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quinta-feira, 21 de julho de 2016

Sobre Moral, Liberdade, Egoísmo e Tristeza


"Para saborear tudo, não queiras ter gosto em coisa alguma" 
São João da Cruz

O ser humano é um ser que intelige e decide, mas não necessariamente nessa ordem, já que o objeto de intelecção já é submetido a um prévio ato de deliberação. Não apenas faço o que entendi dever fazer, mas escolho aquilo no que vou pensar. Porém, é verdade que este prévio ato deliberativo se relaciona muito mais com o desejo - uma espécie de instinto imediato - do que com a vontade. Temos então a seguinte ordem: desejo - inteligência - vontade. É possível e comum que desejo e vontade discordem. Neste caso, a vontade age como sucessora corretiva do desejo. Como este é prévio à inteligência, ele tende a ser amoral, pois agir moralmente é agir segundo regras ou motivos; é saber por que agir assim é correto ou errado. A vida moral - a não ser quando já se tem o hábito - não pode ser fruto de qualquer inspiracionismo, como se nós tendêssemos naturalmente à vida correta. Qualquer mínimo exame da nossa realidade psíquica dá conta de ver que isso não é assim. Tendemos ao mal, e não é raro que mesmo aquela ação que julgamos naturalmente boa encubra intenções e desejos que não o são.

Na vida moral, há que se distinguir, portanto, estas duas coisas: a ação objetiva e a intenção ou finalidade que se pretende alcançar com a ação. Isoladas, elas não são suficientes ainda para constituir a ação moral. Mas se pode dizer que a intenção isolada tende a ser mais desculpável para o sujeito do que a ação isolada. Claro que há nisso controvérsias. Se um dado ato irrefletido, mas munido de boas intenções, só foi executado assim na ignorância de sua efetividade real devido a alguma negligência anterior do sujeito, ele já não se torna tão desculpável assim porque o conjunto da negligência anterior contamina a intenção atual do sujeito. Por trás de sua intuição de sinceridade pessoal há de se esconder qualquer senso de vigarice, pois o desconhecimento da objetividade da situação é fruto de um vício prévio.

Quanto às ações, tomadas isoladamente, é sabido que quaisquer delas podem ser inspiradas por um sem fim de motivos internos. Uma pessoa pode dar esmolas porque quer alimentar o esfomeado, ou porque quer cultivar a imagem de honesto para os outros, ou porque quer cultivá-la para si, ou porque quer impressionar alguém, ou porque quer impressionar Deus, ou porque quer ir para o Céu, ou porque não quer ir para o Inferno, ou porque quer que o pedinte o deixe em paz, ou porque se recordou de alguma situação anterior que o empurra para essa ação, ou porque simpatizou com aquele pedinte em particular, ou porque se sentiu momentaneamente comovido e aí obedece a si mesmo nesse ímpeto atual e totalmente instintivo de dar, etc. Do ponto de vista exterior, temos somente a ação. É por isso que o julgamento das intenções só é reservado a Deus, pois uma ação nem sempre é efeito fiel de correspondentes interiores. É preciso ainda dizer que essa fonte confusa dos nossos atos nem sempre é totalmente consciente. Bem, é comum que não o seja. Nós costumamos mentir para nós mesmos, e por isso não nos agrada quando alguém nos acusa de algo justamente. Nos é preferível à sensibilidade ficar na ignorância dessas coisas. E isso é assim também conosco. Se quem tenta conhecer-se encontra nisso extrema dificuldade, imaginem que não tem interesse nisso.

O que caracterizaria então a ação moral? Parece-me poder dizer que é a conjugação de ação boa em si - isto é, tomada objetivamente - com o desinteresse pessoal, isto é, sem qualquer cálculo de ganho pessoal em quem age. Quando há dissociação entre ação e intenção, temos a clássica situação da hipocrisia. Esta pode ser mais consciente e voluntária, mas também pode sê-los menos. Uma pessoa que, enquanto faz uma boa ação, diz interiormente que não quer recompensa e que faz somente pelo outro, pode ainda assim esconder, numa região mais  interior e ao abrigo da visão atual da consciência, a intenção de comover a Deus, e, assim, alcançar d'Ele algum favor. São João da Cruz, por isso, pedia para que, quando fizéssemos um ato correto, fizéssemo-lo como se mesmo Deus nunca fosse tomar notícia dele.

É bastante comum também que um sujeito passe a agir moralmente depois de alguma experiência que o tenha comovido. Inspirados, todos tendemos a agir de modo diferente, e isso não é ruim, mas a esfera da comoção, que é o campo dos nossos sentimentos, é por natureza volúvel e não há que se construir nada nisso aí. Óbvio que este pode ser um começo, mas, em quem não o percebe, haverá uma vaga e tola esperança de que aquele estado de espírito que então se vive seja perpetuado, o que asseguraria então que a nova direção das ações pessoais estaria resguardada. Contudo, além da falsidade dessa conclusão - que, não obstante, retomamos de novo e de novo -, o próprio ato de agir quando isto dá à consciência aquele conforto característico - quando a ação é um modo de assegurar o próprio valor moral, ou a própria concordância a um ideal - torna a ação, já, maculada. Há, no fim, uma busca por auto-satisfação. Notem que o problema não é a satisfação que uma boa ação pode causar à pessoa, mas a busca por ela. O prazer e a felicidade não devem ser objetos diretos da busca humana. Eles, por natureza, são acompanhantes. Eles se vinculam a objetos. Se buscamos objetos prazerosos, eles nos darão prazer. Se buscamos somente o prazer, ele até se permitirá fruir, mas não o fará sem resistência. É por isso que os vícios tendem a produzir efeitos cada vez menores. Com a felicidade é o mesmo: ela será tanto maximizada quanto menos for o objeto de busca principal. "Nega os teus desejos e encontrarás o que deseja o teu coração".

Se uma pessoa se habitua a agir buscando o prazer e a felicidade nas coisas, ainda que inconscientemente, ela se condenará a uma série de prejuízos: terá um tipo de vida moral muito condicionada às circunstâncias, será necessariamente inconstante - pois se moverá segundo suas disposições interiores -, tenderá ao egoísmo - pois está sempre gravitando em torno dos próprios ganhos -, e, como sua consciência estará enredada no fluxo das sensações exteriores e interiores, será necessariamente inquieta e superficial, pois nunca entra fundo em si mesma, onde as coisas são mais estáveis. O produto disso tudo é uma espécie de cegueira e de depressão crônica subjacente, pois, a rigor, a alma anda perdida. E isto se torna um círculo vicioso: quando mais tristeza, mais busca desesperada por algo que a supra, e, como esta busca mantém a lógica da tristeza, esta aumenta, levando a mais ações e mais angústia. A pessoa age como alguém que, estando machucado, golpeia os pregos diante de si, e, ao aumento da dor, aumenta a violência dos golpes.

O desinteresse interior, ao contrário, reorienta a alma para além de si mesma. Isto gera uma saída do solipsismo, e ela se torna disponível a qualquer outra voz além da sua. Relativizar-se é o começo da saúde. Aceitar que Deus é Outro, e não eu mesmo, é algo que não basta compreender: é necessário intuir e saborear. Isto permite que a pessoa aja independentemente do que está sentindo no momento. Se ela passa a agir assim, chegará o dia em que já não se perguntará se o que tem de fazer é agradável ou não. Ela fará. A pessoa cessa de ter uma intenção curva - que voltava sempre pra ela mesma - e passa a ter uma intenção reta, e a intenção reta, diz o Imitação de Cristo, alcança Deus.

Para reorientar a intenção interior, não é suficiente somente um esforço de consciência, embora este já seja útil. Compreender essas verdades é fundamental para alguém que quer fazer da vida algo além de um rodopio em torno de si mesmo. Mas é preciso acrescer outras coisas: a nossa vida inteira foi vivida nessa lógica, e o nosso pecado não é senão uma culminância natural disso que ocorre na nossa alma. Se é verdade que a operação segue o ser - e é verdade -, o nosso pecado é sempre a exteriorização de um tipo de enfermidade interior. O que fazer, então? Primeiramente, compreender isso tudo, mesmo, pois a nossa consciência, embora seja atingida por esse fluxo desordenado de paixões, ainda é capaz, em geral, de, com o devido esforço, olhar como que por cima da tempestade. Estes saltos permitem-na ver. Em seguida, é preciso combater ativamente a desordem, e, para isso, não há outro meio que a mortificação. Mortificar-se é inverter a ordem. Se antes se vivia para o prazer e para o ganho sensível, agora o sujeito buscará ativamente os desprazeres e, passivamente, não reclamará nem fugirá dos desconfortos. É isso o que quer dizer ainda São João da Cruz quando escreve: "Deixa-te ensinar, deixa-te mandar e desprezar, e serás perfeito." É como quando, depois de girar muito para um lado, e já bêbados, precisamos agora girar para o outro para diminuir a tontura. Quanto menos tontura, melhor disposição interior e mais clara a visão. E quanto mais avançados nesse caminho, mais perceberemos detalhes e sutilezas. Desde já, porém, é preciso notar: não há caminho alternativo. Haveria somente se Deus coagisse a alma. E Ele de certo modo o faz quando nos dá sofrimentos. Os sofrimentos são como um empurrão por esse caminho em quem ia totalmente pelo outro lado. Mas, ainda assim, isso não é determinante, pois, em última instância, a decisão é sempre da pessoa.

Atos morais, que são totalmente bons, são os atos desinteressados e que se orientam em direção ao bem objetivo. É assim que Deus age, e é assim que o cristão deve viver: imitando-O.

terça-feira, 1 de março de 2016

É preciso ver


Os Magos viram-no: era uma criancinha que nada dizia. Quais foram os seus motivos de credibilidade? E o que era essa estrela que lhes tinha dado o sinal de partida? Simeão, o velho, viu. E quando o Menino chegou ao templo, levado por sua mãe, Simeão não disse: "Esperai que eu consulte os meus autores". Acreditou e cantou a sua alegria.

Há em Jesus uma luz, mas nem todos a vêem. Essa luz, como a que revela a Deus na Natureza, fala ao espírito, inflama o coração e faz palpitar. Mas é preciso ver. 

Está sempre em Jesus. No momento em que, vencido, morria sobre a cruz, ensanguentado, desfeito, escarnecido e aparentemente impotente, o que é que vê o bom ladrão que lhe faça dizer: "Senhor, lembrai-vos de mim quando tiverdes entrado no vosso reino"?

Nenhum ato de fé será, talvez, mais emocionante e mais perfeito que esse, no momento em que tudo o que era humano abandonava Jesus, em que já se não vê nele nada mais que possa seduzir ou arrastar, nada mais, seguramente, que dê impressão de poder. O Mestre desapareceu, já resta só a Vítima. Os Apóstolos pensam assim e fugiram. Mas não, há uma testemunha. "Senhor", diz ele. Ouvis? Ele diz "Senhor". "Senhor, lembrai-vos de mim quando tiverdes entrado no vosso reino." É de reino que ele fala, e eles estão lado a lado, agonizando juntos, e é Jesus o mais desfeito.

Pe Jacques Leclercq, Diálogo do homem e de Deus.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Edith Stein descreve o seu encontro com o Acontecimento Real do Cristianismo


"Nos longos anos do tempo de preparação, seguramente ele - o elemento intelectual - exerceu forte influência. Mas cientemente decisivo foi o acontecimento real em mim (por favor, acontecimento real, não "sentimento"), mão na mão da figura concreta do cristianismo autêntico nos testemunhos eloquentes (Agostinho, Francisco, Teresa). Mas como irei descrever-lhe com algumas palavras uma imagem daquele "acontecimento real"? É um mundo infinito que se apresenta completamente novo, quando uma vez começou-se a viver para o íntimo em vez de viver para o exterior. Todas as realidades com as quais até então estava às voltas tornam-se transparentes, e começa-se a farejar forças verdadeiramente sustentadoras e motivadoras. Os conflitos com os quais se estava às voltas antes se tornam totalmente insignificantes. E que plenitude de vida não toma pulso no dia, exteriormente quase totalmente desprovido de acontecimentos, de uma existência humana individual, com sofrimento e bem-aventurança, como o mundo terreno não conhece e não pode conceber! E como nos sentimos estranhos quando nos encontramos juntos de pessoas que vêem apenas a superfície, vivendo como uma delas, sem que sequer suspeitem ou percebam que se tem tudo isso em si e ao redor de si."

Edith Stein, Carta a Roman Ingarden

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O Caminho Estreito


O caminho estreito da perpétua ascensão aos céus e da imitação de Cristo é este: deves desesperar de todo teu próprio poder e fortaleza, pois através dele não podes alcançar os portais de Deus. Deves decidir-te firmemente a entregar-te por completo à misericórdia de Deus. Deves submergir-te com toda tua mente e razão na paixão e morte de nosso Senhor Jesus Cristo, desejando sempre perseverar nele e morrer para todas as criaturas.

Deves também vigiar tua mente, teus pensamentos e inclinações, para que não acolham mal algum, e não deves permitir que a honra ou o proveito temporal te seduzam. Deves ter a intenção de afastar de ti toda falta de retidão e tudo o que possa obstruir a liberdade de teu movimento e progresso. Tua vontade deve ser inteiramente pura e fixar-se na firme resolução de nunca retornar aos velhos ídolos, mas abandoná-los e separar tua mente deles, entrando no caminho sincero da verdade, da retidão e da justiça, seguindo a doutrina de Cristo.

Jacob Boehme, A Sabedoria Divina

quarta-feira, 25 de julho de 2012

À santidade se vai pela kenosis


"Já não vivo eu, mas é Cristo que vive em mim", escreve S. Paulo, mostrando que o cristianismo é um caminho de negação do eu para que apareça verdadeiramente quem nós somos. Esta verdade sobre nós dorme sob a capa densa dos nossos desejos e medos. É necessário, pois, negar este eu superficial a partir do qual a imensa maioria de nós age. É preciso fazer a experiência da "kenonis", do rebaixamento que o próprio Cristo fez, a fim de que se manifeste quem nós somos, manifestação pela qual a terra inteira geme em dores de parto.

É esta a proposta de Jesus: "quem quiser me seguir, negue-se". Ainda ontem, eu lia das revelações de Jesus a Sta Brígida: "somente irá entrar no céu os que se humilham e se mortificam". E o que são a humilhação e a mortificação senão o rebaixamento da alma e do corpo, respectivamente? Este falso eu que todos trazemos, altivo e inconstante, não é quem de fato nós somos. Ou descobrimos a nossa verdadeira identidade - e para isso, é preciso procurar em Deus - ou morreremos e nos daremos conta da grande mentira que fomos e que estaremos - Deus nos livre - condenados a estender pela eternidade.

Se a via da conversão é mesmo uma via de negação do próprio eu, pouquíssima gente faz progressos no mundo. Antes, se poderia dizer que o cristianismo, como é pregado nos moldes atuais pela maioria, se encontra precisamente no rumo oposto, isto é: o da promoção do próprio ego. Não à toa Jesus diz que são pouquíssimos os que encontram o Caminho.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Deixar a nossa sombra; voltar à Luz divina.


Não podemos encontrar o Onipotente, sem sair inteiramente da nossa fraqueza. Mas temos primeiro de descobrir o nosso nada, antes de passar além: e isto é impossível, enquanto acreditarmos na ilusão da nossa própria força.

O mosteiro é a Casa de Deus, e todos que aí vivem estão perto d'Ele. E, no entanto, é possível viver perto de Deus, e em sua própria Casa, sem jamais O descobrir. Por que isto? Porque continuamos a procurar-nos a nós mesmos e não a Deus, vivendo para nós e não para Ele. Transforma-se, então, o mosteiro em casa nossa, em vez de sua, e Deus se esconde de nós. Estamos no caminho da sua luz, e ficamos a olhar, perplexos, para a nossa sombra. "Sem dúvida, dizemos nós, isso não tem nada de Deus, é uma sombra". É certo. Mas a sombra é projetada pela Luz divina, e testemunha indiretamente a sua presença. Ela está lá para lembrar-nos que podemos voltar para Deus, desde o momento em que cessamos de amar mais as trevas que a luz.

Se, porém, deixamos de voltar a Deus, é que esquecemos que a sua vinda terá de ser para nós a de um Salvador, sem o qual estamos desamparados. (...) É impossível encontrá-Lo enquanto ignoramos que precisamos d'Ele. Esquecemos essa carência quando tomamos um gosto complacente das nossas boas obras. Os pobres e os desamparados são os primeiros a encontrá-Lo, pois Ele veio procurar e salvar o que estava perdido.

Thomas Merton, Homem Algum é Uma Ilha

quinta-feira, 22 de março de 2012

"Se os homens emudecerem, as pedras hão de clamar"


"Cego, alcançado em anos, muito velho, o Venerável Beda nem por isso deixava de pregar a Boa Nova, a palavra de Deus alvissareira. Ubiquamente, por cidades e aldeias, conduzido pelo guia fiel, vagava o santo, cego e encanecido, pregando, com todo o fogo e entusiasmo da mocidade, a palavra divina.

Um dia, o moço que o guiava levou-o a um vale deserto e rodeado de rochas alterosas e, por zombaria, mais do que por malícia, disse-lhe: "padre, eis que se ajuntou uma multidão imensa de pessoas, que querem ouvir a tua voz celeste."

O pobre cego, embora corcunda, ergueu-se, empertigando-se, procurou o seu texto, e sobre ele falou e o aplicou; exortou, aconselhou, repreendeu, e consolou, com tal unção e tamanho fervor que as lágrimas se lhe arrebentaram dos olhos, inundando-lhe em caudais as barbas brancas.

Quando, perorando, ele suplicava: "Pai do Céu, és Todo Poderoso, e reinas sobre tudo, glória a ti agora, e sempre, e por todos os séculos dos séculos, e por toda a eternidade", pelas quebradas repercutiram, unânimes, os ecos de milhares de vozes, conclamando: "Amém! Padre, amém! Amém!"

Tomado de horror e de remorso, o moço caiu de joelho aos pés do santo e confessou-lhe o seu pecado. "Filho", disse-lhe o santo ancião, "nunca leste então que, se os homens emudeceram, hão de as pedras clamar?... A palavra de Deus tem vida, é poderosa, e fere qual espada de dois gumes. E, se o coração humano duro e obstinado se faz empedernido, um coração de carne palpitará nas próprias pedras."

Brooks (Thomas ???) citado por Agrippino Griecco in: S. Francisco de Assis e a Poesia Cristã. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1967. p. 71-72.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Comece já o caminho da conversão


"Qualquer que seja o peso e o número de cadeias que te acorrentam à terra, nunca é tarde demais. Não é sem motivo que está escrito que Abraão tinha setenta e cinco anos quando partiu; e os operários da undécima hora receberam o mesmo salário que os que trabalharam desde a manhã. E também, nunca é excessivamente cedo. Nunca é cedo demais para apagar um incêndio na floresta. Gostarias de ver tua alma devastada e queimada? No batismo, recebeste a ordem de te lançares num combate invisível contra os inimigos da tua alma. Põe mãos à obra. Há bastante tempo, usas de subtefúrgios. Mergulhado na negligência e na preguiça, desperdiçastes um tempo precioso.

Só te resta recomeçar do princípio, porque lamentavelmente deixastes que se empanasse a pureza que recebestes no batismo. Começa, pois, a trabalhar desde já, sem demora. Não adies a tua decisão para hoje à noite, para amanhã, para mais tarde, "quando eu tiver terminado o que preciso fazer agora". Um atraso pode ser fatal. Não; é agora, no mesmo instante de tomar a decisão, que deves mostrar pelos teus atos, que te despedistes do teu velho "eu" e que acabas de começar uma vida nova, à procura de um novo objetivo, seguindo novos caminhos. Levanta-te, pois, corajosamente, e diz: "Senhor, concedei-me que comece agora. Ajudai-me!" Porque, acima de tudo, tens necessidade da ajuda de Deus. Persevera em tua decisão, e não olhes para trás. Que o exemplo da mulher de Ló te sirva de lição: ela se transformou em coluna de sal, por ter olhado para trás (cf Gn 19:26). Abandonaste o homem velho: não retomes o que é desprezível. Como Abraão ouviste a voz do Senhor que te disse: "Deixa teu país, tua parentela e a casa de teu pai, para o país que te mostrarei" (Gn 12:1). De agora em diante, é nesse país que se deve concentrar toda a tua atenção."

Tito Colliander, Caminho dos Ascetas.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Metanóia e a Natureza da Conversão - O tão necessário "sair de si"



"Lembra-te sempre de que não realizas nada de virtuoso, esforçando-te para te dominares. De fato, que virtude há em tomar pá e picareta para tentar sair de uma galeria subterrânea, onde se tenha caído por falta de atenção? Não é natural, pois, utilizar as ferramentas entregues por alguém de fora, para escapar dessa atmosfera sufocante e tenebrosa? O contrário não seria pura estupidez? Essa parábola te pode ensinar a sabedoria. As ferramentas são os instrumentos da salvação, os mandamentos do Evangelho, os santos sacramentos da Igreja, que foram postos à disposição de cada cristão por ocasião do santo batismo. Sem uso, não terão nenhum proveito. Porém, utilizados com discernimento, permitirão que abras o caminho para a liberdade e para a luz. " (Tito Colliander, Caminho dos Ascetas, Iniciação à Vida Espiritual)


***

A conversão ao cristianismo é um processo bastante completo e profundo. O escritor C. S. Lewis, comentando a ordem de Cristo para que sejamos perfeitos, afirma: "Ele quis dizer isso mesmo. A cura tem de ser completa". Se é completa, ela deve envolver o homem inteiro.

No entanto, a partir do momento em que certos líderes cristãos quiseram adaptar o cristianismo às massas, obviamente na tentativa infeliz de facilitar o caminho, reduziu-se profundamente o seu significado. Tivemos uma religião meio que à medida do homem, o que implicou muitas vezes na morte da transcendência, coração do cristianismo.

Sobre isto, escreveu certa vez S. João da Cruz: "Se alguém, em qualquer época, fizer do cristianismo um caminho fácil e cômodo, não lhe dês ouvido". Mas, infelizmente, esta forma dissimulada e equivocada de religiosidade ganhou o mundo, e o que geralmente se tem é antes uma antropomorfização de Deus no sentido de que os homens projetam n'Ele seus gostos, preferências e opiniões. Surge uma religião imanentista, incapaz de libertar o homem de si mesmo.

Neste contexto, fica impossibilitada a efetivação da metanóia, que seria a mudança não só de comportamento, mas também da mente, necessária ao cristão. O problema é que, por termos nascido egocentrados, somos muito apegados a nós mesmos, ao nosso modo de ver, às opiniões próprias. Qualquer legítima conversão deve fazer que o homem supere esta condição. Daí Jesus dizer: "o que não odeia a própria vida, não é digno de mim". Quem não "se odeia", não está disposto a mudar. Este "ódio" é o que possibilita aquele sadio desprezo ou desapego por si mesmo. 

A Santa Igreja nos diz que, para vivermos segundo a Fé, precisamos ter a inteligência e a vontade submetidas a Deus. Isto, longe de nos escravizar, nos liberta. "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará".

No livro de Isaías, lemos que, antes de Cristo vir a nós, andávamos todos perdidos, cada um em seu próprio caminho. Uma vez que Ele nos veio, pudemos reconhecê-Lo como "o Caminho, a Verdade e a Vida" de todos nós. S. Paulo, por sua vez, nos diz que não devemos viver mais para nós mesmos; uma vez que Cristo veio e se entregou por nós, devemos agora viver por Ele. É só então que somos "encontrados", como o filho pródigo.

Pois bem, por "vida" não devemos entender meramente o conjunto das atitudes exteriores, mas a totalidade da pessoa humana, desde o mais profundo da sua alma. Todo o ser deve ser submetido a Cristo. Não esqueçamos que o ser age segundo a sua natureza. Para que sejamos cristãos - outros Cristos - e vivamos como Ele viveu, como nos recomenda S. João, deveríamos adquirir uma natureza interior semelhante à de Cristo. Não à toa Nosso Senhor nos disse que "é preciso nascer de novo".

Se a conversão deve ser metanóia, é preciso que a pessoa compreenda bem a natureza deste caminho com Cristo, que vai muito longe da adesão a ideologias sociais ou da recorrência a cócegas emotivas. Todos estes movimentos não passam de construções imanentistas e, na verdade, antes impedem que o sujeito entenda a essência do Cristianismo. 

Para ajudar o homem a sair de si, foi preciso que Algo de fora lhe viesse ao encontro, e esse algo foi o próprio Deus. Cristo entrou em nosso mundo e nos ofereceu a cura para a queda. Portanto, é preciso empreender seriamente este caminho, numa atitude de auto-desapego e abertura a este "Santo Intruso". É Ele que nos livrará do nosso mundinho. 

A vida cristã deve envolver a totalidade do ser humano.

A partir do momento, porém, em que quisermos adaptar o cristianismo ao nosso modo, ou dele adotar somente o que de antemão nos agrada, apenas estaremos perpetuando a nossa pobre condição, agindo segundo critérios subjetivistas, segundo a ótica de quem ainda não conhece a liberdade. Já a Fé, ou é completa, ou inexiste; ou a assumimos de todo, ou estaremos juntando pedaços para construir um novo bezerro de ouro com o qual nos distrairemos e ao qual adoraremos como imagem de nós mesmos. Escolher o que nos agrada é manter a primazia do próprio ego. S. Paulo, que aceitou sair de si, pôde depois dizer: "não sou 'eu' quem vivo; é o Cristo que vive em mim". E esta é uma declaração profundamente feliz.

O processo de conversão é algo tão imenso, tão profundo, tão amplo que é preciso uma mudança, não apenas de costumes, mas verdadeiramente substancial da alma. Isso obviamente somente pode ocorrer muito depois de iniciado o caminho. Se houver perseverança e fidelidade, pode-se chegar a um estágio chamado de "inocência readquirida", que é como um retorno à inocência de Adão, o que implica a total cura do egoísmo. Neste estágio, dá-se de maneira rigorosa o que diz S. Paulo: "tudo é puro para os que são puros". S. João da Cruz, falando deste grau de santidade, diz que, ainda que a pessoa seja exposta a situações de pecado, ela não compreende a maldade no que vê.

Vislumbra-se que a santidade é algo de muito maior do que geralmente se supõe. Mas enquanto estivermos apegados aos modos românticos de ver, estaremos impedidos da verdadeira mística, da verdadeira metanóia, da verdade "deificação". Se é preciso sair de si, o que vale apegar-se às próprias opiniões? É somente perpetuar a própria estreiteza.

Fábio

Não vale a pena ter medo do amor...


Não vale a pena ter medo, ainda que amar seja pouco seguro. Uma história de amor é necessariamente uma viagem imprevisível e sem cautelas. Acolher o outro e ligarmo-nos definitivamente a ele é rumar ao desconhecido, embarcar numa aventura sem plano. Em certo sentido, é uma loucura. Digo isto sobretudo por Nosso Senhor, porque Ele é demasiado imprudente. Alguma vez estive a ponto de O avisar lealmente, na oração. Desisti, porque não é por falta de informação que Deus Se comporta assim connosco, mas confesso uma imensa admiração pela sua Coragem.

Também admiro a ousadia dos Santos, que todos os cristãos se esforçam por imitar, porque aproximar-se do Amor tem os seus perigos. «(...) viver com Deus: esta é a arriscada segurança do cristão. (...) Deus ouve-nos, está pendente de nós (...). Mas viver com Deus é indubitavelmente correr um risco, porque o Senhor não se contenta com partilhar: quer tudo. E acercar-se um pouco mais a Ele é estar dispostos a uma nova conversão, a uma nova rectificação, a escutar mais atentamente as suas inspirações, os santos desejos que faz brotar na nossa alma, e a pô-los em prática» (20). Mas vale a pena. 

Prof. José Maria C. S. André

Fonte: Logos

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Em que consiste a Perfeição Cristã


"Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, carregue sua cruz e siga-me"

 Toda a perfeição cristã, com efeito, consiste:

1 - Em querer tornar-se santo: "Se alguém quiser vir após mim";
2 - Em abster-se: "Renuncie-se a si mesmo";
3 - Em sofrer: "Carregue sua cruz"
4 - Em agir: "Siga-me".

S. Luís Maria Grignion de Montfort, Carta aos Amigos da Cruz

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O modo como Deus nos vê é o modo como nós somos


Sto Agostinho, nas suas especulações filosóficas, chegou à constatação de que ele não era a causa de si mesmo. Logo, devia sua existência a um outro. Esta assertiva pode parecer banal, mas a modernidade se caracteriza quase toda por negar esta verdade evidente.

As pessoas da antiguidade e do medievo se distinguem pela sobriedade e o bom senso de se saberem contingentes. Esta consciência lhes dá uma abertura para fora, para Aquilo que as causou e, diante do fato da morte, para aquilo que há para além deste vértice da vida natural. O homem se via como um ser entre duas eternidades e isto, pelo senso das proporções, lhe mantinha a modéstia e o respeito diante da dimensão do mistério.

A modernidade, no entanto, cortou as duas eternidades e rechaçou as investigações metafísicas, como se fossem qualquer coisa de misticismo, no mal sentido. Este tipo de filosofia de meia tigela produziu teóricos que afirmam bobagens como dizer que as coisas só existem porque o sujeito as percebe, etc. Não mais o homem é colocado por um outro num mundo que já existia, mas, agora, ele existe primeiro e cria o mundo ao percebê-lo. Não é preciso muito esforço para reconhecer que isto é só uma faceta do sonho adâmico de querer ser como Deus.

Pois bem. Uma pessoa que siga um tal tipo de crença terminará por fazer da sua vida uma contínua falsidade. Primeiramente, porque terá uma visão totalmente equivocada da própria existência; depois, porque não aceitaria uma vida que lhe foi dada por Outro, reclamando para si autonomia absoluta. Temos, então, um sujeito que está impossibilitado de realizar-se porque desconheceu o seu chamado individualíssimo e quis, ao invés disto, seguir os próprios devaneios.

A constatação agostiniana de que o homem não é causa de si mesmo é importantíssima. S. Francisco de Assis, um santo que nunca teve aulas de Filosofia, partilhava, no entanto, da mesma sabedoria e a expressou e completou ao dizer que o homem é o que é diante de Deus, e nada mais*. Na verdade, para saber disso, não é preciso estudar filosofia, mas tão somente ter bom senso. Em S. Francisco, porém, esta percepção é agudíssima e significa: não importa o que os homens façam nem as suas conquistas e realizações, se estas conquistas e realizações somente o são segundo seus critérios pessoais. Existem critérios reais pelos quais uma coisa se torna conquista e realização ou, ao contrário, se converte em mero fracasso floreado, em excremento enfeitado de lacinho e borrifado com lavanda.

Se alguém chega a ser aclamado como gênio mas, diante de Deus, ele não passa de um idiota, a verdade é que ele é um idiota. Eis a imbatível e irrefutável filosofia franciscana.

Com base nisto, o que deveríamos fazer? Deveríamos harmonizar os nossos critérios com os de Deus. O que Deus entende por bem, é o bem. O que Deus entende por inútil, é inútil. A conversão passa por aí: é uma adaptação de si mesmo a Deus, e não uma adaptação de Deus a si, como têm tentando fazer alguns, com resultado risível. É justamente por isto que a vida devota é por vezes referida como um processo de morte pelo qual obtemos a vida. Quem se apega à própria vida, isto é, aos seus conceitos pessoais, ao seu modo único de ver, etc., vai terminar não encontrando a vida de fato. Quem, ao contrário, aceita perder-se e desapega-se de si mesmo, encontrará o Caminho, a Verdade e a Vida, que o ensinará e o fará ver.

A nossa época é particularmente imbecil porque é a época em que cegos se vangloriam da própria cegueira e da própria escuridão, desprezando a luz e a visão. Tudo isto, contudo, não é mais que soberba e revolta. E as consequências desta infantilidade são seríssimas e podem se estender pela eternidade.

De tudo isto, podemos concluir que o modo como Deus nos vê é o modo como nós somos. Não é aviltar a nossa dignidade reconhecermos que não somos deuses. Bem pelo contrário. A nossa grandeza está em justamente aceitar e amar a nossa condição de criaturas d'Ele, elevadas à condição de Filhos. Por ora, nós não podemos ter a dimensão exata do que isto significa, por mais que tentemos. Mas é algo grandioso...

Ordenemos as nossas vidas, os nossos valores, os nossos conceitos com o Cristo e, desse modo, passaremos a viver de substância, e não mais da vã fumaça da nossa vaidade.

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* A frase franciscana completa a de Sto Agostinho porque, enquanto a de Agostinho se restringe estritamente ao início, a de S. Francisco faz referência a toda a vida, isto é, à condição da nossa total contingência e dependência de Deus que nunca cessa. Deus não apenas cria, mas sustenta na existência e tudo quanto existe, só existe por meio d'Ele. Esta existência diz respeito não somente a entes materiais, mas também a valores, como a bondade, a virtude, a honra, etc. Jesus o expressa ao dizer: "Só Deus é bom", isto é, não há bondade alternativa. S. Paulo, por sua vez, escreve: "n'Ele existimos, nos movemos e somos."

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

As coisas na sua identidade


Thomas Merton

Uma árvore glorifica a Deus, em primeiro lugar, por ser uma árvore. Porque, sendo o que Deus entende que seja, espelha uma idéia que está em Deus e não é distinta da essência de Deus; portanto, uma árvore, sendo árvore, é, dalgum modo, uma cópia de Deus.

Quanto mais uma árvore se assemelha a si própria, tanto mais se assemelha a Deus. Se tentasse parecer-se com qualquer outra coisa que nunca fosse destinada a ser, parecer-se-ia menos com Deus e, por consequência, glorificá-Lo-ia menos.

Não há dois seres criados exatamente semelhantes. E a sua individualidade não é imperfeição. Pelo contrário: a perfeição de cada coisa criada não reside simplesmente na sua conformidade com um tipo abstrato, mas na sua identidade individual consigo mesma. Determinada árvore glorificará Deus prolongando as suas raízes na terra e erguendo os seus ramos no ar e na luz de uma maneira como nem antes nem depois dela, nenhuma outra árvore jamais o fez nem fará.

Imaginais que, consideradas individualmente, todas as criaturas do mundo são tentativas imperfeitas de reproduzir um tipo ideal que o Criador jamais conseguiu realizar na terra? Se assim é, elas não O glorificariam e antes proclamariam que Ele não é um Criador perfeito.

Eis a razão por que cada ser em particular, na sua individualidade, natureza concreta e entidade, com todas as suas características, qualidades que lhe são próprias e inviolável identidade, glorifica a Deus sendo precisamente o que Ele quer que seja, em determinado lugar e momento, nas circunstâncias que o Seu Amor e Sua infinita Arte lhe prescrevem.

As formas e os caracteres individuais das coisas que vivem e crescem, das coisas inanimadas, dos animais, das flores, de toda a natureza, constituem a sua santidade aos olhos de Deus. É sendo o que são que elas são santas. A tosca e típica beleza deste poldro, neste dia de Abril, neste prado, sob estas nuvens, é uma coisa santa e consagrada a Deus pela Sua Arte e proclama a glória de Deus.

As flores brancas de certa variedade de abrunheiro que se avistam desta janela, são santas. As florinhas amarelas que ninguém nota à beira do caminho são santas que olham Deus face a face.

Esta folha possui a sua particular contextura e a sua individual rede de nervuras e a sua própria forma santa; a perca e a truta, ocultas nos profundos recantos do rio, são canonizadas pela sua beleza e pela sua força.

A grande montanha, seminua, escavada pelas enxurradas, é mais um santo de Deus. Não existe outra como ela. É única dentro das suas características; nenhuma outra coisa, neste mundo, refletiu ou refletirá jamais Deus absolutamente da mesma maneira. E nisto consiste a sua santidade.

Mas vós? E eu?

Diferentemente dos animais e das árvores, não basta que sejamos conformes à nossa natureza. Não basta ser individualmente homens. Para nós, a santidade é mais do que natureza humana. Se nunca formos nada mais do que homens, nada mais do que o eu trazido pelo nascimento, não seremos santos e estaremos impossibilitados de prestar a Deus o culto de o imitarmos, que seria santidade.

Pode na verdade dizer-se que, para mim, a santidade consiste em ser eu próprio, que, para vós, a santidade consiste em serdes vós próprios, e que, em última análise, a vossa santidade nunca será a minha e a minha nunca será a vossa, exceto no que respeita à partilha comum de caridade e de graça.

Para mim, santificar-se significa ser eu próprio. O problema da santidade e da salvação consiste, portanto, e na realidade, no problema de encontrar o que sou e em descobrir o meu próprio eu.

As árvores e os animais não têm problema a resolver. Deus fá-los o que são sem os consultar e eles ficam perfeitamente satisfeitos. Conosco, é diferente. Deus deixa-nos a liberdade de ser o que quisermos. Podemos ser nós próprios ou não o ser, segundo a nossa vontade. Mas o problema é este: uma vez que só Deus possui o segredo da minha identidade, só Ele pode fazer-me o que eu sou, ou antes, só Ele pode fazer-me o que eu serei, quando, por fim, eu começar verdadeiramente a ser.

As sementes que, a todo o momento, são lançadas na minha liberdade pela vontade de Deus, são gérmens da minha identidade, da minha felicidade, da minha santidade.

Recusá-las é recusar tudo: é a recusa da minha existência e do meu ser, da minha identidade e do meu eu bem individual. Não aceitar nem amar nem realizar a vontade de Deus, é recusar a plena realização da minha própria existência.

E se não me tornar nunca aquilo que estou destinado a ser e antes ficar sempre o que não sou, passarei a eternidade a contradizer-me, por ser, ao mesmo tempo, alguma coisa e nada, uma vida que quer viver e que está morta e uma morte que quer estar morta e não pode realizar completamente a sua própria morte, porque é, não obstante, obrigada a existir.

Dizer que nasci no pecado é dizer que vim ao mundo com um falso eu. Entrei na existência sob o signo da contradição, sendo alguém que nunca tive a intenção de ser, e, por essa razão, sendo a negação do que se pode admitir que eu seja. Assim, entrei, ao mesmo tempo, na existência e na não-existência, porque, desde o começo, fui qualquer coisa que não era.

Exprima-se a mesma coisa sob uma forma menos paradoxal: durante todo o tempo em que não sou nada mais do que aquilo que nasceu de minha mãe, estou tão longe de ser a pessoa que deveria ser, que poderia mesmo não existir por completo. Na realidade, valeria mesmo mais, para mim, não ter nascido.

Cada um de nós está dissimulado por uma personalidade ilusória: um falso eu.

Este é o homem que eu próprio desejo ser, mas que não pode existir, porque Deus nada sabe dele. E ser ignorado de Deus é, reconheçamo-lo, demasiado isolamento.

A minha falsa personalidade é a que quer existir fora da irradiação da vontade e do amor de Deus - fora da realidade e fora da vida. E um tal eu tem de ser, por força, uma ilusão.

Não somos muito aptos para reconhecer as ilusões, - menos que qualquer outra, as que temos sobre nós próprios, - menos que qualquer outra, as que temos sobre nós próprios, - aquelas com que nascemos e que alimentam as raízes do pecado.  Para muitas pessoas, neste mundo, não há maior realidade subjetiva do que esse falso eu que é o seu e que não pode existir. Uma vida dedicada ao culto de tal sombra é o que se chama uma vida de pecado.

Todo o pecado tem como ponto de partida essa convicção de que o meu falso eu, o eu que existe somente nos meus desejos egocentristas, é a realidade fundamental de vida, à qual se subordina tudo mais que existe no universo. Assim, gasto a minha vida esforçando-me por acumular prazeres, experiências, poder, honra, ciência, amor, a disfarçar, revestindo-o, esse falso eu e a alicerçar o seu nada dentro duma realidade objetiva. E enrolo em volta de mim as minhas experiências, envolvo-me em prazeres e glória como em pequenas ligaduras, com o objetivo de me tornar perceptível a mim próprio e ao mundo, como se fosse um corpo invisível que só pode tornar-se visível se algo de visível cobrir a sua superfície.

Mas sob as coisas que acumulei em volta de mim, não há substância. Há só vazio, e o meu edifício de prazeres e de ambições sobre nada assenta. São eles que me objetivam, mas todos, pela sua própria contingência, estão destinados à destruição. E, quando desaparecerem, de mim nada mais restará a não ser a minha nudez, a minha vacuidade, o meu nada, para me revelarem que sou um erro.

O segredo da minha identidade está oculto no amor e na misericórdia de Deus. Mas tudo que está em Deus é realmente idêntico a Ele, porque a sua infinita simplicidade não admite nem divisão nem distinção. Não posso, portanto, esperar encontrar-me a mim próprio em parte alguma a não ser só n'Ele. Numa palavra: a única maneira como posso ser eu próprio é identificar-me a Ele, em Quem estão ocultas a razão e a completa realização da minha existência.

Há apenas, por conseguinte, uma único problema de que dependem inteiramente a minha existência, a minha paz e a minha felicidade: descobrir-me a mim próprio, descobrindo Deus. Se O encontrar, encontrar-me-ei a mim próprio, e, se encontrar o meu verdadeiro eu, encontrá-Lo-ei.

Mas, embora isto pareça muito simples, é, na verdade, imensamente difícil. De fato, se eu estiver abandonado, entregue a mim próprio, será mesmo completamente impossível, porque, embora, com o auxílio da minha própria razão, eu possa conhecer um pouco da existência e da natureza de Deus, não existe qualquer meio humano e racional para chegar a esse contato, a essa posse d'Ele, que será a descoberta de Quem Ele é realmente e de quem eu sou n'Ele. É algo que nenhum homem pode, sozinho, fazer. E nem todos os homens nem todas as coisas criadas que existem no universo, podem ajudá-lo em tal tarefa. Quem pode ensinar-me a encontrar Deus, é Deus, Ele Próprio, só Ele, unicamente Ele.

Thomas Merton, Sementes de Contemplação

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Naturalmente, este texto diz muita coisa e precisa ser meditado. Somente uma leitura detida será suficiente para lhe apreender todo o sentido. Espero que seja útil. Pax.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Conversão de Lewis


“Os leitores devem imaginar-me sozinho no meu quarto em Magdalen, noite após noite, a sentir <...> a aproximação contínua e impiedosa dAquele que eu desejara tão a sério não encontrar nunca. Aquilo que eu mais temia estava-me alcançando por fim. Durante o trimestre escolar da Trindade de 1929, eu me rendi, admiti que Deus era Deus, ajoelhei-me e rezei: talvez fosse, naquela noite, o convertido mais desanimado e relutante de toda a Inglaterra. Não conseguia enxergar algo que hoje me parece claro e evidente: a Humildade divina, que chega até a aceitar uma conversão como a minha. O Filho Pródigo voltou para casa pelos seus próprios pés; mas quem poderá adorar devidamente esse Amor que escancara os seus altos portões a um filho pródigo que é trazido para dentro, escoiceante, relutante, ressentido, olhando para todos os lados à procura de uma oportunidade de escapar?” 

C.S.Lewis

domingo, 11 de dezembro de 2011

A clareza do olhar interior as dificuldades da vida espiritual



"A precisão do olhar interior e a clara consciência do que nos é pedido são coisas da maior importância para a alma que se esforça por atingir a perfeição, pois a vontade de nos elevarmos para Deus não tardará a ser destruída pela falta de ânimo, se as perspectivas do progresso espiritual forem falseadas, e elas são-no muitas vezes por causa da importância que se dá às dificuldades, aos obstáculos criados pela natureza, aos conflitos inevitáveis no caminho da ascensão espiritual."

Intimidade com Deus, por um Monge Cartuxo.

Religiosos, Ateus, Agnósticos e "Meio lá meio cá"...


No mundo, existimos os religiosos, os ateus, os agnósticos e os “meio lá meio cá” que vivem num tipo de apreciação interior de um certo senso confuso da existência de Deus.

Os dois primeiros tipos tomaram uma atitude diante do fundamental problema de Deus. Os religiosos dizem que Ele existe e a tensão que experimentam é, não obstante possam experimentar alguns períodos de crise de Fé, encontrar um modo de melhor corresponderem à Fé que assumiram. Já os ateus lidam com o mesmo problema, só que de um outro modo: se convenceram, não sei por quais vias misteriosas, de que Deus não existe. Este tipo de atitude é, desde o início, antinatural, pois não há quaisquer indícios que o comprovem. Dir-se-á que o ateu está, também, submisso a uma fé, o que não deixa de ser verdade. No entanto, fé e racionalismo*, convenhamos, são absolutamente contraditórios. Qualquer discordância a este respeito só é possível se não se compreende o que seja uma e o que seja o outro. Pode, porém, ocorrer que o ateu seja simplesmente alguém que não considerou o problema a sério e, pelo que suponho, estes são mesmo os tipos mais comuns. Considerando o nosso alto nível de carência afetiva, alguém poderia muito bem se convencer a aderir a um discurso ideológico, só aparentemente racional, desde que com isso se auto-garantisse a companhia e/ou a admiração da sua turma. E este é um grande problema nosso, já bastante evidenciado por Schopenhauer: não raro, em discussões deste tipo, pouco nos importa a verdade, mas somente ganhar o debate e consolar o nosso ego.

É possível, por fim, que o sujeito esteja convencido da seriedade de sua posição atéia, mas que não disponha daquela clareza a respeito de si mesmo, a qual se requereria para que percebesse a sua auto-ludibriação ou a intenção sutil que se esconde por trás do seu discurso pseudo-científico e pretensamente neutro.

Não quero, com isso, dizer que os religiosos são, todos, absolutamente sinceros. É claro que isto não se dá. É verdade que muitas outras coisas podem motivar a atitude religiosa, como o medo, a barganha, etc. Mas estes pretextos não dão conta de abarcar todo o fenômeno religioso. Sinceridade implica maturidade. E é óbvio que isto exige tempo e coragem. Nem todo religioso é maduro. No entanto, é na religião que encontramos os indivíduos mais profundos, e o santo é justamente alguém que adquiriu um imenso conhecimento de verdades fundamentais, tanto de si mesmo quanto do mundo e de Deus.

Passemos, então, aos outros tipos.

Se alguém, por exemplo, se auto-define como ateu e agnóstico, isto já é, por si, uma prova de que esta pessoa está mais perdida do que cego em tiroteio, pois ateísmo e agnosticismo não podem residir num mesmo indivíduo. O ateísmo é uma afirmação da não existência de Deus. Ora, a afirmação supõe algum instrumental teórico para legitimá-la. Já o agnosticismo declara a impossibilidade de conhecer qualquer coisa a respeito. Portanto, para o agnóstico, não há como saber se Deus existe ou não, pelo que não é legítimo afirmar que Ele existe nem tampouco negar a Sua existência.

Muita gente gosta de contrapor ateus e agnósticos para descobrir qual deles é mais sincero. Das discussões que já li, a maioria opta pelo ateu. O argumento que utilizam é que o ateu tem a coragem de assumir uma posição. Ele não fica em cima do muro; ele se responsabiliza. Eu, porém, vejo de outro modo.

Se partirmos da constatação de que não há qualquer recurso epistemológico a partir do qual alguém possa declarar a não existência de Deus, o ateísmo nos aparecerá como uma posição precipitada, ingênua, fideísta, para não dizer cafajeste. Eu sinceramente vejo assim. E, se o ateísmo é uma questão de fé, tampouco se poderia erigir como uma crítica à religião, pois, fé por fé, o sujeito poderia escolher qualquer que quisesse, na impossibilidade de um critério maior. Não quero adentrar aqui no discurso a respeito dos argumentos que tornam a religiosidade infinitamente mais coerente, visto que há, sim, tais argumentos. Portanto, prossigamos o assunto.

O agnosticismo, a meu ver, parece ser mais sincero porque pelo menos pode sugerir que o sujeito se deteve com mais respeito diante do problema e, vendo-se impossibilitado de resolvê-lo, optou pela neutralidade. É claro que também pode acontecer de o agnosticismo se tornar uma atitude a priori e, se for, ele vai se identificar, mesmo, com a covardia mais baixa. É a este tipo que se refere o Chesterton: “a neutralidade é só um nome pomposo para indiferença, que é um nome pomposo para ignorância”.

O agnóstico, convencendo-se da impossibilidade de conhecer algo sobre Deus, concluirá: “se não posso saber nada sobre isso, também não devo me ocupar em meditar sobre um problema que não posso resolver. Portanto, me será indiferente a existência ou inexistência de Deus.” Isto não o isenta, claro, de torcer por um dos lados, rs..

Por fim, há os que eu chamei de “meio lá meio cá”. Em geral, são pessoas boas, às vezes inteligentes, e que julgam ser questão de sinceridade o adiamento indefinido de qualquer adesão mais decidida. Geralmente parecem não notar que isto pode, também, ser somente uma evasiva, a assunção da posição mais confortável de não responsabilização, pois, embora não caiam no problema do ateísmo, também não querem assumir os rigores que uma religião naturalmente implica.

O fato de estar, ainda, numa “neutralidade prática” pode, sim, ser a resposta coerente a um senso interior ainda confuso, não definido. No entanto, essas pessoas não deveriam julgar que há todo o tempo do mundo. Eis aí um problema que deve ser resolvido o quanto antes. Sem precipitação, claro, mas lembrando que a religião implica necessariamente a fé e que esta, neste contexto, pode ser entendida, a grosso modo, como um passo no escuro, como o início de um caminho que não se permite esgotar pela previsão. “Levanta-te, Abraão, sai da tua terra e vai para a que eu te indicar”. Nesta dinâmica da Fé, Sto Agostinho e Sto Anselmo diziam: “Crede e comprenderás”. Acostumados com a pesquisa de objetos inertes, talvez suponhamos que o mero fato de nos determos sobre o objeto da Fé nos será suficiente para que o compreendamos. No entanto, a Fé é um dom de Deus e o objeto da Fé é o próprio Deus. A única forma de conhecer a Deus é quando Ele mesmo se revela. No início do processo Deus permite alguns conhecimentos, claro, mas é somente a partir da recepção deste dom, que acontece quando a pessoa se dispõe, que a inteligência passa a compreender a belíssima coerência interna das verdades da Fé.

Quando Jesus ordena aos seus a difusão do Evangelho, Ele diz algo muito estranhamente interessante: “a ninguém saudeis pelo caminho”. Isto nada tem a ver com o hábito farisaico de somente tratar com os seus conhecidos. Antes, diz respeito à pressa que se deve ter na pregação do Reino. As saudações judaicas eram, em geral, demoradas e não havia tempo a perder. Esta pressa se justifica de vários modos: primeiro, porque não temos nenhum modo de saber com certeza se estaremos vivos no momento seguinte. A nossa habitual crença nisto é tão somente uma indução. Segundo, porque, além da possibilidade da morte, o mundo vive uma “tensão escatológica” que é uma contínua expectativa pela vinda do Cristo. E quando Ele chegar, não haverá mais nenhum modo de iniciar o processo de conversão nem de fazer atos meritórios, etc.

Terceiro, porque o processo de santificação é algo que poderia se estender ao infinito. Desse modo, ainda que sejamos cristãos fervorosos e sérios durante toda a vida e progridamos continuamente no correr de cem anos, não teremos nos aproximado do limite da vida espiritual porque, simplesmente, não há limite. Devemos começar, então, o quanto antes, pois Deus espera a nossa perfeição, à qual corresponderá o nosso grau de felicidade, e é preciso isentar-se dos perigos, sobretudo destes tão comuns à fase inicial da caminhada. Até adquirir alguma firmeza, o neófito deverá travar alguns combates, chatinhos de vencer, e que, às vezes, demandam tempo. Fica, então, o conselho aos indecisos: não permitam que esta dúvida se torne a posição estável de vocês. A indecisão é, por definição, uma oscilação, um estado de tensão. Sobre isto, nada se constrói. Escutem a voz do Cristo que diz: “Meu filho, dá-me o teu coração” (Sab 23,26).


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* Em geral, o ateísmo tira seus argumentos de um pretenso racionalismo. Ser racionalista é supor que a razão é capaz de conhecer toda e qualquer verdade. Logo, tudo quanto não se circunscrevesse totalmente no âmbito da razão natural seria, por força, inexistente. O racionalismo, porém, é também antirracional, pois a dimensão do desconhecido é inerente à própria condição humana.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Assumir o caráter de Cristo



A vida cristã é simplesmente um processo de ter o seu caráter natural transformado no caráter de Cristo e  este é um processo contínuo por dentro. Os desejos mais privados e os pontos de vista de alguém são as coisas que têm que ser mudadas. É por isso que incrédulos reclamam que o Cristianismo é uma religião muito egoísta. "Não é muito egoísta, é até mesmo mórbida", eles dizem. "Estar sempre pensando apenas no seu próprio umbigo, ao invés de pensar na humanidade."

Agora, o que um Sargento diria a um soldado que tinha um rifle sujo e quando lhe mandaram limpá-lo, respondeu: "Mas Sargento, não é muito egoísta, até mesmo mórbido, estar sempre limpando o interior de seu próprio rifle, ao invés de pensar nas Nações Unidas?" Bem, não precisamos nos preocupar com o que o Sargento diria, na verdade. Você entende?

O homem não será muito útil para as Nações Unidas se seu rifle não estiver pronto pra atirar. Da mesma maneira, pessoas que ainda estão agindo pelos seus antigos caráteres naturais não farão um bem real e permanente para as outras pessoas. Deixe-me explicar isso.

A História não é apenas a história de pessoas más fazendo coisas ruins. É na maior parte uma história de pessoas tentando fazer coisas boas. Mas de alguma maneira algo deu errado.

Veja a expressão "Frio como caridade". Como base em que, dizemos isso? Na experiência. Não aprendemos o quão antipáticas, autoritárias, conceituadas, pessoas caridosas frequentemente são? E ainda, centenas e milhares delas começaram realmente ansiosas para fazer o bem.

E quando elas fizeram isso, de alguma forma não foi tão bom quanto deveria ter sido. A velha estória: "O que você é resulta o que você faz." Uma macieira que não pode produzir maçãs comestíveis. Enquanto o caráter antigo estiver lá, sua mancha estará sobre tudo o que fizermos. Nós tentamos ser religiosos, e nos tornamos fariseus. Tentamos ser agradáveis, e nos tornamos autoritários. Serviço social termina em formalidade burocrática. Altruísmo se torna uma forma de se exibir.

É claro que eu não quero dizer que nós devemos parar de progredir e tentar ser o melhor que podemos. Se o alimento do soldado é o bastante para entrar na batalha com um rifle sujo, ele não deve fugir.

Mas eu quero dizer que a cura real é mais profunda. Fora de nós mesmos, mas em Cristo, nós devemos ir. A mudança não acontecerá de repente para a maioria de nós, e eu devo admitir que para a maioria dos cristãos será apenas o começo até o fim de nossas vidas presentes. Mas há alguns que vão mais adiante até mesmo antes destes, longe bastante para que se possa ver isto.

Seus rostos e vozes são diferentes. Quando você se encontra com eles, você sabe que está competindo com algo que, de certa forma, começa onde você pára. Algo mais forte, mais calmo, mais feliz, mais vivo que a humanidade comum.

C.S. Lewis