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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O ateísmo é uma solução simplista.


Meu argumento contra Deus era o de que o universo parecia injusto e cruel. No entanto, de onde eu tirara essa idéia de justo e injusto? Um homem não diz que uma linha é torta se não souber o que é uma linha reta. Com o que eu comparava o universo quando o chamava de injusto? Se o espetáculo inteiro era ruim do começo ao fim, como é que eu, fazendo parte dele, podia ter uma reação assim tão violenta? Um homem sente o corpo molhado quando entra na água porque não é um animal aquático; um peixe não se sente assim. É claro que eu poderia ter desistido da minha idéia de justiça dizendo que ela não passava de uma idéia particular minha. Se procedesse assim, porém, meu argumento contra Deus também desmoronaria - pois depende da premissa de que o mundo é realmente injusto, e não de que simplesmente não agrada aos meus caprichos pessoais. Assim, no próprio ato de tentar provar que Deus não existe - ou, por outra, que a realidade como um todo não tem sentido -, vi-me forçado a admitir que uma parte da realidade - a saber, minha idéia de justiça - tem sentido, sim. Ou seja, o ateísmo é uma solução simplista. Se o universo inteiro não tivesse sentido, nunca perceberíamos que ele não tem sentido - do mesmo modo que, se não existisse luz no universo e as criaturas não tivessem olhos, nunca nos saberíamos imersos na escuridão. A própria palavra escuridão não teria significado.

C. S. Lewis. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2013. p.53-54.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Apóstolos da Santa Indignação


Por toda a história, podemos ver estes santos que personificam a divina Resignação, trovadores da perfeita alegria que consiste no perfeito desprezo de si mesmos. No entanto, vez ou outra também surge - e o nosso tempo clama desesperadamente por isso - outro tipo de santos que encarnam, por sua vez, a divina Indignação. Estes não se contentam apenas em se vencerem a si mesmos; em nome de Deus, eles partem para a guerra, segurando vigorosamente as armas de que dispõem. Um exemplo:

Para São Francisco de Assis, santo eminentíssimo do primeiro tipo, era-lhe suficiente ser maltratado e fazer que isto não repercutisse no seu interior. Mesmo debaixo de pauladas, a raiva sequer se insinuava na sua alma. Mas, e quanto ao seu agressor? De fato, pode acontecer de ele se converter a partir da profunda humildade que vê diante de si. Mas pode também acontecer que seu sono seja tão forte, que sua cegueira seja tal que, como São Paulo antes da conversão, nada lhe venha de remorso em maltratar um sujeito inocente. 

Neste caso, não fazer mais nada é como consentir em agravar a culpa de um cego tolo que bate num santo. Voltando a São Paulo, observemos que não foi a perfeição de nenhuma alma vitimada por ele o que provocou a sua conversão. No seu caso, Deus, Ele mesmo, precisou usar de uma certa violência: derrubou-o literalmente do cavalo e lhe mostrou irrefutavelmente como estava cego.

Estas intervenções mais enérgicas são absolutamente necessárias em nossa contemporaneidade. Não se deve, porém, esperar que Deus se faça ouvir e ver, como naquele caso, a todos os sonâmbulos que perambulam neste tempo. Não. O que é urgente é o surgimento de santos do segundo tipo; sujeitos que não apenas se vençam a si mesmos, mas que cheguem também, se necessário, a trocar pauladas com o agressor*, não para se defenderem, mas para defendê-lo da própria cegueira; para acordá-lo e convertê-lo.

Mas não nos iludamos. Não basta ser um caricato de santo, um santarrão. Este tipo de embate - o trocar pauladas - pode ser efetivado por quem sequer venceu o próprio egoísmo. Na verdade, esta atitude é a primeira requisitada pela soberba, quando esta sofre qualquer afronta. Responder com a mesma moeda é a condição torpe a que somos inclinados desde a Queda. Não é disso que tratamos aqui.

Os santos que aqui são sugeridos devem ser homens profundamente livres, isentos de amor próprio e respeito humano. Nota-se que estes devem ser gigantes do espírito que, esquecidos de si mesmos, combatam unicamente pela glória de Deus e a salvação das almas. Talvez sejam estes bem-aventurados os prenunciados por S. Luís Maria Grignion de Montfort e que, segundo ele, sobrepujariam todos os anteriores pela sua grandeza.

Santos do primeiro tipo também são absolutamente necessários. Mas os do segundo, mais que nunca. O que se espera, portanto, são Apóstolos da Santa Indignação que sejam capazes de fazer caírem do cavalo todos estes modernos inimigos de Deus. Deus saberá suscitá-los. Ao que tudo indica, eles já devem estar por aí, sendo formados...

Fábio


*O exemplo de "trocar pauladas" é só ilustrativo. Não o defendemos num sentido literal. Os embates aqui referidos são, muito mais, intervenções no campo das idéias. Porém, também não temos, com esta ressalva, o intento de demonizar um combate literal. No decorrer da história, estes foram legítimos e necessários, diversas vezes. 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

"O tolo" e Deus


“Jamais ocorreu a nenhum escritor do Velho Testamento provar ou argumentar a favor da existência de Deus”, diz o Dr. James Hastings em A Dictionary of the Bible (Dicionário da Bíblia). “Não é da índole do mundo antigo em geral negar a existência de Deus ou usar argumentos para provar sua existência. A crença em Deus era natural para a mente humana e comum a todos os homens.” Isso não significa, naturalmente, que todos os homens da época temiam a Deus. Longe disso. Tanto o Salmo 14,1 como o 53,1 mencionam “o insensato”, ou, conforme a A Bíblia na Linguagem de Hoje, ‘o tolo’, que diz no seu coração: “Não há Deus.”

Que tipo de pessoa é esse tolo, o homem que nega a existência de Deus? Ele não é ignorante em sentido intelectual. Antes, a palavra hebraica na‧vál indica deficiência moral. O professor S. R. Driver, em suas notas no The Parallel Psalter (O Saltério Paralelo), diz que a falha não está na “fraqueza de raciocínio, mas na insensibilidade moral e religiosa, na completa ausência de sensatez ou percepção”.O salmista passa a descrever a decadência moral resultante de tal atitude: “Agiram ruinosamente, agiram de modo detestável na sua ação. Não há quem faça o bem.” (Salmo 14,1) O Dr. Hastings resume isso da seguinte forma: “Confiando nesta ausência de Deus do mundo e na impunidade, os homens se tornam corruptos e fazem coisas abomináveis.” Eles abraçam abertamente princípios contrários às leis divinas e desconsideram a pessoa de Deus, a quem não têm desejo nenhum de prestar contas. Mas tal modo de pensar é tão tolo e insensato hoje como era quando o salmista escreveu essas palavras há mais de 3.000 anos.