quinta-feira, 2 de abril de 2020

O Amor Zen


Através de suas experiências infelizes, o monge zen torna-se ainda mais apto e disposto. Num sentido radical, o importante é ele despojar-se do eu, de tal modo que o eu não apareça mais como eu mesmo, nem como estado de ânimo, mas se torne uma grandeza desconhecida. O "Eu mesmo", como ponto de referência consciente ou secreto de toda a vivência cotidiana e de toda a experiência profissional, deve desaparecer.

Isso de forma alguma significa que o "eu" deva ser trocado ou substituído por um vago "nós". Pois mesmo as experiências em grupo ainda encaram a pessoa como uma individualidade, mesmo que ela não apresente uma reação pessoal ou personalizada diante dos fatos, reagindo muito mais de conformidade com o estilo e o ritmo do grupo. O "eu" deveria ser substituído por "aquilo".

Para começar, uma condição é suficiente: despojar-se do "eu" e da personalidade, no sentido de se tornar despersonalizado, o que não significa destituir-se do caráter.

Os exercícios, como evolução dos anteriores, devem conduzir a uma total impassibilidade. É válido observar impassivelmente tudo o que acontece e, mais ainda, o que me acontece, como se, no íntimo, nada me importasse. Isso significa por exemplo, não me alegrar mais com a minha felicidade do que com a felicidade alheia. Quanto ao sofrimento que atinge os outros, devo senti-lo como se fosse meu. Ou até mesmo sentir sinceramente alegria pela felicidade alheia, embora ela me cause amargura (quando, por exemplo, foi dada preferência a outra pessoa); ou afligir-me com a tristeza alheia, mesmo que aquilo que motivou a dor alheia me cause alegria.

É compreensível que o discípulo de Buda não deva odiar, e que, por fim, nem consiga mais fazê-lo. Da mesma forma, ele não deve mais amar no sentido vulgar que se atribui a essa palavra e, finalmente, nem pode mais amar. No entanto, ele não fica insensível, indiferente. O discípulo permite que tudo e que todos partilhem, sem esperar retribuição, de sua maravilhosa capacidade de amar, que é desapaixonada, desinteressada e uniforme: ele ama apenas por amor ao amor. Isso não acontece por lhe causar prazer pessoal, ou por saciar um anseio íntimo, precisa fazê-lo devido a esse amor que transborda.

Esse amor, portanto, se pudermos chamá-lo de amor, que já não pode transformar-se em ódio, situa-se além do amor e do ódio. Não é como uma labareda ardente que em si própria se extingue, mas como uma tranquila incandescência que uniformemente se alimenta de si própria. Esse amor - que não conhece desilusão, mas não recebe estímulo exterior - esse amor em que se mesclam bondade, compaixão e gratidão, esse amor que não alicia, que não impõe, que não exige, que não persegue nem inquieta, que não dá a fim de tomar, esse amor, por isso mesmo, possui um poder realmente admirável, porque nem a esse poder ele aspira. Ele é suave, meigo, enfim, irresistível. Mesmo as coisas inanimadas se abrem para ele, e os animais, que costumam ser medrosos e ariscos, confiam nele.

(...) E quanto mais vigorosamente se desenvolve o campo de força do monge zen, tanto menos consegue o "outro" iludi-lo ou comportar-se de modo como quer parecer. O campo de força do monge zen torna-se o meio em que o "outro" se descontrai e se desdobra espontaneamente, um meio que ele intui e ao qual se entrega e transfere, para ser por ele orientado.

Eugen Herrigel. O caminho zen. São Paulo: Pensamento, 2017. p.74-77.

sexta-feira, 20 de março de 2020

O Zen e o Silêncio


Para compreender o Oriente, temos de compreender o misticismo, que é o Zen.

Deve ser lembrado, entretanto, que há vários tipos de misticismo. Racional e irracional, especulativo e oculto, sensível e fantástico. Quando digo que o Leste é místico não quero significar que seja fantástico, irracional e impossível de ser trazido para dentro da esfera da compreensão intelectual. Simplesmente quero dizer que nas atividades da mente oriental há algo de silencioso, calmo, imperturbável, que parece estar olhando para a eternidade. Essa quietude e silêncio não indicam preguiça ou inatividade. O silêncio não é aquele que existe num deserto desprovido de vegetação, nem o de um corpo entregue para sempre ao sono e à putrefação. É silêncio de um "abismo eterno", no qual todas as condições e contrastes estão sepultados. É o silêncio de Deus, que profundamente absorvido na contemplação das suas obras passadas, presentes e futuras, se senta calmamente em seu trono de absoluta totalidade e unidade. É o "silêncio do trovão", obtido no meio de um relâmpago e do rumor de correntes elétricas opostas. Esta espécie de silêncio embebe todas as coisas orientais. Infelizes aqueles que consideram esse silêncio como decadência e morte, pois serão envolvidos pela explosão de atividade provinda desse silêncio eterno. É com esse sentido que falo do misticismo da cultura oriental e posso afirmar que o cultivo dessa espécie de misticismo é principalmente devido às influências do Zen.

D. T. Suziki, Introdução ao Zen-Budismo.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

A inocência da contemplação

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"A poeira e as pedras da rua eram preciosas como ouro, os portões eram, inicialmente, o fim do mundo. As árvores verdes, quando as vi pela primeira vez, através de um dos portões, arrebataram-me e embeveceram-me... Os meninos e as meninas, aos pulos pela rua e brincando, eram como jóias em movimento. Não sabia se haviam nascido ou deviam morrer.
 
Todas as coisas pareciam eternas, como se estivessem nos lugares devidos. A eternidade era manifesta à luz do dia... As ruas eram minhas, o templo era meu, as pessoas eram minhas. O céu era meu, assim como o Sol, a Lua e as estrelas; todo o mundo era meu e eu era o seu único espectador e também o único a desfrutá-lo. Não sabia de propriedades incômodas nem de limites e divisas; todas as propriedades e divisas eram minhas, bem como todos os tesouros e seus possuidores. assim, com muita dificuldade me deixei corromper e aprendi os sujos artifícios deste mundo, que agora desaprendi para ser, por assim dizer, novamente uma criancinha de modo a poder entrar no reino de Deus".

Thomas Traherne, Centuries of Meditation.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

O sentido gnóstico



Quem vem a ser "sentido gnóstico"?

É o sentido contemplativo: uma contemplação - precedida de uma meditação concentrada - que começa quando o pensamento discursivo e lógico é suspenso.

O pensamento discursivo fica satisfeito quando chega a uma conclusão bem fundada. Ora, essa conclusão é o ponto de partida da contemplação. Ela sonda a profundeza dessa conclusão, à qual o pensamento discursivo acaba de chegar. A contemplação descobre um mundo dentro daquilo que o pensamento discursivo constata simplesmente como "verdadeiro". O "sentido gnóstico" começa a operar quando no ato de conhecimento há uma nova dimensão, a da profundidade. Ele se torna ativo quando se trata de algo mais profundo do que a questão: isso é verdadeiro ou falso? Além disso, compreende o alcance da verdade descoberta pelo pensamento discursivo e também "por que essa verdade é verdadeira em si mesma", isto é, ele chega à fonte mística ou essencial dessa verdade. Como chega ele a essa fonte? Ouvindo em silêncio. É como se alguém quisesse lembrar-se de coisa esquecida. A consciência "ouve" em silêncio como alguém que "ouve" interiormente, a fim de evocar da noite do esquecimento uma coisa que conheceu anteriormente. Mas há diferença capital entre o "silêncio que ouve" da contemplação e o silêncio proveniente do esforço para lembrar-se. Nessa segunda circunstância, o que é determinante é a horizontal do tempo - passado e presente - enquanto "o silêncio que ouve" da contemplação corresponde à vertical - àquilo que está no alto e àquilo que está embaixo. Quando alguém se lembra estabelece em si espelho interior para refletir nele o passado; quando alguém "ouve em silêncio" no estado de contemplação, faz também de sua consciência um espelho mas esse espelho tem a função de refletir o que está no alto. É o ato de lembrar-se na vertical.

Meditações sobre os 22 arcanos maiores do Tarô

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Satori cristão - A percepção da união entre Deus e a alma

Há dois modos de se alcançar a casa vizinha. Um é dando a volta ao mundo e o outro, caminhando uns poucos passos. Há também dois modos de se encontrar o céu. Um é subir, subir em busca de um firmamento sempre fugidio e o outro é compreender que, aqui na terra, já nos encontramos no céu e que nosso planeta é, de fato, um dos corpos celestes. É fácil perdermo-nos na caminhada à v0lta do mundo até a casa vizinha e mais fácil ainda desesperarmos na tentativa de alcançar uma altura infinita. Esses dois modos de abordagem são repetidamente exemplificados n a história da vida espiritual do homem. 

Houve certas regiões, como o budismo primitivo, o neoplatonismo, certas formas de ioga, o gnosticismo, etc., que ressaltavam a dificuldade de ascensão do homem ao estado divino. Essas são religiões do eros, da ânsia infinita do homem para chegar a Deus; seu estado ideal é normalmente de identificação com a Realidade final em que a alma, por assim dizer, absorve Deus. Há, por outro lado, religiões que concebem a vida espiritual como a aceitação e a afirmação de uma realidade presente. Essas religiões são do ágape, religiones naturaliter Christianae, e compreendem muitas formas do budismo mahayana e do hinduísmo, do taoísmo primitivo e, naturalmente, do próprio cristianismo. 

Essas religiões, quando tendem para a teologia panteísta, não contêm uma manifestação explícita da concessão da união com Deus, vez que o panteísmo considera essa união necessária e automática; afirmam, entretanto, que essa união não tem de ser atingida mas sim realizada, por ser, desde o seu início, uma realidade presente. Em outras palavras, essas religiões descobriram por experiência própria o amor de Deus pelo homem, mas ressentem-se de uma teologia para expressá-lo e interpretá-lo.

Muito frequentemente, o primeiro tipo de religião se transforma no segundo. A alma, em seu empenho em atingir, por seu próprio esforço, o estado divino, chega a um ponto de total desespero e subitamente desperta, com um choque de grande luminosidade, para o fato de que o estado divino simplesmente EXISTE, a cada momento, não precisando ser atingido. Por exemplo, o budismo Zen da China e do Japão desenvolveu toda uma técnica de meditação envolvendo essas duas fases e denomina de satori, ou despertar súbito, o choque repentino da passagem da primeira para a segunda fase. A Encarnação, a vinda de Cristo, é satori no plano da história humana, a mudança súbita da velha ordem de se empenhar pela redenção mediante a obediência à lei para a nova ordem de consecução da redenção pela dádiva da divina graça.

Enquanto tudo estava no maior silêncio 
e a noite ainda ia em meio, 
tua Palavra Divina, Senhor, 
ressoou do trono real, aleluia. 
(Antífona do Magnificat nas Vésperas do domingo dentro da Oitava da Natividade)

Em meio da escura noite do desespero da alma face à frustração do eros, reluz o ágape de Deus - a compreensão de que embora a alma seja impotente para atingir a união com Deus, Este, com seu amor infinito e imutável, fez a Sua própria união com a alma.
O significado da Encarnação, portanto, é simplesmente que não se tem de atingir a união com Deus. O homem não tem de subir ao infinito e transformar-se em Deus, pois, por amor, o Deus infinito desce ao finito e se torna homem. Não obstante a rejeição de Deus pelo homem, seu orgulho, seu medo, ,seu envolvimento inevitável e desesperado no círculo vicioso do pecado, a natureza de Deus permanece inalteravelmente de amor - o ágape que consiste em dar-se inteiramente e sem reservas ao ser amado. O Verbo eterno, o Logos, portanto, se transforma em carne, fazendo sua a nossa natureza e assumindo as nossas limitações, sofrendo as nossas dores e morrendo como nós. E mais do que tudo isso, suporta a carga dos nossos pecados, isto é, permanece em união conosco, mesmo que o crucifiquemos e lhe cuspamos em cima; ele continua a morar em nosso íntimo e a oferecer, ou sacrificar, as nossas vidas a Deus, mesmo que venhamos a cometer todas as formas imagináveis de depravação. Em resumo, Deus casou-se com a humanidade, uniu sua essência divina ao nosso ser mais íntimo, "para o melhor e para o pior, para a riqueza e a pobreza, na doença e na saúde", por toda a eternidade, mesmo que escolhamos a nossa condenação.

Se eu subir ao céu, tu ali estarás;
Se eu fizer minha cama no inferno,
Eis que tu também lá estarás.

Tudo que nos resta fazer é dizer: "Sim - Amém" a esse tremendo fato, e isso ainda está dentro do poder de nossa natureza degradada. Nosso motivo para dizê-lo, por mais pervertido que esteja pelo orgulho e pelo medo, não faz a menor diferença, porque o fato é um fato: a união com Deus nos foi concedida, gostemos ou não, queiramos ou não, saibamos ou não. Nossa carne se transformou em Sua carne e não há coo sairmos de nossa própria pele. E tão logo compreendamos a futilidade do nosso orgulho, que não podemos subir até Deus nem, por uma questão de orgulho, impedir que Ele desça até nós, o soberbo núcleo do egoísmo estará simplesmente dissolvido - sobrepujado pelo amor de Deus.

Alan Watts. A vida contemplativa. Rio de Janeiro: Record, 1971. p.92-95.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

A concentração sem esforço e o silêncio


 A concentração sem esforço - isto é, na qual não há nada a suprimir, e o recolhimento se torna tão natural como a respiração e as pulsações do coração - é o estado de consciência (do intelecto, da imaginação, do sentimento e da vontade) em estado de tranquilidade perfeita, acompanhada da distensão completa dos nervos e dos músculos do corpo. É o silêncio profundo dos desejos, das preocupações, da imaginação, da memória e do pensamento discursivo. Dir-se-ia que o ser todo se tornou como a superfície de águas tranquilas refletindo a presença imensa do céu estrelado e de sua indizível harmonia. As águas são profundas, e como são profundas! - e o silêncio aumenta, aumenta sempre, e que silêncio! Seu crescimento realiza-se por ondas regulares que passam, uma após outra, através de vosso ser; uma onda de silêncio, seguida de outra onda de silêncio mais profundo, depois outra onda de silêncio ainda mais profundo. Já bebestes do silêncio alguma vez?

Meditações sobre os 22 arcanos maiores do Tarô

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

"Para compreender o Natal, é preciso ter o coração dos santos"

 

Para compreender o mistério do Natal é preciso ter o coração dos santos. Eles não ficavam na superficialidade do Natal, mas penetravam no íntimo do mistério. "A encarnação - escrevia uma destas almas - realiza em nós duas coisas: a primeira é que nos enche de amor; a segunda, nos dá a certeza da nossa salvação. A caridade que ninguém pode compreender! O amor além do qual não existe amor maior: o meu Deus se fez carne para me fazer Deus! O abismo do teu fazer-te homem arranca dos meus lábios palavras tão desentranhadas. Quando tu, Jesus, me fazes compreender que nasceste por mim, como é glorificante para mim compreender um tal fato!" (B. Angela de Foligno, Il Libro, Quaracchi 1985, p.7122 s.). 

Durante as festividades do Natal, nas quais acontece a sua passagem deste mundo, esta insuperável escrutadora dos abismos de Deus, uma vez mais voltando-se aos filhos espirituais que a circundavam, exclamou: O Verbo se fez carne!" E depois de uma longa hora na qual permanecera absorta neste pensamento, quase voltando de muito longe, acrescentou: "Nenhuma criatura consegue. Toda inteligência dos anjos não basta!" E aos presentes que lhe perguntavam o que nenhuma criatura consegue e para que coisa a inteligência dos anjos não basta, respondeu: "Para compreender!" (ib. p. 726).

Pe Raniero Cantalamessa. O Mistério do Natal. Aparecida SP: Editora Santuário, 1993. p. 41-42.