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quinta-feira, 21 de julho de 2016

Sobre Moral, Liberdade, Egoísmo e Tristeza


"Para saborear tudo, não queiras ter gosto em coisa alguma" 
São João da Cruz

O ser humano é um ser que intelige e decide, mas não necessariamente nessa ordem, já que o objeto de intelecção já é submetido a um prévio ato de deliberação. Não apenas faço o que entendi dever fazer, mas escolho aquilo no que vou pensar. Porém, é verdade que este prévio ato deliberativo se relaciona muito mais com o desejo - uma espécie de instinto imediato - do que com a vontade. Temos então a seguinte ordem: desejo - inteligência - vontade. É possível e comum que desejo e vontade discordem. Neste caso, a vontade age como sucessora corretiva do desejo. Como este é prévio à inteligência, ele tende a ser amoral, pois agir moralmente é agir segundo regras ou motivos; é saber por que agir assim é correto ou errado. A vida moral - a não ser quando já se tem o hábito - não pode ser fruto de qualquer inspiracionismo, como se nós tendêssemos naturalmente à vida correta. Qualquer mínimo exame da nossa realidade psíquica dá conta de ver que isso não é assim. Tendemos ao mal, e não é raro que mesmo aquela ação que julgamos naturalmente boa encubra intenções e desejos que não o são.

Na vida moral, há que se distinguir, portanto, estas duas coisas: a ação objetiva e a intenção ou finalidade que se pretende alcançar com a ação. Isoladas, elas não são suficientes ainda para constituir a ação moral. Mas se pode dizer que a intenção isolada tende a ser mais desculpável para o sujeito do que a ação isolada. Claro que há nisso controvérsias. Se um dado ato irrefletido, mas munido de boas intenções, só foi executado assim na ignorância de sua efetividade real devido a alguma negligência anterior do sujeito, ele já não se torna tão desculpável assim porque o conjunto da negligência anterior contamina a intenção atual do sujeito. Por trás de sua intuição de sinceridade pessoal há de se esconder qualquer senso de vigarice, pois o desconhecimento da objetividade da situação é fruto de um vício prévio.

Quanto às ações, tomadas isoladamente, é sabido que quaisquer delas podem ser inspiradas por um sem fim de motivos internos. Uma pessoa pode dar esmolas porque quer alimentar o esfomeado, ou porque quer cultivar a imagem de honesto para os outros, ou porque quer cultivá-la para si, ou porque quer impressionar alguém, ou porque quer impressionar Deus, ou porque quer ir para o Céu, ou porque não quer ir para o Inferno, ou porque quer que o pedinte o deixe em paz, ou porque se recordou de alguma situação anterior que o empurra para essa ação, ou porque simpatizou com aquele pedinte em particular, ou porque se sentiu momentaneamente comovido e aí obedece a si mesmo nesse ímpeto atual e totalmente instintivo de dar, etc. Do ponto de vista exterior, temos somente a ação. É por isso que o julgamento das intenções só é reservado a Deus, pois uma ação nem sempre é efeito fiel de correspondentes interiores. É preciso ainda dizer que essa fonte confusa dos nossos atos nem sempre é totalmente consciente. Bem, é comum que não o seja. Nós costumamos mentir para nós mesmos, e por isso não nos agrada quando alguém nos acusa de algo justamente. Nos é preferível à sensibilidade ficar na ignorância dessas coisas. E isso é assim também conosco. Se quem tenta conhecer-se encontra nisso extrema dificuldade, imaginem que não tem interesse nisso.

O que caracterizaria então a ação moral? Parece-me poder dizer que é a conjugação de ação boa em si - isto é, tomada objetivamente - com o desinteresse pessoal, isto é, sem qualquer cálculo de ganho pessoal em quem age. Quando há dissociação entre ação e intenção, temos a clássica situação da hipocrisia. Esta pode ser mais consciente e voluntária, mas também pode sê-los menos. Uma pessoa que, enquanto faz uma boa ação, diz interiormente que não quer recompensa e que faz somente pelo outro, pode ainda assim esconder, numa região mais  interior e ao abrigo da visão atual da consciência, a intenção de comover a Deus, e, assim, alcançar d'Ele algum favor. São João da Cruz, por isso, pedia para que, quando fizéssemos um ato correto, fizéssemo-lo como se mesmo Deus nunca fosse tomar notícia dele.

É bastante comum também que um sujeito passe a agir moralmente depois de alguma experiência que o tenha comovido. Inspirados, todos tendemos a agir de modo diferente, e isso não é ruim, mas a esfera da comoção, que é o campo dos nossos sentimentos, é por natureza volúvel e não há que se construir nada nisso aí. Óbvio que este pode ser um começo, mas, em quem não o percebe, haverá uma vaga e tola esperança de que aquele estado de espírito que então se vive seja perpetuado, o que asseguraria então que a nova direção das ações pessoais estaria resguardada. Contudo, além da falsidade dessa conclusão - que, não obstante, retomamos de novo e de novo -, o próprio ato de agir quando isto dá à consciência aquele conforto característico - quando a ação é um modo de assegurar o próprio valor moral, ou a própria concordância a um ideal - torna a ação, já, maculada. Há, no fim, uma busca por auto-satisfação. Notem que o problema não é a satisfação que uma boa ação pode causar à pessoa, mas a busca por ela. O prazer e a felicidade não devem ser objetos diretos da busca humana. Eles, por natureza, são acompanhantes. Eles se vinculam a objetos. Se buscamos objetos prazerosos, eles nos darão prazer. Se buscamos somente o prazer, ele até se permitirá fruir, mas não o fará sem resistência. É por isso que os vícios tendem a produzir efeitos cada vez menores. Com a felicidade é o mesmo: ela será tanto maximizada quanto menos for o objeto de busca principal. "Nega os teus desejos e encontrarás o que deseja o teu coração".

Se uma pessoa se habitua a agir buscando o prazer e a felicidade nas coisas, ainda que inconscientemente, ela se condenará a uma série de prejuízos: terá um tipo de vida moral muito condicionada às circunstâncias, será necessariamente inconstante - pois se moverá segundo suas disposições interiores -, tenderá ao egoísmo - pois está sempre gravitando em torno dos próprios ganhos -, e, como sua consciência estará enredada no fluxo das sensações exteriores e interiores, será necessariamente inquieta e superficial, pois nunca entra fundo em si mesma, onde as coisas são mais estáveis. O produto disso tudo é uma espécie de cegueira e de depressão crônica subjacente, pois, a rigor, a alma anda perdida. E isto se torna um círculo vicioso: quando mais tristeza, mais busca desesperada por algo que a supra, e, como esta busca mantém a lógica da tristeza, esta aumenta, levando a mais ações e mais angústia. A pessoa age como alguém que, estando machucado, golpeia os pregos diante de si, e, ao aumento da dor, aumenta a violência dos golpes.

O desinteresse interior, ao contrário, reorienta a alma para além de si mesma. Isto gera uma saída do solipsismo, e ela se torna disponível a qualquer outra voz além da sua. Relativizar-se é o começo da saúde. Aceitar que Deus é Outro, e não eu mesmo, é algo que não basta compreender: é necessário intuir e saborear. Isto permite que a pessoa aja independentemente do que está sentindo no momento. Se ela passa a agir assim, chegará o dia em que já não se perguntará se o que tem de fazer é agradável ou não. Ela fará. A pessoa cessa de ter uma intenção curva - que voltava sempre pra ela mesma - e passa a ter uma intenção reta, e a intenção reta, diz o Imitação de Cristo, alcança Deus.

Para reorientar a intenção interior, não é suficiente somente um esforço de consciência, embora este já seja útil. Compreender essas verdades é fundamental para alguém que quer fazer da vida algo além de um rodopio em torno de si mesmo. Mas é preciso acrescer outras coisas: a nossa vida inteira foi vivida nessa lógica, e o nosso pecado não é senão uma culminância natural disso que ocorre na nossa alma. Se é verdade que a operação segue o ser - e é verdade -, o nosso pecado é sempre a exteriorização de um tipo de enfermidade interior. O que fazer, então? Primeiramente, compreender isso tudo, mesmo, pois a nossa consciência, embora seja atingida por esse fluxo desordenado de paixões, ainda é capaz, em geral, de, com o devido esforço, olhar como que por cima da tempestade. Estes saltos permitem-na ver. Em seguida, é preciso combater ativamente a desordem, e, para isso, não há outro meio que a mortificação. Mortificar-se é inverter a ordem. Se antes se vivia para o prazer e para o ganho sensível, agora o sujeito buscará ativamente os desprazeres e, passivamente, não reclamará nem fugirá dos desconfortos. É isso o que quer dizer ainda São João da Cruz quando escreve: "Deixa-te ensinar, deixa-te mandar e desprezar, e serás perfeito." É como quando, depois de girar muito para um lado, e já bêbados, precisamos agora girar para o outro para diminuir a tontura. Quanto menos tontura, melhor disposição interior e mais clara a visão. E quanto mais avançados nesse caminho, mais perceberemos detalhes e sutilezas. Desde já, porém, é preciso notar: não há caminho alternativo. Haveria somente se Deus coagisse a alma. E Ele de certo modo o faz quando nos dá sofrimentos. Os sofrimentos são como um empurrão por esse caminho em quem ia totalmente pelo outro lado. Mas, ainda assim, isso não é determinante, pois, em última instância, a decisão é sempre da pessoa.

Atos morais, que são totalmente bons, são os atos desinteressados e que se orientam em direção ao bem objetivo. É assim que Deus age, e é assim que o cristão deve viver: imitando-O.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Medo, Angústia e Conhecimento


Como o dissemos, alguns não se limitam a falar de "inquietude" [metafísica], senão chegam inclusive a falar de "angústia" [metafísica], o que é ainda mais grave, e expressa uma atitude quiçá mais claramente antimetafísica ainda, se é possível; por outra parte, os dois sentimentos estão mais ou menos relacionados, já que um e outro têm sua raiz comum na ignorância. Efetivamente, a angústia nada mais é do que uma forma extrema e por assim dizer "crônica" do medo; agora bem, o homem é levado naturalmente a sentir medo diante do que não conhece ou não compreende, e este medo mesmo vem de um obstáculo que lhe impede vencer sua ignorância, já que lhe leva a apartar-se do objeto em presença do qual o sentiu e ao qual atribui sua causa, enquanto, em realidade, essa causa não está mais do que nele mesmo; ademais, a esta reação negativa se lhe segue muito frequentemente um verdadeiro ódio a respeito do desconhecido, sobretudo se o homem tem mais ou menos confusamente a impressão de que esse desconhecido é algo que rebaixa suas possibilidades atuais de entendimento.

Não obstante, se a ignorância pode dissipar-se, o medo se desvanecerá de imediato por isso  mesmo, como ocorre no exemplo bem conhecido da corda tomada por uma serpente, o medo, e portanto a angústia, que nada mais é do que um caso particular do mesmo, é pois incompatível com o conhecimento, e, se chega a um grau tal que seja verdadeiramente invencível, isso fará que o conhecimento se volte impossível, inclusive na ausência de todo outro impedimento inerente à natureza do indivíduo; por conseguinte, neste sentido se poderia falar de uma "angústia metafísica", que joga em certo modo o papel de um verdadeiro "guardião do umbral", segundo a expressão dos hermetistas, e que fecha ao homem o acesso ao domínio do conhecimento metafísico.

É mister ainda explicar mais completamente como o medo resulta da ignorância, tanto mais que tivemos recentemente a ocasião de constatar sobre este ponto um erro bastante surpreendente: vimos atribuir-se a origem do medo a um sentimento de isolamento, e isso numa exposição que se baseava sobre a doutrina vedântica, enquanto esta ensina ao invés expressamente que o medo se deve ao sentimento de uma dualidade; e, efetivamente, se um ser estivesse verdadeiramente só, de que maneira poderia ter medo? Se dirá quiçá que pode ter medo de algo que se encontra em si mesmo; mas isso mesmo implica que há nele, em sua condição atual, elementos que escapam a seu próprio entendimento, e por consequência uma multiplicidade não unificada; pelo demais, o fato de que esteja isolado ou não não muda nada nisso, e não intervém em modo algum em parecido caso. Por outra parte, não se pode invocar validamente, em favor desta explicação pelo isolamento, o medo instintivo sentido na escuridão por muitas pessoas, e concretamente pelas crianças; este medo se deve em realidade à idéia de que podem haver na escuridão coisas que não se vêem, e por tanto que não se conhecem, e que, por esta razão mesma, são terríveis; ao contrário, se a escuridão fora considerada como vazia de toda presença desconhecida, o medo careceria de objeto e não se produziria. 

O que é verdade é que o ser que sente medo procura isolar-se, mas precisamente para extrair-se a ele; toma uma atitude negativa e se "retrai" como para evitar todo contato possível com aqueles que teme, e daí provém sem dúvida a sensação de frio e os demais sintomas fisiológicos que acompanham habitualmente o medo; mas esta sorte de defesa irreflexiva é pelo demais ineficaz, já que é bem evidente que, faça um ser o que faça, não pode isolar-se realmente do meio do qual está colocado por suas condições mesmas de existência contingente, e que, enquanto se considere como rodeado por um "mundo exterior", é-lhe impossível pôr-se inteiramente ao abrigo dos atentados deste. O medo não pode ser causado mais do que pela existência dos demais seres, que, enquanto são outros, constituem esse "mundo exterior", ou de elementos que, ainda que incorporados ao ser mesmo, por isso não são menos estranhos e "exteriores" a sua consciência atual; mas o "outro" como tal não existe mais do que por um efeito da ignorância, já que todo conhecimento implica essencialmente uma identificação; por conseguinte, pode dizer-se que quanto mais conhece um ser, menos "outro" e "exterior" há para ele, e que, na mesma medida, a possibilidade do medo, possibilidade pelo demais completamente negativa, está abolida para ele.

E finalmente o estado de "solidão" absoluta (kaivalya), que está além de toda contingência é um estado de pura impassibilidade. A propósito disto, precisaremos incidentemente que a "ataraxia" estóica não representa mais do que uma concepção deformada de um tao estado, já que a mesma pretende aplicar-se a um ser que em realidade está ainda submetido às contingências, o que é contraditório; esforçar-se em tratar as coisas exteriores como indiferentes, tanto como se possa na condição individual, pode constituir uma espécie de exercício preparatório em vista da "libertação", mas nada mais, já que, para o ser que está verdadeiramente "liberado", não há coisas exteriores; um tal exercício poderia considerar-se em suma como um equivalente do que, nas "provas" iniciais, expressa sob uma forma ou outra a necessidade de superar primeiramente o medo para chegar ao conhecimento, que a seguir voltará impossível esse medo, já que então já não terá nada pelo que o ser possa ser afetado; e é bem evidente que é mister guardar-se de confundir os preliminares da iniciação com seu resultado final.

Outra precisão que, ainda que acessória, não carece de interesse, é que a sensação de frio e os sintomas exteriores aos quais fizemos alusão faz um momento se produzem também, inclusive sem que o ser que os sente tenha conscientemente medo falando propriamente, nos casos onde se manifestam influências psíquicas de ordem mais inferior, como por exemplo nas sessões espíritas e nos fenômenos de "obsessão"; aqui também, trata-se da mesma defesa subconsciente e quase "orgânica" em presença de algo hostil e ao mesmo tempo desconhecido, ao menos para o homem ordinário que não conhece efetivamente senão o que é suscetível de cair sob os sentidos, isto é, unicamente as coisas do domínio corporal. Os "terrores pânicos", que se produz em nenhuma causa aparente devem-se também à presença de algumas influências que não pertencem à ordem sensível; pelo demais, são frequentemente coletivas, o que vai igualmente contra a explicação do medo pelo isolamento; e neste caso, não se trata necessariamente de influências hostis ou de ordem inferior, já que pode ocorrer inclusive que uma influência espiritual, e não só uma influência psíquica, provoque um terror deste tipo nos "profanos" que a percebem vagamente sem conhecer nada de sua natureza; o exame destes fatos não faz mais do que confirmar também que o medo é realmente causado pela ignorância, e é pelo que cremos bom assinalá-los de passagem.

O conhecimento é o único remédio definitivo contra a angústia, bem como contra o medo sob todas as suas formas e contra a simples inquietude, já que estes sentimentos não são senão consequência ou produtos da ignorância, e já que em consequência do conhecimento, desde que se o atinge, ficam destruídos inteiramente em sua raiz mesma e tornados daí em diante impossíveis, enquanto, sem ele, inclusive se são apartados momentaneamente, sempre podem reaparecer ao fio das circunstâncias. Se se trata do conhecimento por excelência, este efeito repercutirá necessariamente em todos os domínios inferiores e assim estes mesmos sentimentos desaparecerão também no que diz respeito às coisas mais contingentes; como, efetivamente, poderiam afetar ao que, vendo todas as coisas no princípio, sabe que, quaisquer que sejam as aparências, não são em definitivo mais do que elementos da ordem total? Passa com isso como com todos os males dos que sofre o mundo moderno: o verdadeiro remédio não pode vir mais do que por cima, isto é, por uma restauração da intelectualidade; enquanto se procure remediá-los por baixo, isto é, contentando-se com opor umas contingências a outras contingências, tudo o que se pretenda fazer será vão e ineficaz; mas, quem poderá compreendê-lo enquanto ainda há tempo para isso?

René Guénon, Iniciação e realização espiritual. São Paulo: IRGET, 2014. p.18-21.

domingo, 17 de maio de 2015

Só quem ama compreende


Os seres humanos se sentem sós, abandonados em sua auto-afirmação, enquanto não encontrarem um eco, aceitação e confirmação de fora. A tendência de união encontrada em todo o universo, na vida humana apresenta-se em escala e graduação ascendentes, conforme os níveis de vida. No nível biológico, no "sexo", há apenas abraços, contato epidérmico, tentativa de penetração que, de maneira nenhuma, por mais repetidos que sejam, podem saciar o desejo de plena união. No nível emocional, na "paixão", no "Eros" atinge-se certo paralelismo, sintonização de vibrações psíquicas, projeção recíproca de emoções pessoais no parceiro. Um jogo a dois, mas que não é nem de longe verdadeira união. É no nível da vida consciente e livre, no nível pessoal, que se realiza verdadeira união.

O verdadeiro amor é amor-amizade. É união entre duas personalidades. É conhecimento, reconhecimento de um Eu para com outro Eu diferente, que se deve aceitar na realidade própria e inconfundível; mas não como lâmpada excitadora de sonhos e excitações; nem como manequim a vestir a esplêndida roupagem de nossa imaginação.

E significativo como a Escritura designa a união amorosa conjugal: "Adão conheceu sua mulher e ela o concebeu" (Gen 4,1). Não podemos conhecer uma pessoa como os demais objetos que nos rodeiam. A nossa inteligência é um receptáculo de capacidade elástica quase ilimitada: nele podemos receber o mundo todo, dando-lhe assim nova existência. Conhecer alguma coisa é dar-lhe existência reflexa dentro de nós. É uma espécie de nova criação. Quanto mais coisas conhecemos, mais se alargam os nossos horizontes, nosso mundo interior. A todos objetos podemos dar assim nova existência "subjetiva" dentro de nós. Menos a outras pessoas. Nenhuma pessoa é simples"objeto"; é sempre "sujeito", indivíduo: um mundo inteiro, fechado e inacessível a estudo "objetivo". Por mais que observemos e analisemos uma pessoa, não a "compreendemos", não a apreendemos completamente, transferindo-a para nosso mundo interior. A chave única que dá acesso ao "jardim fechado" do Eu diferente é o amor. Só quem ama, compreende.

Mas amar significa antes de tudo: sair do "jardim fechado" do próprio Eu. É abrir-se para encontrar porta aberta. Aí está a razão porque se ama tão pouco nesse mundo. Há uma dolorosa dissonância no homem. De um lado, aspira ardentemente à união que rompa o isolamento. Do outro, receia essa mesma união como ameaça à sua personalidade. Efeito ainda do pecado original. Tendo rompido o homem a união e harmonia com Deus, perdeu também a capacidade de estabelecer, com naturalidade e espontaneidade, relações mútuas, união harmoniosa. Sente-se por demais exposto, vulnerável, inseguro, ameaçado no seu valor pessoal. Mas amar é sempre abrir-se. E abrir-se é arriscar-se. O medo inibe. O egoísmo procura antes de tudo segurança. Mas, quando prevalece o instinto de segurança, nunca se chegará a amar. E sem amor não se encontra a plenitude da vida. A eterna desconfiança, o eterno medo tranca o homem dentro de si mesmo e fá-lo murchar, estiolar, atrofiar-se. Querendo salvar-se, tudo perde. Quem amar a sua vida (a sua segurança pessoal) acima de tudo, perdê-la-á; mas quem a perder (quem se ariscar, se abrir para o Tu), ganhá-la-á. Isso vale tanto para o amor humano, como para o divino. É preciso abrir a porta, senão a vida estancará no isolamento. A união é transfusão de novo sangue. Só nela se encontra sentido e felicidade. Nisso há evidentemente risco. Quem se abre, expõe-se ao perigo de ser invadido e explorado. Mas, antes a possibilidade de uma exploração, que a certeza de estiolamento.

Frei Valfredo Tepe OFM. O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da Fé, 1960. p. 230-231.

sábado, 7 de setembro de 2013

O medo



O medo é uma atitude interna de repulsa de algo em função de uma previsibilidade, ou seja, o medo não é uma resposta a um desprazer atual, mas é a antecipação de um desprazer futuro, iminente ou não. Quando ele ocorre, muda a dinâmica interior da alma, excluindo-a de seu porte natural e a põe em defensivo. Neste ato, a alma se enrijece, abandona sua espontaneidade, recorta o real focando sua possível ameaça, e interpreta todas as demais coisas em função desta sua suposta ameaça. O real, antes uno, é agora dividido e se estabelece uma assimetria entre os níveis. O objeto temido é retirado de seu contexto, motivo pelo qual a sua consideração objetiva é, de algum modo, impedida, pois ele somente adquire sentido completo justamente no contexto de que faz parte originariamente. Assim sendo, o medo gera forçosamente uma interpretação viciada do objeto temido. A alma cai, em algum grau, em ilusão e se nela acredita é como se fugisse de fantasmas inexistentes criados por ela mesma.

Essa ilusão, contudo, não precisa ser total. Ela comumente se dá em parte. Mas seu grau é diretamente proporcional à irracionalidade da sua natureza, isto é, à sua intensidade a priori. É a priori porque, sendo necessariamente antecipação, não pode provir da experiência – ao menos, não da experiência do objeto temido atualmente. Este medo pode ser repercussão de experiências anteriores, é verdade. Mas experiências anteriores, embora possam ser ditas semelhantes, não são iguais e não são a mesma que agora se teme, de modo que a correspondência entre uma e outra pode consistir em mera arbitrariedade. Outra coisa, porém, é quando a situação temida o é, não por desconforto sensível, mas por princípio racional.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Sta Teresinha fala de seus escrúpulos

No retiro para a Segunda Comunhão é que fui assaltada pela terrível doença de escrúpulos... É preciso passar por tal martírio, para o compreender. Ser-me-ia impossível dizer quanto não sofri em ano e meio... Todos os meus pensamentos e as minhas mais comezinhas atividades se tornavam para mim motivo de perturbação. Só tinha sossego, quando os contava à Maria, e isto me era muito penoso, por sentir a obrigação de lhe dizer todas as idéias extravagantes que me vinham à mente a respeito dela própria. Alijado meu fardo, desfrutava um instante de paz, mas a paz desvanecia-se como um relâmpago, e logo começava novamente meu martírio. De quanta paciência não precisava minha querida Maria, para me ouvir, sem dar mostras de nenhum aborrecimento!...

Mal chegava eu da Abadia, punha-se ela a arrumar-me os cabelos para o dia seguinte (pois, querendo agradar ao Papai, a rainhazinha andava todos os dias com os cabelos em cachinhos, para grande admiração das colegas, mormente das professoras que não tinham diante de si crianças tão bem cuidadas pelos pais). E durante a arrumação não parava de chorar, contando todos os meus escrúpulos.

Sta Teresinha de Lisieux, História de Uma Alma.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Saindo da Prisão


Tudo bem... Abandonemos os vínculos, sejam eles do desejo ou do temor. Teoricamente, ficou claro. Mas, e quando fomos pegos, isto é, quando estamos cativos de uma situação neurótica, o que fazer?

Se ficou claro o que foi dito até agora, ficará claro isso aqui também.

A neurose se estabelece ou como obsessão, rituais de pensamento ou comportamento, ou como mero mal estar. No caso das repetições, em geral elas consistem numa contínua verificação que visa assegurar se tudo está certo e se o sujeito está imune às eventuais ameaças. Outras vezes, a única razão de ser para a contínua execução de um certo ato é a sensação que este ato provoca. Algo que não chega a ser prazeroso, mas que, estranhamente, faz falta.

Os outros casos, como já dito, são de um certo mal estar, geralmente acompanhado das tais suposições sobre as possíveis causas do mal estar. Aqui, a neurose pode vestir-se de argumentos científicos. Mas permanece sendo só viagem na maionese.

O segredo está em reconhecer o colorido particular da neurose. Uma vez que este foi identificado, porém, não significa que a pessoa já se sentirá segura. Não. Na verdade, persiste em nós a tendência a acreditar na nossa própria teoria assustadora e fantasiosa. Mas é preciso ser cético; saber duvidar das próprias suposições.

Os rituais se mantêm como verificação. Ora, só se verifica porque há o medo de alguma coisa dar errada. O segredo é: reconhecer que é somente uma suposição neurótica e barrar o curso de verificações. Lembremos da inércia: há uma tendência em continuar. Mas convirá travar o passo. Penso que esta é a parte que mais exige disciplina: no ritmo frenético do mundo atual, o silêncio interior se torna cada vez mais algo de outro mundo. Outro dia, eu conversava com um amigo a respeito da quietude da mente e ele me perguntava se era possível. É claro que é.

Ah, então o neurótico somente sairá disso se se tornar um asceta ou um budista? Não, rs. Mas ele deverá se disciplinar para ficar sem racionalizar quando se decidir a fazê-lo. O indivíduo percebeu que é suposição? Pronto! Deixa de obedecer o curso neurótico! Aquiete a mente. No início, vai ser preciso fazer um certo esforço mesmo; mas nada de espernear, pois isto mais agita que aquieta. Sempre com paciência, mas com perseverança.

A contínua verificação gera, naturalmente, um cansaço. Quando ela deixa de ser alimentada, o cansaço persiste ainda por um tempo - é a inércia - e só depois ele cessa.

Também no simples mal estar, dá-se algo semelhante. Embora não haja rituais, o sujeito, no entanto, fixa sua atenção na bendita sensação ruim. Ao fazê-lo, geralmente ele intensifica a sensação e a estende. O segredo aqui está em distrair-se daquilo. A princípio, é complicado, pois as tais sensações, não obstante serem neuróticas, se fazem sentir de modo muito real. E, como qualquer incômodo, aquilo como que atrai a atenção.

O ideal seria que o sujeito continuasse sua vida como se nada estivesse errado, como se aquilo não fizesse qualquer diferença.

Uma das coisas que tendem a manter o mal estar é que o neurótico gosta de se pensar como o desafortunado, o sem sorte. Este tipo de atitude faz que ele oponha o seu estado atual ao que gostaria de experimentar. Esta distância lhe é, também, incômoda e termina por fazer retroceder a sua visão sobre a sensação neurótica, aumentando-a e fazendo-o lamentar ainda mais. Mas o que ele está a fazer é tão somente reafirmando pra si mesmo o seu incômodo e convencendo-se de como está distante daquilo que deseja. Tudo isto supõe uma atenção constante sobre o mal estar.

O segredo: não desejar qualquer outra coisa, até chegar o ponto de que tanto faça sentir o mal estar ou não. Se se alcança este nível, e se o incômodo for neurótico, dentro de um certo tempo, ele sumirá. E muito agradável é a sensação que daí surge. 

Mesmo no caso de uma dor autêntica, ainda assim, a atitude aqui tomada minimizará bastante o desconforto.

Talvez neste post fique mais claro como é o amor-próprio o que nos atrapalha; aquele senso de auto-preservação exagerado é que inventa inimigos e põe sobre eles uma lente de aumento que só termina por fazer-nos sofrer bem mais.

Se adquiríssemos aquele desprezo e esquecimento de nós mesmos, ah, quão mais tranquilos e felizes nós seríamos! E depois, ninguém entende como Cristo pode nos convidar à Sua Cruz e, ao mesmo tempo, prometer-nos uma vida em plenitude.

"Como sois lentos para entender", nos diria Ele.

Neuroses - Não Vinculação


Vínculo quer dizer ligação. Estar vinculado é estar ligado. Isso é óbvio ao infinito. Porém, é preciso entender que há dois modos muito particulares pelos quais nos vinculamos às coisas e que são, nada mais nada menos, aqueles dois pelos quais iniciamos esta série de artigos sobre este tema: o medo e o desejo.

Comecemos por este último.

Ninguém terá dificuldade de entender que, quando desejamos algo, naturalmente nos apegamos àquilo; estabelecemos com o tal objeto um vínculo, pelo menos no íntimo da nossa alma. Um sujeito apaixonado, ainda que não seja correspondido, isto é, ainda que seu vínculo não se reproduza no real, estará cultivando-o dentro de si. Enquanto estiver apaixonado isto persistirá. Faz parte da estrutura do apaixonamento. Porém, para estabelecer um vínculo, nem é preciso chegar ao nível do apaixonamento: um simples desejo e eis-nos fisgados. Se estamos desejando ir à praia, se queremos comer uma fruta específica, se nos faz falta ver tal amigo, etc, etc, tudo isto são vínculos que trazemos dentro de nós. De um ponto de vista meramente ordinário, isto nos parece a coisa mais natural que há. Do ponto de vista espiritual, porém, isto traz algumas dificuldades. Uma das coisas que se requer para progredir na intimidade com Deus é o desapego, o rompimento destes vínculos pelo cordão do desejo, a fim de que o coração esteja totalmente livre para Deus. Esta atitude, porém, não faz que o sujeito assuma uma atitude de desprezo diante dos demais, como às vezes é suposto; é amando a Deus de modo mais pleno que o sujeito poderá amar as outras pessoas, também de modo pleno e sem propriedade, uma vez que seu amor tornou-se mais perfeito. A ilusão que permeia o mundo, aqui, é que em geral confundimos o amor com o apego, muito embora sejam coisas absolutamente diferentes.

Espero que tenha ficado claro como o desejo cria vínculos e, naturalmente, move a alma em direção daquilo que se deseja. Estabelece, como dizíamos no primeiro artigo, uma tensão na alma que a põe em movimento. Lembremos que a quietude interior é fundamental para que tenhamos uma visão clara das coisas.

Tudo bem, o desejo faz isso mesmo. Mas, e o medo? Sendo o medo justamente uma atitude de fuga, como que nos vincula com algo? Para responder, consideremos que o medo é um tipo de desejo às avessas: é o desejo de que tal coisa não aconteça ou de que tal coisa se mantenha longe. Ora, nesta estrutura é forçoso destacar o que é a "tal coisa". Se o medo é neurótico, construir-se-á, na alma, um vínculo entre a pessoa e a idéia da coisa temida. Este vínculo, embora seja orientado para a defesa do sujeito, terminará, ao contrário, por assombrá-lo. Diante de todo um universo de objetos e situações, todas elas indefinidas ao fundo, o neurótico destaca da multidão precisamente aquilo que ele teme. É como se ele encontrasse o objeto pelo qual tem repulsa e o pusesse diante dos olhos. Convenhamos que é uma sacanagem com ele mesmo, rsrs... O neurótico vive se sacaneando. As suas reclamações constantes da vida são, na maioria das vezes, empecilhos que ele mesmo se coloca.

Tomemos como exemplo o quase tradicional medo de aranha nas mulheres. Se isto é um medo neurótico, uma simples mancha escura no canto da parede já lhe parecerá, inconfundível e indubitavelmente, uma aranha. Pelo menos até que olhe uma segunda vez e de mais perto. O problema é fazer com que esta segunda vez aconteça. A crença na própria suposição precipitada é tão forte que a menina eleva, em um milésimo de segundo, uma mera impressão sensível ao status de verdade auto-evidente ao extremo.

Se, no entanto, a garotinha não é neurótica, a mancha escura será só uma mancha escura, ou, pelo menos, poderá ser uma sujeira, uma marca de tinta, um objeto de borracha, qualquer outro animalzinho gracioso, ou qualquer outro dos infinitos objetos pequenos e escuros. Diante de uma infinidade de possibilidades, qual o motivo racional para ter medo especificamente de aranha? NENHUM!  O que aconteceu com a pessoa medrosa é que ela tinha um vínculo, um contrato interior com a idéia de aranha, o que faz com que qualquer coisa que possa ser, mesmo de longe, associada a tal idéia desperte a reação de medo. Quer estratégia de sacanagem mais arranjada?

O medo termina por criar o vínculo com a coisa temida, pois a destaca na multidão de eventos possíveis no mundo. Inúmeras vezes, inclusive, o objeto sequer estará nesta multidão, sendo mesmo impossível, mas o sujeito faz questão de trazê-lo e inventá-lo. No fundo, ele pensa que é melhor angustiar-se garantido contra o perigo do que relaxar e estar exposto ao que teme, ainda que o que teme seja ser abduzido.

O que é que se deve fazer, então? Numa ascese espiritual, conviria aprender a trabalhar o desapego em geral: desfazer os vínculos do desejo e os do medo. Mas, em se tratando especificamente destas neuroses, é preciso aprender a não destacar o objeto temido, a não considerá-lo na mente, a permitir que a sua figura se confunda no conjunto indefinido de objetos do universo. Deixa esses objetos quietos! Não precisa destacá-los. A reação primeira será fixar a mente no tal negócio temido quando supor tê-lo visto ou quando for antecipar situações em que ele possa insinuar-se. Porém, convém treinar para que estas antecipações não se dêem e para que o coração permaneça livre, sem objetos imaginários ameaçadores. Não destacar! Não vincular!

Para isto, requer-se, obviamente, disciplina e esta não se consegue de modo meramente teórico. Só vem com a prática. É a prática que dá substância aos passos e ensina a arte do combate interior. Ainda que um indivíduo concorde com tudo o que pus aqui, se ele não se dispõe a disciplinar os seus pensamentos, as suas suposições, etc., será apenas um conhecimento a mais sem qualquer consequência substancial para ele. Talvez ele se sinta um pouco aliviado por saber que dá pra quebrar esta dinâmica chata das suposições neuróticas. Não precisamos ser cativos desse monte de abobrinhas. Mas, para chegar aí, é preciso ir ao campo de batalha e lutar. Olhar na cara do bicho papão, se for preciso, e aprender a não se incomodar com ele. O único motivo que o bicho papão tem de existir é assustar. É por isso que ele ainda existia quando éramos crianças. Desde que crescemos e que ele deixou de fazer parte de qualquer vínculo interior nosso, ele deixou de existir. Com a neurose, pode ser a mesma coisa.

A pessoa terá amadurecido quando a idéia tão temida não lhe causar mais qualquer repercussão interior. Se ela adquire este tipo de quietude, significa alcançou também uma maior maturidade e é de dentro mesmo de sua alma - não mais da superfície - que ela vive. E isso é um negócio que vale a pena.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ainda as neuroses: a criança mimada interior


Já faz um tempo que iniciei a série sobre as neuroses, mas não cheguei a terminá-la. Vinha seguindo a exposição e a cortei com uma sucessão de textos do mesmo assunto, mas de um autor já consagrado, o Rudolph Allers, desconhecido em geral somente porque se opôs a Freud e terminou por elaborar uma teoria que concorda exatamente com a visão cristã do homem. Se considerarmos que a visão cristã do homem é a visão correta - por mais pretensioso que pareça ser, vamos fazer o quê? É assim, oras - entenderemos como uma Psicologia também correta deva se erigir em total harmonia com os dados da Fé. Tal é, portanto, a teoria do Allers.

Deixa, então, eu voltar à minha baixeza e abordar as coisas que eu vim aprendendo nestes tempos de lutas interiores. Há vezes em que eu desmascaro, mesmo, este jogo neurótico e passo tempo sem ser incomodado. Mas, essas cessações de combate terminam por me deixar, digamos, enferrujado, rs... Porém, o negócio nunca deixa de ser familiar...

Mas, continuemos. Da última vez, eu antecipei que abordaria duas coisas: uma tal de teoria da não vinculação (eu que cunhei o nome, hehe) e mostraria a semelhança entre estas neuroses frescas e aquelas crianças chatas e mimadas.

Como faz tempo que escrevi a última postagem sobre o assunto, relembro que a neurose trabalha sempre com suposições e que elas pretendem, em última instância, nos defender contra possíveis ameaças. Estas suposições, influenciadas pela fuga da dor, geralmente carecem de objetividade e, para lidar com elas, há que se ser cético. Absolutamente cético. Uma das características dessa dinâmica é que, se o sujeito for procurar argumentos que validem a sua acrobática teoria, ele os encontrará. Por isto que o ceticismo aqui deve ser, mesmo, total.

Mas vamos lá. 

Não é difícil entender que o sujeito que age segundo seus caprichos torna-se um imaturo. As razões que pedem nossa ação devem ser mais profundas que as do campo epidérmico da sensação imediata. Um sujeito que seja tão volúvel quanto a superfície das suas disposições imediatas jamais adquirirá constância e sequer poderá ser fiel ao que quer que seja. A fidelidade, onde quer que ela se dê, implica que o indivíduo age segundo critérios mais profundos, a ponto de, mesmo se sua sensibilidade lhe inclinar à traição, ele não cair. Ora, se ele age de um modo constante, não obstante a oscilação das suas sensações, isto significa que o que definiu a sua atitude foi algo mais profundo.

No caso da pessoa imatura, ela tenderá a agir sempre segundo o apelo da situação. Se vê que adquire certo prazer ou fama de um modo, é deste que ela agirá. Se, ao contrário, ela antecipa que poderá se sentir confortável com tal atitude, ela a evitará. Vemos que é, mesmo, algo de sensibilidade. Geralmente, as pessoas sensuais agem bastante por meio deste critério.

Pois bem. As neuroses são o que há de mais infantil. Além de inventar teorias dignas do Mundo de Bob, elas ficam enchendo o saco, querendo satisfação. Porém, esta satisfação não é algo que cause prazer. Em geral, é algo que garanta ao sujeito que, se ele obedece, estará a salvo de algum perigo virtual.

Tomemos o seguinte exemplo: imaginemos um garoto, bem gordo e bochechudo, com olhar altivo. Acontece de esse pivete ser nosso sobrinho. De repente, ocorre-nos a idéia de jerico de levá-lo a um supermercado porque queremos comprar lá não sei o que. Passamos, então, pela prateleira de chocolates. O pivete, triste por não poder comer de imediato até as caixas de papelão, começa o seu ritual de puxar a borda da nossa camisa pedindo o bendito doce. Não importa se não temos dinheiro ou se apenas não queremos satisfazer o chato do nosso sobrinho - Vai que ele explode... -, o menino começa a gritar e a fazer seu show. Esperneia, cai no chão, chora e esbraveja. Tudo isto, naturalmente, chamará a atenção dos demais e nos colocará numa posição desconfortável. Qual é a melhor coisa a se fazer? Compra o chocolate! Se essa é a nossa atitude, agimos como neuróticos! Comprar a bendita caixa apenas amortece o problema por enquanto. Mas, o que fizemos foi tão somente satisfazer os apelos infantis de um chato. Eis a estratégia do neurótico ingênuo. Ele se torna um marionete nas mãos dos seus medinhos.

Para que a comparação fique bem feita, temos de conceber um menino que tenha um apetite sem fim. Ele se contenta enquanto há um chocolate na mão. É quando deixa de fazer barulho. Mas, tão logo o devore, recomeça a sua algazarra. Agora, notemos: quanto mais comprarmos chocolate para o madimbu, quanto mais satisfizermos os seus caprichos, mais estaremos demonstrando que a sua estratégia de causar desconforto funciona. E, por responder no nível de uma criança mimada, estaremos agindo de modo imaturo.

O que deveríamos fazer? Deixar o pivete esbravejar uma vez. Se, depois de bastante tempo, ele visse que nos mantemos irredutíveis, ele, claro, deixaria de chorar. De outra vez, quando passássemos pelo supermercado de novo, ele voltaria a chorar, mas, agora, com uma certa hesitação, pois da última vez o negócio não funcionara. Se, de novo, não cedermos, chegará o momento em que teremos ficado livres do incômodo, até o ponto de podermos acampar defronte às prateleiras de chocolate e sequer ouvirmos um piu. Teremos transformado o gordinho num buda, rsrs...

Entendamos, então, que este gordinho é nossa neurose e que, em várias situações e momentos, quererá nos chamar a atenção, para que façamos algo. O segredo é: não fazer! Perceber que aquilo é tão somente um capricho, ainda que ele nos ameace com coisas mais assustadoras do que uma vergonha num mercado. Estas coisas ameaçadoras que, no momento, podem nos aparentar tão reais, perderão seu disfarce se agirmos do modo como aqui é dito. E mais! Toda neurose tem um colorido muito característico. Aprenderemos, deste modo, a reconhecê-las todas.

Porém, uma coisa a se considerar, e que vim perceber de modo mais claro ao ler o Allers, é que a mera resignação diante do desconforto pode consistir numa atitude semelhante à da soberba que, como vimos, é a própria raiz da neurose. De fato, fazer-se de fortão ou de inatingível pode reforçar a soberba. O que aqui proponho não é isto! É tão somente reconhecer que aquilo não é verdade e, daí, não corresponder ao apelo infantil. Note que há uma diferença essencial! A verdade é íntima da humildade e, portanto, é inimiga da soberba. Agir de acordo com a realidade das coisas é ser humilde.

Se, porém, fizéssemos o contrário e satisfizéssemos o gordinho toda vez, chegaria o dia em que, por simplesmente avistar ao longe o supermercado, ele já iniciaria a sua brincadeira sem graça. Notem, por exemplo, como há pessoas que evitam usar certas palavras, ou fazer certas associações, e coisas semelhantes. Isto parece cair quase no campo da superstição.

O que se requer, então, é que o sujeito não se precipite em obedecer os caprichos desta sua criança interior. Quando eu estudava Psicologia, cheguei a aprender uma teoria lacaniana que, a meu ver, era muitíssimo interessante: tratava-se da transferência imaginária e da transferência simbólica. Como na época certas coisas me eram ainda bem obscuras, não sei se a idéia que apreendi era a correta, mas o que eu entendi foi fundamental.

A transferência imaginária consiste em obedecer o gordinho. Pelo fato de berrar, ele naturalmente nos coloca numa posição: a de incomodado que comprará o chocolate. A tendência primeira nossa será a de assumir justamente esta posição. Esse mecanismo pode ser usado, inclusive, como meio de manipulação. Muitos de nós apenas costumamos reagir, ao invés de agir autonomamente. Se alguém nos grita, nós assumimos a posição que nos foi suposta, e agimos a partir dela, geralmente esbravejando de volta ou nos encolhendo em nosso canto. 

Outra coisa é a transferência simbólica. Nesta, o sujeito não obedece a suposição do outro, mas justamente a nega, ignorando-a. É como se, diante do drama do outro, este sujeito não lhe dá a mínima. Isto termina por fazer que o drama perca razão de ser. Se, ao contrário, ele agisse de acordo, isto terminaria por reforçar o drama. Agora, notemos como é ridículo o indivíduo que, surpreendido por uma criança que o xinga,  responde à mesma altura! É a mesma coisa. Convirá, ao contrário, que sua atitude não seja condicionada pelas más maneiras do pivete.

Aplicando isto às nossas neuroses, se as obedecemos, estamos no campo da transferência imaginária, e terminamos por reforçá-las. Se, ao contrário, aprendemos a ser indiferentes, elas incomodarão por um tempo ainda - a inércia de que falei num post anterior - e, por fim, perderão razão de ser. No entanto, penso que a maior dificuldade do neurótico é mesmo, pelo menos a princípio, duvidar de si. Depois de um tempo, isto tende a ficar mais natural e a pessoa adquire um trato maior com a coisa. Mas só se deixar de agir como marionete.

Haveria tanto o que dizer aqui, mas nos contentemos, por ora, com essa visão geral.

No próximo, sim, falarei da outra teoria lá.

Pax.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

IV e Final - Psicoterapia e Conversão


Na escola adleriana, da que Allers provém, a psicoterapia é no fundo pedagogia. Se trata de educar ou reeducar o caráter para que se conforme com os fins reais da natureza humana. Desse modo, a psicoterapia se afasta das ciências médicas e naturais, inscrevendo-se entre as morais.

Para esta escola, a psicoterapia teria duas partes: uma analítica, na qual se põe de manifesto a finalidade fictícia que persegue o indivíduo, e os meios que a mantêm; outra sintética ou pedagógica, que visa reformar o caráter.

Allers assume estas idéias, mas "desde o alto", a partir de uma visão mais profunda do ser humano, dada pela antropologia cristã. Este processo de transformação do caráter neurótico, a cura, é considerado por nosso autor essencialmente como uma conversão, ou melhor "metanóia", uma mudança da mente.

Para permanecer firme diante dos conflitos, as dificuldades, as tentações, é necessário ser simples. Para curar uma neurose não é necessário uma análise que desça até as profundezas do inconsciente para achar não sei que reminiscências, nem uma interpretação que veja as modificações ou as máscaras do instinto em nossos pensamentos, em nossos sonhos e atos. Para curar uma neurose é necessária uma verdadeira metanóia, uma revolução interior que substitua o orgulho pela humildade, o egocentrismo pelo abandono. Se nos tornamos simples, poderíamos vencer o instinto pelo amor, o qual constitui - se lhe é verdadeiramente dado se desenvolver - uma força maravilhosa e invencível.

A transformação interior que leva à saúde, começa pela humildade que vence a soberba e a vontade de poder que é o motor oculto do caráter neurótico, segundo Allers. Isto não se pode fazer sem ser movido pelo amor autêntico, que é a força mais potente que impulsiona à plenitude de vida. Justo à humildade e ao amor, Allers coloca um terceiro remédio: a verdade. Allers sempre teve presente como lema de seu trabalho psicológico, a frase de Nosso Senhor: "A verdade os fará livres".

Para poder chegar a esta simplicidade, a esta atitude ante o mundo e ante si mesmo, é necessário fazer entrar em jogo a segunda das grandes forças postas à nossa disposição pela bondade divina: a verdade. Estas duas forças, a verdade e o amor, são as únicas a ser invencíveis. Para libertar-se das cadeias que nos atam aos valores inferiores, para poder resistir às tentações que desde fora ou desde dentro surgem tão frequentemente, para permanecer firmes através dos inevitáveis conflitos da existência, não há que fiar-se do estoicismo que não é no fundo mais que uma forma refinada de orgulho, nem dar-se à pesquisa de causas inconscientes perdidas na distância nebulosa de um passado problemático.

O papel do psicoterapeuta, do pedagogo ou de quem seja que acompanhe a pessoa nesta mudança, é secundário e auxiliar. Se trata de remover os impedimentos ao desenvolvimento destas forças curativas no interior da pessoa, através do amor. Isto implica um certo grau, no iniciante, de desenvolvimento moral e espiritual por parte do terapeuta, que muito frequentemente é tomado como exemplo por quem necessita de ajuda.

É por tudo isto que, na perspectiva "desde o alto" adotada por Allers, psicoterapia e direção espiritual não somente não se contrapõem, mas convergem.A segunda se converte em continuação mais lógica e adequada da primeira.

Uma direção de alma compreensiva, carinhosa, respeitosa, paciente e puramente religiosa, pode chegar a corrigir, a uma vez, a conduta religiosa e a neurótica; porque tal influência aborda, com efeito, o problema mais central de todos. Claro que nem todos esses homens estão em disposição de conhecer e compreender, sem mais nem mais, esse problema, nem ver que é problema para eles. Em tais casos, é necessário um penoso trabalho de ilustração e educação, a fim de levar esses homens até o ponto onde já é possível discutir esse problema, a saber, se precisa, justamente, de uma psicoterapia sistemática.

Rudolf Allers, como bom cristão, é consciente d"os limites dos meios naturais. Em nossa opinião, o domínio mais perfeito de todos os conhecimentos e de todos os procedimentos que deles se seguem, tem que fracassar, em última instância, quando não se liga à conexão, fundamentante e superior em seu alcance, do saber religioso. Estamos convencidos de que é impossível, tanto a fundamentação teórica de uma doutrina sobre a educação do caráter, como a de uma teoria geral do caráter, sem referir-se às verdades religiosas nem enraizar aquelas nestas. Vimos como as abordagens de nossas questões, surgidas de uma imediata necessidade prática, levavam sempre a últimos problemas que unicamente se resolviam no terreno da metafísica e no amplo curso da fé baseada na revelação."

Conclusão

Esperamos que esta breve exposição de algumas das idéias de Rudolf Allers referidas a temas psicoterapêuticos sejam suficientes para despertar o interesse em seu estudo. Nosso autor tem escrito sobre muitos outros temas, psicológicos, filosóficos e pedagógicos, mas pensamos que o que brevemente temos apresentado aqui constitui seu aporte mais pessoal e original.

Por certo, não é necessário estar de acordo à letra com tudo o que Allers diz. Se pode, todavia, aprofundar, completar e precisar em muitos aspectos. Mas é opinião de quem isto escreve que as abordagens principais que aqui expusemos devem ser pontos firmes e fundamentais para uma psicologia que queira ser a uma vez integral e eficaz.

Deste ponto de vista, Rudolf Allers aparece como uma figura emblemática, como um autorizado exemplo de psicólogo cristão, que em modo valente e sincero não contentou em acomodar-se à mentalidade do século, mas buscou sempre o acordo entre fé e razão. Por isso, nos parece digno de ser recordado e imitado.

Martin. F. Echevarria

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

III - Neurose e Santidade: Aridez-Estado e Aridez-Sintoma


Se isto é assim, se a santidade e a neurose são incompatíveis, como se explicam certos fenômenos aparentemente neuróticos que podemos observar na vida de alguns santos, e sobre os quais há abundantes estudos?

Em primeiro lugar, temos que ter presente que para importantes escolas de psicologia, entre as quais se destaca o freudismo, o santo é o protótipo do neurótico. Isto não é uma conclusão, baseada na experiência, senão uma premissa que depende da influência que filosofias como a de Nietzsche tiveram na psicanálise. Não é incomum que logo, analisando a vida dos santos, encontrem o que foram procurar, o que seus princípios teóricos obrigam a concluir.

Por outro lado, temos que ter presente que, salvo Cristo e a Virgem Maria, que não têm a mancha do pecado original, a inclinação à neurose é, segundo Allers, comum a todos os homens. O caminho de santidade, com a ajuda da graça, leva a superar esta inclinação, mas nos estados iniciais da vida cristã, as manifestações de desordem podem ser evidentes. Não, porém, no final.

Para concluir, temos esse período particular na evolução espiritual que São João da Cruz chamou "noite escura". Rudolf Allers propõe distinguir, para não cair no equívoco de confundir a neurose com uma purificação espiritual, o que ele chama "aridez-estado" da "aridez-sintoma". Isto nos remete à distinção feita mais acima entre o caráter neurótico, seus sintomas, e traços ou condutas aparentemente neuróticos, que se dão em uma personalidade fundamentalmente sadia. A aridez como estado, é a que se verifica ao largo de uma purificação passiva da alma, durante a qual se podem dar alguns fenômenos aparentemente neuróticos. A segunda, é sintoma de um transtorno verdadeiramente neurótico de base, um caráter neurótico. Como o distinguimos? Não é fácil; às vezes implica uma agudeza interior e uma sabedoria verdadeiramente sobrenaturais. O critério básico é, a princípio, segundo Allers, o juízo desde a totalidade da personalidade.

Com ele se facilita a compreensão de episódios ou fases neuróticas que com tanta frequência ocorrem, ou que pelo menos se lhes parecem extraordinariamente, no transcurso da vida de muitos santos. Estes fatos não devem induzir-nos a concluir que a vida santa é uma atitude neurótica ou germina no terreno da neurose, como acredita uma incompreensiva explicação pseudocientífica. Ao observar com atenção essas vidas, se vê que os episódios neuróticos não são mais que simples episódios de certos períodos da vida, estados de etapa, nos quais se trava uma luta com o "déspota sombrio do eu" e cuja superação leva sempre o homem a um nível mais alto na vida. Assim se explica também que se possam repetir tais episódios, pois que correspondem a diversos passos da ascensão do homem e iniciam sempre uma "sobreformação" mais completa deste em Deus - para servirmos da expressão de Tauler -. [...] Nos pareceria perfeitamente descabido o intento de explicar a "Noite Escura" e outros fenômenos análogos, como neuróticos ou simplesmente naturais.

Martin F. Echevarria

terça-feira, 18 de outubro de 2011

II - A Normalidade: Ordem, Santidade e Amor


Sendo universal esta inclinação à neurose, tem sentido falar de normalidade ou de saúde? Não tem razão, no fundo, Freud, e os que o seguem, ao negar a possibilidade de uma cura total? Absolutamente não. A postura de Allers está muito longe do pessimismo psicanalítico, que reduz a cura à tomada de consciência da desordem, sem possibilidade de remediá-la.

Em primeiro lugar, Allers põe de manifesto a limitação de uma concepção meramente estatística da normalidade.

Suponhamos que em um país houvesse 999 homens afetados pela tuberculose e só um que não estivesse enfermo. Se poderia concluir que o "homem normal" é aquele cujos pulmões estão carcomidos pela enfermidade? O normal não se confunde com a média. Se pois, segundo a média, o homem se decide pelo instinto, isto não prova que não possa fazer outra coisa, nem que os valores elevados são por natureza débeis.

Se o critério estatístico fosse a norma decisiva, a normalidade seria a tristeza, o fracasso, a rebelião, o desequilíbrio... Para Allers, o critério de normalidade se toma da ordem da realidade, e isto já no nível da medicina.

A medicina, tratando um enfermo, não tem somente a intenção de liberá-lo de seus sofrimentos e de fazê-lo capaz de ganhar a vida; quer também e sobretudo restaurar o estado "normal", porque sabe que o "normal" é o que "deve" ser. [...] A medicina não pode mais que aceitar, seja inconscientemente, seja mesmo contra sua vontade, a idéia de uma ordem para além dos fatos, um estado de coisas que não existe sempre, mas que deve existir e cuja realização constitui o estado "normal".

A anormalidade constitui, portanto, uma ruptura da ordem, embora seja para recair em uma ordem inferior ao devido a sua natureza, pois o homem não pode abolir absolutamente toda a ordem da realidade, senão o que lhe está sujeito. A desordem e anormalidade humanas acontecem, segundo Allers, por três razões: a vontade, a alienação mental em sentido estrito, e a neurose, que participa um pouco de ambas.

A ação anormal é o resultado ou de uma vontade consciente, ou de uma alienação mental, ou desta curiosa modificação do caráter que chamamos neurose. Cada ação ou cada conduta está determinada por seu fim. Este fim é, sem exceção alguma, a realização de um valor julgado mais alto que todo outro considerado na mesma circunstância. As leis que regem a normalidade das ações são as da ordem objetiva dos valores. A anormalidade de uma ação é, em certos casos, causada pela ignorância ou por uma visão errônea da ordem. É mais ou menos o caso do alienado. Em outros casos - esperamos que sejam muito raros - o sujeito age contra umas leis não só conhecidas por ele, senão contra leis das quais não põe em dúvida a validez. Isto é, então, a rebelião aberta, o satanismo declarado. Finalmente, há uma terceira atitude que se localiza de alguma maneira entre as duas precedentes: é a rebelião cuja natureza e existência o sujeito mesmo ignora.

Vimos no ponto anterior que esta última forma de desordem está virtualmente em todo homem pelo pecado original, embora nem sempre se manifeste. Por isso voltemos à pergunta inicial: É possível a normalidade? Em caso afirmativo, em que consiste? Allers responde da seguinte maneira:

Do fato que a inautenticidade constitui, como a todo mundo é dado a entender, uma característica essencial do comportamento neurótico, se segue ademais a consequência de que somente aquele homem cuja vida transcorra em uma autêntica e completa entrega às tarefas da vida (naturais ou sobrenaturais) poderá estar livre por inteiro das neuroses; aquele homem que responde constantemente com um decidido 'sim' ao seu posto de criatura em geral e de criatura com uma específica e concreta constituição. Ou dito com outras palavras: "fora da neurose não fica ninguém além do santo".

Isto pode soar estranho e, com efeito, tem causado muitas polêmicas. Mas se se analisa bem a concepção allersiana da neurose, como não reduzida ao transtorno declarado e explícito, mas como existente radicalmente em todo homem por causa da natureza decaída, estas afirmações são de todo lógicas (para não dizer, ademais, que são congruentes com a experiência cristã). Mas Allers não fica na constatação, por assim dizer, "negativa" da ausência da neurose em uma vida santa ou que tenda realmente à santidade, senão que, "positivamente", afirma que a autêntica "saúde da alma" só se encontra na santidade.

Deste modo, Allers supera amplamente as mesquinhas definições de normalidade da psicologia contemporânea, quando as há, mesmo a de seu mestre Alfred Adler. Sem embargo, assume o que na postura deste último há de verdadeiro. Para Adler, o fim real da vida humana, ao qual se contrapõe o fim fictício da superioridade egocêntrica neurótica, está indicado pelo "sentimento de comunidade", que impulsiona ao altruísmo e a dar a vida pelo bem comum. Em Adler, esta visão fica encerrada em uma atitude imanentista, de tal modo que ao final termina quase por divinizar a comunidade humana. Ao contrário, em Allers, a tendência à vida comunitária, que ele chama, não "sentimento", mas "vontade de comunidade", se cumpre no modo mais pleno na comunidade sobrenatural dos santos, na Igreja, que realiza totalmente a tendência à universalidade por sua intrínseca "catolicidade".

A educação tem que resolver esta difícil tarefa: encontrar o caminho que media entre aquelas medidas que podem minar a vivência do valor próprio, e as que propendem a instaurar uma absolutização desta mesma pessoa. [...] Este paradoxo e antinomia (não maior, ademais, que as restantes divergências antinômicas da vida humana) encontra sua expressão, ou melhor, seu modelo na pervivência de Cristo na Igreja, enquanto comunidade dos santos, podendo viver também na pessoa humana individual: "não vivo eu, mas é Cristo que vive em mim". Assim, pois, o ideal do caráter que unicamente pode satisfazer por inteiro as condições da existência e a natureza humanas - por muito que em concreto varie, de acordo com a constituição individual e a estrutura cultural, nacional, situacional - deve permanecer inscrito no quadro de uma forma de vida que reduza à unidade as divergências polares de indivíduo e comunidade, de pessoa auto-valiosa e totalidade fundadora de valor, de finitude criadora e vocação a participar na vida divina. Não são necessárias mais aclarações para ver que todas estas exigências se cumprem em uma vida católica profunda e exatamente entendida. Assim como Katholikè não somente se estende sobre todas as culturas, povos e tempos, senão que também abarca toda a qualitativa diversidade das pessoas humanas individuais, assim também a vida católica, uma vida segundo o princípio católico, pode satisfazer as divergências de nosso ser, reduzindo-as à unidade de contrários. Não só a Igreja deveria poder viver Kat'olon - por cima de tudo - como de fato o faz, senão, também, cada um dos seus membros.

Aquilo que leva a transcender de alguma maneira a solidão original em que o homem se encontra, e sobre todo seu egoísmo antinatural, é a força do amor. O desejo de união substancial com o amado, sem embargo, não é possível no nível criatural, nem sequer na união nupcial, imagem do amor por excelência. Só o amor de Deus é capaz de preencher o desejo de união e completude a que aspira o coração humano.

Com efeito, que o amor, atitude do eu, seja capaz de levar o homem a transcender seu próprio eu, é uma coisa inimaginável. Para que o eu seja lançado além de si mesmo, é indispensável a intervenção de uma força exterior a si mesmo. Esta força, o amor não pode exercê-la se não é, não somente o ato, a paixão, a atitude do eu, mas um ser em quem o eu e o amor se confundem. É necessário que seja o Amor substancial, e não uma modificação de um ser essencialmente diferente dele. Quando age este Amor, de Deus, a união pode ser realizada (não pelas propriedades de nossa natureza, mas pela graça que vem do alto) a um grau que nenhuma união daqui de baixo poderia produzir jamais. A realização dos desejos que o amor desperta na alma só é possível no amor de Deus e pela ajuda outorgada à nossa impotência pela bondade do Altíssimo.

Martin F. Echevarria.

I - Neurose, Pecado e "Conflito Metafísico"


Este artigo, que disponibilizarei aqui por partes, é de autoria do Sr. Martin F. Echevarria. A tradução, porém, do espanhol, é minha. O texto trata da Psicologia de Rudolph Allers, autor conhecido como o "Anti-Freud", e versa sobre a sua compreensão do fenômeno neurótico. Talvez, por ser dito por um intelectual de renome, o que aqui vai transcrito possa ser crido com maior segurança. Boa leitura.

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Allers distingue entre aqueles transtornos mentais que são enfermidades no sentido estrito do termo, e a neurose, que só é enfermidade por analogia. Como as enfermidades propriamente ditas são desordens do corpo, a neurose não é primeiro e principalmente um transtorno do corpo, senão da alma.

Segundo Allers, antes de tudo, há que distinguir os "sintomas neuróticos" do "caráter neurótico". Ademais, uma coisa é uma neurose propriamente constituída, e outra a aparição de características, que integram a neurose, em uma personalidade que é fundamentalmente sã. Aqui se põe de manifesto a insuficiência de um diagnóstico meramente descritivo. Para diagnosticar a neurose é necessário o conhecimento da personalidade total, de seu estilo de vida, dos fins que persegue, e sua atitude diante da vida como um todo.

É necessário saber distinguir entre a neurose que se manifesta com sintomas, sejam orgânicos, sejam puramente mentais, e o 'caráter nervoso' como dizia o Dr. Adler; também é necessário saber distinguir entre a neurose - manifesta ou não - e a aparição de certas características mais ou menos neuróticas em uma pessoa sadia. Não se deve declarar neurótico a cada indivíduo que sofre de alguma perturbação 'nervosa'; o diagnóstico da neurose repousa sempre e sem nenhuma exceção sobre o estudo da personalidade total.

Allers segue em geral a concepção adleriana da neurose. Para o fundador da psicologia do indivíduo, o caráter neurótico surge do intento supercompensatório do complexo de inferioridade através da vontade de poder, que tem como meta o sentimento de personalidade. O neurótico é uma pessoa que busca por todos os meios, ainda através da debilidade e da enfermidade, chegar a ser alguém, chegar ao topo. A esta meta, o neurótico subordina todas as suas forças cognitivas (imaginação, memória, etc) e afetivas. Este fim de superioridade se concretiza em particular através de determinadas imagens e figuras, complexos de representações, que se põem como metas ou fins "fictícios" (a masculinidade, o poder, a riqueza, etc). Deste modo o neurótico vai criando uma "técnica de vida", e mesmo às vezes a justifica com uma "filosofia de vida", que se traduz no "estilo de vida", que configura seu caráter.

Nosso autor, nestas idéias, se mantém fiel a Adler. Allers identifica a "vontade de poder" do neurótico com a Superbia, que muitas vezes pode não ser consciente, e que configura o caráter em um sentido negativo e destrutivo.

O Dr. Adler foi mais exato do que ele o sabia, quando ensinava que os traços característicos do neurótico são a expressão e a consequência desta ambição inaudita, ambição, porém, velada aos olhos do "enfermo". Mas não poderia, seja por causa de certas limitações do seu pensamento, seja por causa de outros fatores, medir toda a importância de seu descobrimento. Para dizer a verdade, este descobrimento não era novo; se encontra aqui e ali em certos tratados, muito antigos e ignorados pelos psicólogos e médicos, passagens que denotam um conhecimento surpreendente destas coisas.

O caráter fictício da vida do neurótico é chamado por Allers, mentira existencial. No fundo do caráter neurótico se daria, segundo Allers, uma subversão, consciente ou não, de ordem axiológica. A realidade se vinga desta pretensão egoísta do neurótico com o mal estar.

Temos dito que a rebelião consciente ou não, contra a ordem axiológica e a ordem da dignidade conduz necessariamente à mentira. Isto é - entre parênteses - o que faz que tantos neuróticos dêem a impressão de não ser realmente "enfermos" e por isso os demais os acusam de má vontade, de exagero e mesmo de simulação. Esta mentira é inextricável porque para rebelar-se é necessário que o homem exista, e porque existindo, está incorporado, por assim dizer, nesta ordem que ele recusa aceitar.

No homem se dá uma dualidade interior. É a dualidade constatada pela tradição cristã, por São Paulo e por Santo Agostinho, da carne que se rebela contra o espírito. Diz Allers: "O homem arrastado por uma força misteriosa, não necessariamente demoníaca (cf. o que diz Sto Agostinho da 'segunda vontade', Confissões VIII, 9) para uma atitude essencialmente insensata, contrária à objetividade, se torna por isso mesmo, em virtude de uma lei inexorável, a presa da mentira. Essa mentira se instala quando a pessoa não quer ver a realidade: "Não somente existe a mentira que afirma uma proposição contrária à verdade, senão também aquela que fecha voluntariamente os olhos diante da verdade". A mentira é também chamada por Allers "inautenticidade".

Segundo Allers, no fundo do coração do homem existe a tendência à rebelião, e esta é a causa profunda do transtorno característico chamado neurose. Allers fala também de um "conflito metafísico", pois não se trata simplesmente de uma rebelião frente a uma coisa particular, senão frente à ordem total da existência.

Não é possível explicar aqui como esta atitude de rebeldia interior, que geralmente o sujeito não reconhece como tal, constitui um fator de uma importância central na evolução das neuroses. O objeto da rebeldia não é um fato isolado, um sofrimento, um conflito, senão o fato total de não ser mais que uma criatura, limitada em seu poder, em sua existência, em seus direitos. Apesar dos milhares ou milhões de anos que se passaram depois que a serpente empurrou os primeiros homens à rebelião, as palavras do demônio não cessaram de fazer-se escutar devidamente nas profundidades do nosso eu: eritis sicut Dii.

A referência de Allers ao pecado original não é ociosa. Segundo o psiquiatra vienense, a natureza caída é a fonte desta tendência à rebelião, dessa dualidade que está na base do transtorno neurótico. Deixado a si mesmo, todo homem é virtualmente um neurótico.

A neurose surge do exagero ocorrido na divergência - que existe em toda vida humana - de vontade de poder e possibilidade de poder. Em outras palavras: é um resultado da situação puramente humana, tal como está constituída na natureza decaída. Pode igualmente dizer-se que, orientada para o mórbido e o pervertido, faz-se em consequência da rebelião da criatura contra sua finitude e impotência naturais.

Esta neurose virtual, que caracteriza a todo homem pelo fato de ter a natureza decaída e sofrer dentro de si a rebelião de seus membros contra a lei da razão, se atualiza, segundo Allers, quando se manifesta o "conflito metafísico".

O caráter nervoso se transforma em neurose manifesta desde que a situação do indivíduo ameaça pô-lo de frente ao "conflito metafísico". Em certas condições, este conflito pode ficar absolutamente ignorado. Este é o caso quando o indivíduo vive em um meio onde as leis da metafísica - e portanto da realidade - foram abolidas por algum decreto. (Realmente não podem ser abolidas, isso se entende, mas se lhe pode fazer crer às massas porque são demasiado crédulas). Seria possível haver uma diminuição da neurose onde o homem, a raça, a sociedade, o Estado são declarados o bem supremo. Mas não se poderia concluir disso que essas ideologias são mais "sadias" do que o é a filosofia cristã. Deveria somente fazer-nos julgar que estas ideologias impedem a eclosão da neurose porque ensinam à maioria dos homens um método próprio de apartar os olhos da verdade.

Martin F. Echevarria