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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

As provações e seus efeitos - da estreiteza à magnanimidade


"Deus conduziu-me por caminhos incompreensíveis, na ocasião, para trazer-me ao ponto em que me encontro agora. Também os meus caminhos comportaram grandes sofrimentos. Mas as provações são apenas as divergências entre os pensamentos de Deus e os nossos próprios desejos. São-nos enviadas para fazer-nos passar da estreiteza de nossos míseros corações para a magnanimidade do Coração de Deus. Experimentamos então, um desabrochamento de todo nosso ser, uma dilatação da alma, de que não tínhamos ideia. Nada perdemos da vida, e vemos surgir diante de nós uma paisagem nova, tão bela quanto imensa. Isso porém não se realiza sem falhas, lutas e dores."

Dom Pierre Célestin Lou Tseng-Tsiang

sábado, 16 de junho de 2018

Mais uma primavera...

Estou aqui no começo do meu dia pensando em como manter a tradição de escrever, como geralmente faço nessas ocasiões. Estes textos exprimem as evoluções ou involuções do meu espírito. O que eu posso dizer é que hoje em dia a minha vida é muito singular, no sentido de que o que ela é agora, em certo sentido parece não poder ser reduzido a uma mera e óbvia culminância do que já era. Pelo menos, parece. A vida humana é sempre misteriosa e nela coabitam, ao lado daquilo que percebemos, coisas subliminares, escondidas, discretas, mas reais. Há um estranho preconceito de que o que está submerso, subjacente, é mais real do que aquilo que aparece. E há um preconceito em tomar o termo "preconceito" por algo necessariamente ruim e falso. A vida parece ser um processo de desenrolar de uma espécie de essência que vai, aos poucos, tomando forma, realizando-se, tornando-se ato e fazendo com que o eu seja isso mesmo: atual. O ideal vai tomando corpo e vamos aparecendo, adensando ontologicamente, o nosso futuro não sendo somente o desabrochar do que já tínhamos existencialmente em estado de latência, mas a criação real de um quê - que procede do ideal - que é irredutível ao que já havia e que vem somar-se isso. De algum modo, somos mais o que já somos na medida em que já não somos o que fomos.

Este é um dia feliz. Pelo menos é o modo que eu tendo a considerar os aniversários, muito embora a essa altura do campeonato a gente já comece a lamentar mais um ano que se passou. Mas cá estamos, depois de mais 4 estações, e de tantas coisas vividas, e sofridas, e ridas. Tudo vai tomando lugar, se encaixando, formando esse mosaico que dá uma unidade gradativamente mais perfeita e significativa a todo o conjunto. Neste processo, mesmo o que não foi tão bom tem o seu lugar e dá o seu tom à personalidade e ao vibrar do ser. Somos vozes divinas que se sucedem durante um tempo. Dir-se-ia que daqui a alguns anos eu alcanço a linha de transição e passo ao início do fade-out. Mas como a voz é divina, embora a sua manifestação seja sucessiva, a sua natureza é imortal. A voz é um veículo de efetivação de uma ideia que é imediata e eterna. Sou eterno por participação.

É um dia privilegiado, porque por toda a parte vemos manifestações de carinho, e fica evidente se algum bem nós fizemos a alguém. Claro que estas coisas são enfatizadas e vistas às vezes com lentes de aumento. Mas como somos entes carentes, é importante que uma vez ao ano, pelo menos, alguém nos recorde da nossa importância e valor e do bem que, propositalmente ou não, conseguimos fazer. O aniversário é um símbolo do Céu, que invade a nossa vida de exílio e nos toca. É uma liturgia solene em que Deus dá uma espécie de direito particular ao agraciado. É um dia que lhe é separado, e, não houvesse gente sofrendo muito e até morrendo nessas ocasiões, dir-se-ia que tudo nos parece favorável. Nem sempre será assim, no entanto. E nem sempre o foi, pra falar a verdade. E nem é. O ponto é que a nossa alegria transfigura a vida, o mundo, e tudo reflete o que nos vai na alma.

Neste meu dia, sou grato a Deus pelo dom da existência, da vida, da família e dos amigos que eu tenho, e de tantas outras coisas com as quais Ele me presenteou e me presenteia. Minhas rebeldias excessivas recordam-me do Seu amor sobreexcessivo, e as minhas iniquidades me fazem contemplar, com mais relevo, a superabundância da Sua graça. E é por ser de graça que é amor. É como os raios do sol que vêm bater contra a superfície de uma porta. Nada é preciso fazer além de abri-la, para que aquela luz ilumine o interior. E então a casa será luz por participação. O material da alma humana, recorda-nos Sta Teresa, é de tal modo brilhante que recepciona perfeitamente aqueles dardos do sol divino e resplandece. Queria sempre resplandecer, mas as misérias que me habitam, os demônios que falta exorcizar, limitam muito a operação normal desse pobre grão de areia. Mas Deus o ama e, por isso, ele resiste. Deus é bom, e essa é uma verdade inconcussa que se obstina a manter-se, sem nenhum mínimo abalo, diante dos caprichos infantis dessa existência. Os braços amorosos de um pai são fortes o bastante para conterem o esperneio do filho. Na mente da criança, tudo é caos, mas só o pai é realista.

Quero passar os meus dias crendo no realismo do meu Pai, e não nas minhas perspectivas sempre tão limitadas. Espero também crescer sempre um pouco mais a fim de que o meu olhar seja sempre mais reto, mais verdadeiro, mais profundo. Mas o que importa, nisso tudo, é que Deus é invencível e sitia, diz o visceral Léon Bloy, certas almas com todo o Seu poder. Que belo presente seria se Ele me elegesse para isso. "Que terrível é cair nas mãos de Deus", escreveu São Paulo. E que terrivelmente belo e saboroso isso deve ser... Que eu jamais me aparte daí. "Ó meu astro amado, fascinai-me, a fim de que não me seja possível mais sair de vossa irradiação", escreveu Sta Teresa Elisabete da Trindade. E eu, que da santidade não tenho nem a poeira, ouso pedir o mesmo, e sou feliz desde já porque Ele me concedeu o dom da existência. Desde então, perceba eu ou não, Ele é mais íntimo de mim do que eu mesmo. Jamais estarei só. Mais um ano é menos um ano. E então tudo se descortinará, e o sorriso será pra sempre. Assim espero. Assim o creio.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Sobre Moral, Liberdade, Egoísmo e Tristeza


"Para saborear tudo, não queiras ter gosto em coisa alguma" 
São João da Cruz

O ser humano é um ser que intelige e decide, mas não necessariamente nessa ordem, já que o objeto de intelecção já é submetido a um prévio ato de deliberação. Não apenas faço o que entendi dever fazer, mas escolho aquilo no que vou pensar. Porém, é verdade que este prévio ato deliberativo se relaciona muito mais com o desejo - uma espécie de instinto imediato - do que com a vontade. Temos então a seguinte ordem: desejo - inteligência - vontade. É possível e comum que desejo e vontade discordem. Neste caso, a vontade age como sucessora corretiva do desejo. Como este é prévio à inteligência, ele tende a ser amoral, pois agir moralmente é agir segundo regras ou motivos; é saber por que agir assim é correto ou errado. A vida moral - a não ser quando já se tem o hábito - não pode ser fruto de qualquer inspiracionismo, como se nós tendêssemos naturalmente à vida correta. Qualquer mínimo exame da nossa realidade psíquica dá conta de ver que isso não é assim. Tendemos ao mal, e não é raro que mesmo aquela ação que julgamos naturalmente boa encubra intenções e desejos que não o são.

Na vida moral, há que se distinguir, portanto, estas duas coisas: a ação objetiva e a intenção ou finalidade que se pretende alcançar com a ação. Isoladas, elas não são suficientes ainda para constituir a ação moral. Mas se pode dizer que a intenção isolada tende a ser mais desculpável para o sujeito do que a ação isolada. Claro que há nisso controvérsias. Se um dado ato irrefletido, mas munido de boas intenções, só foi executado assim na ignorância de sua efetividade real devido a alguma negligência anterior do sujeito, ele já não se torna tão desculpável assim porque o conjunto da negligência anterior contamina a intenção atual do sujeito. Por trás de sua intuição de sinceridade pessoal há de se esconder qualquer senso de vigarice, pois o desconhecimento da objetividade da situação é fruto de um vício prévio.

Quanto às ações, tomadas isoladamente, é sabido que quaisquer delas podem ser inspiradas por um sem fim de motivos internos. Uma pessoa pode dar esmolas porque quer alimentar o esfomeado, ou porque quer cultivar a imagem de honesto para os outros, ou porque quer cultivá-la para si, ou porque quer impressionar alguém, ou porque quer impressionar Deus, ou porque quer ir para o Céu, ou porque não quer ir para o Inferno, ou porque quer que o pedinte o deixe em paz, ou porque se recordou de alguma situação anterior que o empurra para essa ação, ou porque simpatizou com aquele pedinte em particular, ou porque se sentiu momentaneamente comovido e aí obedece a si mesmo nesse ímpeto atual e totalmente instintivo de dar, etc. Do ponto de vista exterior, temos somente a ação. É por isso que o julgamento das intenções só é reservado a Deus, pois uma ação nem sempre é efeito fiel de correspondentes interiores. É preciso ainda dizer que essa fonte confusa dos nossos atos nem sempre é totalmente consciente. Bem, é comum que não o seja. Nós costumamos mentir para nós mesmos, e por isso não nos agrada quando alguém nos acusa de algo justamente. Nos é preferível à sensibilidade ficar na ignorância dessas coisas. E isso é assim também conosco. Se quem tenta conhecer-se encontra nisso extrema dificuldade, imaginem que não tem interesse nisso.

O que caracterizaria então a ação moral? Parece-me poder dizer que é a conjugação de ação boa em si - isto é, tomada objetivamente - com o desinteresse pessoal, isto é, sem qualquer cálculo de ganho pessoal em quem age. Quando há dissociação entre ação e intenção, temos a clássica situação da hipocrisia. Esta pode ser mais consciente e voluntária, mas também pode sê-los menos. Uma pessoa que, enquanto faz uma boa ação, diz interiormente que não quer recompensa e que faz somente pelo outro, pode ainda assim esconder, numa região mais  interior e ao abrigo da visão atual da consciência, a intenção de comover a Deus, e, assim, alcançar d'Ele algum favor. São João da Cruz, por isso, pedia para que, quando fizéssemos um ato correto, fizéssemo-lo como se mesmo Deus nunca fosse tomar notícia dele.

É bastante comum também que um sujeito passe a agir moralmente depois de alguma experiência que o tenha comovido. Inspirados, todos tendemos a agir de modo diferente, e isso não é ruim, mas a esfera da comoção, que é o campo dos nossos sentimentos, é por natureza volúvel e não há que se construir nada nisso aí. Óbvio que este pode ser um começo, mas, em quem não o percebe, haverá uma vaga e tola esperança de que aquele estado de espírito que então se vive seja perpetuado, o que asseguraria então que a nova direção das ações pessoais estaria resguardada. Contudo, além da falsidade dessa conclusão - que, não obstante, retomamos de novo e de novo -, o próprio ato de agir quando isto dá à consciência aquele conforto característico - quando a ação é um modo de assegurar o próprio valor moral, ou a própria concordância a um ideal - torna a ação, já, maculada. Há, no fim, uma busca por auto-satisfação. Notem que o problema não é a satisfação que uma boa ação pode causar à pessoa, mas a busca por ela. O prazer e a felicidade não devem ser objetos diretos da busca humana. Eles, por natureza, são acompanhantes. Eles se vinculam a objetos. Se buscamos objetos prazerosos, eles nos darão prazer. Se buscamos somente o prazer, ele até se permitirá fruir, mas não o fará sem resistência. É por isso que os vícios tendem a produzir efeitos cada vez menores. Com a felicidade é o mesmo: ela será tanto maximizada quanto menos for o objeto de busca principal. "Nega os teus desejos e encontrarás o que deseja o teu coração".

Se uma pessoa se habitua a agir buscando o prazer e a felicidade nas coisas, ainda que inconscientemente, ela se condenará a uma série de prejuízos: terá um tipo de vida moral muito condicionada às circunstâncias, será necessariamente inconstante - pois se moverá segundo suas disposições interiores -, tenderá ao egoísmo - pois está sempre gravitando em torno dos próprios ganhos -, e, como sua consciência estará enredada no fluxo das sensações exteriores e interiores, será necessariamente inquieta e superficial, pois nunca entra fundo em si mesma, onde as coisas são mais estáveis. O produto disso tudo é uma espécie de cegueira e de depressão crônica subjacente, pois, a rigor, a alma anda perdida. E isto se torna um círculo vicioso: quando mais tristeza, mais busca desesperada por algo que a supra, e, como esta busca mantém a lógica da tristeza, esta aumenta, levando a mais ações e mais angústia. A pessoa age como alguém que, estando machucado, golpeia os pregos diante de si, e, ao aumento da dor, aumenta a violência dos golpes.

O desinteresse interior, ao contrário, reorienta a alma para além de si mesma. Isto gera uma saída do solipsismo, e ela se torna disponível a qualquer outra voz além da sua. Relativizar-se é o começo da saúde. Aceitar que Deus é Outro, e não eu mesmo, é algo que não basta compreender: é necessário intuir e saborear. Isto permite que a pessoa aja independentemente do que está sentindo no momento. Se ela passa a agir assim, chegará o dia em que já não se perguntará se o que tem de fazer é agradável ou não. Ela fará. A pessoa cessa de ter uma intenção curva - que voltava sempre pra ela mesma - e passa a ter uma intenção reta, e a intenção reta, diz o Imitação de Cristo, alcança Deus.

Para reorientar a intenção interior, não é suficiente somente um esforço de consciência, embora este já seja útil. Compreender essas verdades é fundamental para alguém que quer fazer da vida algo além de um rodopio em torno de si mesmo. Mas é preciso acrescer outras coisas: a nossa vida inteira foi vivida nessa lógica, e o nosso pecado não é senão uma culminância natural disso que ocorre na nossa alma. Se é verdade que a operação segue o ser - e é verdade -, o nosso pecado é sempre a exteriorização de um tipo de enfermidade interior. O que fazer, então? Primeiramente, compreender isso tudo, mesmo, pois a nossa consciência, embora seja atingida por esse fluxo desordenado de paixões, ainda é capaz, em geral, de, com o devido esforço, olhar como que por cima da tempestade. Estes saltos permitem-na ver. Em seguida, é preciso combater ativamente a desordem, e, para isso, não há outro meio que a mortificação. Mortificar-se é inverter a ordem. Se antes se vivia para o prazer e para o ganho sensível, agora o sujeito buscará ativamente os desprazeres e, passivamente, não reclamará nem fugirá dos desconfortos. É isso o que quer dizer ainda São João da Cruz quando escreve: "Deixa-te ensinar, deixa-te mandar e desprezar, e serás perfeito." É como quando, depois de girar muito para um lado, e já bêbados, precisamos agora girar para o outro para diminuir a tontura. Quanto menos tontura, melhor disposição interior e mais clara a visão. E quanto mais avançados nesse caminho, mais perceberemos detalhes e sutilezas. Desde já, porém, é preciso notar: não há caminho alternativo. Haveria somente se Deus coagisse a alma. E Ele de certo modo o faz quando nos dá sofrimentos. Os sofrimentos são como um empurrão por esse caminho em quem ia totalmente pelo outro lado. Mas, ainda assim, isso não é determinante, pois, em última instância, a decisão é sempre da pessoa.

Atos morais, que são totalmente bons, são os atos desinteressados e que se orientam em direção ao bem objetivo. É assim que Deus age, e é assim que o cristão deve viver: imitando-O.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Para seguir a Cristo, é preciso deixar os mimos e ilusões


Quando uma criança começa a praticar artes-marciais, o mais comum é que ela esteja influenciada por filmes ou por contos gloriosos de conhecidos seus. Tudo aquilo influi no imaginário dela de forma poderosa. E ela o quer.. Nos filmes, em uma ou duas semanas, o sujeito desajeitado consegue ganhar o campeonato. Nas histórias ouvidas, depois de apanhar um pouco, o protagonista, animado por não sei qual espírito bruceleeniesco, vai pra cima e conquista a vitória. Na vida real, porém, o primeiro dia de treino, não obstante o ânimo quase sobrenatural que inspira o neófito desde dentro, o que ele terá são hematomas, cansaço, sede. E no outro dia, misteriosamente, ele continua o mesmo verminoso fraco de sempre, com a diferença de que o seu ânimo, por algum motivo, arrefeceu.

No cristianismo é assim também. Lemos a vida dos santos e dos grandes defensores da fé. Os relatos dos grandes místicos quase nos extasiam na cadeira. A coragem dos cristeros e cruzados em dar a própria vida nos arrebata ao ponto de quase metermos a cabeça na parede e proclamarmos, em seguida e de algum modo, o nosso martírio. Porém, quando começamos a fazer os sacrifícios cotidianos e o lento processo de morte de nós mesmos e, olhando de lado, não vemos nenhum expectador que possa tomar nota dos nossos atos, ou nenhum fundo musical que possa acrescentar uma carga emocional aos nossos feitos, e notamos, então, que não se passou sequer meia hora e que uma vida inteira nos espera à frente, então vemos como a vida real - graças a Deus - faz questão de mostrar que o mundo e a vida não são como nós supomos. E se tivermos a loucura de questionar a Deus sobre isso, Ele nos dirá algo do tipo: "deixe de tolices".

O cristianismo é um caminho de pessoas reais que vão sofrer de verdade, vão sangrar de verdade, vão gritar vez ou outra: "que se dane isso tudo!", vão chorar sem ninguém ver e vão ter o ego atingido por metralhadoras. É assim mesmo. Essa é a condição. É preciso vencer a ilusão para chegar a ser um campeão de Kung Fu. É preciso vencer a fantasia para chegar à santidade. É preciso abandonar os mimos teletubianos e as mentiras a nosso respeito se queremos chegar a ser seguidores do Cristo. Cristo é a Verdade. O fantástico mundo de Bob tem de ser abandonado. O melhor bem que Deus pode nos fazer é quebrar o nosso mundinho e nos mostrar as coisas como realmente são.

sábado, 3 de novembro de 2012

Symphonia Virginium


“Ó amante cheio de doçura, de dóceis abraços, ajuda-nos a conservar nossa virgindade. Fomos formadas do pó, ai!, ai!, e no crime de Adão. Bem duro é contradizer o gosto que o fruto tem. Dá-nos coragem, ó Cristo, Salvador. Nós desejamos ardentemente seguir-te. Ó como é gravoso, para nós miseráveis, a ti imaculado e inocente Rei dos Anjos imitar. Confiamos em ti, todavia, pois é teu desejo a pedra preciosa permanecer sem putrefação. Invocamos-te agora, Esposo e consolador, que nos redimiste na cruz. Por teu sangue comprometidas somos para ti esposas repudiando homem para te preferir a ti Filho de Deus. Ó belíssima forma, ó suavíssimo perfume de desejáveis delícias, sempre por ti suspiramos no exílio das lágrimas, na esperança de contemplar-te e contigo permanecer. Nós estamos no mundo e tu em nossa mente, abraçamos-te no profundo coração quase como se foras presente. Tu, fortíssimo leão, rompeste o céu para descer ao útero duma Virgem e destruíste a morte para elevar a vida à cidade de ouro. Concede-nos habitar dentro de seus muros e permanecer contigo, dileto Esposo, pois nos livrastes das fauces do Diabo, que seduziu nossos primeiros pais.”

(SYMPHONIA VIRGINUM, de Santa Hildegard von Bingen, Doutora da Igreja).

Fonte: O Camponês

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Oh Chuva...



Oh Chuva, tu que trazes a coragem
Que outrora o vento roubou...
Oh Chuva, tu que moves a vontade
A escolher viver sem calor,
A andar debaixo das nuvens sem ver o sol...

Shalom, Inverno

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O objetivo da luta espiritual


Ter um coração unificado, um coração puro, sensível e capaz de discernimento, um coração que conserva e engendra pensamentos de amor, eis o objetivo da luta espiritual. Que arte apaixonante! Preparar-se, na vigilância, para a luta, para esta luta que Rimbaud definia como "mais dura que a guerra entre os homens".

domingo, 29 de julho de 2012

"Não quero ser santa pela metade"


"Mais tarde, quando se me tornou evidente o que era perfeição, compreendi que para se tornar santa era preciso sofrer muito, ir sempre atrás do mais perfeito e esquecer-se a si mesmo. Compreendi que na perfeição havia muitos graus e que cada alma era livre no responder às solicitações de Nosso Senhor, no fazer muito ou pouco por Ele, numa palavra, no escolher entre os sacrifícios que exige. Então, como nos dias de minha primeira infância, exclamei: "Meu Deus, escolho tudo". Não quero ser santa pela metade. Não me faz medo sofrer por vós, a única coisa que me dá receio é a de ficar com minha vontade. Tomai-a vós, pois "escolho tudo" o que vós quiserdes" 

 Sta Teresinha de Lisieux, História de Uma Alma

terça-feira, 17 de julho de 2012

Sintomas de saudade...


Depois de passar um pouco de tempo com bons amigos, eles foram... e eu fiquei. Acostumado que sou a desapegar-me, desta vez, porém, a ausência se impôs e o coração reclamou. Muito boa a amizade. E isto é o que me falta. Os amigos, os tenho, mas vão distantes.. os de perto, são pouquinhos. Posso, porém, dizer que, na saudade que sinto, há como um vislumbre do Céu. Que esta falta se converta em força, pois é preciso lutar pela bem-aventurança. Lá, enfim, será o grande encontro de verdadeiros amigos. Integrados todos, saber-se-á o que é ser família - até aqui, não o sei. A esperança do céu é o único ânimo da vida. Que não se pense ser isso pouca coisa. Benditos os amigos que me trazem notícias da eternidade, mesmo que, por ora, elas venham pintadas de dor e de vazio. Sinto-lhes tremendamente o vácuo. Amo os meus amigos... os poucos que tenho.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Senhor, tende piedade de mim...



Senhor, tende piedade de mim!... sofro, sim..., mas quisera que meu sofrimento não fosse tão egoísta; quisera, Senhor, sofrer por tuas dores na Cruz, pelos olvidos dos homens, pelos pecados próprios e alheios..., por tudo, meu Deus, menos por mim."

S. Rafael Arnaiz Barón

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O mistério do sofrimento


Contemplando o sofrimento nos rostos, nas mãos, nos olhos, nas almas, surge-nos, da evidente constatação da dor humana, a pergunta de por que isso se deu e de onde isso veio. É então que nos aparece em toda a seriedade a doutrina do Pecado Original e todas as suas consequências. Mas também é aí que passamos a entender um pouco da veracidade da Encarnação, onde o Filho de Deus, esposando a nossa dor e tocando as nossas misérias, realizou uma como que transubstanciação do sofrimento, tornando aquilo que, antes, era mera punição, no meio de redenção, no instrumento de salvação do gênero humano. Contemplar essa dor e abraçá-la impede que a tenhamos como mera teoria imaginativa. Ela é o que há de mais real, mais cruamente real. E o amor divino, subjazendo a tudo isso, é violentamente real.

O sofrimento tem um caráter transcendente. Ele nos força para fora de nós mesmos. E nesse empurrão, ele nos mostra quem, de fato, nós somos, pois assumimos o nosso verdadeiro eu quando recordamos a nossa natureza supra-sensível. É abandonando os nossos apegos que despertamos para a nossa natureza espiritual e para a nossa alta descendência e alto chamado. O sofrimento, portanto, força-nos ao desprendimento e, fazendo-o, ele contribui para que readquiramos a nossa dignidade. Distraindo-nos dos nossos caprichos, ele nos pressiona com ímpeto contra a realidade infinitamente mais densa do Céu. A dor é um remédio para sonâmbulos.

Se assim é, "santificada seja a dor! Bendita seja a dor", como dizia S. Josemaria Escrivá. E o mesmo santo nos advertia: "não temos o direito de ter nada no coração, exceto o amor de Deus". Abandonemos, pois, tudo n'Ele. E desapegados de nós mesmos, preparemo-nos para o grande salto, que será quando Ele quiser. No final do filme de S. Pio de Pietrelcina, escutamo-lo dizer: "Papai, estou pronto". Tal deve ser a contínua disposição de um cristão.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Padre Antônio


Gustavo Corção

Numa cidadezinha perdida e esquecida, lá nos confins deste tão imenso Brasil, existe uma igreja quase sem existir. Em torno, mil ou duas mil almas mais ou menos desalmadas; dentro, um velho vigário a fazer contas intermináveis, e um padre coadjutor, na sacristia, a olhar o morro, a linha férrea lá longe, o rio, talvez o céu.

Já traz cinzas na cabeça e uma curvatura nas costas, mas naquele momento o que mais lhe pesa é a solidão que cerca a velhice que se aproxima. Está ali. Não é nada. Não sente forças para fazer nada pela vila indiferente que quer viver sua vida rotineiramente encaminhada para a morte. Sente-se inútil a mais não poder. Quer que ele celebre a única missa da féria, e com uma só porta apenas entreaberta. Precaução aliás inútil porque ninguém mais aparece nas missas dos dias da semana. O povo não gostou quando o vigário tirou os santos que há mais de cem anos povoavam a velha igrejinha. Diminuiu a assistência à missa, diminuíram as confissões. A conversa com o vigário, na hora do jantar, reduz-se a monossílabos.

Padre Antônio torna a pensar nas coisas que se perderam: a água benta, a oração do terço à noite, os santinhos que dava aos moleques na rua com magnanimidade, e tudo o mais que fazia companhia, que cercava a alma da gente nas igrejinhas da roça. Por que esta devastação? O vigário não gosta de abordar o assunto. Sofre a seu modo, com a tenacidade obtusa dos animais feridos. Cerra os dentes. Não pensa. Não fala. Faz o que o bispo mandou fazer e encerra-se num mutismo quase vegetal. Às vezes parece ter gosto de transmitir seu sofrimento fazendo um outro sofrer. É seu modo de conversar, e quem paga é padre Antônio.

Um dia padre Antônio não encontrou sua velha batina e teve de pedir uma explicação a d. Ana e ao vigário. Explicaram-lhe que estava imprestável. Ganharia nova batina? Não. Clergy-man também é muito caro. Padre Antônio deveria comprar na loja do João Mansur umas calças de lonita e duas camisas esporte. E é com esta roupa pobre que padre Antônio agora se debruça na janela e consulta o infinito. Pobre, pobre padre Antônio. Ele nunca foi propriamente vaidoso e preocupado com a roupa que haveria de vestir, como aconselha Nosso Senhor. Mas essa história da batina doía-lhe ainda como se estivesse em carne viva, como se 1he tivessem arrancado a pele. E o pior é pensar que é com esta roupa por baixo, esta roupa de rua, esta roupa sem bênçãos que devecelebrar a Santa Missa. Disseram-lhe que era mais prático usar uma só alva por cima do traje esporte. E esta alva não era mais daquelas antigas, rendadas e compridas. Padre Antônio não queria as rendas para si, já que era desgracioso e escuro: queria-as para enfeitar o louvor de Deus. Mesmo porque, descontada alguma andorinha, nenhum ser vivo aparecia para assistir ao Sacrifício de nosso Salvador. Nem valia a pena bater a campainha. As novas alvas não têm rendas. São ordinárias e curtas, sim, curtas, porque o importante é aparecerem as calças para todo o mundo ver que o padre é homem, como outro homem qualquer.

Está na hora de preparar a missa da tarde, e padre Antônio sente a tristeza aumentar. Está só. Está só. Não tem com quem falar. Poderá conversar na farmácia com a turma do gamão do Frederico, mas depois a volta para a casa é ainda mais pesada. Poderá perguntar a d. Emília se está melhor do reumatismo, e a d. Maria se o marido já voltou do Rio. Mas não tem ninguém com quem possa falar, com quem possa desabafar, a quem possa explicar a desmedida tristeza de vestir por cima das calças uma alva sem rendas, e a quem possa dizer a saudade que tem da batina preta, a batina bendita em que um dia amortalhara o homem velho para viver em Cristo Nosso Senhor. E não tem ninguém a quem possa perguntar tremendo: «O que é que está acontecendo emnossa Igreja? E o Papa?» Ou então alguém, um irmão, um padre, a quem possa dizer com medida indignação: «Não pode ser! Não pode ser! As portas do inferno não prevalecerão!»

Padre Antônio olhou mais uma vez para o horizonte que a noite já escondia. O mundo começava além daquela serra... O mundo! Padre Antonio curvou a cabeça como um condenado. Estava preso! Estava preso! Abriu então as duas mãos grandes e magras que considerou com triste ternura: um dia elas tinham recebido o poder de consagrar o Pão e o Vinho, e de trazer assim ao mundo, como a Virgem Santíssima, o Corpo de Deus. Mãos grandes, mãos nervosas e escuras, mãos consagradas. Ao menos esta pele não lhe arrancam, esta marca não lhe tiram.

Num desamparo infinito padre Antônio contemplava as duas mãos frementes, tão poderosas e tão inúteis. Turvava-se o espírito, vacilava a razão e a fé. Estão ali as mãos. E o resto. E a água benta? o Latim? as coisas da Igreja? As palmas inúteis não respondiam às suas indagações, e até pareciam pedir-lhe uma resolução, uma decisão, já que a mão foi feita mais para fazer do que para pensar... O que é isto? O que é isto nas palmas das mãos? Estará chovendo? Padre Antônio, padre Antônio, o senhor está chorando. Quem foi que falou? Ninguém. Ninguém. É o próprio padre Antônio que tomou o costume de falar com o padre Antônio.

Juntam-se as mãos. E das profundezas dos abismos que todos trazemos, mesmo debaixo de uma camisa esporte, subiu um clamor de aflição: «Usquequo exaltabitur inimicus meus super me? Respice et exaudi me! Respice et exaudi me! Respice et exaudi me, Domine Deus meus...».

E então, neste momento infinito, padre Antônio teve a incomparável certeza de que não estava só.

Gustavo Corção, Fonte: Permanência

Goodbye, good time...


Hoje eu estive olhando este vídeo. Air Supply é um grupo musical que muito me marcou, desde a infância. Sempre gostei das músicas deles e até hoje, quando ponho isso pra tocar, me dá uma nostalgia. Mas a saudade nem é, tanto, da música em si, mas daquele tempo, daquela época em que o mundo ainda era bom. Mesmo o clipe da música, ainda que seja de um grupo secular, revela uma decência, uma singeleza que, atualmente, é difícil encontrar. Observando, hoje, como as coisas mudaram, a única coisa que eu vejo poder dizer para aqueles dias de outrora é justamente o que diz o nome dessa música: Goodbye! 

E, embora pareça haver algo de definitivo nesta expressão, ela também encerra uma bela esperança. O português foi muito feliz em traduzi-la por "Adeus". Sim, a esperança feliz é que, algum dia, quando estivermos em Deus - que Ele o permita - resgataremos de um modo muito mais completo e definitivo a alegria do bom tempo, do tempo bom, pois, então, estaremos com Aquele que é a própria bondade.

domingo, 29 de abril de 2012

Faz o que quer


A mera espontaneidade não pode ser critério da moral (como também não ´é na arte musical, por exemplo: para tocar piano).

No entanto, S. Tomás afirma: "As virtudes nos aperfeiçoam para que possamos seguir nossas inclinações naturais de modo devido" (II-III, 108, 2).

Na verdade, só com a perfeição da virtude a espontaneidade moral ganha total legitimidade: a improvisação de um virtuose ao piano é deliciosa; a minha, desastrosa.

É a distinção entre o querer e o - para usar a linguagem mais popular - "estar a fim". A virtude faz com que "estejamos a fim" do que realmente, por natureza, queremos*.

A sabedoria popular refere-se ao craque dizendo que ele, sim, faz o que quer com a bola; e também o bom músico é o que faz o que quer com o instrumento. O homem bom (moralmente) faz o que quer simpliciter.

LAUAND, Jean. Linguagem e Ética; Ensaios. Curitiba: Editora Universitária Champagnat, 1989.

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* O "queremos" não faz referência ao aspecto superficial, como se dissessem respeito a vontades caprichosas, mas ao que, profundamente, nossa alma anseia pela sua própria constituição natural ainda que de tais desejos não tenhamos atual consciência.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Guerra e Ternura


Ontem, meditando sobre a minha vida espiritual, sobre as minhas tantas negligências, dei-me conta, de um modo mais acentuado, de como ando distante de Deus. Na verdade, eu sempre estou percebendo, olhando e vendo isso. Porém, ontem eu contrastei esta situação - ruim, tíbia - com a ternura com que eu costumava olhar para Deus e que constitui parte essencial da minha espiritualidade pessoal.

E, enquanto me dava conta destas coisas, eu li em S. Josemaria Escrivá o seguinte:

"A guerra! - A guerra - dizes - tem uma finalidade sobrenatural desconhecida do mundo; a guerra foi feita para nós... A guerra é o obstáculo máximo do caminho fácil. - Mas temos de amá-la, ao fim e ao cabo, como o religioso deve amar as suas disciplinas." (Caminho, nº 311.)

Estas coisas parecem contraditórias à primeira vista, não? Pois é! Mas não são! Muito pelo contrário. É preciso fazer guerra a si mesmo a fim de manter a ternura e o frescor do amor a Deus. É preciso lutar muito para manter a integridade, não apenas o vigor da ação positiva, mas também a delicadeza e a sutileza da alma, sem as quais compreenderemos o Cristo muito pouco.

Lembrava-me de uma frase de S. João da Cruz que muito me impressionou na ocasião em que a li pela primeira vez: "É preciso tornar-se delicado para que a delicadeza encontre a Delicadeza". E, quem conhece S. João da Cruz, saberá que, ao fundo de sua ternura única e do seu imenso carinho por Cristo, há toda uma estratégia de guerra contra a soberba, explicada passo a passo, milímetro a milímetro e que espanta pela violência e pelo rigor. Brincando um pouco com isso, ironizava com o santo, o Thomas Merton: "será mesmo ele o mesmo escritor de 'Viva Chama de Amor'?"

Pois bem: é preciso amar a guerra e manter a ternura da alma. Nestes tempos difíceis, temos de ter o cuidado de não embrutecer o espírito, de não cair no engodo de uma espiritualidade seca sob pretexto de que este é o caminho dos fortes. De fato, as emoções e intensos afetos sensíveis não fazem necessariamente parte da vida espiritual e devem ser deixados de lado, com certa indiferença, a fim de abrirem espaço a um amor mais puro e forte. Porém, disto não se deduz que a pessoa deva tornar-se ríspida, supondo que Nosso Senhor despreza as pequenas atitudes, os ternos gestos, a amabilidade da alma para com Ele. É preciso, sim, que nos tornemos delicados, não de uma delicadeza romântica moderna, cheia de susceptibilidades e 'não-me-toques', mas de uma delicadeza viril, do homem que, experimentado nos combates da vida - sejam estes morais ou doutrinários - e sem tempo ou saco de deter-se em contemplações inúteis quando é preciso agir - sejam estas as das próprias supostas virtudes ou das dificuldades do caminho -, contudo não renuncia deter-se terna e amorosamente na contemplação de Jesus, no trato íntimo e enamorado com Ele, na doce e calma quietude que permite olhá-Lo em cada gesto e palavra, que permite participar do Seu silêncio e tê-Lo por companhia deliciosa.

Sim.. Devemos entender a oração não como um mero compromisso enfadonho ao qual devemos nos submeter de modo heróico, passando por cima da nossa própria vontade que, sinceramente, não quer nada daquilo, preocupada que está com futilidades. Não. Devemos, antes, ter uma concepção diferente da oração: é uma oportunidade, uma feliz ocasião de estarmos, de novo, com Ele. Sta Teresa D'Avila já dizia: "A oração não consiste em dizer muito, mas em amar muito". E é preciso redescobrir este tesouro, este sumo bem que é o trato íntimo com Nosso Senhor. E é preciso descobri-lo de um modo muito pessoal.

Guerra e ternura cultivemos, como um verdadeiro cavaleiro cruzado. Que Nosso Senhor nos ensine. Ámen.

O Sofrimento - Thomas Merton


"Que é, afinal, mais pessoal do que o sofrimento? A espantosa futilidade dos nossos esforços para comunicar a outrem a realidade dos nossos sofrimentos, e a trágica insuficiência da simpatia humana, tudo prova como é realmente incomunicável o sofrimento"

"O sofrimento, portanto, deve ser entendido para nós, não como uma vaga necessidade universal, mas como coisa exigida pelo nosso destino pessoal. Quando eu vejo as minhas provações não como a colisão da minha vida com uma cega máquina chamada fatalidade, mas como o dom sacramental do amor de Cristo, dado a mim por Deus Pai juntamente com a minha identidade e o meu nome verdadeiro, então eu posso consagrá-las e a mim mesmo com elas, ao Senhor. Pois aí compreendo que o meu sofrimento não é meu. Ele é a Paixão de Cristo, a estender até à minha vida os seus rebentos, a fim de produzir abundantes cachos, embriagando a minha alma com o vinho do amor de Cristo, e derramando esse vinho, ardente como o fogo, sobre o mundo inteiro"

Thomas Merton, Homem Algum é Uma Ilha.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Dificuldades da vida cristã - O que fazer diante dos ataques dos outros e diante da constatação da nossa própria fraqueza?


Escrevo este texto em resposta à pergunta que uma cara amiga me fez recentemente e que basicamente se resumia a duas partes: 1- por que, se nos decidimos por Cristo de fato, tantas são as pessoas que ficam contra nós, nos fazendo contínua oposição, e somos expostos à perda de "tudo"? 2- Isto significa que, para ser um bom cristão, é preciso ser masoquista, ser de ferro ou ser divino?

***

Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir.
Por tua causa e por teu nome estão todos contra mim (Jer 20,7)

Para que vivemos? Vivemos para nos santificarmos, dirá Sto Afonso. Este é o grande motivo pelo qual Deus nos mantém nesta vida, o que significa que tudo o mais, comparado a isto, é bastante secundário.

A santidade acontece quando há união de vontades, isto é, quando a vontade de Deus se torna a minha, de modo que eu queira o que Deus quer e deteste o que Deus detesta. No entanto, é preciso entender que há uma desordem em nós, fruto do pecado. Este é um fator importantíssimo para entendermos as dificuldades práticas que enfrentamos no decorrer da vida e na luta por sermos pessoas boas.

Esta desordem na alma nos inclina sempre ao egoísmo, explícito ou disfarçado. Isto se torna como que uma tendência natural nossa. Acontece que o egoísmo é o que há de mais oposto à santidade. Logo, se somos egoístas, estamos frustrando a única razão pela qual vivemos. E, no entanto, é um fato que somos fortemente inclinados ao egoísmo. Como resolver este problema?

Negando-nos a nós mesmos. "Quem quiser me seguir - se quiser - negue-se a si mesmo"; "Quem não faz pouco caso da própria vida, não é digno de mim". São expressões e mandamentos difíceis, mas profundamente curativos e necessários a uma alma que pretenda adquirir saúde. A "vida em plenitude" que Jesus promete não se alcança de qualquer modo. O nosso egoísmo sufoca a nossa alma e não lhe permite fruir da autêntica alegria. Portanto, é preciso dilatá-la - à alma -, arrancando as raízes do egoísmo nela. De início, isto não é confortável; é dolorido, é enfadonho e cansativo, do mesmo modo que é dolorido, enfadonho e cansativo que um doente tenha de fazer exercícios físicos. E, no entanto, é necessário. Submeter-se a esta violência contra si mesmo é o caminho do despertar. "O reino dos céus pertence aos violentos". 

Há que se ter, portanto, um desprendimento de si mesmo, e entender bem todo este contexto: o centro de tudo deve ser Deus, e todo o resto - as amizades, os compromissos, as brincadeiras, os lazeres - deve estar em harmonia com Deus. A aquisição, porém, de uma vontade aguerrida, de um olhar claro sobre o que se deva fazer e de uma compreensão profunda da própria alma, é algo um tanto difícil - na verdade impossível - de se alcançar sozinho. É por isso que precisamos de auxílio. Deus muitas vezes nos ajuda, seja incidindo diretamente sobre nós os seus dons, seja nos tocando indiretamente, através de outras pessoas. Neste último caso, haverá quem nos console e dê forças; mas haverá, também, quem nos importune e incomode, ajudando-nos, dependendo do modo como lidamos com isto, a acelerar o processo de extirpação do nosso egoísmo.

Já dizia um santo: "existimos para amar e tudo quanto existe, existe para tornar o amor possível". S. João da Cruz diz a mesma coisa: "estás aqui para te santificares. Considera que todos estes que te importunam são ajudadores que Deus enviou para que te libertes de ti mesmo".

Além disto, há os que efetivamente nos querem derrubar e estranham quando o nosso discurso alcança o grau de uma firmeza irredutível; sentem-se sutilmente atacados, denunciados na sua tibieza e isto às vezes se transveste, neles, de sobriedade, de realismo e tolerância. Chamam-nos logo de arrogantes e duvidam das nossas intenções. Muitas vezes são sujeitos pretensiosos, afetados de falsa humildade, que entendem ser a virtude um certo tipo de moleza e bom mocismo - uma coisa cosmética que a ninguém deve incomodar - e que fazem as vezes do próprio demônio. Mas, ainda que nos queiram e possam, objetivamente, prejudicar, se estivermos com as devidas disposições de alma, serão, antes, preciosas ajudas.

S. Francisco de Assis, quando atacado por demônios, gritava-lhes o seguinte: "isso mesmo! Meu maior inimigo sou eu mesmo. Se vocês surram este meu inimigo, só estão me fazendo um grande bem."

S. João da Cruz, por sua vez, após passar extremos sofrimentos, aos quais se referia pelo termo "noite", poetizou:

"Oh noite mais amável que a alvorada; oh noite que juntaste Amado com amada, amada já no Amado transformada".

E aí, eu retomo a pergunta: é preciso, então, ser de ferro, masoquista ou ser divino demais?

É preciso, primeiramente, entender que tudo isso é muito real:
a) o nosso orgulho, que precisa ser extirpado da alma e cuja remoção só se consegue com luta;
b) a necessidade de alcançarmos um conhecimento agudo da nossa própria fraqueza, o que nos motivará a pedir com sinceridade o auxílio divino.

Entender ainda que, se a nossa natureza reclama e o nosso ânimo se abate, talvez isto se deva também por estarmos viciados nalguma suposição equivocada, ou presos por caprichos pessoais. A soberba tenta fazer com que o mundo se adéque aos nossos gostos subjetivos. Se, porém, isto não se dá - e não pode se dar - a alma se abate. Daí o grande e salutar segredo do abandono em Deus; da espiritualidade da Pequena Via; do amor aos desígnios de Cristo, sejam eles quais forem. Este tipo de amor, que se entrega, torna-se amor adorante, oblativo, pois nele há uma atitude de sacrifício, de auto-desapego, e de Fé real na bondade divina.

Deus sabe da nossa dor e está disposto a nos ajudar se a Ele nos achegarmos. Para suprir essa nossa necessidade, fez-Se acessível, seja pelos sacramentos, seja pela oração individual. Mas é preciso entender que o Seu amor por nós não pode privá-Lo de trabalhar em nosso favor e isto, muitas vezes, implicará em espremer a ferida purulenta da alma, ainda que doa, para que dela se desprenda a sujeira que a infecta.

Além de tudo isto, Deus às vezes quer ver a nossa fidelidade. Amá-Lo quando todos nos aplaudem seria fácil. Porém, o verdadeiro amor trará sempre a marca da Cruz, pois é este um sinal muito amado por Jesus e com o qual ele marca tudo quanto seja verdadeiramente Seu. Mas é a Cruz a nossa esperança. É como diz a Igreja: Ave Crux Spes Unica.

E quanto aos que se nos opõem? O que fazer a respeito?

Primeiramente, não deixar de rezar por eles e pedir a Deus a graça de amá-los. Depois, não pensar que amá-los significa dar-lhes crédito ou levá-los a sério; às vezes, o correto será dizer-lhes umas boas verdades, ou ignorá-los ou até dar-lhes uma banana. Frequentemente, esses sujeitos são só pessoas infladas de falsa virtude. Penso que o que se deve fazer é não se incomodar com eles, nem ficar a considerá-los interiormente. Se for possível ajudá-los, ajudemo-los. Se não, recomendemo-los a Deus. Mas, no geral, eles podem contribuir para que nos desapeguemos ainda mais de nós mesmos, e isto é o segredo da liberdade.

Já dizia S. Francisco de Assis que a verdadeira alegria existe quando, ainda que apanhando e recebendo ofensas pessoais, sequer movemos interiormente qualquer pensamento raivoso em relação ao sujeito que nos insultou. Isto, claro, é uma realidade muita alta; mas a verdadeira alegria não é, mesmo, qualquer coisa. Não à toa, Jesus fala que devemos nascer de novo. Isto significa, contudo, que devemos trabalhar para que o que antes nos incomodava - porque feria o nosso egoísmo - chegue, então, a não causar sequer qualquer repercussão interior. É o que os espirituais chamam de "santa indiferença", e os orientais chamavam de "apathia". E essa graça só se consegue com muita disciplina e a ajuda de Deus.

Respondendo, então, diretamente às perguntas:

É preciso ser masoquista? Não. Nem devemos sê-lo.

É preciso ser de ferro? Não; e é preciso saber que não somos. Muitas vezes, Jesus permite que caiamos repetidas vezes para que possamos desenvolver a certeza da nossa própria fraqueza, sem a qual Ele mal encontra espaço para fazer qualquer coisa em nós.

É preciso ser divino? Sim, e este é o ponto! Todo o cristianismo é a imitação de um Deus humanado. Se imitamos a um Deus, precisamos agir de modo divino. Porém, isto não depende somente das nossas forças. É algo que Deus realiza em nós, se nos abandonamos. E para alcançarmos esta realidade, cumpre começarmos e, paulatinamente, irmos destruindo esse falso eu ao qual nos habituamos e nos apegamos, mas que não conhece nada do que seja a vida verdadeira. É preciso que nos submetamos, gradativamente, a uma espécie de morte para que, mais e mais, seja o Cristo a viver em nós. E, contudo, isto é uma aventura saborosa; deliciosa; de uma arrebatadora felicidade.

O cristão deve ter uma visão sobrenatural da vida, do mundo, das amizades, de tudo. Deve ter cuidado para não naturalizar as coisas; essa imanência moderna é a causa de todo mal no mundo e o motivo de haverem tantos "cegos guiando cegos", pois faz parte da cegueira espiritual que o cego não se saiba cego e que reduza toda a realidade ao estreito corredor do seu pequeno mundinho.

O cristão deve ter ainda uma disposição aguerrida, dada à luta, entendendo que o que se está buscando não visa, primeiramente, ao conforto da sensibilidade nem à satisfação dos caprichos do ego. Muito pelo contrário, é deste ego que temos de nos livrar. Devemos compreender que o que estamos a seguir e a defender é algo que ultrapassa infinitamente e abismalmente o pequeno pontinho inútil que são os nossos desejos egoístas. É  só quando entendemos esta verdade - quando a entendemos de verdade - que podemos alcançar a liberdade necessária para abrir mão dos nossos caprichos - bem como dos nossos medos -, e elevar os nossos olhos à imensidão infinita do céu; é a livre, suave e deleitosa contemplação desinteressada da Beleza.

Para chegarmos aí, sofreremos. Teremos a cruz como uma companheira diária. Choraremos, também. Seremos incompreendidos. Amigos queridos e familiares nos acusarão de tudo quanto seja. Mas isso Jesus mesmo já dizia: "Por minha causa, em uma mesma casa ficarão três contra dois e dois contra três". No entanto, é pela nossa fidelidade - conquistada com sangue, suor e lágrimas, mas também uma alegria descomunal que, vez ou outra, Ele nos permite vislumbrar - que podemos ter a legítima esperança de que o amor destilado pelo nosso coração alcance estes mesmos que, hoje, nos lançam pedras.

O que digo, enfim, é: coragem! Se poucos levam a sério o cristianismo, seja destes poucos. Também a Elias, o único que estava cuidadoso das coisas de Deus e que se dizia "devorado de amor pelo Senhor dos Exércitos", tentaram ferir. É assim mesmo. 

Já dizia S. João da Cruz:

"Sofrer pelo Amado é melhor do que fazer milagres"

Já dizia Sta Teresa D'Avila:

"As prisões, as ignomínias e afrontas por meu Cristo e por minha religião, são regalos e mercês para mim... cruz busquemos, cruz desejemos, trabalhos abracemos!"

"Não haja, entre nós, covarde! Aventuremos a vida: Não há quem melhor a guarde que o que a deu por já perdida."

"O amor quando já crescido não pode ocioso ficar, nem o forte sem lutar por amor de seu Querido"

Já dizia Sta Teresinha de Lisieux:

"Morrerei no campo de batalhas, de armas na mão".

Já dizia S. Paulo Apóstolo:

"Deus me livre de gloriar-me em outra coisa a não ser na Cruz de Nosso Senhor"

Força, aí! Embora tudo isso pareça meio pesado, a porta estreita tem a propriedade de nos livrar de todo peso inútil. O que nos cansa não é a doutrina de Nosso Senhor, mas a soberba que trazemos conosco. Se dela nos livrarmos, descansamos e tudo fica fácil. Aquele que se dispõe a viver a autêntica vida cristã, esvaziado de toda inutilidade, haverá de fazer a experiência de como o jugo do Senhor é leve e de como é suave o Seu peso.

Abraço.

Fábio.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O apostolado, a morte do grão de trigo, a força da cruz e a altura do cume



"Os apóstolos - 'como que destinados à morte' assim lhes chama Paulo - terão sempre que aprender, como os antigos cavaleiros ao serem armados, que são 'homens que entram em carreira de morte'. É a morte do grão de trigo que se enterra e que só assim dá fruto. Seria um triste apostolado pretender atrair diminuindo a dureza do caminho. Tirai à santidade a cruz e ter-lhe-eis tirado a sua força avassaladora. Ter a coragem de proclamar a dificuldade do caminho é, simplesmente, pôr em evidência a altura do cume que se pretende atingir: alvorada para os homens generosos, incitamento para os humildes, coroa para os que têm esperança."
(Por um cartuxo anônimo)