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quinta-feira, 2 de maio de 2019

C.S. Lewis conta como "apreciava" as festas para as quais era convidado quando criança


"Para mim, esses bailes eram um tormento - no qual a simples timidez tinha um papel discreto. Era a falsa pose (que eu já tinha capacidade de perceber) que me atormentava; saber que consideravam você uma mera criança, e mesmo assim ser forçado a participar de uma atividade essencialmente adulta, sentindo que todos os adultos presentes eram meio amáveis, meio debochados, e fingiam tratá-lo como alguém que você não era. Acrescente-se a isso o desconforto do terno justo e da camisa sufocante, as dores nos pés, a testa em chamas e o simples cansaço de ser forçado a ficar acordado muitas horas depoi da hora habitual de dormir.

Mesmo os adultos, chego a pensar, não achariam as festas noturnas lá muito toleráveis sem a atração do sexo oposto e a do álcool. Mas então como é que um menino pequeno, que não pode nem paquerar nem beber, poderia gostar de saracotear num piso polido até de madrugada? Logicamente, eu não tinha a menor noção dos vínculos sociais. Nunca me dei conta de que determinadas pessoas se viam obrigadas, pelas regras da educação, a me convidar porque conheciam meu pai ou tinham conhecido minha mãe.

Para mim tudo era uma perseguição inexplicável e gratuita. E quando, como frequentemente acontecia, tais compromissos caíam na última semana das férias e nos roubavam uma enorme quantidade de horas, das quais cada minuto valia ouro, eu sentia verdadeiramente que poderia esquartejar minha anfitriã membro a membro. Por que ela insistia em me infernizar? Eu nunca haia feito nada de mau contra ela, nem jamais a convidara para uma festa.

Meus incômodos foram agravados pelo comportamento totalmente antinatural que, segundo eu pensava, era obrigado a adotar num baile; isso veio à tona de uma forma bem engraçada. Lendo muito e me misturando pouco com as crianças de minha idade, eu já tinha, antes de ir à escola, desenvolvido um vocabulário que certamente (hoje vejo) soava bastante engraçado vindo dos lábios de um molequinho rechonchudo de paletó escolar. Quando eu sacava minhas 'palavras compridas', os adultos pensavam, e não sem razão, que eu estava me exibindo. Nisso eles estavam bem equivocados. Eu usava as únicas palavras que conhecia.

O correto era na verdade bem o contrário daquilo que eles supunham; eu me orgulharia de usar a gíria escolar, se a soubesse, em vez da linguagem livresca que (inevitavelmente, pelas circunstâncias) vinha naturalmente à minha boca. E não faltavam adultos que me incentivavam com fingido interesse e fingida seriedade - até o momento em que eu percebia, de repente, que estava sendo ridicularizado. Então, claro, meu sofrimento era intenso. Depois de uma ou duas dessas experiências, baixei a severa regra de que em 'ocasiões sociais' (como secretamente eu as chamava) eu jamais deveria, sob nenhum pretexto, falar de qualquer assunto pelo qual eu sentisse o mínimo interesse, nem em palavras que naturalmente me ocorressem.

E observei essa regra com extrema meticulosidade; desde então, assumi, conscientemente como um ator assume seu papel, um comportamento social que envolvia a imitação tola e balbuciante da fala mais rasa de um adulto e a ocultação deliberada de tudo o que eu realmente pensava e sentia sob uma espécie de débil jocosidade e entusiasmo. O 'papel' era sustentado com tédio indizível e abandonado com um gemido de alívio assim que meu irmão e eu afinal saltávamos no cabriolé para voltar para casa (este, sim, o único prazer da noite)."

C.S. Lewis, Surpreendido pela alegria. Viçosa: Ultimato, 2015. p.49-50.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O ateísmo é uma solução simplista.


Meu argumento contra Deus era o de que o universo parecia injusto e cruel. No entanto, de onde eu tirara essa idéia de justo e injusto? Um homem não diz que uma linha é torta se não souber o que é uma linha reta. Com o que eu comparava o universo quando o chamava de injusto? Se o espetáculo inteiro era ruim do começo ao fim, como é que eu, fazendo parte dele, podia ter uma reação assim tão violenta? Um homem sente o corpo molhado quando entra na água porque não é um animal aquático; um peixe não se sente assim. É claro que eu poderia ter desistido da minha idéia de justiça dizendo que ela não passava de uma idéia particular minha. Se procedesse assim, porém, meu argumento contra Deus também desmoronaria - pois depende da premissa de que o mundo é realmente injusto, e não de que simplesmente não agrada aos meus caprichos pessoais. Assim, no próprio ato de tentar provar que Deus não existe - ou, por outra, que a realidade como um todo não tem sentido -, vi-me forçado a admitir que uma parte da realidade - a saber, minha idéia de justiça - tem sentido, sim. Ou seja, o ateísmo é uma solução simplista. Se o universo inteiro não tivesse sentido, nunca perceberíamos que ele não tem sentido - do mesmo modo que, se não existisse luz no universo e as criaturas não tivessem olhos, nunca nos saberíamos imersos na escuridão. A própria palavra escuridão não teria significado.

C. S. Lewis. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2013. p.53-54.

terça-feira, 14 de julho de 2015

O desejo do céu é subjacente a todas as experiências da vida


O que vou dizer agora é apenas uma opinião pessoal, sem o menor resquício de autoridade, e submeto-a ao juízo de cristãos e de estudiosos melhores que eu. Momentos houve em que achei que não queríamos o céu, porém, com mais frequência pego-me pensando se, bem lá no fundo do coração, alguma vez desejamos algo mais. Você pode ter notado que os livros que realmente ama estão ligados por um fio secreto. Você sabe muito bem qual a qualidade comum que o faz amá-los, embora não possa traduzi-la em palavras, mas a maioria de seus amigos não a percebe absolutamente e por vezes indagam por que, gostando disso, você deveria também gostar daquilo. Você com certeza já esteve diante de uma paisagem que parecia incorporar algo que você procurou por toda a vida e então voltou-se para o amigo ao seu lado, que parecia estar vendo o mesmo que você via, mas, às primeiras palavras, um abismo se abriu entre os dois, e você percebe que aquela paisagem significava algo totalmente diferente para ele, que estava em busca apenas de uma vista exótica, pouco lhe importando a sugestão inefável pela qual você foi arrebatado. Até mesmo em seus passatempos, será que não houve sempre alguma atração secreta - que outros curiosamente ignoram e com que não se identificam -, porém sempre prestes a se insinuar: o cheiro de madeira cortada na oficina ou o som da água batendo contra o casco do barco? 

Será que as amizades que duram a vida toda não nascem no momento em que você finalmente encontra outro ser humano que tenha alguma noção (embora tênue e incerta, mesmo no melhor dos casos) daquilo que você nasceu desejando e que, sob o fluxo de outros desejos e em todos os silêncios momentâneos entre as paixões mais estrondosas, noite e dia, ano após ano, da infância até a velhice, você procura, espera e ouve? Você nunca teve isso. Todas as coisas que sempre lhe dominaram profundamente a alma não foram senão indícios disso - vislumbres sedutores, promessas nunca de todo cumpridas, ecos que morreram tão logo lhe alcançaram os ouvidos. Se isso, contudo, realmente se tornasse manifesto; se alguma vez viesse um eco que não morresse, mas tomasse corpo no próprio som, você o saberia. Além de toda possibilidade de dúvida, você diria: "Eis enfim aquilo para o que fui feito". Não podemos falar sobre isso aos outros. É a assinatura secreta de cada alma, o anseio incomunicável e insaciável, a coisa que almejamos antes de encontrar nossa mulher, de conhecer nossos amigos ou de escolher nosso trabalho, que iremos ainda desejar em nosso leito de morte, quando a mente não reconhecer mais nem esposa, nem amigo, nem trabalho. Enquanto existirmos, estará lá. Se perdemos isso, perdemos tudo.

(...) Em toda a sua vida, um êxtase inatingível tem pairado um pouco além do alcance de sua consciência. Perto está o dia em que você despertará para descobrir, além de toda a esperança, que você havia atingido o céu ou então que ele estava ao seu alcance, e você o perdeu para sempre.

C. S. Lewis, O problema do sofrimento. Cap. 10: O céu.

domingo, 7 de julho de 2013

A Graça e a aceitação feliz da nossa dependência total de Deus


As expressões de desmerecimento que a prática cristã põe na boca do fiel soam, para o mundo exterior, como as adulações degradantes e insinceras do bajulador diante do tirano, ou, na melhor das hipóteses, como um modo de falar, à maneira da autodepreciação do cavalheiro chinês ao se referir a si mesmo como "esta pessoa rude e iletrada". Na verdade, porém, elas expressam uma tentativa permanentemente renovada - porque permanentemente necessária - de refutar um equívoco sobre nós mesmos e sobre nossa relação com Deus que a natureza está nos sugerindo, mesmo quando rezamos. Tão logo acreditamos que Deus nos ama, imediatamente vem o impulso de acreditar que ele o faz não porque ele é Amor, mas porque nós somos intrinsecamente amáveis. Os pagãos obedeciam a esse impulso imperturbavelmente: o bom homem era "querido pelos deuses" por ser bom. Nós, tendo sido mais bem informados que eles, recorremos a subterfúgios. Longe de nós pensar que temos virtudes pelas quais Deus nos amaria. Mas veja só que magnífico o nosso arrependimento! Como diz Bunyan, descrevendo sua primeira e ilusório conversão: "Eu pensava que não havia ninguém na Inglaterra que agradasse mais a Deus do que eu". Quando nos dissuadimos dessa idéia, oferecemos a Deus nossa humildade para que ele admire. Disso ele vai gostar, não? Ou então oferecemos nossa nítida e humilde admissão de que ainda nos falta humildade. Assim, camada após camada e sutileza após sutileza, permanece em nós a obstinada idéia de que temos algum atrativo nosso, e só nosso. É facil admitir, mas quase impossível perceber por muito tempo, que somos espelhos cujo brilho - se é que o temos - deriva inteiramente do Sol que resplandece sobre nós. Mas certamente temos alguma luminosidade natural, por menor que seja, não? Não somos apenas criaturas, certo?

A graça substitui esse intrincado absurdo de uma necessidade, ou mesmo de um Amor-Necessidade, que jamais reconhece inteiramente a própria indigência por uma aceitação plena e infantil de nossa Necessidade - pela alegria da dependência total. Nós nos tornamos "mendigos felizes". O bom homem se entristece pelos pecados que lhe intensificaram a necessidade. Mas não se entristece de todo pela nova necessidade que produziram. E não se entristece nem um pouco pela necessidade intrínseca a sua condição de criatura. Afinal, essa ilusão a que a natureza se apega como último recurso, essa pretensão de que temos algo realmente nosso ou de que seríamos capazes de conservar, por uma hora, com nossas próprias forças, alguma bondade que Deus eventualmente tenha nos outorgado nos impede o tempo todo de ser felizes. Somos como um banhista tentando manter os pés - ou um dos pés, ou um dedo - no fundo do mar, porque perder o pé seria render-se a um glorioso abandono às ondas. As consequências de romper com nossa última pretensão de liberdade, poder ou valor intrínsecos são a liberdade, o poder e o valor verdadeiros, realmente nossos, simplesmente porque Deus os dá e por sabermos que (em outro sentido) não são "nossos". Anodos se livra de sua sombra.

C.S. Lewis, Os Quatro Amores. São paulo: WMF Martins Fontes, 2009. p.181-182.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O mal e a tentação


"Nenhum homem sabe quão mau ele é, até que ele tenha tentado de toda maneira ser bom. Uma idéia tola, mas muito atual é que as pessoas boas não conhecem o significado ou não passam por tentações. Isto é uma mentira óbvia. Só aqueles que tentam resistir à tentação, sabem quão forte ela é. Afinal de contas, você descobre a força do exército inimigo lutando contra ele, não cedendo a ele. Você descobre a força de um vento, tentando caminhar contra ele, não se deitando ao chão. Um homem que cede ante a tentação depois de cinco minutos, simplesmente não sabe o que teria acontecido se tivesse esperado uma hora. Esta é a razão pela qual as pessoas ruins, de certa forma, sabem muito pouco sobre sua maldade. Elas viveram uma vida abrigada por estarem sempre cedendo. Nós nunca descobrimos a força do impulso mal dentro de nós, até que nós tentamos lutar contra ele: e Cristo, porque Ele foi o único homem que nunca se rendeu a tentação, também é o único homem que conhece completamente o que tentação significa–o único realista no total sentido da palavra".

C. S. Lewis

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A impressão que Aslam deixou em Emeth


- Depois ele soprou sobre mim e fez cessar todo o tremor do meu corpo, firmando-me outra vez sobre os meus pés. Após isso, não disse mais muita coisa, a não ser que voltaríamos a nos encontrar e que eu deveria seguir sempre para a frente e sempre para cima. Então voltou-se como uma tempestuosa rajada de ouro e subitamente desapareceu.

- E desde então, ó reis e damas, ando perambulando à procura dele, e minha felicidade é tão imensa que até me enfraquece como uma ferida. E a maravilha das maravilhas é ter ele me chamado de amado - a mim, que não passo de um cão...

Emeth depois do seu encontro com Aslam

As Crônicas de Nárnia, A Última Batalha, Cap. 15.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A senha do Rei Tirian de Nárnia


Nenhuma das lanças agora erguia-se em saudação; ambas estavam abaixadas e prontas para a ação.

- Qual é a senha? - disse o soldado-chefe.

- Esta é a minha senha - exclamou o rei, sacando a espada. - Dissipem-se as trevas da mentira e brilhe a luz da verdade! Agora, canalha, em guarda, pois sou Tirian de Nárnia.

C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Última Batalha, Cap. 7.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A Montanha de Aslam


- Aqui estou - disse uma voz profunda atrás deles.

Era o próprio Leão, tão luminoso, real e forte, que tudo o mais começou a parecer pálido, embaçado. Antes que pudesse respirar fundo, Jill se esqueceu do rei morto de Nárnia e se lembrou apenas de como causara a queda de Eustáquio no penhasco, dos sinais esquecidos, das brigas e impertinências acontecidas. Queria dizer "sinto muito" mas não conseguia falar. O Leão, com os olhos, puxou as crianças para perto dele  e tocou-lhes os rostos pálidos com a língua. E falou:

- Não pensem mais nisso. Não me zango o tempo todo. Vocês cumpriram a missão que lhes foi confiada.

- Por favor, Aslam - disse Jill -, podemos ir para casa agora?

- Podem. Vim para levá-los.

Aslam abriu a boca e soprou. Dessa vez não tiveram a impressão de voar: em vez disso, era como se estivessem firmes no chão, e o hálito de Aslam soprasse para longe o navio, o rei morto, o castelo, a neve, o céu de inverno. Todas essas coisas flutuavam no ar como anéis de fumaça. Viram, de súbito, que estavam envolvidos por uma brilhante luminosidade de verão, em cima de um gramado, entre árvores grossas, à margem de um riacho límpido. Perceberam que se encontravam de novo na Montanha de Aslam, muito acima e muito além da terra de Nárnia. Estranho é que a marcha fúnebre do rei Caspian prosseguia, sem que se pudesse dizer de onde vinha. Caminhavam à beira do riacho com o Leão à frente: ele estava tão belo e a música era tão angustiante, que Jill não sabia de onde onde subiam as lágrimas.

Aslam parou e as crianças olharam para o riacho. Lá dentro, nos seixos dourados do leito do rio, estava o rei Caspian, morto, com a água deslizando por ele como se fosse um cristal líquido. As longas barbas brancas balouçavam como plantas aquáticas. Todos os três choraram. Até o Leão chorou: enormes lágrimas de leão, e cada lágrima era mais preciosa do que toda a Terra, ainda que esta fosse um imenso diamante. E Jill observou que Eustáquio não parecia um menino chorão, mas um homem ferido de dor adulta. Ali, naquela montanha, as pessoas não pareciam ter uma idade determinada.

- Filho de Adão - disse Aslam -, vá até aquele matagal e traga para mim o espinho que por lá encontrar.

- Eustáqui obedeceu. O espinho tinha três palmos de comprimento e espetava como um punhal.

- Enfie este espinho em minha pata, Filho de Adao - disse Aslam, estendendo uma pata dianteira para Eustáquio.

- Devo mesmo fazer isso? - perguntou o menino.

- Sim - respondeu Aslam.

Eustáquio apertou os dentes e enfiou o espinho na pata do Leão, de onde correu uma grande gota de sangue, mais vermelha do que se possa imaginar. E a gota correu e espalhou-se no riacho sobre o corpo do rei. E este começou a transformar-se: a barba branca ficou cinzenta, depois amarela, depois mais curta e desapareceu; as faces encovadas tomaram cores e formas; as rugas alisaram-se; os olhos abriram-se; olhos e lábios sorriram; de repente, o rei ergueu-se, ficando em pé perto deles. Era um homem muito jovem, talvez um rapaz. (Não se podia dizer com certeza, pois as pessoas não têm uma idade precisa no país de Aslam.) O rei passou os braços em torno do pescoço de Aslam, dando-lhe beijos viris de rei, respondidos com beijos agrestes de leão.

Por fim Caspian voltou-se para os outros, rindo-se com espantada alegria:

- Eustáquio! Eustáquio! Quer dizer que você conseguiu alcançar o fim do mundo! Que aconteceu com a minha espada que você quebrou na Serpente do Mar?

Eustáquio deu uns passos na direção dele, as duas mãos estendidas, recuando logo com uma expressão perturbada.

- Olhe aqui - gaguejou o menino. - Está tudo muito bem, mas... é você mesmo? Quero dizer...

- Não seja tolo - falou Caspian.

- Mas - prosseguiu Eustáquio, olhando para Aslam - ele afinal não... morreu?

- Morreu - respondeu o Leão tranquilamente, quase como se estivesse satisfeito (foi o que Jill achou). - Ele morreu. Isso acontece muito, como você deve saber. Até eu morri. Há muitos poucos que não morreram.

- Ah - disse Caspian -, estou entendendo: você está pensando que eu sou um fantasma ou outro absurdo qualquer. Mas pense melhor: eu seria um fantasma em Nárnia, pois de Nárnia não sou mais. Mas ninguém é fantasma em sua própria terra. No eu mundo eu seria um fantasma. Será? Já que estão aqui, talvez aquele mundo também não seja mais o de vocês.

Uma grande esperança alvoroçou o coração das crianças. Mas Aslam balançou a cabeça felpuda.

- Não, meus queridos. Quando me encontrarem aqui outra vez, então ficarão. Agora, não. Precisam voltar ao mundo de vocês por algum tempo.

C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Cadeira de Prata, Cap. 16.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A fidelidade a Nárnia contra a retórica do submundo



Para entender o que vai abaixo, saiba o leitor que a cena se dá dentro de um mundo subterrâneo, tão abaixo da superfície que lhes é estranho e distante tudo o que se passa aqui em cima. Note ainda como a argumentação sofística da bruxa se assemelha, em vários pontos, à retórica ateísta.

***

A bruxa nada disse, mas andou vagarosamente pela sala, conservando os olhos fixos no príncipe. Ao chegar a uma arca não longe da lareira, abriu-a, apanhando lá dentro um punhado de pó verde, que atirou ao fogo. Não fez o fogo arder muito, mas um aroma muito doce e inebriante encheu a sala. Durante a conversa que se seguiu o cheiro foi ficando mais intenso, dificultando o ato de pensar. Em seguida, ela pegou um instrumento meio parecido com um bandolim e começou a tocar um repenicado monótono que se fez despercebido depois de poucos minutos. Também isso atrapalhava o raciocínio. Depois de ter tocado por algum tempo, com o aroma doce cada vez mais forte, começou a dizer numa voz macia:

- Nárnia? Nárnia? Ouvi Vossa Alteza pronunciar esse nome durante os delírios. Querido príncipe, você está muito doente. Não há nenhuma terra chamada Nárnia.

- Há sim, madame - interrompeu Brejeiro. - Eu mesmo passei lá minha vida inteira.

- Que interessante! - disse a bruxa. - Mas diga-me por favor uma coisa: onde é essa terra?

- Lá em cima - respondeu Brejeiro, decidido, apontando para o teto. - Mas onde fica exatamente, não sei.

- Como assim? - perguntou a rainha, com uma risadinha musical. - Existe então um país lá em cima, no meio das pedras e do reboco do teto?

- Não - respondeu Brejeiro, respirando com certa dificuldade. - O país fica por cima. É o Mundo de Cima.

- E onde fica... como é o nome... esse Mundo de Cima?

- Oh, deixe de bancar a boba - disse Eustáquio, que lutava contra o encantamento produzido pelo doce aroma e o repenicar do bandolim. - Como se não estivesse cansada de saber! É lá em cima, lá onde você pode ver o céu, o Sol e as estrelas. Esta é boa! Você já esteve lá! Nós nos encontramos lá!

- Peço perdão, irmãozinho - riu-se a bruxa, uma delícia de riso. - Não me lembro desse encontro. Quando sonhamos é que costumamos encontrar os nossos amigos em lugares estranhos. Mas, a não ser que sonhemos o mesmo sonho, não é razoável pedir que se lembrem.

- Senhora - disse o príncipe gravemente -, já lhe disse que sou filho do rei de Nárnia.

- E será, meu amigo - disse a rainha numa voz ciciante, como se estivesse acalmando uma criança -, será rei de muitas terras imaginárias.

- Também estivemos lá - falou Jill com impertinência. Estava furiosa por perceber que o feitiço ia tomando conta dela.

- E você também é rainha de Nárnia, não é, minha belezinha? - disse a feiticeira, na mesma voz insinuante, mas meio zombeteira.

- Negativo - respondeu Jill, batendo com o pé. - Nós somos de outro mundo.

- Ah, que maravilha! Diga-me, senhorita, onde fica esse outro mundo? Quais os navios e carruagens que fazem o transporte para cá?

Uma cachoeira de lembranças caiu sobre Jill: o Colégio Experimental, sua casa, aparelhos de rádio, automóveis, aviões, engarrafamento, filas. Mas pareciam imagens apagadas e distantes. (Drim-drim-drim, repenicava o bandolim) Jill não conseguia lembrar-se das coisas de nosso mundo. E dessa vez não lhe ocorreu que estava sendo enfeitiçada, pois a magia atingira o auge. Surpreendeu-se dizendo (e era um alívio dizê-lo) o seguinte:

- Acho que o outro mundo deve ser um sonho.

- Claro. O outro mundo é um sonho - disse a bruxa, sempre repenicando.

- Um sonho - repetiu Jill.

- Nunca existiu esse mundo - disse a feiticeira.

Jill e Eustáquio falaram ao mesmo tempo:

- Nunca existiu esse mundo.

- Só existe um mundo - continuou a bruxa -, o meu.

- Só existe o seu mundo - disseram eles.

Brejeiro ainda tentava resistir:

- Não sei direito o que você entende por um mundo - disse, como alguém que não respira ar suficiente. - Mas pode tocar essa rabeca até que seus dedos caiam no chão; mesmo assim nunca vou me esquecer de Nárnia. E nem do Mundo de Cima. Imagino que nunca mais o veremos, pois é bem provável que o tenha obscurecido como fez a este mundo. Mas vou saber sempre que estive lá. Já vi o céu cheio de estrelas. Já vi o Sol nascente no mar e sumindo atrás das montanhas ao cair da noite. E vi também o Sol ao meio dia, cujo brilho nos fere a vista.

As palavras de Brejeiro tiveram um efeito estimulante. Os outros três respiraram de novo e se olharam como pessoas que despertam.

- Que Aslam abençoe o nosso bom paulama - disse o príncipe. - Estivemos sonhando. Como iríamos esquecer? Todos nós já vimos o Sol.

- É claro que sim! - gritou Eustáquio. - Muito bem, Brejeiro. Você é o único aqui que não perdeu o juízo.

E mais uma vez se ouviu a voz da feiticeira arrulhando como uma pombarola no alto da árvore de um velho quintal, às três horas de uma sonolenta tarde de verão:

-  De que sol vocês estão falando? Essa palavra significa alguma coisa?

- Significa muito! - respondeu Eustáquio.

- Poderiam contar-me como é o sol? (Drum-drim-drim)

- Por obséquio, Majestade - disse o príncipe, com fria polidez. - Vê aquela lâmpada redonda e amarela iluminando a sala? O que chamamos Sol é parecido, só que é muito maior e muito mais brilhante e ilumina todo o Mundo de Cima. E em vez de estar preso no teto, está solto no céu.

- Solto onde? - E enquanto pensavam na resposta, ela prosseguiu, com uma de suas risadinhas melodiosas: - Estão vendo? Quando vocês procuram saber o que deve ser realmente o tal de sol, não conseguem. Só sabem dizer que parece uma lâmpada. O sol de vocês é um sonho, e não há nesse sonho nada que não tenha sido copiado de uma lâmpada. A lâmpada é real; o sol não passa de uma invenção, uma história para crianças.

- Ah, sim, é verdade - disse Jill com uma voz pesada e sem esperança. - Deve ser isso mesmo. - E acreditava que estava sendo muito sensata.

Lenta, gravemente, a feiticeira repetia: "Não há Sol." E eles nada mais diziam. "Não há Sol" - ela repetia, com a voz mais branda e profunda. Depois de uma pausa e de um conflito em seus espíritos, todos os quatro disseram: "Certo. Não há Sol". Era um alívio desistir e reconhecer que o Sol nunca existira.

Nos últimos minutinhos Jill sentira que havia alguma coisa da qual, a todo custo, tinha de se lembrar. E agora conseguia. Era entretanto tremendamente difícil dizê-la. Sentia como se enormes fardos pesassem em sua boca. Por fim, com um esforço que pareceu axauri-la, disse:

- Aslam existe.

- Aslam? - disse a feiticeira, apressando ligeiramente o repenicado de seu instrumento. - Que lindo nome! Que significa Aslam?

- Aslam é o grande Leão que nos chamou de nosso mundo - disse Eustáquio - e aqui nos enviou em busca do príncipe Rilian.

- Leão, o que é um leão? - perguntou a bruxa;

- Ora, não amole - respondeu Eustáquio. - Não sabe? Como é que eu vou descrever um leão? Já viu um gato?

- Claro, adoro gatos - respondeu a feiticeira.

- Bem, um leão é um pouquinho... só um pouquinho, hein... parecido com um gato enorme com uma juba. E é amarelo. E é incrivelmente forte.

A feiticeira balançou a cabeça:

- Acho que o leão de vocês vale tanto quanto o sol. Viram lâmpadas, e acabaram imaginando uma lâmpada maior e melhor, a que deram o nome de sol. Viram gatos, e agora querem um gato maior e melhor, chamado leão. É puro faz-de-conta, mas, francamente, já estão meio crescidos demais para isso. Já repararam que esse faz-de-conta é copiado do mundo real, do meu mundo, que é o único mundo? Já estão grandes demais para isso, jovens. Quanto ao meu príncipe, um homem feito, que vergonha! Brincando depois de grande! Venham. Esqueçam essas fantasias infantis. Tenho trabalho para vocês no mundo real. Não há Nárnia, não há Mundo de Cima, não há céu, nem Sol, nem Aslam. Agora, cama. E vamos começar vida nova amanhã. Primeiro, cama. Dormir. Dormir bem, um travesseirinho macio, um sono sem sonhos bobos.

O príncipe e as duas crianças estavam de cabeça caída, as faces coradas, os olhos semicerrados; fugira-lhes toda a energia, o sortilégio era quase total. Mas Brejeiro, juntando desesperadamente o resto de suas forças, caminhou até a lareira. E praticou então uma proeza de rara coragem. Sabia que não doeria tanto quanto em um ser humano, pois seus pés (sempre nus) eram membranosos, duros e frios como pés de pato. Mas sabia que iria doer bastante; mesmo assim o fez: espezinhou as brasas, apagando um pouco o fogo. Três coisas aconteceram.

Primeiro: o doce e pesado aroma diminuiu muito. O cheiro de paulama assado, que não é inebriante, predominou na sala. O cérebro de todos ficou mais limpo. O príncipe e as crianças ergueram as cabeças e abriram os olhos.

Segundo: a feiticeira, num tom terrível, completamente diferente da voz doce que havia usado até então, de um berro:

- O que está fazendo? Se ousar tocar no meu fogo outra vez, porcalhão imundo, vou transformar em fogo o sangue de suas veias!

Terceiro: a própria dor esclareceu completamente a cabeça de Brejeiro, pois não há nada como um impacto doloroso para desfazer certas espécies de magia.

- Uma palavrinha, dona - disse ele, mancando de dor -, uma palavrinha: tudo o que disse é verdade. Sou um sujeito que gosta logo de saber tudo para enfrentar o pior com a melhor cara possível. Não vou negar nada do que a senhora disse. Mas mesmo assim uma coisa ainda não foi falada. Vamos supor que nós sonhamos, ou inventamos, aquilo tudo - árvores, relva, sol, lua, estrelas e até Aslam. Vamos supor então que esta fossa, este seu reino, seja o único mundo existente. Pois, para mim, o seu mundo não basta. E vale muito pouco. E o que estou dizendo é engraçado, se a gente pensar bem. Somos apenas uns bebezinhos brincando, se é que a senhora tem razão, dona. Mas quatro crianças brincando podem construir um mundo de brinquedo que dá de dez a zero no seu mundo real.

C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Cadeira de Prata, Cap. 12.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Conversa entre Jill e Aslam


Ao parar, Jill sentiu uma sede enorme. Havia chorado de cara contra o chão, mas agora estava sentada. As aves não cantavam mais. O silêncio seria total, não fosse um barulhinho insistente que parecia vir de longe. Ouviu com atenção e teve quase certeza de que se tratava de água corrente.

Levantou-se e olhou em torno, atenta. Nenhum sinal do Leão [1], mas, com tantas árvores por ali, podia ser que ele estivesse por perto. A sede era intolerável e ela juntou coragem para localizar a água. Na ponta dos pés, escondendo-se de árvore em árvore, espreitando por todos os cantos, avançou. A floresta estava tão quieta que não era difícil descobrir de onde vinha o ruído. Numa clareira corria o riacho, brilhante como um espelho. Apesar da visão da água multiplicar sua sede, não correu logo para beber. Ficou paradinha, como se fosse de pedra, boquiaberta. Motivo: o Leão estava postado exatamente à beira do riacho, cabeça erguida, patas dianteiras esticadas. Não havia dúvida de que a vira, pois olhou dentro dos olhos dela por um instante e virou-se para o lado, como se a conhecesse há muito tempo e não precisasse dar-lhe muita atenção.

Ela pensou: "Se eu correr, ele me pega; se eu ficar, ele me come." [2]

De qualquer forma, mesmo que tivesse tentado, não teria saído do lugar. Não tirava os olhos de cima do Leão. Quanto tempo durou isso não saberia dizer. Pareciam horas. A sede era tão forte que chegou a pensar que pouco se importaria em ser comida pelo animal, desde que desse tempo de beber um bom gole.

- Se está com sede, beba. [3]

Eram as primeiras palavras que ouvia desde que Eustáquio falara com ela à beira do abismo. Por um segundo procurou descobrir quem falara.

A voz voltou:

- Se está com sede, venha e beba.

Lembrou-se naturalmente do que dissera Eustáquio sobre os animais falantes daquele outro mundo e percebeu que era a voz do Leão. Não se parecia com a voz humana: era mais profunda, mais selvagem, mais forte. Não ficou mais amedrontada do que antes, mas ficou amedrontada de um modo diferente.

- Não está com sede? - perguntou o Leão.

- Estou morrendo de sede.

- Então, beba.

- Será que eu posso... você podia... podia arredar um pouquinho para lá enquanto eu mato a sede?

A resposta do Leão não passou de um olhar e um rosnado baixo. Era (Jill se deu conta disso ao defrontar o corpanzil) como pedir a uma montanha que saísse do seu caminho.

O delicioso murmúrio do riacho era de enlouquecer.

- Você promete não fazer... nada comigo... se eu for?

- Não prometo nada - respondeu o Leão. [4]

A sede era tão cruel que Jill deu um passo sem querer.

- Você come meninas? - perguntou ela.

- Já devorei meninos e meninas, homens e mulheres, reis e imperadores, cidades e reinos - respondeu o Leão, sem orgulho, sem remorso, sem raiva, com a maior naturalidade.

- Perdi a coragem - suspirou Jill.

- Então vai morrer de sede.

- Oh, que coisa mais horrível! - disse Jill dando um passo à frente. - Acho que vou ver se encontro outro riacho.

- Não há outro - disse o Leão. [5]

Jamais passou pela cabeça de Jill duvidar do Leão [6]; bastava olhar para a gravidade de sua expressão. De repente, tomou uma resolução. Foi a coisa mais difícil que fez na vida, mas caminhou até o riacho, ajoelhou-se  [7] e começou a apanhar água na concha da mão. A água mais fresca e pura que já havia bebido. E não era preciso beber muito para matar a sede. Antes de beber, havia imaginado sair em disparada logo depois de saciada. Percebia agora que seria a coisa mais perigosa. Ergueu-se de lábios ainda molhados.

- Venha cá - disse o Leão.

E ela foi. Estava agora quase entre as patas dianteiras do Leão, olhando-o diretamente nos olhos. Mas não aguentou isso por muito tempo e desviou o olhar. [8]

- Criança humana - disse o Leão -, onde está o menino?

- Caiu no abismo - respondeu Jill, acrescentando: - ... Senhor. [9] - Não sabia como tratá-lo e seria uma desfeita não lhe dar tratamento algum.

- Como foi isso?

- Ele estava querendo me segurar, para eu não cair.

- Por que você chegou tão perto do abismo, criança humana?

- Eu queria fazer bonito, senhor.

- Gostei da resposta, criança [10]. Não faça mais isso. - Pela primeira vez a face do Leão mostrou-se um pouco menos severa. - O menino está bem. Foi soprado para Nárnia. A sua missão é que ficou mais difícil.

- Qual missão, por favor?

- A missão que me fez chamá-los aqui, fora do mundo de vocês.

Jill ficou intrigadíssima, achando que o Leão a tomava por outra pessoa. Não tinha coragem de revelar isso, apesar de sentir que podia dar uma confusão medonha.

- Diga o que está pensando, criança. [11]

- Eu estava imaginando... quer dizer... não está havendo um engano? Acontece que ninguém chamou a gente aqui. Nós é que pedimos para vir. Eustáquio disse que devíamos chamar... alguém... não me lembro do nome... e que esse alguém talvez nos deixasse entrar. Foi o que fizemos, e então encontramos a porta aberta.

- Não teriam chamado por mim se eu não houvesse chamado por vocês. [12]

- Então o senhor é o Alguém? - perguntou Jill.

- Sim."

C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Cadeira de Prata, Cap. 2.

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A numeração no texto foi feita por mim. Quero somente comentar brevemente a respeito destes pontos.

1- Penso ser sabido que as Crônicas de Nárnia são uma estória de fundo cristão. Aslam é naturalmente um símbolo de Jesus. Interessante ser o Cristo representado por um Leão, pois: 1- O leão comumente simboliza a majestade; 2- "Leão de Judá" é um dos nomes dados a Jesus na Sagrada Escritura.
2- Uma suposição errada fundamentada no medo e que só faz perder tempo. Muito comum.
3- Assemelha-se ao que Jesus diz: "Quem estiver com sede, venha a Mim, e beba". Deste modo, o riacho pode querer representar o próprio Aslam, ou o Cristo.
4- Só compreendendo como o Aslam é bondoso para apreciar o gracejo. Além disto, é óbvio que Ele não poderia prometer não influenciar de nenhum modo; isso seria impossível. Mas o fato de não explicar a expressão, revela um bom humor delicioso que Lewis atribui a Deus.
5- Aqui parece haver uma referência à absoluta exclusividade do Cristo. De fato, não há outro em quem podemos nos saciar, ou, nos dizeres de S. Pedro: "A quem iremos se só Tu tens a vida?"
6- Sendo o Cristo a própria verdade, não é possível duvidar d'Ele quando estamos na Sua presença, a menos que sejamos totalmente corruptos interiormente.
7- O fato de ajoelhar-se antes de beber da fonte é muito significativo.
8- Aqui há uma coisa interessante. S. João da Cruz, expressando o olhar de Cristo, escreve: "Aparta-os, Amado, que eu alço vôo". Sta Teresa diz o mesmo, completando que, embora o olhar enamorado do Cristo seja o que a pessoa mais deseja, no entanto, ela como que não o suporta e termina por pedir que Ele os afaste. Estas referências místicas parecem se fundamentar no livro dos Cânticos, onde se diz algo similar.
9- O fato de Jill querer usar algum tipo de tratamento, demonstra que ela reconhecia estar diante de uma autoridade. Jesus, embora despido de suas vestes reais, é Rei pela própria natureza. Sta Teresa D'Avila dizia justamente isto: "a Realeza é algo que Lhe pertence". Na primeira das Crônicas de Nárnia, o castor, referindo-se a Aslam, diz: "Ele é Rei, digo e repito". Quando estamos diante d'Ele, é natural que assumamos uma atitude de máximo respeito. Observar a atitude dos reis Magos quando, ultrapassando o véu das aparências, deram-se conta de Quem estava diante deles. Comentando sobre este episódio, S. Pedro Julião Eymard escreve: "curvar-se-iam até as entranhas da terra, se pudessem".
10- Jesus é grande amigo da sinceridade. Lembremos da parábola da festa, onde alguém surge sem as vestes apropriadas. Interrogado sobre a causa de estar ali sem a roupa devida, o rapaz não responde nada. Não disse nada porque não é possível dissimular ou inventar desculpas diante do Cristo. Nosso Senhor ama a verdade. Diante d'Ele, é preciso uma total sinceridade e transparência.
11- Aqui, mais uma vez, Jill pretendia ocultar algo que pensava. Mas Aslam lhe pede mantenha a transparência.
12- Lembrar aqui do que Jesus fala: "Ninguém vem a Mim se antes o Pai não o atrair".

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Despedida de Nárnia - Aslam também está em nosso mundo


"Quando o sol nasceu, desvaneceu-se a visão das montanhas. As crianças saíram do bote e começaram a patinhar para o sul, com a parede de água à esquerda. Não sabiam por que fizeram assim; era o destino. Apesar de a bordo do Peregrino se sentirem muito crescidos, agora tinham a sensação contrária e davam-se as mãos entre os lírios.

Nunca se sentiram tão cansados. A água estava morna e era cada vez menos funda. Por fim, caminhavam na areia e depois na relva - por uma extensa planície de relva rasteira e bela, que se estendia em todas as direções, quase no mesmo nível do Mar de Prata.

Como sempre acontece em uma planura sem árvores, parecia que o céu se juntava com a relva, lá longe. Quando avançaram mais, tiveram a estranha sensação de que, pelo menos ali, o céu descia de fato e unia-se à terra - em uma parede muito azul, muito brilhante, mas real e concreta, parecendo vidro. Depois tiveram a certeza total. Estavam agora muito perto. Entre eles e a base do céu havia algo tão branco que, até mesmo com seus olhos de águia, dificilmente poderiam fitar. Continuaram e viram que era um cordeiro.

- Venham almoçar - disse o Cordeiro na sua voz doce e meiga.

Notaram que ardia sobre a relva uma fogueira, na qual se fritava peixe. Sentaram-se e comeram, sentindo fome pela primeira vez desde muitos dias. E aquela comida era a melhor de todas as que haviam provado.

- Por favor, Cordeiro - disse Lúcia -, é este o caminho para o país de Aslam?

- Para vocês, não - respondeu o Cordeiro - Para vocês, o caminho de Aslam está no seu próprio mundo.

- No nosso mundo também há uma entrada para o país de Aslam? - perguntou Edmundo.

- Em todos os mundos há um caminho para o meu país - falou o Cordeiro. E, enquanto ele falava, sua brancura de neve transformou-se em ouro quente, modificando-se também sua forma. E ali estava o próprio Aslam, erguendo-se acima deles e irradiando luz de sua juba.

- Aslam! - exclamou Lúcia. - Ensina para nós como poderemos entrar no seu país partindo do nosso mundo.

- Irei ensinando pouco a pouco. Não direi se é longe ou perto. Só direi que fica do lado de lá de um rio. Mas nada temam, pois sou eu o grande Construtor da Ponte. Venham. Vou abrir uma porta no céu para enviá-los ao mundo de vocês.

- Por favor, Aslam - disse Lúcia -, antes de partirmos, pode dizer-nos quando voltaremos a Nárnia? Por favor, gostaria que não demorasse...

- MInha querida - respondeu Aslam muito docemente, você e seu irmão não voltarão mais a Nárnia.

- Aslam! - exclamaram ambos, entristecidos.

- Já são mutio crescidos. Têm de chegar mais perto do próprio mundo em que vivem.

- Nosso mundo é Nárnia - soluçou Lúcia. - Como poderemos viver sem vê-lo?

- Você há de encontrar-me, querida - disse Aslam.

- Está também em nosso mundo? - perguntou Edmundo.

- Estou. Mas tenho outro nome. Têm de aprender a conhecer-me por esse nome. Foi pro isso que os levei a Nárnia, para que, conhecendo-me um pouco, venham a conhecer-me melhor."

C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Viagem do Peregrino da Alvorada, Cap. 16.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Você é um homem ou um rato? A determinação de Ripchip


Nesse tempo em que o GRAA passa por certas dificuldades e, com o barco encostado, discute-se sobre o seu futuro, eis um texto muito apropriado: a tripulação de Caspian, tendo chegado a uma certa ilha e deparando-se com um banquete digno de um rei e que se estenderia pelos dias indefinidamente, hesita em prosseguir até o Fim do Mundo. O Peregrino, o barco que utilizam, esperava perto da praia. Alguns integrantes da população estavam indecisos e pareciam querer voltar. Então Rinelfo, um dos mais leais a Caspian, falou o seguinte:

**
- Majestades, meus senhores e minhas senhoras, gostaria apenas de lembrar uma coisa: ninguém veio obrigado a esta viagem. Viemos todos por livre e espontânea vontade. Muitos, que estão agora olhando para esta mesa como doidos, proclamavam em voz bem alta, no dia da partida, em Cair Paravel, que haveriam de correr as mais fantásticas aventuras e juravam não voltar sem ter chegado ao Fim do Mundo. No cais ficaram muitos que tudo dariam para vir conosco. Não sei se entendem o que quero dizer. Mas, na minha opinião, aquele que desistir agora, depois de tantas aventuras por estes mares, será mais estúpido do que os Tontos*. Ora, chegar ao princípio do Fim do Mundo e não ter a coragem de prosseguir!

Alguns marinheiros aplaudiram, mas outros não gostaram nada.

- Isto não vai ser brincadeira - murmurou Edmundo para Caspian. - Que iremos fazer se estes caras não quiserem ir?

- Calma: ainda tenho um trunfo!

- Você não diz nada, Ripchip? - sussurrou Lúcia.

- Não. Por que acha Vossa Majestade que devo falar? - respondeu o rato, numa voz que quase todos ouviram.

- Os meus planos estão traçados. Enquanto puder, navegarei para o oriente no Peregrino. Quando o perder, remarei no meu bote. Quando o bote for ao fundo, nadarei com as minhas patas. E, quando não puder nadar mais, se ainda não tiver chegado ao país de Aslam, ou atingido a extremidade do mundo, afundarei com o nariz voltado para o leste, e outro será o líder dos ratos falantes de Nárnia."

* Tontos era uma raça engraçada de ex-anões que não se distinguia pela inteligência.

C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Viagem do Peregrino da Alvorada, Cap. 14

Antes de ver Aslam, é preciso estar amadurecido


Lúcia seguiu o Leão pelo corredor e viu de repente, vindo na direção deles, um homem idoso, descalço e de túnica vermelha. Coroava-lhe o cabelo branco uma grinalda de folhas de carvalho, a barba chegava-lhe à cintura, e ele apoiava-se num bastão todo trabalhado. Fez uma referência profunda ao ver Aslam e disse:

- Bem-vindo à mais humilde das casas, senhor.

- Está aborrecido, Coriakin, por ter de governar uns súditos tão apalermados como os que lhe dei?

- Não - respondeu o mágico. - São de fato muito estúpidos, mas não são perigosos. Já estou até gostando deles. Algumas vezes perco um pouco a paciência, esperando o dia em que poderão ser governados pela sabedoria e não por esta magia rudimentar.

- Tudo a seu tempo, Coriakin - disse Aslam.

- Vai aparecer para eles? - perguntou o ancião.

- Não - disse o leão com um rugido, que queria dizer (pensou Lúcia) o mesmo que uma risada. - Ficariam assustados demais. Muitas estrelas envelhecerão e virão descansar nas ilhas antes que o seu povo esteja amadurecido para isso.

C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Viagem do Peregrino da Alvorada, Cap. 11

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A chegada de Aslam, para imensa alegria de alguns e terror de outros.


- Que aconteceu, Aslam? - perguntou Lúcia, com os olhos a bailar e os pés desejosos de fazer o mesmo.

- Vamos, minhas filhas - disse ele. - Hoje vão andar outra vez nas minhas costas.

- Que bom! - gritou Lúcia.

E as duas meninas subiram para o dorso quente e fulvo, como tinham feito sabe-se lá há quantos anos. Todo o grupo se pôs em movimento. Aslam à frente, seguido de Baco e das mênades - que corriam e saltavam e davam cambalhotas -, depois os animais cabriolando e finalmente Sileno, montado no seu burro.

Cortaram à direita, lançaram-se por uma encosta a pique e foram sair no Passo do Beruna. Da água emergiu uma cabeça coroada de juncos, maior que a de um homem e com a barba a pingar. Olhou para Aslam e disse, numa voz grave:

- Salve, Senhor! Liberte-me dos meus grilhões.

- Quem é? - perguntou Susana num murmúrio.

- Psiu! - disse Lúcia. - Deve ser o deus do rio.

- Baco, liberte-o das cadeias! - ordenou Aslam.

"Deve estar falando da ponte" - pensou Lúcia.

E era, de fato. Baco e sua gente avançaram chapinhando pela água pouco profunda; um instante depois, aconteciam as coisas mais estranhas. Troncos grossos e fortes enrolavam-se pelos pilares da ponte e, alastrando-se como o fogo, envolviam as pedras, separando-as, fazendo-as estalar. As grades da ponte transformaram-se por um momento em bonitas sebes de espinheiro branco. De repente, toda a construção desabou com estrondo e foi engolida pelas águas. Entre nuvens de salpicos e gritos de riso, parte do alegre grupo atravessou o rio a vau, enquanto outros o atravessaram a nado ou a bailar, saltando para a outra margem. Entraram todos na cidade.

- Viva! É outra vez o Passo do Beruna! - gritaram as meninas.

Ao vê-los, toda a gente da cidade desatou a correr.

A primeira casa que encontraram foi uma escola, uma escola de meninas, onde uma porção de alunas de Nárnia, com o cabelo muito esticado e golas muito apertadas e feias, e usando meias muito grossas, assistia a uma aula de História.

A História que se aprendia em Nárnia durante o reinado de Miraz era mais insípida do que a história mais verdadeira que se possa imaginar e muito menos verdadeira do que o mais apaixonante conto de aventuras.

- Goendolina, se continuar olhando para fora e não prestar atenção, dou-lhe um castigo! - disse a professora.

- Por favor... - disse Goendolina.

- Ouviu ou não ouviu o que eu disse?

- Mas, professora - insistiu  Goendolina - lá fora tem um leão!

- Em vez de um, vou lhe dar dois castigos, para você não dizer bobagens. E agora...

Um rugido cortou-lhe a palavra. E a hera começou a crescer e enroscar-se pelas janelas da sala de aula. As paredes ficaram atapetadas de um verde cintilante e o teto cobriu-se de folhas. De repente, a professora percebeu que estava na floresta, numa clareira relvada. Quis agarrar-se à carteira para apoiar-se e viu que esta se transformava numa roseira. Gente selvagem, como ela nunca imaginara que pudesse existir, comprimia-se ao redor. Ao ver o Leão, começou a gritar e a fugir, e com ela toda a classe, formada na maior parte por meninas rechonchudas e de pernas roliças. Goendolina hesitou.

- Quer ficar conosco, querida? - perguntou Aslam.

- Posso? Mesmo? Muito obrigada.

E imediatamente deu a mão a duas mênades, que a fizeram rodopiar numa dança frenética e a ajudaram a despir parte da roupa desnecessária e incômoda que trazia.

Por todos os lados por onde passavam, a cena se repetia. A maioria das pessoas fugia e umas poucas juntavam-se a eles. Quando saíram da cidade formavam um grupo muito maior e mais animado.

Correram pelos campos planos da margem esquerda do rio. De todas as quinas saíam animais que vinham ter com eles. Burros velhos e tristes, que nunca tinham conhecido uma hora de alegria, rejuvenesciam de um momento para outro; cães que estavam presos quebravam as correntes; os cavalos escoiceavam até deixar as carroças em frangalhos e acompanhavam o bando a galope - clope, clope, clope -, relinchando e sacudindo a lama dos cascos.

Junto de um poço, num pátio, um homem espancava um rapaz. O chicote transformou-se numa flor. O homem tentou soltá-la, mas estava agarrada à sua mão. Seu braço transformou-se num ramo, o corpo num tronco, os pés criaram raízes. O rapaz, que há pouco chorava, desatou a rir e foi com eles.

Numa cidadezinha, a meio caminho do Dique dos Castores, encontraram outra escola, onde uma mocinha com ar de cansado ensinava Aritmética a uns meninos muito parecidos com porquinhos. A mocinha olhou pela janela e viu o grupo brincalhão. Tremeu de alegria. Aslam parou debaixo da janela e olhou para ela.

- Oh, não! Queria muito, mas não posso. Tenho de trabalhar. As crianças morreriam de suste se vissem você.

- Morrer de susto? - disse um menino que, mais do que qualquer outro, parecia um leitão. - Com quem está falando? Temos de dizer ao diretor que ela fica conversando com as pessoas à janela quando a obrigação dela é dar aula.

- Só quero ver quem é! - disse outro menino, e todos se levantaram.

Mas no momento em que as carinhas bobocas assomaram à janela, Baco soltou o seu auan-euan-eoooi, e os meninos começaram a gritar assustados e atropelaram-se para sair pela porta ou saltar pela janela. Diz-se que esses meninos nunca mais foram vistos, mas que nessa região apareceu uma raça muito apurada de porquinhos que até então nunca havia existido.

- Venha, minha cara - disse Aslam à senhorita. E ela foi.

No Dique dos Castores voltaram a atravessar o rio e chegaram a uma casinha onde uma menina chorava.

- Por que chora, meu bem? - perguntou Aslam.

A criança, que nunca vira um leão, nem mesmo desenhado, não se assustou.

- Minha tia está muito doente e vai morrer.

Aslam quis entrar pela porta, mas era pequena demais para ele. Enfiou a cabeça, fez força com os ombros (nessa altura, Lúcia e Susana escorregaram e caíram) e, levantando toda a casa, colocou-a abaixo.

Na cama, agora ao ar livre, via-se deitada uma velhinha franzina, que parecia ter sangue de anão. Estava às portas da morte, mas, quando abriu os olhos e viu a juba brilhante do Leão, não gritou nem desfaleceu. Exclamou apenas:

- Oh, Aslam! Sabia que era verdade. Esperei a vida toda por este momento. Veio para me levar?

- Sim, minha querida - disse Aslam. - Mas ainda não para a viagem final.

E, enquanto falava, como o rubor que se insinua nas nuvens ao nascer do sol, a cor voltou-lhe ao rosto pálido, os olhos readquiriram brilho e, sentando-se, ela disse:

- Estou muto melhor. Acho que seria capaz de comer alguma coisa.

- Aqui, titia - disse Baco, enchendo uma bilha no poço.

Mas a bilha, em vez de água, continha o mais perfumado dos vinhos, vermelho como geléia de groselha, suave como o azeite, forte como um bom bife, reconfortante como o chá, geladinho como o orvalho.

- Oh! - exclamou a velha. - O poço mudou, sem dúvida. Está muito melhor assim! - E saltou da cama.

- Suba às minhas costas - disse Aslam, e, para as duas meninas: - Vocês terão de ir a pé.

- Adoramos correr. - E partiram imediatamente.

- Foi assim que, entre saltos, danças, cantos e ruídos de animais, o bando chegou finalmente ao lugar onde o exército de Miraz se alinhava, de espadas no chão e mãos para o ar, e onde os homens de Pedro, com uma expressão severa mas alegre, e ainda de armas nas mãos, cercavam, ofegantes, os vencidos. Então, a velha desceu das costas de Aslam e correu para Caspian... e caíram nos braços um do outro. Porque era, nem mais nem menos, a velha ama do príncipe.

Ao ver Aslam, os soldados telmarinos ficaram lívidos, seus joelhos começaram a bater, e muitos caíram de cara no chão. Nunca tinham acreditado em leões, e a descrença aumentava ainda mais seu terror. Os próprios anões vermelho,s que sabiam que vinha como amigo, ficaram boquiabertos e mudos. Alguns dos anões negros, que tinham tomado o partido de Nikabrik, correram a esconder-se. Os animais falantes, porém, reuniram-se todos à volta do Leão. Alegres, rosnavam, guinchavam, relinchavam, ora acariciando o Leão, roçando-se nele, farejando-o delicadamente, ora andando de um lado para outro, por entre suas pernas. Se alguma vez você já viu um gatinho fazendo festas a um cachorro grande, no qual confia, poderá imaginar o que foi aquilo tudo.

C.S. Lewis, Crônicas de Nárnia, Príncipe Caspian, Cap 14-15.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Caspian começa a ficar livre


"Dormir ao ar livre, beber apenas água, alimentar-se quase exclusivamente de nozes e frutos do mato foi uma experiência completamente nova para quem, como Caspian, estava habituado a deitar em lençóis de linho no quarto atapetado de um palácio, a ter as refeições servidas numa antecâmara, em baixelas de prata e ouro, com muitos criados prestimosos. Nunca Caspian fora tão feliz. Nunca o sono o deixara tão descansado, nem a comida lhe parecera tão saborosa: assim, começou a ficar maduro de espírito, e seu rosto adquiriu uma expressão régia.

C.S.Lewis, As Crônicas de Nárnia, Príncipe Caspian, Cap. 7.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Encontro de Shasta e Aslam


A estrada no caso seguia entre as matas mais espessas, sempre mais frias. Ventos gelados continuavam a impelir blocos de névoa sobre Shasta sem parar. Não estando acostumado aos lugares montanhosos, ignorava que estava a uma grande altitude, talvez já no alto da picada.

"Devo ser o cara mais desgraçado de todo o mundo", pensou. "Tudo dá certo com os outros, comigo nunca. Os nobres e as damas de Nárnia conseguiram fugir de Tashbaan; eu fiquei lá. Aravis, Bri e Huin estão no bem-bom com o velho eremita; fui o único a ter de sair. O rei Luna e sua gente estão a salvo no castelo, com os protões bem fechados, mas eu fiquei de fora."

Teve tanta pena de si mesmo que as lágrimas começaram a deslizar por seu rosto.

Um susto interrompeu os seus tristes pensamentos. Alguém ou alguma coisa caminhava a seu lado. Nas trevas não podia ver nada. E a coisa (ou pessoa) ia tão silenciosamente que ele mal podia ouvir suas pisadas. Ouvia, sim, uma respiração: o invisível companheiro de fato respirava com vontade; devia ser uma criatura enorme. Foi um grande choque.

Relampejou na sua cabeça uma lembrança: ouvira dizer que existiam gigantes nos países do Norte. Mordeu os lábios, apavorado. Mas, agora que tinha um motivo real para chorar, parou de chorar.

A coisa (se é que não era uma pessoa) ia tão silenciosa que talvez fosse mera imaginação. Já estava certo disso, quando ouviu ao seu lado um suspiro grande e profundo. Não era imaginação! O fato é que sentiu o hálito quente desse longo suspiro na mão direita.

Se o cavalo fosse mesmo bom - ou se ele soubesse como fazer o cavalo tornar-se bom - teria arriscado tudo numa corrida desabalada. Como isso não era possível, seguiu a passo, com o companheiro invisível caminhando e respirando a seu lado. Acabou não aguentando mais:

- Quem é você? - murmurou baixinho.

- Alguém que esperava por sua voz - respondeu a coisa. O tom não era alto, mas amplo e profundo.

- Você é... um gigante?

- Pode me chamar de gigante - disse a grande voz. - Mas não me pareço com as criaturas que você chama de gigantes.

- Não consigo vê-lo - falou Shasta, depois de muito tentar. Uma coisa terrível lhe passou pela cabeça. Com a voz quase trêmula de choro, perguntou:

- Você não é... não é uma coisa morta... é? Vá embora, por favor. Nunca lhe fiz mal. Ó, sou o sujeito mais desgraçado do mundo!

Sentiu novamente o hálito quente da coisa no rosto e na mão.

- Morto não respira assim. Pode me contar as suas tristezas, rapaz.

O hálito deu a Shasta um pouco mais de confiança. Contou então que jamais conhecera pai e mãe, que fora criado por um pescador muito severo. Contou sobre como fugira, sobre os leões que os perseguiram, os perigos em Tashbaan, a noite entre os túmulos, as feras que uivavam no deserto, o calor e a sede durante a caminhada, e o outro leão que surgiu quando estavam quase chegando, Aravis ferida... Contou, por fim, que estava com fome, pois não comia nada havia muito tempo.

- Não acho que seja um desgraçado - disse a grande voz.

- Mas não foi falta de sorte ter encontrado tantos leões?

- Só há um leão - respondeu a voz.

- Não estou entendendo nada. Havia pelo menos dois naquela noite...

- Só há um leão, mas tem o pé ligeiro.

- Como sabe disso?

- Eu sou o leão.

Shasta escancarou a boca e não disse nada. A voz continuou:

- Fui eu o leão que o forçou a encontrar-se com Aravis. Fui eu o gato que o consolou na casa dos mortos. Fui eu o leão que espantou os chacais para que você dormisse. Fui eu o leão que assustou os cavalos a fim de que chegassem a tempo de avisar o rei Luna. E fui eu o leão que empurrou para a praia a canoa em que você dormia, uma criança quase morta, para que um homem, acordado à meia noite, o acolhesse.

- Então foi você que machucou Aravis?

- Fui eu.

- Mas por quê?!

- Filho! Estou contando a sua história, não a dela. A cada um só conto a história que lhe pertence.

- Quem é você?

- Eu mesmo - respondeu a voz, com uma entonação tão profunda que a terra estremeceu. E de novo: - Eu mesmo - com um murmúrio tão suave que mal se podia perceber, e parecia, no entanto, que esse murmúrio agitava toda a folhagem à volta.

Shasta já não temia que a voz pertencesse a alguma coisa que o devorasse; nem temia que fosse a voz de um fantasma. Uma coisa nova aconteceu, um tremor que lhe deu certa alegria.

A névoa passou do pardo para cinza e do cinza para branco. Devia ter começado pouco antes, enquanto ele estava absorvido conversando com a coisa. A brancura ao redor já começava a fulgir. Já enxergava bastante bem a crina e as orelhas do cavalo. Uma luz dourada surgiu à esquerda, e Shasta pensou que fosse o sol.

Caminhando a seu lado, maior do que o cavalo, estava um leão. O cavalo não parecia ter medo, ou talvez não o visse. Era dele que vinha a luz dourada. Ninguém jamais viu algo tão belo e terrível.

Felizmente o menino vivera toda a sua vida no Sul, e não havia escutado os casos, cochichados em Tashbaan, sobre um tétrico demônio de Nárnia que costumava aparecer na forma de leão. E, naturalmente, também tudo ignorava sobre as verdadeiras histórias de Aslam, o Grande Leão, o filho do Imperador-dos-Mares, o Rei dos Grandes Reis de Nárnia. Mas, depois de espiar mais uma vez o Leão, pulou do cavalo. Não conseguia dizer nada, mas também não queria dizer nada, e sabia que nada precisava dizer.

O Grande Rei encaminhou-se para ele. A juba e um perfume estranho e solene, que nela pairava, cercaram o menino. O Leão tocou a fronte de Shasta com a língua. Os olhos de ambos encontraram-se. Depois, instantaneamente, a brancura da névoa misturou-se com o brilho ardente do Leão, num redemoinho de glória, e os dois sumiram. Shasta se viu só, com o cavalo, na relva de uma colina, sob um céu azul. Todas as aves do mundo cantavam.

As Crônicas de Nárnia, O Cavalo e Seu Menino.

"Enquanto souber que não é ninguém em especial, será muito honrado"


- Nunca mais verei Nárnia! - disse Bri, baixinho.

- Não está se sentindo bem, meu caro? - perguntou a moça.

Só então Bri virou-se para ela, com uma cara de tristeza que só os cavalos têm.
- Vou voltar para a Calormânia - disse.

- O quê? Vai voltar para a escravidão?!

- Vou. Só sirvo para ser escravo. Com que cara vou chegar a Nárnia? Deixei uma égua, uma moça e um rapazinho entregues aos leões e saí em disparada para salvar a minha mísera carcaça!

- Todos nós saímos em disparada - disse Huin.

- Shasta, não! - fungou Bri. - Pelo menos correu na direção certa: para trás. E é isto de que ainda mais me envergonho. Eu, que me proclamo um cavalo de guerra e me vanglorio de mais de cem batalhas, ser batido por um rapazinho humano: uma criança, um mero potrinho que jamais empunhou uma espada, e que jamais teve bons exemplos em sua vida!

- Entendo - disse Aravis. - Estou sentindo a mesma coisa. Shasta foi maravilhoso. Também eu sou ruim, Bri. Desde que nos encontramos, trato Shasta com superioridade. .. E é ele, afinal, que está acima de todos nós. Mas creio que é melhor ficar e pedir-lhe desculpas do que voltar para a Calormânia.

- No seu caso, estou de acordo - respondeu Bri. - Você não está desgraçada, mas eu perdi tudo.

-Meu bom cavalo - disse o eremita, que se aproximara sem ser notado, pois seus pés descalços nem chegavam a fazer barulho sobre o relvado. - Meu bom cavalo, você não perdeu nada, a não ser a sua auto-estima. Que é isso, meu primo? Não afaste de mim as orelhas. Se você de fato é tão humilde como falava há um minuto, tem de saber ouvir. Você não é propriamente o grande cavalo que pensava ser, por estar vivendo entre infelizes cavalos mudos. É claro que era mais valente e mais inteligente do que os outros. Mas você não podia ser de outra forma. Isso não significa que será alguém especial em Nárnia. Mas, enquanto souber que não é ninguém em especial, será um cavalo muito honrado. E agora, se você e minha prima quadrúpede me acompanharem até a porta da cozinha, iremos providenciar-lhes mais um pouco de mingau de farelo.

As Crônicas de Nárnia, O Cavalo e Seu Menino