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sexta-feira, 20 de março de 2020

O Zen e o Silêncio


Para compreender o Oriente, temos de compreender o misticismo, que é o Zen.

Deve ser lembrado, entretanto, que há vários tipos de misticismo. Racional e irracional, especulativo e oculto, sensível e fantástico. Quando digo que o Leste é místico não quero significar que seja fantástico, irracional e impossível de ser trazido para dentro da esfera da compreensão intelectual. Simplesmente quero dizer que nas atividades da mente oriental há algo de silencioso, calmo, imperturbável, que parece estar olhando para a eternidade. Essa quietude e silêncio não indicam preguiça ou inatividade. O silêncio não é aquele que existe num deserto desprovido de vegetação, nem o de um corpo entregue para sempre ao sono e à putrefação. É silêncio de um "abismo eterno", no qual todas as condições e contrastes estão sepultados. É o silêncio de Deus, que profundamente absorvido na contemplação das suas obras passadas, presentes e futuras, se senta calmamente em seu trono de absoluta totalidade e unidade. É o "silêncio do trovão", obtido no meio de um relâmpago e do rumor de correntes elétricas opostas. Esta espécie de silêncio embebe todas as coisas orientais. Infelizes aqueles que consideram esse silêncio como decadência e morte, pois serão envolvidos pela explosão de atividade provinda desse silêncio eterno. É com esse sentido que falo do misticismo da cultura oriental e posso afirmar que o cultivo dessa espécie de misticismo é principalmente devido às influências do Zen.

D. T. Suziki, Introdução ao Zen-Budismo.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A concentração sem esforço e o silêncio


 A concentração sem esforço - isto é, na qual não há nada a suprimir, e o recolhimento se torna tão natural como a respiração e as pulsações do coração - é o estado de consciência (do intelecto, da imaginação, do sentimento e da vontade) em estado de tranquilidade perfeita, acompanhada da distensão completa dos nervos e dos músculos do corpo. É o silêncio profundo dos desejos, das preocupações, da imaginação, da memória e do pensamento discursivo. Dir-se-ia que o ser todo se tornou como a superfície de águas tranquilas refletindo a presença imensa do céu estrelado e de sua indizível harmonia. As águas são profundas, e como são profundas! - e o silêncio aumenta, aumenta sempre, e que silêncio! Seu crescimento realiza-se por ondas regulares que passam, uma após outra, através de vosso ser; uma onda de silêncio, seguida de outra onda de silêncio mais profundo, depois outra onda de silêncio ainda mais profundo. Já bebestes do silêncio alguma vez?

Meditações sobre os 22 arcanos maiores do Tarô

domingo, 7 de janeiro de 2018

O despertar de Satyakam

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Satyakam era uma criança muito questionadora. Não acreditava em nada a menos que ele mesmo o houvesse experienciado. Quando ficou mais velho - ele devia ter cerca de 12 anos -, disse à mãe: "Chegou a hora. O príncipe do reino foi para a floresta para se juntar à família de um mestre. Ele tem a minha idade. Eu também quero ir, também quero aprender qual o significado desta vida."

A mãe disse: "Vai ser muito difícil, Satyakam, mas sei que você já nasceu um buscador. Eu temia que um dia você me pedisse para enviá-lo a um mestre. Sou uma mulher pobre, mas esse não é um grande empecilho. A dificuldade é que quando eu era jovem trabalhei em muitas casas - eu era pobre, mas era bonita. Não sei quem é seu pai. E, se enviá-lo a um mestre, vão lhe perguntar qual é o nome do seu pai e temo que ele possa rejeitá-lo. Mas não custa fazer um esforço. Vá e diga a verdade, da mesma maneira que eu lhe contei a verdade. Muitos homens usaram meu corpo porque eu era pobre. Diga simplesmente que você não sabe quem é seu pai. Diga ao mestre que seu nome é Satyakam, que o nome de sua mãe é Jabala e que por isso o chamam de Satyakam Jabal. E, no que diz respeito à busca da verdade, não importa quem é seu pai".

Satyakam foi até um antigo mestre na floresta e, certamente, a primeira pergunta foi: "Qual é seu nome? Quem é seu pai?"

E ele repetiu exatamente o que sua mãe havia dito.

Havia muitos discípulos - príncipes, filhos de pessoas ricas. Todos começaram a rir. Mas o velho mestre disse: "Você está aceito. Não importa quem é seu pai. O que importa é que você é autêntico, sincero, corajoso - capaz de dizer a verdade sem se sentir constrangido. Sua mãe lhe deu o nome certo, Satyakam. Satyakam significa aquele cujo único desejo é a verdade. Você tem uma bela mãe, e será conhecido como Satyakam Jabal. E como segundo a tradição só os brâmanes podem ser aceitos como discípulos, eu o declaro um brâmane, porque só um brâmane pode ter a coragem de tal verdade."

Belos dias foram aqueles. O velho profeta se chamava Uddalak. Satyakam tornou-se seu mais amado discípulo. Ele o merecia: era tão puro e tão inocente.

Mas Uddalak tinha suas próprias limitações. Embora ele fosse um homem de grande sabedoria, não era um mestre iluminado. Então, ensinou a Satyakam todas as escrituras, ensinou-lhe tudo o que foi capaz de ensinar, mas não conseguiu enganar Satyakam como havia enganado todos os demais. Não que Satyakam estivesse levantando quaisquer dúvidas; mas sua inocência tinha tal poder que o velho homem teve de confessar: "Tudo o que eu tenho lhe dito é conhecimento extraído das escrituras; não é meu próprio conhecimento. Eu não experienciei isso, não vivi isso. Sugiro que você penetre mais fundo na floresta. Conheço um homem que alcançou a realização, que se tornou uma corporificação da verdade, do amor, da compaixão. Vá até ele."

Uddalak havia ouvido falar daquele homem, mas não o conhecia pessoalmente. Uddalak era bem mais famoso, era um grande erudito. Satyakam foi procurar o outro homem. Esse homem que ensinou muitas novas escrituras, todos os Vedas, as mais antigas escrituras do mundo. E após anos disse-lhe: "Agora você já sabe tudo; não há mais nada a saber. Você pode voltar para casa."

Na sua volta para casa, primeiro ele foi ver Uddalak. Da sua janela, Uddalak viu Satyakam chegando pela trilha que vinha da floreta. Ficou chocado. Satyakam havia perdido sua inocência; no lugar da inocência havia orgulho - naturalmente, porque agora ele achava que sabia tudo o que valia a pena saber no mundo. A simples ideia disso enchia seu ego. Ele entrou, e, quando começou a tocar os pés de Uddalak, este lhe disse: "Não toque os meus pés! Primeiro eu quero saber onde você perdeu sua inocência. Parece que o enviei ao homem errado."

Satyakam disse: "Ao homem errado? Ele me ensinou tudo o que vale a pena saber."

Uddalak disse: "Antes que você toque os meus pés, eu gostaria de lhe perguntar se você experienciou alguma coisa ou se isso é apenas informação. Aconteceu alguma transformação? Você pode dizer que qualquer coisa que saiba é um conhecimento seu?"

Satyakam disse: "Não posso dizer isso. O que eu seu está escrito nas escrituras; não tive a experiência de nada."

Uddalak disse: "Então volte, mas agora vá procurar outra pessoa da qual ouvi falar enquanto você estava fora. E, a menos que tenha experienciado, não volte. Você voltou para cá não com mais do que quando eu o enviei, mas com menos! Você perdeu algo de imenso valor. E o que você chama de conhecimento - se este é emprestado, ele só encobre sua ignorância; não faz de você um conhecedor. Vá até este homem e lhe diga que você não foi até lá em busca de mais informações sobre a verdade, sobre Deus, sobre o amor. Diga-lhe que você foi para conhecer a verdade, para conhecer o amor, para conhecer Deus. Diga-lhe: 'Se você puder cumprir a promessa, fico com você; do contrário, vou procurar outro mestre'".

Satyakam foi até o homem e lhe disse exatamente isso. O mestre estava sentado debaixo de uma árvore com alguns de seus discípulos. Depois de ouvir a solicitação, ele disse: "Isso é possível, mas você está me pedindo algo muito difícil. Há tantos discípulos aqui  e todos querem mais conhecimento. Eles querem saber sobre tudo. Mas se você insiste que não está interessado em informações, que está pronto para fazer qualquer coisa, que sua devoção à verdade é total, então encontrarei um caminho para você."

Satyakam disse: "Estou pronto para sacrificar minha vida, mas não posso voltar sem conhecer a verdade. Não posso voltar para meu professor nem posso voltar para minha mãe, que me deu o nome de Satyakam. E meu velho professor me aceitou sem se importar se eu era ou não um brâmane, simplesmente baseado no simples fato de que eu era uma pessoa honesta. Então, diga-me o que tem de ser feito."

O mestre disse: "Pegue todas as vacas que vir aqui e penetre bem fundo na floresta. Vá o mais longe possível, , para que não possa entrar em contato com nenhum ser humano. O propósito disso é que você esqueça a linguagem as palavras. Viva com as vacas, cuide das vacas, toque sua flauta, dance - mas esqueça as palavras. E, quando tiver mil vacas, volte aqui."

Os outros discípulos não conseguiam acreditar no que estava acontecendo - porque ali havia apenas uma ou duas dúzias de vacas. Quanto tempo demoraria para elas se tornarem mil?

Mas Satyakam pegou as vacas, entrou o mais fundo possível na floresta, além de qualquer contato humano, de qualquer contexto humano. Durante alguns dias foi difícil, mas pouco a pouco, lentamente... as vacas eram suas únicas companhias, e elas eram criaturas muito silenciosas. Ele tocava flauta, dançava sozinho na floresta, descansava sob as árvores.

Durante alguns anos ele continuou contando as vacas. Então pouco a pouco desistiu de fazê-lo, pois lhe parecia impossível que elas se tornassem mil. Além disso, ele havia esquecido como contar; a linguagem estava desaparecendo. As palavras desapareceram; a contagem não podia ser feita.

E a história é tão imensamente bela...

As vacas ficaram preocupadas quando se tornaram mil - porque elas queriam voltar para casa e este homem havia esquecido como contar! Finalmente, elas decidiram: "Nós temos de falar; do contrário esta floresta solitária vai se tornar nosso túmulo". Então, um dia, as vacas se aproximaram dele e lhe disseram: "Escute, Satyakam, agora já somos mil e está na hora de voltarmos para casa".

E ele lhes disse: "Sou muito grato a vocês. Se não tivessem me contado... Eu havia até me esquecido de casa ou de voltar para casa. Cada momento foi tão incrivelmente belo, com tantas bênçãos. No silêncio, as flores não paravam de florescer. Eu me esqueci de tudo. Não tinha ideia de por que vim para cá, de quem eu sou. Tudo se tornou um fim em si - tocar a flauta era o bastante, descansar sob as árvores era o suficiente, ver as belas vacas sentadas em silêncio à minha volta era tão belo. Mas, se vocês insistem, vamos voltar."

Os discípulos do grande mestre viram Satyakam chegando com mil vacas. Eles relataram ao mestre: "Nunca acreditamos que ele voltaria. Ele está chegando, e nós contamos exatamente mil vacas!"

E quando ele chegou ficou ali de pé... bem no meio da multidão de vacas.

O mestre disse aos outros discípulos: "Vocês contaram errado. Há mil e uma vacas; vocês se esqueceram de contar Satyakam! Ele se moveu para além do seu mundo; penetrou no inocente, no silente, no misterioso. Não está dizendo nada, está apenas ali junto com as vacas".

O mestre dissse: "Satyakam, agora saia do grupo das vacas. Agora você tem de ir para seu outro mestre que o mandou aqui. Ele é um homem velho e deve estar esperando. Sua mãe deve estar esperando".

E quando Satyakam foi até Uddalak, seu primeiro professor... Na última vez que o havia visto, ele não lhe havia permitido tocar seus pés, pois havia perdido sua inocência; não era mais um brâmane, havia caído, havia se tornado apenas um papagaio ilustrado. Quando Uddalak o viu chegando novamente, saiu correndo pela porta dos fundos - porque agora que Satyakam poderia ter permissão de tocar seus pés, era Uddalak quem teria de tocar os pés de Satyakam! Isso porque Uddalak continuava sendo um erudito, e Satyakam não estava vindo como um erudito, mas como alguém que havia despertado.

Uddalak fugiu da casa: "Não posso encará-lo. Estou envergonhado de mim mesmo". Mas antes pediu à sua esposa: "Diga-lhe que Uddalak está morto e que agora ele pode ir até sua mãe. Diga-lhe que eu morri me lembrando dele".

Estas eram pessoas feitas de uma determinação diferente. 

Satyakam voltou para casa. Sua mãe estava muito velha, mas continuava esperando por ele. E disse: "Satyakam, você provou que a verdade sai sempre vitoriosa. E provou que ninguém nasce brâmane: um brâmane é uma qualidade a ser adquirida. Todos nascem iguais. A pessoa tem de se provar, purificando-se, cristalizando-se, tornando-se centrado e iluminado - então ela se torna um brâmane. O simples fato de nascer em uma família brâmane não faz de ninguém um brâmane".

Se você meditar sobre a história, verá que a verdadeira essência da meditação é ficar em tal silêncio que não haja, em você, movimento dos pensamentos - as palavras não chegam entre você e a realidade, toda a rede de palavras desaparece e você é deixado só.

Essa solitude, essa pureza, esse céu do seu ser, sem nuvens, é a meditação. E a meditação é a chave de ouro para todos os mistérios da vida.

Osho. Inocência, conhecimento e encantamento.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O Recolhimento


O recolhimento é uma transposição de foco, que harmoniza toda a nossa alma com o que está além e acima de nós. É uma "conversão", uma "volta" do nosso ser às coisas espirituais e a Deus. Como são simples as coisas espirituais, o recolhimento é também uma simplificação do nosso estado de espírito e da nossa atividade espiritual. Tal simplificação nos confere aquela paz e visão das coisas, que Jesus proclama, ao dizer: "Se o teu olho é simples, todo o teu corpo será luminoso" (Mt 6,22). Como a passagem se refere principalmente à pureza de intenção, lembra-nos que é isso também que o recolhimento realiza: purifica-nos a intenção. Ele recolhe todo o amor da alma, e, depois de elevá-lo acima de toda a criação, dirige-o para Deus e para a sua Vontade.

Thomas Merton, Homem Algum é Uma Ilha

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Guerra e Ternura


Ontem, meditando sobre a minha vida espiritual, sobre as minhas tantas negligências, dei-me conta, de um modo mais acentuado, de como ando distante de Deus. Na verdade, eu sempre estou percebendo, olhando e vendo isso. Porém, ontem eu contrastei esta situação - ruim, tíbia - com a ternura com que eu costumava olhar para Deus e que constitui parte essencial da minha espiritualidade pessoal.

E, enquanto me dava conta destas coisas, eu li em S. Josemaria Escrivá o seguinte:

"A guerra! - A guerra - dizes - tem uma finalidade sobrenatural desconhecida do mundo; a guerra foi feita para nós... A guerra é o obstáculo máximo do caminho fácil. - Mas temos de amá-la, ao fim e ao cabo, como o religioso deve amar as suas disciplinas." (Caminho, nº 311.)

Estas coisas parecem contraditórias à primeira vista, não? Pois é! Mas não são! Muito pelo contrário. É preciso fazer guerra a si mesmo a fim de manter a ternura e o frescor do amor a Deus. É preciso lutar muito para manter a integridade, não apenas o vigor da ação positiva, mas também a delicadeza e a sutileza da alma, sem as quais compreenderemos o Cristo muito pouco.

Lembrava-me de uma frase de S. João da Cruz que muito me impressionou na ocasião em que a li pela primeira vez: "É preciso tornar-se delicado para que a delicadeza encontre a Delicadeza". E, quem conhece S. João da Cruz, saberá que, ao fundo de sua ternura única e do seu imenso carinho por Cristo, há toda uma estratégia de guerra contra a soberba, explicada passo a passo, milímetro a milímetro e que espanta pela violência e pelo rigor. Brincando um pouco com isso, ironizava com o santo, o Thomas Merton: "será mesmo ele o mesmo escritor de 'Viva Chama de Amor'?"

Pois bem: é preciso amar a guerra e manter a ternura da alma. Nestes tempos difíceis, temos de ter o cuidado de não embrutecer o espírito, de não cair no engodo de uma espiritualidade seca sob pretexto de que este é o caminho dos fortes. De fato, as emoções e intensos afetos sensíveis não fazem necessariamente parte da vida espiritual e devem ser deixados de lado, com certa indiferença, a fim de abrirem espaço a um amor mais puro e forte. Porém, disto não se deduz que a pessoa deva tornar-se ríspida, supondo que Nosso Senhor despreza as pequenas atitudes, os ternos gestos, a amabilidade da alma para com Ele. É preciso, sim, que nos tornemos delicados, não de uma delicadeza romântica moderna, cheia de susceptibilidades e 'não-me-toques', mas de uma delicadeza viril, do homem que, experimentado nos combates da vida - sejam estes morais ou doutrinários - e sem tempo ou saco de deter-se em contemplações inúteis quando é preciso agir - sejam estas as das próprias supostas virtudes ou das dificuldades do caminho -, contudo não renuncia deter-se terna e amorosamente na contemplação de Jesus, no trato íntimo e enamorado com Ele, na doce e calma quietude que permite olhá-Lo em cada gesto e palavra, que permite participar do Seu silêncio e tê-Lo por companhia deliciosa.

Sim.. Devemos entender a oração não como um mero compromisso enfadonho ao qual devemos nos submeter de modo heróico, passando por cima da nossa própria vontade que, sinceramente, não quer nada daquilo, preocupada que está com futilidades. Não. Devemos, antes, ter uma concepção diferente da oração: é uma oportunidade, uma feliz ocasião de estarmos, de novo, com Ele. Sta Teresa D'Avila já dizia: "A oração não consiste em dizer muito, mas em amar muito". E é preciso redescobrir este tesouro, este sumo bem que é o trato íntimo com Nosso Senhor. E é preciso descobri-lo de um modo muito pessoal.

Guerra e ternura cultivemos, como um verdadeiro cavaleiro cruzado. Que Nosso Senhor nos ensine. Ámen.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A ação de Deus na alma quieta


Um pouquinho que Deus opere na alma, neste santo ócio e soledade, é um bem inapreciável, por vezes muito maior do que a própria alma ou quem a dirige possam imaginar. E embora não se veja tanto na ocasião, a seu tempo manifestar-se-á. O mínimo que a alma então pode alcançar, é sentir um alheamento e estranheza em relação a tudo, algumas vezes com maior intensidade do que em outras; ao mesmo tempo sente inclinação para soledade, e tédio de todas as criaturas deste mundo, enquanto respira suavemente amor e vida no espírito. E, assim, tudo quanto não é este alheamento e estranheza causa-lhe dissabor; pois, como se costuma dizer, quando goza o espírito, a carne fica sem prazer. 

São João da Cruz, Chama Viva do Amor

Silêncio é...


Silêncio é mansidão
Quando você não defende a si mesmo contra as ofensas
Quando você não chama por seus direitos
Quando você deixa Deus defende-lo
Silêncio é mansidão...

Silêncio é misericórdia
Quando você não revela a outros a falta de seus irmãos
Quando você prontamente perdoa sem remexer o passado
Quando você não julga, mas ora em seu coração
Silêncio é misericórdia...

Silêncio é paciência
Quando você aceita sofrimentos sem reclamar, alegremente
Quando você não procura consolações humanas
Quando você não se torna muito excitado
Mas espera, paciente, que a semente germine
Silêncio é paciência...

Silêncio é humildade
Quando não há competição
Quando você considera a outra pessoa melhor do que você
Quando deixa seu irmão brotar, crescer e amadurecer
Quando você, alegremente, abandona tudo no Senhor
Quando as suas ações podem ser mal interpretadas
Quando você deixa para outros a gloria da recompensa
Silêncio é humildade...

Silêncio é fé
Quando você guarda silêncio porque sabe que o Senhor agirá
Quando você renuncia à voz do mundo para manter-se na presença do Senhor
Quando você não se esforça para ser entendido
Porque é suficiente para você saber que o Senhor o entende
Silêncio é fé...

Silêncio é adoração
Quando você abraça a cruz sem perguntar “por quê”
Silêncio é adoração...

Madre Teresa de Calcutá

domingo, 7 de agosto de 2011

3º Mistério Gozoso - O Nascimento de Jesus na gruta de Belém


"Ave, que a estrela perene geraste"
Ave, és aurora do Místico dia!
Ave, que a forja do engano extinguiste!
Ave, os mistérios de Deus iluminas"

Akatistos, Ikos V


Neste Mistério, contemplamos o nascimento de Nosso Senhor quando, por ocasião do recenseamento, José e Maria tiveram de viajar para Jerusalém. No meio do caminho, quando passavam por Belém, completaram-se os dias da gravidez de Maria e, notando-o, José procurou conseguir um lugar nalguma hospedaria. No entanto, onde quer que batesse, escutava sempre o mesmo: "Não há lugar aqui para vós".

Há um gênero literário bíblico que se chama "Midrash". Nele, os escritores esboçam, já no nascimento de um grande sujeito, algo do que ele será futuramente. Aqui, nós temos, no nascimento de Cristo, uma série de antecipações de coisas que é bom compreender. Desde o início, Ele será rejeitado, conforme diz a Escritura: "Ele veio para os seus, mas os seus não o receberam". Os homens estavam ocupados demais com os seus trabalhos, embotados de preocupações terrenas, fechados ao Mistério de tal modo que, ainda quando Ele bateu em suas portas, eles não o reconheceram e, portanto, não o receberam.

No entanto, é verdade que os homens encontram sua alegria em Deus. Portanto, aquela distração em ocupar-se somente com as coisas nas quais se importavam os afastava, concretamente, da alegria. Que honra teria sido hospedar aquela família! Eles não O reconheceram. Afinal, era uma noite aparentemente comum e nada de extraordinário se insinuava naquele homem que pedia abrigo.

Isto me faz lembrar de duas coisas. Primeiramente, de Elias que reconheceu a presença de Deus numa brisa suave. Soprou a brisa e Elias cobriu o rosto. Deus é discreto, é simples e não gosta de chamar a atenção. É muito amigo do silêncio e da humildade. Só que, para notar essas coisas, é preciso sair do frenético do dia-a-dia. Contemplar o silêncio implica pôr-se em silêncio. Aqueles homens da hospedaria estavam ocupados demais: "Não há lugar para vós".

Depois, quantas vezes teremos sido, nós mesmos, estes maus hospedeiros! Quantas vezes Jesus poderá ter batido em nossa porta e nós não O teremos reconhecido! Ocupados demais com as nossas bagatelas, com o draminha da nossa vida, ou preocupados demais com a aparência ou o cheiro deste que veio. "Não, não pode ser Ele". Como desconhecemos a Nosso Senhor! E como, por diversas vezes, estamos fechados ao Mistério. É precisamente este o sentido autêntico do que Jesus diz no Sermão da Montanha: "Ai de vós que rides", isto é, ai de vós que vos distraís com vossas coisinhas, fechados em vosso egoísmo, e desprezais as visitas que o Mistério vos faz. E, crentes de nossa bondade, nós perpetuamos o "não há lugar aqui para vós".

Nosso Senhor foi rejeitado desde o início. Nem havia ainda nascido, os homens já lhe negavam lugar em seu meio. E, no entanto, a Escritura nos diz que a alegria de Jesus era habitar no meio dos homens. Jesus não desiste e ama os homens de tal maneira que se exila com eles. E é, aí, feliz. Tem esperança de despertar-nos da nossa letargia.

José não conseguiu hospedagem. Voltando ao lugar onde estava sua Esposa, uma gruta em Belém, Jesus já era nascido e chorava sobre uma manjedoura. Primeiro, vejamos um ponto muito interessante. Toda aquela situação parecia muito inusitada, parecia algo meio caótico, uma coisa meio desesperadora. Ninguém poderia supor uma participação divina naquilo. Ao contrário, parecia talvez um descuido e era muito fácil lamentar-se, pensando ser obra do acaso. No entanto, a Escritura nos diz: "E nasceu em Belém para que se cumprissem as Profecias". De novo, Deus é discreto. Teríamos muito maior facilidade de acreditar a atuação divina se José tivesse encontrado uma hospedaria muito particular, ornada de ouro, e animada pelos músicos mais habilidosos da antiguidade. No entanto, a vontade divina se revela justamente aqui, onde o baixo parecer humano apenas teria motivos de lamentar. Que frescura temos nós de reduzir Deus aos nossos critérios! Afirmamos teologicamente que Ele é infinito, mas quase não O aceitamos sê-lo no real.

Ter nascido em Belém ainda nos revela algumas coisas muito interessantes. Belém, cujo nome original é Bethlehem, significa "Casa do Pão". Nenhum lugar mais adequado para Aquele que será o "Pão Vivo que desceu do Céu", o "Verdadeiro Maná", tantas vezes prefigurado nas Escrituras. Depois, Jesus foi posto numa manjedoura, que é justamente um lugar onde se coloca a comida dos animais. E faziam-Lhe companhia um boi e um jumentinho, e isto nos remonta a Isaías, onde se lê: “O boi conhece o seu dono, e o jumento o presépio do seu senhor, mas Israel não me conheceu” (Is. I, 3) Coisa admirável!

Deus nascia! E vinha como um indefeso e inofensivo infante. Naquela noite, Seu chorinho rompeu o silêncio e, junto a Ele, cantavam talvez uns grilos e... mais nada. Silêncio. Nasceu pobre,  porque assim foi do Seu agrado, Ele que será o Esposo da Pobreza desde o início. Foi pobre, não porque nada tivesse, pois nunca deixou de ser Deus e de ser Rei, mas foi pobre porque tudo deu. "Amou-nos ao extremo", dirá João, o Apóstolo que se reclinava no Seu coração.

Era comum e extraordinário! Era Deus e homem! O saudoso prof. Orlando Fedeli fazia notar que, como homem, nascera de Mulher; como Deus, nascia de uma Virgem e não lhe rompia a Virgindade, assim como quando, depois de ressurreto, entrava no Cenáculo estando as portas fechadas. Como criança humana, não sabia andar. Como Deus, movia a estrela. Mais tarde, como homem, dormirá num barco. Como Deus, despertado, ordenará que o mar se acalme. Este é Jesus que, agora, dorme nos braços da Virgem. O Amante da pobreza, o Coração que tanto amou o mundo, o Pão que veio nos saciar a fome.

Jesus foi ainda visitado por dois grupos: um de pastores, e outro de reis. Os pastores, avisados pelos anjos, vieram adorá-Lo e reconheciam n'Ele Aquele que será o Verdadeiro Pastor, Aquele que dirá: "As minhas ovelhas conhecem a minha voz". É este quem guiará as ovelhas perdidas aos pastos onde mana leite e mel, e saberá deixar as noventa e nove em segurança para ir buscar aquela única que se extraviou, e a trará sobre os ombros.

Também os reis o visitaram, reconhecendo n'Ele a verdadeira Majestade, e O adoraram. S. Pedro Julião Eymard, comentando sobre esta visita, ensina que o amor quer, por força, imitar o que se ama. Também os reis magos, contemplando a Suma Majestade rebaixada daquele modo, quereriam, eles também, rebaixar-se até as entranhas da terra, se pudessem, a fim de imitar-Lhe a humildade. E Lhe presentearam com Ouro, Incenso e Mirra.

O ouro, ornamento de reis, testemunhava que a realeza de Jesus não era algo imputado por outro, mas algo que lhe pertencia por Natureza. 

O incenso representa a divindade de Jesus que, sob a forma de criança, sustentava a existência do mundo. Não obstante dormisse ou chorasse, Aquele era o Onipotente. O incenso representa ainda os cultos e sacrifícios antigos que, aqui, têm o seu término, cedendo lugar para o Verdadeiro Deus.

A Mirra, uma erva amarga, fala da vida do Cristo que, assumindo a condição do escravo, viverá na pobreza, na privação, "sem ter onde reclinar a cabeça", e, por fim, morrerá sobre o lenho da Cruz, humilhado, escarnecido e desprezado pelos seus. Este traço do Cristo resignado não deve ser visto somente no Calvário. Na verdade, ele acompanhará toda a vida do Cristo e Lhe será grande cruz, dirá Sta Teresa D'Avila, amar tanto os homens e, ao mesmo tempo, contemplar-lhes, até o fundo da alma, as crueldades, hipocrisias e pecados. Cristo será o "amigo das dores e do sofrimento" de que falou Isaías.

Agora, porém, Ele dorme. É noite, faz frio e o mundo parece todo em silêncio, como cuidadoso de não acordá-Lo. A Virgem e José O adoram, admirados de tudo isso.

Por este mistério, peçamos a Nosso Senhor, pela intercessão da Virgem Santíssima, o desprezo das honrarias humanas, o amor da pobreza e a graça de nos esvaziarmos para que possamos estar sempre abertos ao Mistério.

"Sei que gostais de vir sem ser notado... 
Mas o coração puro, de longe, Senhor, vos perceberá."
Sta Faustina

Fábio

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Escuridão me Basta - Poesia Texto


"Senhor, é quase meia-noite e estou Te esperando na escuridão e no grande silêncio.
Lamento todos os meus pecados.
Não me deixe pedir mais do que ficar sentado na escuridão, 
sem acender alguma luz por conta própria, nem me abarrotar com os próprios pensamentos
 para preencher o vazio da noite na qual espero por Ti.
Deixa-me virar nada para a luz pálida e fraca dos sentidos, 
a fim de permanecer na doce escuridão da Fé pura.
Quanto ao mundo, deixa-me tornar-me para ele totalmente obscuro para sempre. 
Que eu possa, deste modo, por esta escuridão, chegar enfim à Tua claridade.
Que eu possa, depois de ter me tornado insignificante para o mundo, 
estender-me em direção aos sentidos infinitos, contidos em Tua paz e Tua glória.
Tua claridade é minha escuridão. 
Eu não conheço nada de Ti e por mim mesmo nem posso imaginar como fazer para Te conhecer.
Se eu te imaginar, estarei errado.Se Te compreender, estarei enganado.
Se ficar consciente e certo que Te conheço, serei louco.
A escuridão me basta".

Thomas Merton, OCSO

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A Escuridão me Basta - Thomas Merton

Eu creio já ter posto este video por aqui, mas ponho-o de novo. Nele, o Monge Trapista Pe. Luis (Thomas Merton) nos brinda com um belo poema de matiz sanjuanista.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A verdadeira solidão interior


A verdadeira solidão não é qualquer coisa exterior a vós, não é a ausência de gente e de ruído em torno de vós: é um abismo a abrir-se no centro da vossa própria alma.

E esse abismo de solidão interior é criado por uma fome que nenhuma coisa criada pode satisfazer.

O caminho único para encontrar a solidão é a fome, a sede, a tristeza, a pobreza e o desejo, e o homem que pôde achá-la está tão vazio como se a morte o tivesse esvaziado.

Ultrapassou todos os horizontes. Já não lhe resta qualquer caminho pode onde possa enveredar. Ela é a zona cujo centro está em toda a parte e a circunferência em parte alguma. Não é viajando que a encontrareis, mas permanecendo imóvel.

No entanto, é em tal solidão que as mais fecundas atividades têm seu começo. É aí que conhecereis a ação sem movimento, o esforço que é profundo repouso, a visão nas trevas, e, para mais além de qualquer desejo, uma plenitude cujos limites se estendem até ao infinito.

Thomas Merton, Sementes de Contemplação

terça-feira, 23 de março de 2010

Ocupações e Quietude...

Nestes dias, ando um tanto atarefado. O dia está repleto, graças a Deus, e tenho tido pouco tempo de escrever aqui, embora, para a minha surpresa, ainda que as visitas sejam sempre poucas, são, porém, perseverantes. Claro que não sei se são as mesmas pessoas que vêm sempre aqui.

Recebi um e-mail de um leitor que afirmava sempre vir neste sítio. Dizia ele que, quando via que eu nada havia escrito de novo, relia então uma postagem antiga. Uma tal declaração só me deixa feliz, pois me faz perceber que, embora o meu pouco trato com estas questões espirituais, há pessoas que gostam do que eu escrevo e posso, dessa forma, ser um canal, ainda que modesto, da graça de Nosso Senhor.

Quero, pois, por meio desta postagem, explicar-me pelo fato de ter escrito pouco neste blog. Ando ocupado. Ensaiamos para um musical que acontecerá agora na Semana Santa... Passamos a ensaiar seis dias por semana; isto porque na quarta há o Grupo Anjos de Adoração, e não há como ensaiar. Mas já há dois domingos que tomamos, nos dois horários, para nos dedicarmos a isto.

A primeira vez que encenamos a Paixão do Senhor foi em 2006, e desde aquele tempo, uma das minhas preocupações a este respeito era de que os ensaios nos agitassem e dispersassem do espírito da Quaresma. E isto não é o objetivo... Ao contrário, nossos esforços podem e devem se incluir no conjunto de práticas espirituais, na mortificação, na negação do próprio comodismo e na doação a Nosso Senhor. Ensaiar uma vez por semana pode ser um tipo de descontração.. Mas ensaiar seis vezes exige-nos, com certeza, renúncias. Seja como for, depois de dois anos eu havia me decidido a nunca mais fazê-lo.. Porém, neste ano, eis-me de novo. E seja como Deus quiser...

Reforço somente o seguinte: todo tipo de agitação é desinteressante, o que, obviamente, não significa que necessitamos estar parados todo o tempo, mas, antes, que ter certas ocupações não implica necessariamente em agitar-se. A quietude, a solidão interior devem ser exercitadas, juntamente com outras práticas. Tais coisas são maturadas pela experiência e importa buscá-las. Para tal, é importante uma muito boa orientação, a ajuda de leituras espirituais corretas, e um coração puro, pobre, reto na intenção...

Que Nosso Senhor nos ensine...
A vida de santidade é o que mais ansiamos e, no entanto, o que mais resistimos.
Que a Virgem Maria nos conduza pela mão.

Pax et Bonum.

Fábio.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

...

Já faz algum tempo que não posto neste espaço...
Por vezes, o silêncio é mesmo mais eloqüente. Diante da profundidade destes tempos, Advento e Natal, achei melhor assim... É melhor silenciar; assim nos abrimos à totalidade sem fim do Mistério, ao invés de delimitarmos um pequeno horizonte a partir de uns pobres conceitos...

O amor de Deus está para além do pouco que sabemos...
Na noite, Ele veio a nós. Que mais fazer senão imitar os reis e pastores? Curvemo-nos...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Medos e Desejos - causas da agitação na alma


A Santa Igreja e os seus santos nos ensinam e recomendam a cultivar a paz interior. É o que diz, por exemplo, S. João da Cruz: "dá-te à tranquilidade", Sta Teresinha de Lisieux, S. Pio de Pietrelcina, entre tantos outros. Há, na espiritualidade católica, grande estima pelo silêncio, pela quietude, pela solidão. O Céu mesmo é, às vezes, retratado como um repouso.

A agitação, ao contrário, perturba a alma. Podemos observar a diferença abismal entre uma alma em paz e outras que se deixam agitar, no evento evangélico da tempestade. As ondas se agitam, os Apóstolos imitam-lhes com o coração e, enquanto isto, o que faz Jesus? Dorme... Uma vez despertado, Jesus faz que o mar se assemelhe à quietude e ordem do seu interior, e tudo silencia....

No mesmo sentido, na casa de Marta e Maria, Jesus elogia esta última por manter-se em paz quieta, afirmando que esta é a melhor parte.

A agitação está na multiplicidade. A paz na unidade e totalidade. Um dos demônios expulsos por Jesus se chamava legião, pois, na verdade, eram muitos. A multiplicidade agita. A unicidade acalma. Quando destacamos algo na multidão, não estamos seguindo a unicidade, pois estabelecemos, no mínimo, uma dualidade entre o que escolhemos e os demais objetos. A multiplicidade permanece. É preciso prezar pela totalidade e, como dizia Sta Clara a S. Francisco de Assis, se notarmos bem, veremos que só existe uma verdade: "Deus é"...

Na mística sanjuanista, a virtude teologal da caridade exige-nos que concentremos todo o nosso afeto em Deus; só assim, amando-O somente, amaremos ordenadamente tudo o que por meio dEle se fez. Quando, porém, não O amamos, perdemo-nos na multiplicidade de objetos, ignorando os laços comuns que os unem e, consequentemente, nosso afeto se dirige a mil direções.

Daí surgem o desejo e o medo. O desejo, agindo sobre a vontade, impele-nos a mil coisas; agita-nos enquanto nos denuncia a falta de algo e se lança, de forma irrefletida, sobre qualquer brilho que perceba nas criaturas. O medo, como um desejo inverso, impele-nos, não em direção a certas coisas, mas em direção oposta; ele nos põe em fuga... O medo nada mais é do que o desejo de que tal situação não se dê.

E, escravos destes dois, do desejo e do medo, nos comportamos como marionetes, passando o dia perseguindo certas coisas e fugindo de outras e, enquanto isto, passa o tempo, e do silêncio somente conhecemos o nome, e da solidão somente sabemos a existência. Nossos inimigos movem-nos à força de ilusões... O amor próprio brinca conosco; sugere ameaças inexistentes, como miragens no deserto, para que nos cansemos numa corrida inútil; enquanto isto, nos apresenta falsos brilhos, sólidos como fumaça, para que, ridiculamente, nos distraiamos com o nosso nada... Verdade suprema é o que disse, certa vez, um anjo a S. Francisco: "Espumas.. Eis quanto pesam os sonhos dos homens".

"Não goste nem desgoste", foi o que li certa vez, e vários paralelos de mesmíssimo sentido se encontram distribuídos nos bons livros espirituais. É preciso educar bem a nossa vontade, a nossa imaginação que, como dizia Sta Teresa D'Avila, "é a louca da casa", disciplinar o nosso interior para que não se tensione em fantasias, medos ilusórios, desejos fúteis, mas, ao contrário, se atenha sobre a Verdade. Esta não muda, abrange toda substância e, se nos firmarmos sobre ela, poderemos, enfim, descansar e silenciar...

"A nada ame com particularidade" S. João da Cruz
"Cessai, e vede que sou Deus" (Sl 45,11)

Fábio.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Silêncio amoroso



É triste ver como o ativismo adentrou mesmo dentro das igrejas, como o pragmatismo toma espaço e como os homens simplesmente fogem do silêncio e da quietude. A solidão virou sinônimo de mal nos tempos hodiernos. Tudo isto representa, de fato, uma grande inversão dos retos valores do espírito.

Por vezes, temos o Santíssimo exposto e basta que haja um microfone ou alguns livros devocionais para que se tenham garantidas duas horas de barulho ininterrupto. Aquilo a que chamam oração, por vezes, não passa de mera fuga, de esquiva. Simplesmente não há verdadeira entrega, porque nos mantemos apegados ao nosso jeito, às nossas opiniões, às nossas preferências. É preciso libertar-se disto!

"Retira as sandália", fica nu! "Não sabemos rezar nem pedir como convém" porque nos fiamos em nós mesmos, na nossa limitada compreensão das coisas. É preciso desnudarmo-nos e, na nossa pobreza, podermos sentar aos pés dEle, silenciosos, enquanto Ele, também silente, nos olha e nos sonda. "A linguagem que Deus mais entende é a do silêncio de amor" escreve o doutor da noite. E este silêncio se faz presente não simplesmente quando nos abrimos à vontade dEle, o que caracteriza a atitude amorosa; mas, também, quando, desejosos de O louvar e adorar, reconhecemos a baixeza dos nossos termos e compreendemos que, se o quiséssemos louvar com nossas palavras, antes teríamos de reduzi-Lo ao nível pobre dos nossos conceitos. Diante do inefável, calamos e o nosso silêncio se torna a mais linda canção de amor. É o que os místicos chamam canção silenciosa ou solidão sonora.

Não se trata aqui de negar a eficácia da oração vocal. Ao contrário, reconheço mesmo a sua necessidade. Mas é preciso aprofundar as coisas. Sempre que louvamos a Deus de forma conceitual, nos utilizamos de termos que a Ele se atribuem apenas de forma analógica. Deus está para além deles. E não apenas nisto, mas também nas supostas experiências espirituais pelas quais pode um cristão passar. Estaria enganado quem, ao sentir um raio solar sobre a pele, supusesse já conhecer o ardor do sol.

É preciso pobreza e amor! Quando somos pobres, percebemos o abismo que é Deus e, diante disto, calamos! Quando amamos, percebemos que isto está além das palavras e, então, calamos. Sobretudo, quem ama quer imitar, como escreveu S. Pedro Julião Eymard. Ao contemplá-Lo no Santíssimo Sacramento, percebemo-Lo quieto e escondido. É então que, amando-O, O imitamos e descobrimos estas verdades veladas, estas pérolas escondidas.. Deus é simples e grande amigo do escondimento, do silêncio e da solidão. No momento em que encontramos algo escondido, nos tornamos, também, neste momento, escondidos. É então que Ele nos leva aos Seus aposentos e nos dá de beber da sua adega.

"Levarei a alma ao deserto e, lá, a desposarei" (Os 2, 16)

Fábio Luciano

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Como um abismo

Na Santa Missa, é certo que nos reunimos e que entramos também em comunhão fraterna. Mas isto está longe de ser a sua substância, o seu caráter principal. Muito antes disso, a Santa Missa é o Sacrifício de Nosso Senhor no Calvário, perpetuado no Altar.

Por vezes, vemos ou fazemos a experiência de, estando reunidos num determinado local, sermos surpreendidos por um evento súbito que, ao tomar a nossa atenção, faz-nos voltarmos todos a uma mesma direção e como que esquecer as demais pessoas e aquilo de que tratávamos.

Ora, na Santa Missa, embora não vejamos com os olhos físicos, acontece o evento mais importante de todos: a Morte do Deus-Homem para a nossa Salvação. Somente o fato de saber disto, deveria nos tomar de tal forma que todos os demais que conosco partilham daquela singularíssima experiência como que sumissem da nossa vista.

Os nossos sentidos, porém, nada captam do Mistério "apontado" pelos sinais. A aparente ordinariedade dos eventos que lá se dão parecem em nada nos satisfazer a curiosidade. Por isto mesmo, a correta atitude na Santa Missa deve ser algo aprendido e exercitado. Ver com os olhos da Fé requer hábito e a disciplina de saber estar diante da Cruz, mesmo que não a vejamos, é fruto da vontade submissa ao Mistério.

Embora realmente estejamos próximos uns dos outros, na Santa Missa deveríamos cavar uma espécie de abismo entre nós, de modo que nada nos tirasse a atenção e que pudéssemos contemplar a violência infinita daquele amor que sobre nós é investido de forma individual. Sim, Aquele que morre por nós, conhece o nosso nome e ocupa-se de nós. No Santo Sacrifício da Missa, quisera ser só dEle e estar como que só, aos pés da Sua Cruz.

É esta a solidão bendita! É isto o que desejam os amantes do Cordeiro: entrar nos Seus aposentos e unir-se a Ele. Aqui não se trata de nenhum individualismo ou qualquer tipo de ciúmes do Cristo. Mas, antes, é o legítimo reconhecimento de que a santidade, o amor a Deus, é sempre algo pessoal, ainda que façamos parte da Cidade dos eleitos, a Santa Igreja Católica. De forma alguma quero excluir o amor fraterno. Nem cogito isso... Mas é preciso resguardar aquela solidão que nos permite a intimidade com Ele que nos vê em segredo e nos ama no silêncio e escondimento da nossa alma.

Sim.. os santos são sempre solitários, e isto não necessariamente porque se afastam dos outros, mas porque guardam o coração para Um só.

"Oh quão doce e amoroso despertas em meu seio onde só Tu secretamente moras. Neste aspirar gostoso, de bens e glória cheio, quão delicadamente me enamoras" (S. João da Cruz, Chama Viva de Amor)

Que Deus nos ensine o abismo da solidão enamorada.

Fábio Luciano