sejam luminosos para nos fazer entender a natureza de tudo isto, conforme havia dito o Apóstolo João: "Ele é a Luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem".

Pax.

Fábio

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Lidando com as Neuroses - Um aventurar-se e o contato com os primeiros lampejos de luz


Continuemos, então, a nossa exposição sobre a natureza das neuroses. Dizíamos, no último artigo a respeito, que ela se configura como um medo exagerado de que algo nos cause desprazer. Ela surge por vezes quando, intentando alcançar um certo ideal, nos tornamos, a partir daí, excessivamente temerosos com o que pode dar errado, compondo, para tal, inúmeros fantasmas e nos assustando com eles. Notem que o fato de criar estes fantasmas se deve, não a um prazer de se passar a perna em si mesmo, senão ao contrário, a uma busca exagerada e frenética de isentar-se de toda e qualquer ameaça. A pessoa age como se estivesse num ninho, onde respira com dificuldades, e a todo momento fica checando se algum inimigo conseguiu se infiltrar na sua fortaleza. Essa questão da verificação é bastante característica e é o que origina certos hábitos repetitivos, certos rituais obsessivos. 

Esse indivíduo, enquanto estiver sendo uma marionete de seus desejos e medos, se verá coibido e privado de exercer seu potencial. É irônico isso: seus medos se levantam numa tentativa de garantir a realização do desejo da pessoa e, no entanto, são eles que sacaneiam tudo. Ela se coloca sob uma redoma que, ao mesmo tempo que tenta cumprir o objetivo de lhe proteger, limita também o seu passo e, obviamente, a sua visão. Enquanto não anda, a sua perspectiva tende a ser sempre a mesma. Assim, parado, a única coisa boa que pode se motivar a fazer é reunir coragem para sair de sua pequena prisão. Agora, notem essa relação: a redoma existe para ele como garantia de segurança e de vida. Sair dela é como expor-se, como desproteger-se; não poderia fazê-lo sem auto-violência. Quando, porém, se decide a arriscar-se, é como se uma luz incidisse sobre este sujeito e o seu coração retomasse um pouco de vida. No ato de abandonar sua casca, ele passa a praticar o preceito evangélico: "quem perder a sua vida, vai ganhá-la" e ainda "o prêmio é dado aos violentos". Eis, portanto, o caminho por onde o sujeito deve trilhar. Essa retomada da vida é um negócio por demais claro. Não é preciso fazer nenhum esforço para, se alcançar este estágio, a pessoa sentir a alegria de uma criança diante de um presente de aniversário. No entanto, a sua soberba é que é lasca: mal sinta a alegria, lá está a pessoa fazendo todo tipo de estratégia para se apossar daquilo, rsrs.. Nós somos uma porcaria mesmo. kkk Continuemos.

Dissemos que estas atitudes covardes se tornam um hábito. O neurótico deverá, portanto, habituar-se a fazer disso - o abandono de si - o seu agir natural, o que não quer dizer que deva ser precipitado. De início, isto pode acontecer, pela falta de tato. Mas é possível perceber, uma vez livre da prisão, a diferença entre as situações que trazem um padrão potencialmente neurótico das outras com as quais o sujeito pode lidar com neutralidade. O objetivo é fazer com que todas as situações sejam tratadas dessa segunda forma.

Porém, retomemos esta questão. O sujeito que renuncia o passo, temeroso de se machucar com qualquer coisa, terá obviamente a sua interpretação das coisas muito limitada. Como tende a descontextualizar o objeto supostamente ameaçador e a considerá-lo com lente de aumento, é óbvio que não estará em condições de, permanecendo do mesmo jeito, elaborar uma estratégia objetiva. Na verdade, o que poderá e deverá fazer é perceber que a sua neurose sempre se dá por meio de suposição, verificação e previsão. Se tal é o caso, o sujeito deve se convencer a, uma vez reconhecido o caráter padrão de seus medos, assumir um absoluto ceticismo quanto a eles. Se toda vez que a pessoa supõe, essa suposição é viciada, então duvide desse negócio, oras. Ainda que seus fantasmas lhe pareçam evidentes, deverá aprender, não sem boas doses de angústias no início, a ficar indiferente e duvidar sempre de si mesmo.

E aqui convém entender o seguinte: como o neurótico está acostumado a fazer todo tipo de previsão com base no que sente no momento atual, supondo que aquela disposição neurótica tende a permanecer, ele não está muito habituado a dar passos sucessivos se não vê, logo nos primeiros, algum resultado. Portanto, se o sujeito por acaso resolve-se a dar uma saída da sua redoma e, ao fazê-lo, não nota de imediato que a sua angústia se foi, tenderá a voltar. Só que as coisas não funcionam assim. Como a neurose causa angústia e cansaço, estes tendem a permanecer durante um tempo, mesmo depois que a pessoa cessou de alimentá-los. É como um rapaz que nunca tenha saído na rua, com medo do barulho dos carros. Na primeira vez que se aventurar, isto não significa que desde o seu primeiro contato com os automóveis ele estará totalmente tranquilo. Este estado de calma só virá com um certo tempo, seja pela constatação de que, na verdade, não há perigo algum, seja porque o sujeito deixou de imaginar situações assustadoras infundadas.

A neurose, portanto, tem essa "inércia", isto é, tende a manter a angústia durante um certo tempo, mesmo quando se optou por não mais ceder às suas ludibriações. No entanto, se o sujeito persevera, antes expondo-se do que escondendo-se, não tardará por sentir uma estranha espécie de paz interior - aqui é que tá a festa do negócio - e o seu ambiente exterior parecerá, de repente, tomado de uma luz mais viva. De repente, o mundo parece um pouco mais amplo e mais belo e se insinua, no fundo da sua alma, um tipo de despreocupação que já era esquecida e que, se perseverar - e há uma certa esperança - será suficiente para que este sujeito, depois de ter sofrido tanto, possa viver com tranquilidade e felicidade. Mal sabe o sujeito que isto é só o início de uma liberdade muito maior. No entanto, é também só o início dos seus combates; atá agora não tinha lutado, mas tão somente dançado a música da própria soberba. Como já o dissemos, é preciso adquirir esse hábito. E muitas vezes a pessoa tenderá a cair, de novo, na própria armadilha.

Porém, se alcançar este primeiro estado de liberdade, este encontro com um raiozinho de sol, a primeira coisa que o neurótico fará é garantir-se desesperadamente de não esquecer o método. E aí, ele fica obcecado pelo caminho que o levou até lá, e, de novo, cai na própria armadilha, porque se fecha, novamente, em si mesmo. O método se torna outra redoma e pode se insinuar na sua alma, posteriormente, o medo de que não seja possível, em algum momento, praticar o que aprendeu. A atitude dele se torna muito semelhante ao que era antes de arriscar-se. Está, de novo, fazendo planos para se defender, e enquanto estiver obcecado pelo método terá, também, os olhos constantemente voltado para os seus medos. 

A este respeito, há um preceito muito interessante no zen que diz: "aprenda o método; esqueça o método". É que o neurótico encontrou uma outra segurança e se aferrou como um náufrago que descobriu qualquer suporte que o impedisse de afundar. Porém, daí a voltar à atitude fundamental de soberba é um passo. Terá de aprender, de novo, a abandonar-se. Por isto que é importante, uma vez aprendido e assimilado o método, esquecê-lo, pois a sua constante lembrança implica, também, em manter distintas as ameaças que o próprio indivíduo criara. Não é por aí.

Outra coisa: dissemos que a neurose geralmente se fixa em situações particulares. No entanto, se o indivíduo arma-se de coragem e a enfrenta - ainda não dissemos claramente o modo de enfrentá-la - e resiste também ao "tempo de inércia", a defesa exagerada se desvincula daquela situação que, de repente, já não parece tão ameaçadora e o sujeito se surpreende em ver que está a meio que banalizar os seus antigos medos. Talvez lhe apareça, lá no fundo da alma, um certo medo de voltar a ter medo, e isto o leva a afastar-se daqueles assuntos mesmo assim e, em geral, ele não está ainda pronto para troçar disso tudo. Ele respeita seus medos, quase como se eles fossem conscientes e pudessem se vingar de qualquer atrevimento. Então, lhe é suficiente deixá-los quietos. Não é bom, a seu ver, desafiá-los nem tratar com eles. No fundo de tudo isto, ainda há a estrutura fundamental de garantir-se proteção e isentar-se de qualquer perigo. Ou seja, o sujeito ainda é neurótico; ele apenas começou o processo de libertar-se desses laços. Melhor seria se os partisse todos de uma vez, mas não está ainda capacitado para tal. Todavia, chegar aqui é, já, ver distintamente uma luz clara no fim do túnel. Agora, é só continuar e fazer-se violência de, como diz a Escritura, não desviar-se para a esquerda ou para a direita. Não há que ficar, porém, obcecado com o método, como dissemos. Pode alegrar-se, naturalmente. Deve até fazer isso; na verdade, ele não está ainda para desforrar, mas já pode divertir-se porque, abandonando a lavagem dos seus medos, embora ainda traga sujeira na boca e nas mãos, esse pobrezinho como que tornou a viver.

Uma vez que a neurose se desvincula de uma situação particular, ela não some simplesmente. Fica meio que em suspensão e tenderá a vincular-se a outra situação - podendo ocorrer de voltar à mesma de antes, se o sujeito se emaranha de novo. Aqui há que se lutar utilizando duas coisas: a inteligência e a coragem. Aprenda a se conhecer e, quando perceber que está a descer a ladeira dos seus medos, trave o passo e se esforce para voltar à indiferença com relação àquilo. Lembre-se que todo o processo neurótico inicia-se com suposições. Não desaprenda a duvidar de si mesmo. Nós somos muito bobinhos e basta um lampejo de luz para nos deixar desarmados. A atitude fundamental que o neurótico deve assumir é o oposto de sua soberba, ou seja, uma radical pobreza espiritual. Lembrem-se de Adão que, enquanto era pobre e aceitava que o Paraíso lhe fosse dado por Outro, podia nele permanecer. Porém, a partir do momento que ele quis, por si mesmo, ser a garantia de seus bens, foi expulso, porque se ensoberbeceu. É a mesmíssima coisa aqui.

Se a neurose assume outra situação, embora haja uma distinção natural por ter mudado de "hospedeiro", o padrão de fundo é o mesmo. Se ela foi vencida no seu último disfarce, tenderá a aparecer agora com um pouco menos de força. E, se vencida de novo, tenderá a assumir outras formas, cada vez mais fracas. Isto é um negócio que só dá pra ter a noção exata quando se faz a experiência. Parece-me, porém, que há muitas pessoas que sequer chegam a essa vitória sobre um só de seus medos.

No próximo artigo sobre o tema, tratarei destes medos comparando-os a crianças mimadas, descreverei o modo prático de contrariar esses chatos e abordarei um negócio chamado "teoria da vinculação" que, ao menos para mim, é fundamental para saber passar a perna nesses danados, rsrs..

Pax

Fábio.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Soberba - Origem e Traços Gerais


Como sabemos, o mal não existe enquanto substância. Já o provara Sto Agostinho mostrando que o mal é sempre ausência; ausência de que? De ser ou de ordem. Um buraco não existe por si mesmo; ao contrário, ele precisa se vincular a um ser determinado. Assim, falamos de buraco no chão, na parede, no papel, etc. Neste exemplo, observamos a falta de ser. Ninguém, porém, poderia pensar num buraco em si, sem qualquer ser no qual se anexasse. Da mesma forma, se nos nascessem orelhas nos braços, isto seria um mal por ser falta de ordem.

Portanto, a existência do mal é absolutamente condicionada à pré-existência do bem. Isto significa que a ocorrência do mal denuncia forçosamente o predomínio do bem. Isto é interessantíssimo. Jamais se poderá dizer que o mal dominou o mundo absolutamente - podemos falar algo semelhante do mal moral -, pois, toda vez que ele acontece, dá testemunho do bem. Enquanto houver mal no mundo é porque há mundo, isto é, permanece o bem da existência do mundo.

Portanto, o mal não pode criar substâncias. Mesmo o demônio substancialmente é bom. Sua inteligência e vontade férrea são, naturalmente, bens. Porém, ele usa estes seus dotes para o mal; eis, aí, o mal moral. A contradição de Lúcifer é que, se alguém por acaso se admira da sua inteligência e da maestria dos seus planos para perder os homens, satisfazendo, portanto, ao seu orgulho, esta mesma pessoa rende, no mesmo ato, uma profunda admiração a Deus, o seu Criador. Eis o drama do demônio: detestar a Deus mas contemplar em si mesmo a perfeição que fala continuamente dAquele que o fez.

O demônio é chamado de Pai da Mentira. Naturalmente, se Deus é a Verdade, e o demônio se opõe a Deus, é lógico que só o poderia fazer aderindo à mentira. Daí que, desde o início dos tempos, o demônio trabalha com imprecisões, suposições falsas, versões torcidas, teorias falaciosas. Lembremos que os anjos - e Lúcifer é um anjo - não têm corpos. Como, então, se pode entender a célebre batalha que ocorreu no Céu e que resultou na queda de Lúcifer e sua expulsão do Paraíso? O combate, obviamente, não se podendo dar fisicamente, se empreendeu no campo das idéias, pois os anjos são substâncias espirituais simples, dotadas de inteligência e vontade. Dar uma estudada nas relações entre estas duas potências, pode ajudar a entender tudo isso um pouco melhor.

A oposição de Lúcifer, o que o levou a mentir e torcer a verdade, deu-se por causa de sua soberba (Superbia), pela qual se indignou contra a ordem das coisas. Veremos que é esta mesma soberba o que se insere na alma humana quando esta sofre a Queda. Reparemos esta relação entre soberba e mentira.

Naturalmente, Deus é o centro da criação, como um Sol ao redor do qual devem gravitar todos os demais seres. A ordem do todo depende disso. Quando, porém, se exclui o sol do centro, provoca-se uma revolução contra a harmonia, donde resulta, logicamente, a desarmonia, a desordem. Esta desordem perpetuada poderia muito bem ser chamada de inferno, isto é, uma eterna rebelião contra Deus.

O que Lúcifer faz é pretender igualar-se a Deus. Não o podendo - obviamente - ele sugere esta mesma vontade no homem. Este passa a querer ser igual a Deus sem Deus, o que o insere numa atitude de oposição à ordem e ao bem. Algumas consequências disso são o que aqui chamaremos neurose, que é uma facilidade em torcer o sentido das coisas, em fazer suposições erradas, em se proteger freneticamente de ameaças inexistentes.

Quando o homem se torna soberbo, isto o afasta do amor, pois amor e soberba são antagônicos. Quanto mais há amor numa alma, menos há soberba e, logo, há mais humildade. Quanto, porém, mais soberba há, menos amor e menos humildade se tem. A soberba é a mãe de todos os pecados humanos, todos eles consistindo numa revolta contra Deus, numa preferência das criaturas em detrimento da divindade, numa negação prática do amor. No entanto, todos os pecados, considerados em si, podem ser entendidos como uma fuga de Deus. Já a soberba, diferentemente, não foge, mas O enfrenta. Daí a Escritura dizer que Deus resiste ao soberbo e se revela ao humilde.

Se desgraçadamente este mal, a soberba, se inseriu na alma humana, já se vê que ela - a alma - passará a encontrar em si uma tendência ao erro, ao egoísmo, à mentira, à negação do bem, e isso tanto mais quanto maior for a sua soberba. Falaremos, em seguida, da dinâmica própria desta mãe dos vícios.

domingo, 18 de setembro de 2011

Que Deus nos livre disso tudo

Tenho notado as coisas ao meu redor, e parece-me que o nível de impaciência e de maldade tem crescido bastante. Pessoas que simplesmente não se entram; um simples pigarro ou uma expressão corriqueira são suficientes para levantar a poeira da discórdia, reativar as más paixões, cegar o indivíduo contrapondo, à limpidez do seu olhar, a trave bruta e grossa do seu egoísmo que vê no outro alguém a ser destruído.

Olhando assim, de longe, dir-se-ia que isto é, por força, resultado de uma intervenção sombria. Mas não será isto uma mera suposição de quem vive o fogo da experiência ou, ainda, de quem não compreendeu de todo a baixeza da natureza humana? De fato, o egoísmo descobre mil meios de fazer adentrar, na existência de um indivíduo, algumas centelhas do inferno e, quando algo se nota, já se tem uma vida em labaredas. Que tosquice isso tudo! E nós, que um dia fomos chamados de deuses... 

No entanto, o mistério da iniquidade, não obstante ser ausência de bem, é bastante denso e real. Aquela sombra suspeita e fedida que vive a espreitar e, dizia o Apóstolo, a rugir procurando a quem devorar, existe e não nos quer bem. Dia a dia, torna-se mais evidente que, se Alguém não intervém de cima, pouco ou nada poderíamos fazer. "Como a ti se elevará o homem que criaste, se Tu não o levantares?", pergunta S. João da Cruz a Nosso Senhor. 

Porém, rendamos graças a Deus porque esta intervenção vertical existe, e é constante. É a Igreja que a dispensa aos pobres filhos de Adão. Acuda-nos, Senhor. Não deixeis que nenhum de nós escape de vossas santas mãos. Não deixeis a vossa obra inacabada. Dai aos teus servos, de novo, um coração puro e um espírito decidido. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Deus e o Homem


"Singular é o relacionamento Deus-Homem: 
o primeiro que não necessita complementar-se 
é origem de toda união; 
o segundo, ainda que de tudo carente, 
é a causa de toda recusa."

Hélio Drago Romano, A Gnose e a "Morte de Deus"

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Nós estávamos, em bom português nordestino, ferrados...


Nós, os humanos, fomos feitos.. Isto é fato! As coisas exigem um início. O nada, não sendo nada, tampouco pode vir a tornar-se alguma coisa. O nada sequer existe. E Deus fez tudo o que há. Fez-nos também e nos criou num estado de amizade com Ele, o que chamamos tecnicamente de Estado de Graça. No entanto, como sabemos, os primeiros humanos desobedeceram a Deus e contraíram pecado e, por este meio, entrou no mundo a morte, como diz S. Paulo.

Muita gente gosta de decrescer esta história, como se fosse conto infantil. Mas observemos algumas coisas pra entender bem o que que aconteceu, compreender as implicâncias desta desobediência e ver como estávamos em muito maus lençóis. 

Geralmente olhamos para Adão como se fosse alguém parecido conosco, só que lá no início. Acontece, porém, que a nossa experiência no mundo já é posterior àquela desobediência. Por causa disso, nós herdamos uma desordem na sensibilidade, o que nos inclina fortemente ao prazer egoísta, nem que para isso nós tenhamos de transigir certas regras. Porém, Adão não tinha essa inclinação.

Nós, os homens, possuímos uma hierarquia de potências que é a seguinte: abaixo, vai a sensibilidade. Esta se submete à vontade que se submete, por sua vez, à inteligência. Portanto, a sensibilidade, no homem original, não se voltaria para um objeto que a inteligência visse como mau e que a vontade, portanto, consideraria digna de ódio. Se perguntarmos a um drogado hoje, ele dirá que a droga é repugnante aos seus olhos e, no entanto, ele a quer. Desordem das potências. Mas isso é consequência daquela desobediência. Em Adão, porém, o ser era perfeitamente ordenado.

Isso é fundamental para que percebamos a gravidade do seu ato. Adão foi criado perfeito: inteligência profunda que atingia a verdade sem esforço; uma vontade capaz de amar com facilidade; uma sensibilidade que acrescentava à alegria da sua alma, também a do seu corpo, fazendo com que ele fosse uma harmônica unidade.

Porém, Deus tinha lhe proibido comer do fruto daquela tal arvorezinha. Daí, aparece o demônio na forma de uma serpente, e diz que Deus mentiu, e convence Eva a comer do fruto e dá-lo a Adão.

Lembremos que não havia propriamente tentação tal qual a entendemos hoje, como uma inclinação da sensibilidade para algo errado. Adão recebe aquela proposta da serpente e se decide, de modo frio, pela desobediência. Ora, para entendermos a gravidade de um pecado, convém considerar três coisas:

1- O conhecimento de que aquilo é errado;
2- A liberdade com que se realiza o tal ato;
3- A dignidade do ser que foi ofendido com o pecado.

Nos três casos, Adão se meteu numa enrascada, pois ele tinha pleno conhecimento de que o que fazia era errado. Como não havia uma inclinação da sensibilidade, Adão peca por fria resolução, num abuso da sua liberdade. Ele investe naquilo a vontade, iluminada pela sua inteligência. Por fim, o Ser ofendido possuía uma dignidade infinita, pois era Deus.

Este ato deliberado dos dois teve uma dupla consequência, semelhantemente a todo e qualquer pecado. A primeira consequência foi a culpa; esta destruiu a graça santificante que fazia Adão amigo de Deus, e isto lhe pôs num estado de morte na alma. A partir de agora, Adão, que fora criado para fruir Deus pela eternidade, se verá, por causa de seu pecado, totalmente impedido de cumprir o fim para o qual existia. Sua natureza viu-se frustrada. 

A segunda consequência é a pena; por esta, bagunçou-se aquela ordem e harmonia das potências. A sensibilidade se rebelou. A inteligência cegou-se e ficou rasteira e a vontade, feita para amar a Deus e, n'Ele, todas as coisas, uma vez que deixou de ser bem conduzida pela inteligência, passou a apegar-se a tudo quanto o intelecto, agora míope, lhe apresentava como bem. Enfraqueceu-se, ainda, o vínculo que unia alma e corpo e fazia com que aquela comunicasse a este os seus atributos, como a imortalidade, a incorruptibilidade, a leveza, etc. Agora, o homem conhecerá a morte, tanto física quanto espiritual, e experimentará a dor e toda sorte de suplícios.

Esses seres decaídos são os que gerarão a humanidade. Toda ela provirá deles e lhes herdará as penas do pecado. 

O homem estava em dívida com Deus. Este conhecimento permaneceu na alma humana, meio que de modo intuitivo, mesmo depois de muito tempo passado deste fato. Todas as civilizações e religiões antigas traziam a idéia de que Deus ou os deuses estavam irados por algum motivo. A única forma de lhes mitigar a ira era a partir dos sacrifícios. Mas, por que justamente um sacrifício?

Vejamos. Desnecessário é aqui remontar à etimologia do termo que, embora sugestiva, contribui menos para compreender, por ora, a importância deste ato. Importa, antes, entender em que consiste propriamente o sacrifício. O pecado original foi um pecado de soberba - Superbia - que é o mesmo que egoísmo. É uma preferência absoluta por si mesmo em detrimento de tudo mais. Este ato gera desordem porque faz que o homem se veja como o centro de tudo, quando, na verdade, ele não é. Deus é o centro. Portanto, a soberba, coerente com o seu prefixo Super, faz que o homem se pretenda Deus e caia numa idolatria de si. Lembremos que a proposta a Adão era justamente a de tornar-se semelhante a Deus e isto sem o auxílio de Deus; por conta própria. Adão restringe-se, limita-se a observar apenas a sua pequenez e perde aquele senso de grandeza legítima. Não à toa a sua inteligência fica rasteira, pois ela deixa de se elevar às coisas altas.

O sacrifício é, precisamente, outra coisa! É quando nós amamos tanto algo fora de nós que investimos, por este algo, o que temos, ainda que nos seja caro. É como um esquecer-se de si, ou pôr-se limites a si mesmo em função daquele outro que é mais importante. O sacrifício é, portanto, o guarda da humildade e da legítima grandeza. Estas duas são como irmãs gêmeas.

O sacrifício implica uma espécie de morte que faça, por sua entrega, merecer a vida. É como uma violência que o sujeito se faz para que não se feche em si mesmo. É, portanto, um modo de transcendência. É um sair de si. Esta última característica, o sair de si - êxtase - é um traço inerente ao amor. Daí que amor e sacrifício andam sempre juntos. O sacrifício, pondo o homem para além de si mesmo, mantém pura a inteligência, fazendo-a voar mais alto. Naturalmente, a vontade adquire mais luz e maior capacidade de amor. A sensibilidade, por sua vez, aborrecida pelo sacrifício, vai deixando de impôr-se com tanta força, até voltar à sua obediência às demais potências. Ora, se o sacrifício é capaz de fazer isso tudo, convém colocá-lo de modo decisivo dentro da própria vida dos homens. Daí que a teologia ascética vai afirmar que a mortificação é uma necessidade da vida espiritual.

Geralmente, os que fazem sacrifícios, desde a antiguidade, são chamados de sacerdotes. Notemos que é o mesmo radical que é participado nas duas palavras. Ambas provêm do termo "sacer" que traz sempre a idéia de transcendência, de algo que toca uma outra dimensão para além desta. Por isso, desde muito tempo, os sacerdotes eram aqueles que serviam de mediadores entre o povo e os deuses.

Quando Deus disse a Adão para não comer daquele fruto, ele fazia de Adão um sacerdote, pois ele deveria sacrificar. Isto asseguraria a sua dignidade enquanto homem. No entanto, Adão pecou precisamente pela recusa em agir como sacerdote. É natural, portanto, que os homens, ainda que intuitivamente, como pus acima, saibam que é pelo sacrifício - o ofício do sacerdote - que deverão aplacar a ira de Deus.

No entanto, isto não resolvia a questão, porque, se foi toda a humanidade que herdou o pecado original, ela toda, então, deveria ser sacrificada. Mas, sem considerar o absurdo dessa hipótese, nem desse modo eles conseguiriam seu intento, porque o ato redentor deve ser universal, mas não apenas no sentido geográfico, como também no cronológico. Esse ato deveria incluir necessariamente todos os homens desde o início. Obviamente, nenhum homem era capaz de tal.

Além disto, a morte de um criminoso não pode servir de expiação por outros. A morte do pecador seria tão somente um ato de justiça. Muitos criminosos foram sacrificados, sobretudo nas religiões tribais, mas isto não os limpava da culpa. Era preciso a morte de um inocente para que, por seu sacrifício, o valor pudesse ser aplicado a outros. No entanto, aqui há mais dois problemas: primeiro, que a dignidade de qualquer inocente humano é incapaz de conseguir abarcar toda a humanidade. Depois, porque o sacrifício de um inocente é, pela própria natureza, outra injustiça e, portanto, outro pecado. Não obstante, tentativas foram feitas e o que há de mais puro, as crianças e as virgens, foram, também, sacrificadas.

Nos sacrifícios judaicos, povo ao qual Deus falou por primeiro, não havia sacrifícios humanos. Ao invés, eles sacrificavam animais e faziam um tipo de "projeção de culpas" naqueles bichos que iam ser mortos. Havia inclusive uma orientação divina de que o sacerdote faria o sacrifício de um cordeiro em vista da purificação de um povo - delimitação geográfica - pelo espaço de um ano - delimitação cronológica. O cordeiro foi, em geral, o animal usado por dois motivos: 1- porque é absolutamente dócil ao sacrifício. 2- porque vai prefigurar o Filho de Deus. Daí a importância de ser um cordeiro sem defeitos, assim como o Filho de Deus será sem mancha.

Tal sacrifício de cordeiros, porém, era limitado, como vimos. E, se o objeto da redenção devia ser a humanidade inteira, a situação era difícil. Como se não bastasse, o sacrifício deveria se elevar à dignidade do ofendido. Ora, o ofendido era Deus. Somente um Deus pode igualar Deus em valor. No entanto, isso era absurdo! Primeiro, porque Deus não tinha pecado, e deveria, como vimos, ser um ser que traga sobre si a culpa dos pecados, para ser sacrificado. Depois, a idéia de Deus sofrer é totalmente contraditória! Deus é impassível! Não sofre e, tampouco, morre.

Retomemos as exigências para o tal sacrifício.
1- Deveria ser alguém que pudesse estender a eficácia do seu sacrifício de modo universal, seja no aspecto espacial, seja no aspecto temporal. Portanto, deve ser alguém que esteja além do tempo e espaço. Nenhum homem podia fazê-lo.
2- O ser sacrificado deveria ser pecador, pelo que seu sacrifício não implicaria em injustiça. Mas deveria, também, ser inocente, pelo que sua morte servisse de expiação por outros. Ora, como ser pecador e inocente ao mesmo tempo?
3- Deveria ser alguém cujo sacrifício fosse feito em total liberdade, com puro consentimento, tal como os cordeiros sacrificados. Qual o homem que, ferido pelo egoísmo, poderia se elevar com perfeição a um tal nível de amor?
4- Deveria ser homem, para poder sofrer e morrer. Mas deveria ser Deus, para poder elevar a um nível divino o seu sacrifício. Homem e Deus? Complicado.

Se fosse deixado por si mesmo, o homem estava perdido. Não havia o que fazer.

Porém, Deus resolve esse problema para os homens. De tal modo amou Deus o mundo que fez o seguinte:

- Era preciso ser Deus e homem. Deus se faz homem. "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós".
- Era preciso estar além do tempo e do espaço. Este Deus humanado será Aquele que dirá: "Antes que Abraão fosse, eu sou" e "glorificai-me com a glória que eu tinha junto de Ti antes da criação do mundo".
- Deveria ser um ato de plena liberdade e consentimento: Dirá também o Redentor do mundo: "Ninguém me tira a vida; eu a dou por mim mesmo".
- Deveria ser pecador e inocente. Dele, se dirá: "não havia mentiras em sua boca, nem crime algum que tenha cometido", e, no entanto, ele será batizado por João, num batismo de remissão dos pecados, assumindo, desse modo, os pecados da humanidade. João dirá dele: "Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo" e Paulo dirá: "Ele se fez pecado por nós".

E Jesus, o Deus feito homem, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sofreu e morreu por nós. D'Ele, Isaías tinha escrito: "Por Suas chagas fomos curados". Sobre Ele se descarregou toda a seriedade e violência da Justiça divina e n'Ele se satisfez a infinita misericórdia de Deus pelos homens.

É por isso que os Apóstolos dirão que nenhum outro nome foi dado aos homens para que se salvassem. Por mais que um homem tenha sido virtuoso ou nobre, seja Buda, seja Ghandi, seja quem for, nada disso sequer sonha em ser suficiente para a redenção nem de si mesmos, quanto mais de todo o gênero humano.

Compreende-se também como o ato de rejeição deste Amor adquira uma gravidade tal que mereça a eternidade de suplício. "De Deus não se zomba", dirá S. Paulo. E, de fato, Deus é muito sério.

Para terminar esta primeira exposição, cito uma frase que Ele falou para uma mística franciscana:

"Não foi para rir que eu te amei".

Fábio.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

"Por que é mais forte quem sabe mentir..." Não é.. só parece...


Não precisamos ser falsos com nós mesmos. Aliás, não devemos. Se é a verdade que liberta, importa abandonar a mentira, ainda quando, à primeira vista, ela indique uma espécie de proteção. Acontece que enquanto alguém se protege freneticamente, isto também o impede de se lançar de verdade em qualquer coisa. Um covarde passa a vida paralisado. É por isso que Jesus diz: "quem perder a sua vida, vai ganhá-la". Dar o passo! Há tanto egoísmo envolvido nessa covardia - e já tratei bastante disso - que não o quero pormenorizar aqui.

Por vezes, queremos expectadores de cada ato nosso, construindo um tipo de draminha da nossa existência, onde a gente possa garantir que ganhará alguns aplausos. Isso parece nos dar uma motivação extra para fazer as coisas. E tão logo encontramos a platéia, no meio dos nossos amigos, familiares ou quem seja, iniciamos também os showzinhos, os exageros, as demonstrações de força. Mas, sobretudo, é importante fazer barulho. Não se pode correr o risco de não sermos notados! Cada boa decisão, cada virtude posta em prática, tem de causar uma admiração de alguém. E nesse processo, choramos e rimos e fazemos caras de herói e trejeitos de artista.

Só que isso tudo não passa de uma palhaçada! Enquanto vamos crentes de causar admiração, a única resposta que causamos é um riso de diversão pela nossa trágica falta de senso. Se um sujeito passa a vida assim, talvez adquira o conforto de se imaginar uma espécime rara dentre os humanos, muito embora tenha vivido, na verdade, como um bobo. Enquanto se pensava tão sincero, suas intenções estavam atentas nas reações que causava nos outros, ou nas recompensas que podia adquirir pelo seu teatro. E inverte tudo: dificulta o que é fácil, e facilita o que é difícil, mas isto só aparentemente. Se lhes é pedido para erguer uma formiga, farão todo tipo de caretas no processo de levantamento e se certificarão de cair pelo menos umas três vezes a fim de intensificar o ato heróico final do soerguimento histórico. Se lhes pedem para correr a São Silvestre, a vaidade não lhe permitirá desistir no meio do processo e, embora cansado, quase tendo um ataque cardíaco, passará em frente à câmera com o rosto tranquilíssimo, ostentando um preparo que ele não tem. "Vaidade das vaidades", diz o Eclesiastes. E, no final, o sujeito estará seguro de que fez algo grandioso. Realmente: uma imbecilidade monumental.

É por isso que eu gosto tanto dos santos. Eles foram totalmente o oposto disso. Quem quer que conheça um santo a partir dele mesmo ou mesmo de outro, mas de uma forma profunda, verá que estas coisas vão sendo gradativamente abandonadas por eles. S. Josemaria dizia que os biógrafos dos santos são seus traidores, pois os santos nunca pretenderam ser muito conhecidos. Lembro-me de S. Pio de Pietrelcina que, quando recebera os estigmas, chorava copiosamente e dizia: "quero morrer com dor, sim! Mas anônimo..." Lembro-me de S. João da Cruz que pedia diariamente para morrer desprezado e, no final da vida, tendo de escolher entre dois mosteiros a ficar, escolheu o que por certo o maltratariam ao invés do outro em que seria aclamado. Lembro-me de S. Francisco de Assis e seus retiros prolongados no Alverne onde, sem expectadores, ele se dava aos maiores rigores. E tantos e tantos outros santos que se tornavam amigos de Cristo justamente porque abandonavam esta busca frenética e neurótica por vaidades e por reconhecimentos. A "Perfeita Alegria" de Francisco é justamente isto: ser desprezado, ser vilipendiado, ser maltratado e ver que isso não causa nenhuma repercussão interior, nenhuma revolta, nenhum coitadismo, nem nenhum senso de heroísmo, nenhuma encenação, nenhuma estratégia artística.

Que Nosso Senhor nos liberte da nossa pequenez disfarçada de grandeza. De um monte de fezes pode-se imitar uma montanha. Que Deus nos livre da encenação barata que, como se não bastasse ser perda de tempo,  nos impede de ser quem somos e nos ameaça de perder a eternidade.

Que a Virgem nos conduza.

sábado, 30 de julho de 2011

A bondade divina e a maldade humana - uso de uma comparação



Sta Teresa D'Avila

Há um tipo de visão intelectual "na qual se lhe descobre [à alma] como em Deus se vêem todas as coisas, e Ele as tem todas em Si mesmo. E é de grande proveito, porque, ainda que passa num momento, fica muito gravada, e causa grandíssima confusão; vê-se mais claramente a maldade de quando oferecemos a Deus, porque no mesmo Deus - digo, estando dentro d'Ele - fazemos grandes maldades. Quero fazer uma comparação, se acertar, para vo-lo dar a entender, porque, embora isto seja assim e o ouçamos muitas vezes, ou não reparamos nisso, ou não o queremos entender, pois não parece que seria possível sermos tão atrevidos, se se entendesse tal como é.

Façamos agora de conta que Deus é como uma morada ou palácio muito grande e formoso, e que este palácio, como digo, é o mesmo Deus. Pode porventura o pecador, para fazer suas maldades, apartar-se deste palácio? Não, por certo; senão que, dentro do mesmo palácio, que é o mesmo Deus, passam-se as abominações e desonestidades e maldades que fazemos nós os pecadores. Oh! coisa temerosa e digna de grande consideração e muito proveitosa para os que sabemos pouco que não acabamos de entender estas verdades e não seria possível ter atrevimento tão desatinado! Consideremos, irmãs, a grande misericórdia e sofrimento de Deus em não nos aniquilar ali imediatamente; e demos-Lhe muitas graças, e tenhamos vergonha de nos sentirmos por cousa que se faça ou diga contra nós; que a maior maldade do mundo é ver que Deus Nosso Criador sofre tamanhas dentro de Si, mesmo às Suas criaturas, e que nós sintamos alguma vez uma única palavra que se deiga em nossa ausência, e talvez sem má intenção.

Oh! miséria humana! Quando, mas quando, filhas, imitaremos em alguma coisa este grande Deus? Oh! e não se nos vá afigurar que já fazemos algo em sofrer injúrias! Mas passemos, de muito boa vontade, por tudo  amemos a quem no-las faz, pois este grande Deus não deixou de nos amar a nós, ainda que O tenhamos ofendido muito, e assim Ele tem razão de sobejo em querer que todos perdoem, por mais agravos que lhes façam.

Sta Teresa D'Avila, Castelo Interior

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A religiosa medíocre


"O estado de uma religiosa medíocre me parece mais lamentável do que o de um malfeitor. O malfeitor pode converter-se e nasce pela segunda vez. A religiosa medíocre não poderá renascer. Nasceu e perdeu o nascimento. Salvo um milagre, será sempre um aborto"

Diálogo das Carmelitas.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Ignorância como máscara e desculpa


Uma das maiores hipocrisias que já vi consiste em utilizar a própria ignorância e indiferença como sinal de sinceridade e justeza de caráter. Mas é justamente o contrário. Há sujeitos que denunciam a "vaidade de ter certezas", a inadimissível pretensão de defender uma moral absoluta e que, não obstante, sob as aparências de tolerância e humildade, tentam dar a impressão de serem mais esclarecidos, no fundo. Vê-se isso quando estes sujeitos demonstram crer absolutamente nas próprias interpretações a respeito dos homens e do mundo.

Este tipo de filosofia de meia tigela geralmente surge depois de um processo meio demorado de mediocridade moral e do que alguns filósofos chamam "escotoma" que consiste num orgulho pessoal que prefere não aderir a nada, ainda que algo seja totalmente digno de crédito, a fim de satisfazer o próprio orgulho que certamente sofreria se se admitisse que a razão está do outro lado.

Coisa mais nauseante é ver os lamentos desses uns, e notar o prazer que sentem por baixo das próprias exteriorizações de aparente pesar, rs. Se se queixam de não saber, poderiam se convencer a estudar seriamente o objeto de sua ignorância ao invés de desacreditar gratuita e desonestamente, atitude que serve somente de estratégia para manutenção do próprio orgulho e como pretexto para continuar com a indiferença nada corajosa.

"Imparcialidade é um nome pomposo para indiferença, que é um nome elegante para ignorância" Chesterton.

"Ai daqueles que às trevas chamam luz, e à luz, chamam trevas". (Is 5,20)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Perdoem-me...



Perdoem-me as vítimas de minhas mãos grosseiras.
Perdoem-me por meus pecados inconseqüentes.
Perdoem-me o apego às minhas paixões.
Perdoem-me as dores alheias que não previ.
Perdoem-me as lágrimas derramadas por este tolo.
Perdoem-me a insistência no que não convinha.
Perdoem-me a cegueira voluntária.
Perdoem-me a baixeza dos meus afetos.
Perdoem-me por meu egoísmo disfarçado.
Perdoem-me a fraqueza infantil.
Perdoem-me a perseverança no erro.
Perdoem-me porque não fui soldado de Cristo.
Perdoem-me porque não fui sentinela.
Perdoem-me pela doçura afetada.
Perdoem-me pela suposição errada de uma alegria ao meu modo.
Perdoem-me porque, à cruz, deixei na estrada.

Retomo-a, agora. Soldado sou! Eis a minha arma! Eis a insígnia do meu Rei! Não tenho outra honra que não combater! Ave Crux Spe Unica!

“O verdadeiro sentinela do coração é aquele que está disposto a derrubar e matar qualquer um que se aproxime” S. João Clímaco.

“Morrerei no campo de batalha, com as armas na mão” Sta Teresinha de Lisieux

“E, por toda a formosura, nunca eu me perderei, mas sim por um não-sei-quê que se alcança porventura” S. João da Cruz

domingo, 2 de janeiro de 2011

Meu Deus, eu sou tão desajeitado...



“A alegria é a vida reencontrada depois que se aceitou perdê-la”. Tempos atrás, encontrei esta frase quando tentava me adaptar à idéia de rumar para um convento em que eu não teria nenhuma garantia de vir em casa outra vez. Não fui ao convento, mas a frase reverberou.

Agora passo por uma situação análoga e vim perceber algo da verdade enunciada nesta frase muito recentemente. Todas as vezes que eu deixo um pouco de ser pobre, eu deixo um pouco de ser eu mesmo. E, como eu já disse diversas vezes, o pobre deve manter sempre as mãos abertas. Ele não se defende o tempo todo e não está a agarrar as coisas por aí. 

Há um tesouro que pareceu-me estar ao alcance, mas que notei, porém, que a sua liberdade implica não minha não garantia. Eu estava tendendo a tensionar os dedos, numa atitude de querer assegurar. Mas tive de me deparar, de novo, com a minha nudez. Corri o risco de ser egoísta e fui advertido. Vi. Envergonhei-me e notei o quanto sou desajeitado. Não que isto me fosse novidade...

Conforme a frase, primeiro é preciso aceitar perder a vida. Isto tira da alma os seus apegos, relativiza-os e abre espaço para a gratuidade. O ter a vida não é um direito; mas é algo que é recebido, gratuitamente. O amor ama por natureza. Depois desta entrega, que implica em evitar fechar as mãos, abre-se o espaço para a verdadeira alegria. É que aquela generosidade talvez reencontre a vida e, agora, saberá olhá-la na sua beleza, e experimentará o êxtase que daí provém. 

E se a vida não for reencontrada? ...
Então é preciso continuar com as mãos abertas ainda que os olhos marejem.
E, um dia, Deus ma dará, ainda que não seja o que eu tanto queria...


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Faça-se a Sua vontade, sempre! Sempre! Sempre! Sempre!
E ao egoísmo que ainda se levanta em mim, eu o pisarei sem dó.
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“Sentimo-nos (...) felizes ao perceber que ainda somos capazes de experimentar alegrias profundas e verdadeiras. Mesmo a dor profunda e autêntica se nos afigura uma graça, comparada ao entorpecimento da sensibilidade." (Edith Stein, A Ciência da Cruz)