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sábado, 14 de dezembro de 2013

Dia de São João da Cruz - Um Pastorinho


Um Pastorinho, só, está penando,
privado de prazer e de contento,
Posto na pastorinha o pensamento,
Seu peito de amor ferido, pranteando.

Não chora por tê-lo o amor chagado,
Que não lhe dói o ver-se assim dorido,
Embora o coração esteja ferido,
Mas chora por pensar que é olvidado.

Que só o pensar que está esquecido
Por sua bela pastora, é dor tamanha,
Que se deixa maltratar em terra estranha,
Seu peito por amor mui dolorido.

E disse o Pastorinho: Ai, desditado!
De quem do meu amor se faz ausente
E não quer gozar de mim presente!
Seu peito por amor tão magoado!

Passado tempo em árvore subido
Ali seus belos braços alargou,
E preso a eles o Pastor ali ficou,
Seu peito por amor mui dolorido.

S. João da Cruz

***
Só esclarecendo:

- O Pastorinho é Jesus;
- A pastorinha é a alma humana;
- A terra estranha é esta terra, chamada pelos místicos de exílio; aqui o santo faz referência à Encarnação de Jesus;
- A árvore é a Cruz.

sábado, 14 de setembro de 2013

Dia da exaltação da Santa Cruz

Pessoal, uma amiga minha tinha me pedido para gravar um vídeo com uma sucinta exposição sobre a Santa Cruz para que ele fosse passado num sarau que ocorreria por lá precisamente hoje. Gravei-o e, embora seja bem resumido e a qualidade não tenha ficado tão boa, principalmente no que diz respeito ao som, partilho-o por aqui, neste lugar reservado aos mais "chegados".



domingo, 5 de maio de 2013

O perigo das experiências espirituais imaginadas


O abuso perigoso das imagens e do símbolo pode ser constatado, por exemplo, no caso de alguém que tenta fazer surgir uma "chama viva" pelo exercício da vontade, da imaginação e do desejo e se persuade, então, a si próprio, de que teve a "experiência de Deus". Num tal caso, ter-se-ia de pagar muito caro essa evidente fabricação, pois existe uma diferença total entre os frutos de uma autêntica experiência religiosa, puro dom de Deus, e os resultados de nossa imaginação. Como declarou sem rodeios Jacob Boehme: "Onde encontramos nas Escrituras que uma prostituta pode tornar-se virgem por simples decreto?"

A experiência viva do amor divino e do Espírito Santo na "Viva Chama", a que se refere S. João da Cruz, é uma verdadeira consciência que se tem de haver morrido e ressuscitado em Cristo. É uma experiência de renovação mística, uma transformação interior ocasionada unicamente pelo poder do amor misericordioso de Deus, que implica a "morte" do ego autocêntrico e auto-suficiente e o surgir de um novo ser libertado, que vive e age "no Espírito". Mas, se o antigo eu, o ego autônomo e calculador, procura apenas imitar os efeitos de uma tal regeneração, para a satisfação e vantagem próprias, o efeito é exatamente o oposto: o ego procura afirmar-se em sua própria existência egoísta. O grão de trigo não penetrou na terra e não morreu. Permanece duro, isolado e seco; não há fruto nenhum, apenas um gabar-se mentiroso e blasfemo - um ridículo fingimento!

Se a mentira e a invenção, do ponto de vista psicológico, são perniciosas mesmo nas relações comuns com outras pessoas (uma álea onde uma certa medida de falsificação não é rara), toda falsidade é desastrosa em qualquer relação com a base de nosso próprio ser e com Deus que a nós se comunica através de nossa própria verdade interior. Falsificar nossa verdade interior, sob pretexto de nos unirmos a Deus, seria a mais trágica infidelidade, a nós mesmos em primeiro lugar, à vida, à própria realidade, é claro, a Deus

Thomas Merton, Poesia e Contemplação

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A noite escura


Na "noite escura" dos sentimentos e dos sentidos, sente-se, por vezes frequentemente, angústia na oração. É necessário que assim seja, pois essa noite marca a transferência do pleno e livre controle de nossa vida interior para as mãos de um poder superior. E isso significa, também, que o tempo da obscuridade é, de fato, um tempo de riscos e difíceis opções. Começamos a sair de nós mesmos: isto é, somos arrastados para fora de nossas habituais e conscientes defesas. Essas defesas são também limitações que devemos abandonar se queremos crescer. Mas são elas, ao mesmo tempo, a seu modo, uma proteção contra as forças inconscientes demasiadamente grandes para enfrentarmos desnudados e sem proteção.

Se avançarmos nessa escuridão, teremos de encontrar-nos com essas inexoráveis forças. Teremos que enfrentar temores e dúvidas. Teremos de questionar toda a estrutura de nossa vida espiritual. Teremos que fazer uma nova apreciação daquilo que nos tem motivado a crer, a amar, a nos engajarmos em relação ao Deus invisível. E, nesse momento precisamente, toda luz espiritual é obscurecida, todos os valores perdem sua forma e se diluem, parecem não ter realidade e ficamos, por assim dizer, suspensos no vácuo.

O aspecto mais crucial dessa experiência é exatamente a tentação de duvidar do próprio Deus. Não devemos minimizar o fato de ser isso um verdadeiro risco. Pois, aqui, estamos nos adiantando e ultrapassando a fase em que Deus se tornou acessível à nossa mente por meio de simples e primitivas imagens. Estamos penetrando na noite em que Ele está presente sem qualquer imagem, invisível, imperscrutável e situado além de qualquer representação mental satisfatória.

Num momento desses, alguém que não esteja seriamente fundamentado numa autêntica fé teológica pode tudo perder do que tenha possuído. Pode sua oração tornar-se uma luta obscura e detestável para preservar as imagens e os enfeites que disfarçavam o vácuo interior. Deverá ele então enfrentar a verdade de seu vazio ou bater em retirada voltando ao domínio das imagens e analogias que não mais sirvam a uma vida espiritual madura. Poderá ele não ser capaz de enfrentar a tão terrível experiência de estar aparentemente sem fé, de maneira a nela realmente crescer. Pois é este o teste, este o fogo de purificação que queima até às cinzas os elementos humanos e acidentais da fé, de modo a libertar o profundo poder espiritual que existe no centro de nosso ser. 

Devastarei sua vinha e sua figueira, das quais dizia: eis a paga que me deram meus amantes. Farei delas um matagal, que os animais selvagens devorarão. Por isso a atrairei, conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração. Dar-lhe-ei as suas vinhas e o vale de Acor, como parte de esperança. Aí ela se tornará como no tempo de sua juventude, como nos dias em que subiu da terra do Egito. Não lhe deixarei mais na boca os nomes dos Baals e ninguém pronunciará tais nomes. Farei para eles, naquele dia, uma aliança com os animais selvagens, as aves do céu e os répteis da terra; farei desaparecer do país o arco, a espada, a guerra e os farei repousar com segurança." (Os 2, 14;16-17; 19-20).
 Thomas Merton, Poesia e Contemplação

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A Perfeita Pobreza Interior por S. João da Cruz


"Cuide de conservar o espírito de pobreza e desprezo de tudo; de outra forma, saiba V. Rev. que cairão em mil necessidades espirituais e temporais. Todas hão de contentar-se com Deus somente. Saibam que só haverão de provar e padecer as necessidades a que sujeitarem o coração: o pobre de espírito, vendo-se à míngua, está mais contente e alegre, porque pôs seu tudo em nada, em coisa alguma; e assim em tudo ele encontra largueza de coração. Feliz é esse nada, feliz esse esconderijo do coração: tem tanto poder que a tudo domina, sem nada querer sujeitar a si próprio e desfazendo-se de preocupações para poder arder em maior amor. As irmãs aproveitem-se dessas primícias de espírito que Deus concede nesse início, para retomar com muita renovação o caminho da perfeição em total humildade e desapego, interior e exterior, não com ânimo pueril, mas com vontade robusta. Sigam a mortificação e a penitência, querendo que Cristo lhes custe algo, e não sendo como os que buscam, em Deus, ou fora dele, seu próprio conforto e sossego; procurem o padecer em Deus e fora dele, por seu amor, no silêncio, na esperança e na lembrança amorosa..."

S. João da Cruz em Carta à priora do recém fundado convento de Córdoba.

Impressão de Sta Teresa ao visitar a casinha de S. João da Cruz, em Durvelo.


"Ao entrar na capela, fiquei admirada ao ver o espírito que o Senhor havia infundido ali. E não só eu, pois dois mercadores, meus amigos, que haviam vindo comigo de Medina, não faziam outra coisa senão chorar! Nunca me esqueço de uma pequena cruz de madeira sobre a pia de água benta: sobre essa cruz estava colada uma imagem de Cristo, feita de papel, que parecia suscitar mais devoção que se fosse feita de material muito bem trabalhado"

Sta Teresa de Jesus, As Fundações.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Subida do Monte Carmelo - 1º Capítulo

O áudio não ficou muito bom, mas dá pra entender o que nele se diz. Abaixo, uma breve retomada do essencial.


"Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamada,
Oh! Ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
Já minha casa estando sossegada."

Pontos afirmados pelo santo:

1- Não é possível alcançar a perfeição sem passar ordinariamente por duas noites ou vias purgativas referentes às duas partes do homem - uma inferior e  outra superior.

a) A primeira, é da parte sensitiva - própria dos principiantes.
b) A segunda, é das faculdades espirituais - própria dos já aproveitados.

Dizer que saiu "quando sua casa se achava sossegada" significa que foi preciso ter pacificada a parte sensível, pois não é possível sair das penas e angústias dos apetites sem estes estarem mortificados e adormecidos.

Não era possível entrar nessa noite somente com os próprios esforços, pois é muito difícil alguém acertar desprender-se perfeitamente sozinho.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

2º Podcast S. João da Cruz - Divisão da Obra e Explicação Escrita do "Monte" pelo próprio Santo


Para escutar o Podcast, cliquem na imagem acima.

Abaixo, a explicação do "Monte" pelo próprio S. João da Cruz

Desenho original do Santo.
Esquema do Monte da Edição de Alcalá, 1618, segundo a interpretação de Diogo de Astor.

MONTE CARMELO
[No sopé do Monte]

Para vir a saborear TUDO - não queiras ter gosto em NADA
Para vir a saber TUDO - não queiras saber algo em NADA
Para vir a possuir TUDO - não queiras possuir algo em NADA
Para vir a ser TUDO - não queiras ser algo em NADA
Para vir ao que não GOSTAS - hás de ir por onde não GOSTAS
Para vir ao que não SABES - hás de ir por onde não SABES
Para vir a possuir o que não POSSUIS - hás de ir por onde não POSSUIS.
Para chegar ao que não ÉS - hás de ir por onde não ÉS
Quando reparas em algo - deixas de arrogar-te ao todo
Para vir de todo ao todo - hás de deixar-te de todo em tudo
E quando venhas de todo a ter - hás de tê-lo sem nada querer.

Nesta desnudez encontra o espírito o seu descanso, pois nada cobiçando, nada o impele para cima e nada o oprime para baixo, porque está no centro da sua humildade.

[As três sendas do Monte, da esquerda para a direita]

Caminho de Espírito de Imperfeição: 

Do céu - nem isso; glória - nem isso; gozo - nem isso; saber - nem isso; consolo - nem isso; descanso - nem isso; Quanto mais os desejei, com tanto menos me encontrei.

Senda do Monte Carmelo:

Espírito de perfeição: nada, nada, nada, nada, nada, nada e ainda no Monte, nada.

Caminho de Espírito de Imperfeição:

Da terra - nem isso; possuir - nem isso; gozo - nem isso; saber - nem isso; consolo - nem isso; descanso - nem isso - Quanto mais quis buscá-los, com tanto menos me encontrei.

[No cume do Monte, da esquerda para a direita, segundo os diversos planos]

Quando já não o queria, tenho tudo sem querer (cf. 2Cor 6,10).
Quando menos o queria, tenho tudo sem querer - Paz - Gozo - Alegria - Deleite - Sabedoria - Justiça - Fortaleza - Caridade - Piedade.

Nada me dá glória - Nada me dá pena.

Já não há caminho por aqui, porque para o justo não há lei; ele é a lei para si mesmo (cf. 1Tm 1,9; Rm 2,14).

Eu vos introduzi na terra do Carmelo, para que comêsseis o seu fruto e o melhor dlea (Jr 2,7). 

Só mora neste monte - honra e glória de Deus.

***

Na Edição de Alcalá, 1618, lê-se a seguinte explicação dos três caminhos do Monte.

Monte de Deus, monte elevado, monte alcantilado, monte em que Deus se compraz em habitar (Sl 67, 16-17).

[As três sendas do Monte, da esquerda para a direita]

Caminho de Espírito Imperfeito: Demorei mais e subi menos, porque não tomei a senda. Bens do céu - por havê-los procurado tive menos do que teria se houvesse subido pela senda.

Senda estreita da Perfeição: Estreito é o caminho que conduz à vida" (Mt 7,14).
Bens do céu: Glória - nem isso; segurança - nem isso; gozo - nem isso; consolos - nem isso; saber - nem isso. Nada, nada, nada, nada, nada. Bens da terra: Gosto - também não; ciência - também não; descanso - também não. Tanto mais algo serás, quanto menos o quiseres ser.

Caminho do Espírito Errado: Quanto mais os procurava, com tanto menos me achei. - Bens da terra - Não pude subir ao Monte por enveredar por caminho errado.

[Cimo do Monte, da esquerda para a direita, segundo os diversos planos]

Quando não o quis, com amor de propriedade, foi-me dado tudo sem que o buscasse - E no Monte, nada - Por aqui já não há caminho, pois para o justo não há lei (cf. 1Tm 1,9; Rm 2,14). - Depois que me pus em nada, acho que nada me falta. - Sabedoria, Ciência de Deus - Justiça, Força, Prudência, Temperança - Caridade, Alegria, Paz, Longanimidade, Paciência, Bondade, Benignidade, Mansidão, Fé, Modéstia, Continência, Castidade - Segurança - Fé, Amor, Esperança - Divino Silêncio - Divina Sabedoria - Perene Convívio - Só mora neste Monte - a honra e glória de Deus. - "Eu vos introduzi na terra do Carmelo, para que comêsseis o seu fruto e o melhor dela" (Jr 2,7).

S. João da Cruz, Esquemas Gráfico-Literários: "Monte de Perfeição" In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Vozes, 2002.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A ação de Deus na alma quieta


Um pouquinho que Deus opere na alma, neste santo ócio e soledade, é um bem inapreciável, por vezes muito maior do que a própria alma ou quem a dirige possam imaginar. E embora não se veja tanto na ocasião, a seu tempo manifestar-se-á. O mínimo que a alma então pode alcançar, é sentir um alheamento e estranheza em relação a tudo, algumas vezes com maior intensidade do que em outras; ao mesmo tempo sente inclinação para soledade, e tédio de todas as criaturas deste mundo, enquanto respira suavemente amor e vida no espírito. E, assim, tudo quanto não é este alheamento e estranheza causa-lhe dissabor; pois, como se costuma dizer, quando goza o espírito, a carne fica sem prazer. 

São João da Cruz, Chama Viva do Amor

terça-feira, 26 de julho de 2011

Buscando meu Amor, meu Amado...


"Buscando meu Amor, meu Amado,
vou por montes e vales sem temer mil perigos.
Nem flores colherei no caminho,
pois segui-Lo é preciso sem deter-me ou parar."

S. João da Cruz

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Poesia que provocou um êxtase em S. João da Cruz


"Quem nunca provou de amarguras
No humano vale da dor
Nada sabe de doçuras
Desconhece o que é o amor.
Amarguras são o manto
Dos que amam com ardor"

Estrofe cantada por uma religiosa.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

"Desde que me olhaste, a graça e a formosura em mim deixaste..."


"Alegremo-nos, Amado, e vamos ver-nos em tua Beleza"


"Possa eu ser tão transformado em tua beleza, que sendo semelhantes em beleza, possamos ver-nos ambos em tua beleza, tendo já eu a tua própria beleza. De modo que, olhando um para o outro, veja cada um no outro a tua beleza, já que a beleza dos dois é a tua só, e eu sou absorvido na tua beleza"

S. João da Cruz