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domingo, 22 de janeiro de 2012

Metanóia e a Natureza da Conversão - O tão necessário "sair de si"



"Lembra-te sempre de que não realizas nada de virtuoso, esforçando-te para te dominares. De fato, que virtude há em tomar pá e picareta para tentar sair de uma galeria subterrânea, onde se tenha caído por falta de atenção? Não é natural, pois, utilizar as ferramentas entregues por alguém de fora, para escapar dessa atmosfera sufocante e tenebrosa? O contrário não seria pura estupidez? Essa parábola te pode ensinar a sabedoria. As ferramentas são os instrumentos da salvação, os mandamentos do Evangelho, os santos sacramentos da Igreja, que foram postos à disposição de cada cristão por ocasião do santo batismo. Sem uso, não terão nenhum proveito. Porém, utilizados com discernimento, permitirão que abras o caminho para a liberdade e para a luz. " (Tito Colliander, Caminho dos Ascetas, Iniciação à Vida Espiritual)


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A conversão ao cristianismo é um processo bastante completo e profundo. O escritor C. S. Lewis, comentando a ordem de Cristo para que sejamos perfeitos, afirma: "Ele quis dizer isso mesmo. A cura tem de ser completa". Se é completa, ela deve envolver o homem inteiro.

No entanto, a partir do momento em que certos líderes cristãos quiseram adaptar o cristianismo às massas, obviamente na tentativa infeliz de facilitar o caminho, reduziu-se profundamente o seu significado. Tivemos uma religião meio que à medida do homem, o que implicou muitas vezes na morte da transcendência, coração do cristianismo.

Sobre isto, escreveu certa vez S. João da Cruz: "Se alguém, em qualquer época, fizer do cristianismo um caminho fácil e cômodo, não lhe dês ouvido". Mas, infelizmente, esta forma dissimulada e equivocada de religiosidade ganhou o mundo, e o que geralmente se tem é antes uma antropomorfização de Deus no sentido de que os homens projetam n'Ele seus gostos, preferências e opiniões. Surge uma religião imanentista, incapaz de libertar o homem de si mesmo.

Neste contexto, fica impossibilitada a efetivação da metanóia, que seria a mudança não só de comportamento, mas também da mente, necessária ao cristão. O problema é que, por termos nascido egocentrados, somos muito apegados a nós mesmos, ao nosso modo de ver, às opiniões próprias. Qualquer legítima conversão deve fazer que o homem supere esta condição. Daí Jesus dizer: "o que não odeia a própria vida, não é digno de mim". Quem não "se odeia", não está disposto a mudar. Este "ódio" é o que possibilita aquele sadio desprezo ou desapego por si mesmo. 

A Santa Igreja nos diz que, para vivermos segundo a Fé, precisamos ter a inteligência e a vontade submetidas a Deus. Isto, longe de nos escravizar, nos liberta. "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará".

No livro de Isaías, lemos que, antes de Cristo vir a nós, andávamos todos perdidos, cada um em seu próprio caminho. Uma vez que Ele nos veio, pudemos reconhecê-Lo como "o Caminho, a Verdade e a Vida" de todos nós. S. Paulo, por sua vez, nos diz que não devemos viver mais para nós mesmos; uma vez que Cristo veio e se entregou por nós, devemos agora viver por Ele. É só então que somos "encontrados", como o filho pródigo.

Pois bem, por "vida" não devemos entender meramente o conjunto das atitudes exteriores, mas a totalidade da pessoa humana, desde o mais profundo da sua alma. Todo o ser deve ser submetido a Cristo. Não esqueçamos que o ser age segundo a sua natureza. Para que sejamos cristãos - outros Cristos - e vivamos como Ele viveu, como nos recomenda S. João, deveríamos adquirir uma natureza interior semelhante à de Cristo. Não à toa Nosso Senhor nos disse que "é preciso nascer de novo".

Se a conversão deve ser metanóia, é preciso que a pessoa compreenda bem a natureza deste caminho com Cristo, que vai muito longe da adesão a ideologias sociais ou da recorrência a cócegas emotivas. Todos estes movimentos não passam de construções imanentistas e, na verdade, antes impedem que o sujeito entenda a essência do Cristianismo. 

Para ajudar o homem a sair de si, foi preciso que Algo de fora lhe viesse ao encontro, e esse algo foi o próprio Deus. Cristo entrou em nosso mundo e nos ofereceu a cura para a queda. Portanto, é preciso empreender seriamente este caminho, numa atitude de auto-desapego e abertura a este "Santo Intruso". É Ele que nos livrará do nosso mundinho. 

A vida cristã deve envolver a totalidade do ser humano.

A partir do momento, porém, em que quisermos adaptar o cristianismo ao nosso modo, ou dele adotar somente o que de antemão nos agrada, apenas estaremos perpetuando a nossa pobre condição, agindo segundo critérios subjetivistas, segundo a ótica de quem ainda não conhece a liberdade. Já a Fé, ou é completa, ou inexiste; ou a assumimos de todo, ou estaremos juntando pedaços para construir um novo bezerro de ouro com o qual nos distrairemos e ao qual adoraremos como imagem de nós mesmos. Escolher o que nos agrada é manter a primazia do próprio ego. S. Paulo, que aceitou sair de si, pôde depois dizer: "não sou 'eu' quem vivo; é o Cristo que vive em mim". E esta é uma declaração profundamente feliz.

O processo de conversão é algo tão imenso, tão profundo, tão amplo que é preciso uma mudança, não apenas de costumes, mas verdadeiramente substancial da alma. Isso obviamente somente pode ocorrer muito depois de iniciado o caminho. Se houver perseverança e fidelidade, pode-se chegar a um estágio chamado de "inocência readquirida", que é como um retorno à inocência de Adão, o que implica a total cura do egoísmo. Neste estágio, dá-se de maneira rigorosa o que diz S. Paulo: "tudo é puro para os que são puros". S. João da Cruz, falando deste grau de santidade, diz que, ainda que a pessoa seja exposta a situações de pecado, ela não compreende a maldade no que vê.

Vislumbra-se que a santidade é algo de muito maior do que geralmente se supõe. Mas enquanto estivermos apegados aos modos românticos de ver, estaremos impedidos da verdadeira mística, da verdadeira metanóia, da verdade "deificação". Se é preciso sair de si, o que vale apegar-se às próprias opiniões? É somente perpetuar a própria estreiteza.

Fábio

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Com os carismáticos.


Estes dias, por duas vezes, tive a difícil oportunidade de presenciar a oração dos carismáticos. Aquilo nunca me foi tão difícil de fazer quanto agora. Parecia-me evidente que estávamos diante de qualquer grupo pentecostal, menos católicos.

Na ocasião, eu também rezei. Mas repetia, baixinho, coisas do tipo: "Senhor, que foi que eu vim fazer aqui?" e "Senhor, tira-me daqui".

Este breve relato pode parecer dramático demais, mas a coisa realmente não me desceu. E isso piorou quando eu as ouvi falar que, se tivessem mais tempo, iriam pedir pelo batismo.. aff....

Deus nos livre do pentecostalismo de qualquer matiz porque, seja qual for, certamente não é católico.