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quinta-feira, 2 de maio de 2019

C.S. Lewis conta como "apreciava" as festas para as quais era convidado quando criança


"Para mim, esses bailes eram um tormento - no qual a simples timidez tinha um papel discreto. Era a falsa pose (que eu já tinha capacidade de perceber) que me atormentava; saber que consideravam você uma mera criança, e mesmo assim ser forçado a participar de uma atividade essencialmente adulta, sentindo que todos os adultos presentes eram meio amáveis, meio debochados, e fingiam tratá-lo como alguém que você não era. Acrescente-se a isso o desconforto do terno justo e da camisa sufocante, as dores nos pés, a testa em chamas e o simples cansaço de ser forçado a ficar acordado muitas horas depoi da hora habitual de dormir.

Mesmo os adultos, chego a pensar, não achariam as festas noturnas lá muito toleráveis sem a atração do sexo oposto e a do álcool. Mas então como é que um menino pequeno, que não pode nem paquerar nem beber, poderia gostar de saracotear num piso polido até de madrugada? Logicamente, eu não tinha a menor noção dos vínculos sociais. Nunca me dei conta de que determinadas pessoas se viam obrigadas, pelas regras da educação, a me convidar porque conheciam meu pai ou tinham conhecido minha mãe.

Para mim tudo era uma perseguição inexplicável e gratuita. E quando, como frequentemente acontecia, tais compromissos caíam na última semana das férias e nos roubavam uma enorme quantidade de horas, das quais cada minuto valia ouro, eu sentia verdadeiramente que poderia esquartejar minha anfitriã membro a membro. Por que ela insistia em me infernizar? Eu nunca haia feito nada de mau contra ela, nem jamais a convidara para uma festa.

Meus incômodos foram agravados pelo comportamento totalmente antinatural que, segundo eu pensava, era obrigado a adotar num baile; isso veio à tona de uma forma bem engraçada. Lendo muito e me misturando pouco com as crianças de minha idade, eu já tinha, antes de ir à escola, desenvolvido um vocabulário que certamente (hoje vejo) soava bastante engraçado vindo dos lábios de um molequinho rechonchudo de paletó escolar. Quando eu sacava minhas 'palavras compridas', os adultos pensavam, e não sem razão, que eu estava me exibindo. Nisso eles estavam bem equivocados. Eu usava as únicas palavras que conhecia.

O correto era na verdade bem o contrário daquilo que eles supunham; eu me orgulharia de usar a gíria escolar, se a soubesse, em vez da linguagem livresca que (inevitavelmente, pelas circunstâncias) vinha naturalmente à minha boca. E não faltavam adultos que me incentivavam com fingido interesse e fingida seriedade - até o momento em que eu percebia, de repente, que estava sendo ridicularizado. Então, claro, meu sofrimento era intenso. Depois de uma ou duas dessas experiências, baixei a severa regra de que em 'ocasiões sociais' (como secretamente eu as chamava) eu jamais deveria, sob nenhum pretexto, falar de qualquer assunto pelo qual eu sentisse o mínimo interesse, nem em palavras que naturalmente me ocorressem.

E observei essa regra com extrema meticulosidade; desde então, assumi, conscientemente como um ator assume seu papel, um comportamento social que envolvia a imitação tola e balbuciante da fala mais rasa de um adulto e a ocultação deliberada de tudo o que eu realmente pensava e sentia sob uma espécie de débil jocosidade e entusiasmo. O 'papel' era sustentado com tédio indizível e abandonado com um gemido de alívio assim que meu irmão e eu afinal saltávamos no cabriolé para voltar para casa (este, sim, o único prazer da noite)."

C.S. Lewis, Surpreendido pela alegria. Viçosa: Ultimato, 2015. p.49-50.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Cômica discussão filosófica sobre se vale mais uma bela jovem do que todo o clero do mundo


A discussão abaixo é tirada do livro "O Vigário de Wakefield" de Oliver Goldsmith, escrito em 1766, traduzida por Olavo de Carvalho da edição J. M. Dent & Sons de 1931, pp. 37-39.

1 Squire - membro da pequena aristocracia rural
2 Moses - jovem filho do vigário-narrador

- Mais vale uma bela jovem do que todo o clero do mundo.

- Prove.

- Antes de tudo, você quer abordar o assunto analogicamente ou dialogicamente?

- Acho que se deve abordá-lo racionalmente, respondeu Moses, feliz por lhe permitirem discutir.

- Muito bem, disse o Squire, primeiro as primeiras coisas. Espero que você não negue que tudo aquilo que é, é. Se você não concede isto logo de início, não posso prosseguir.

- Acho que posso concedê-lo, para meu proveito.

- Espero, retorquiu o outro, que você concorde também que uma parte é menor que o todo.

- Concedo isso também, disse Moses. - É uma coisa razoável.

- Espero, disse o Squire, que você não negue que três ângulos de um triângulo sejam iguais a dois ângulos retos.

- Nada pode ser mais certo, respondeu o outro, e olhou em torno com seu habitual ar de importância.

- Muito bem, disse o Squire, falando muito rápido, - as premissas tendo sido assim colocadas, prossigo, fazendo observar que a concatenação das auto-existências, procedendo numa duplicada razão recíproca, naturalmente produz um dialogismo problemático, que em certa medida prova que a essência da espiritualidade pode ser referida ao segundo predicável.

- Pare! Pare!, gritou o outro. - Eu nego isso. Você pensa que posso me submeter assim docilmente a essas doutrinas heterodoxas?

- Que?, replicou o Squire, como tomado de paixão. - Não se submeter? Responda-me a uma questão direta: Você acha que Aristóteles tinha razão ao dizer que os relativos estão relacionados?

- Sem dúvida, replicou o outro.

- Se é assim, então responda-me diretamente: Você julga a investigação analítica da primeira parte do meu entimema deficiente secundum quoad ou quoad minus? E dê-me suas razões! Dê-me suas razões, digo, diretamente!

- Eu protesto!, gritou Moses! Não compreendo direito a força do seu raciocínio, mas, se ele for reduzido a uma proposição simples, poderei ter uma resposta.

- Oh, meu senhor!, respondeu o Squire. - Sou seu humilde servidor, mas o senhor pretende que eu lhe forneça também a argumentação e a inteligência. Não, senhor; isso, eu protesto, é demais pra mim.

Isto efetivamente despertou o riso contra o pobre Moses.