quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O apostolado, a morte do grão de trigo, a força da cruz e a altura do cume



"Os apóstolos - 'como que destinados à morte' assim lhes chama Paulo - terão sempre que aprender, como os antigos cavaleiros ao serem armados, que são 'homens que entram em carreira de morte'. É a morte do grão de trigo que se enterra e que só assim dá fruto. Seria um triste apostolado pretender atrair diminuindo a dureza do caminho. Tirai à santidade a cruz e ter-lhe-eis tirado a sua força avassaladora. Ter a coragem de proclamar a dificuldade do caminho é, simplesmente, pôr em evidência a altura do cume que se pretende atingir: alvorada para os homens generosos, incitamento para os humildes, coroa para os que têm esperança."
(Por um cartuxo anônimo)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A chegada de Aslam, para imensa alegria de alguns e terror de outros.


- Que aconteceu, Aslam? - perguntou Lúcia, com os olhos a bailar e os pés desejosos de fazer o mesmo.

- Vamos, minhas filhas - disse ele. - Hoje vão andar outra vez nas minhas costas.

- Que bom! - gritou Lúcia.

E as duas meninas subiram para o dorso quente e fulvo, como tinham feito sabe-se lá há quantos anos. Todo o grupo se pôs em movimento. Aslam à frente, seguido de Baco e das mênades - que corriam e saltavam e davam cambalhotas -, depois os animais cabriolando e finalmente Sileno, montado no seu burro.

Cortaram à direita, lançaram-se por uma encosta a pique e foram sair no Passo do Beruna. Da água emergiu uma cabeça coroada de juncos, maior que a de um homem e com a barba a pingar. Olhou para Aslam e disse, numa voz grave:

- Salve, Senhor! Liberte-me dos meus grilhões.

- Quem é? - perguntou Susana num murmúrio.

- Psiu! - disse Lúcia. - Deve ser o deus do rio.

- Baco, liberte-o das cadeias! - ordenou Aslam.

"Deve estar falando da ponte" - pensou Lúcia.

E era, de fato. Baco e sua gente avançaram chapinhando pela água pouco profunda; um instante depois, aconteciam as coisas mais estranhas. Troncos grossos e fortes enrolavam-se pelos pilares da ponte e, alastrando-se como o fogo, envolviam as pedras, separando-as, fazendo-as estalar. As grades da ponte transformaram-se por um momento em bonitas sebes de espinheiro branco. De repente, toda a construção desabou com estrondo e foi engolida pelas águas. Entre nuvens de salpicos e gritos de riso, parte do alegre grupo atravessou o rio a vau, enquanto outros o atravessaram a nado ou a bailar, saltando para a outra margem. Entraram todos na cidade.

- Viva! É outra vez o Passo do Beruna! - gritaram as meninas.

Ao vê-los, toda a gente da cidade desatou a correr.

A primeira casa que encontraram foi uma escola, uma escola de meninas, onde uma porção de alunas de Nárnia, com o cabelo muito esticado e golas muito apertadas e feias, e usando meias muito grossas, assistia a uma aula de História.

A História que se aprendia em Nárnia durante o reinado de Miraz era mais insípida do que a história mais verdadeira que se possa imaginar e muito menos verdadeira do que o mais apaixonante conto de aventuras.

- Goendolina, se continuar olhando para fora e não prestar atenção, dou-lhe um castigo! - disse a professora.

- Por favor... - disse Goendolina.

- Ouviu ou não ouviu o que eu disse?

- Mas, professora - insistiu  Goendolina - lá fora tem um leão!

- Em vez de um, vou lhe dar dois castigos, para você não dizer bobagens. E agora...

Um rugido cortou-lhe a palavra. E a hera começou a crescer e enroscar-se pelas janelas da sala de aula. As paredes ficaram atapetadas de um verde cintilante e o teto cobriu-se de folhas. De repente, a professora percebeu que estava na floresta, numa clareira relvada. Quis agarrar-se à carteira para apoiar-se e viu que esta se transformava numa roseira. Gente selvagem, como ela nunca imaginara que pudesse existir, comprimia-se ao redor. Ao ver o Leão, começou a gritar e a fugir, e com ela toda a classe, formada na maior parte por meninas rechonchudas e de pernas roliças. Goendolina hesitou.

- Quer ficar conosco, querida? - perguntou Aslam.

- Posso? Mesmo? Muito obrigada.

E imediatamente deu a mão a duas mênades, que a fizeram rodopiar numa dança frenética e a ajudaram a despir parte da roupa desnecessária e incômoda que trazia.

Por todos os lados por onde passavam, a cena se repetia. A maioria das pessoas fugia e umas poucas juntavam-se a eles. Quando saíram da cidade formavam um grupo muito maior e mais animado.

Correram pelos campos planos da margem esquerda do rio. De todas as quinas saíam animais que vinham ter com eles. Burros velhos e tristes, que nunca tinham conhecido uma hora de alegria, rejuvenesciam de um momento para outro; cães que estavam presos quebravam as correntes; os cavalos escoiceavam até deixar as carroças em frangalhos e acompanhavam o bando a galope - clope, clope, clope -, relinchando e sacudindo a lama dos cascos.

Junto de um poço, num pátio, um homem espancava um rapaz. O chicote transformou-se numa flor. O homem tentou soltá-la, mas estava agarrada à sua mão. Seu braço transformou-se num ramo, o corpo num tronco, os pés criaram raízes. O rapaz, que há pouco chorava, desatou a rir e foi com eles.

Numa cidadezinha, a meio caminho do Dique dos Castores, encontraram outra escola, onde uma mocinha com ar de cansado ensinava Aritmética a uns meninos muito parecidos com porquinhos. A mocinha olhou pela janela e viu o grupo brincalhão. Tremeu de alegria. Aslam parou debaixo da janela e olhou para ela.

- Oh, não! Queria muito, mas não posso. Tenho de trabalhar. As crianças morreriam de suste se vissem você.

- Morrer de susto? - disse um menino que, mais do que qualquer outro, parecia um leitão. - Com quem está falando? Temos de dizer ao diretor que ela fica conversando com as pessoas à janela quando a obrigação dela é dar aula.

- Só quero ver quem é! - disse outro menino, e todos se levantaram.

Mas no momento em que as carinhas bobocas assomaram à janela, Baco soltou o seu auan-euan-eoooi, e os meninos começaram a gritar assustados e atropelaram-se para sair pela porta ou saltar pela janela. Diz-se que esses meninos nunca mais foram vistos, mas que nessa região apareceu uma raça muito apurada de porquinhos que até então nunca havia existido.

- Venha, minha cara - disse Aslam à senhorita. E ela foi.

No Dique dos Castores voltaram a atravessar o rio e chegaram a uma casinha onde uma menina chorava.

- Por que chora, meu bem? - perguntou Aslam.

A criança, que nunca vira um leão, nem mesmo desenhado, não se assustou.

- Minha tia está muito doente e vai morrer.

Aslam quis entrar pela porta, mas era pequena demais para ele. Enfiou a cabeça, fez força com os ombros (nessa altura, Lúcia e Susana escorregaram e caíram) e, levantando toda a casa, colocou-a abaixo.

Na cama, agora ao ar livre, via-se deitada uma velhinha franzina, que parecia ter sangue de anão. Estava às portas da morte, mas, quando abriu os olhos e viu a juba brilhante do Leão, não gritou nem desfaleceu. Exclamou apenas:

- Oh, Aslam! Sabia que era verdade. Esperei a vida toda por este momento. Veio para me levar?

- Sim, minha querida - disse Aslam. - Mas ainda não para a viagem final.

E, enquanto falava, como o rubor que se insinua nas nuvens ao nascer do sol, a cor voltou-lhe ao rosto pálido, os olhos readquiriram brilho e, sentando-se, ela disse:

- Estou muto melhor. Acho que seria capaz de comer alguma coisa.

- Aqui, titia - disse Baco, enchendo uma bilha no poço.

Mas a bilha, em vez de água, continha o mais perfumado dos vinhos, vermelho como geléia de groselha, suave como o azeite, forte como um bom bife, reconfortante como o chá, geladinho como o orvalho.

- Oh! - exclamou a velha. - O poço mudou, sem dúvida. Está muito melhor assim! - E saltou da cama.

- Suba às minhas costas - disse Aslam, e, para as duas meninas: - Vocês terão de ir a pé.

- Adoramos correr. - E partiram imediatamente.

- Foi assim que, entre saltos, danças, cantos e ruídos de animais, o bando chegou finalmente ao lugar onde o exército de Miraz se alinhava, de espadas no chão e mãos para o ar, e onde os homens de Pedro, com uma expressão severa mas alegre, e ainda de armas nas mãos, cercavam, ofegantes, os vencidos. Então, a velha desceu das costas de Aslam e correu para Caspian... e caíram nos braços um do outro. Porque era, nem mais nem menos, a velha ama do príncipe.

Ao ver Aslam, os soldados telmarinos ficaram lívidos, seus joelhos começaram a bater, e muitos caíram de cara no chão. Nunca tinham acreditado em leões, e a descrença aumentava ainda mais seu terror. Os próprios anões vermelho,s que sabiam que vinha como amigo, ficaram boquiabertos e mudos. Alguns dos anões negros, que tinham tomado o partido de Nikabrik, correram a esconder-se. Os animais falantes, porém, reuniram-se todos à volta do Leão. Alegres, rosnavam, guinchavam, relinchavam, ora acariciando o Leão, roçando-se nele, farejando-o delicadamente, ora andando de um lado para outro, por entre suas pernas. Se alguma vez você já viu um gatinho fazendo festas a um cachorro grande, no qual confia, poderá imaginar o que foi aquilo tudo.

C.S. Lewis, Crônicas de Nárnia, Príncipe Caspian, Cap 14-15.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O problema das suposições


Aristóteles afirmou, no início da sua Metafísica, que todo homem deseja naturalmente conhecer. Isto significa que temos uma tensão interior, pela nossa própria constituição de seres humanos, de conhecer as coisas. Ora, conhecer algo é saber a verdade sobre este algo.

Pois bem. E como é que conhecemos? Os primeiros filósofos tinham uma concepção muito interessante da Filosofia como sendo o ato do espanto, ou da surpresa, ou da admiração. Filosofar significava surpreender-se com o que existe. Se isto é verdade, então nós só conhecemos propriamente algo à medida que nos expomos à presença deste algo, pois sem presença não há espanto. Haverá situações, obviamente, em que este pôr-se diante do objeto que se intenta conhecer não será imediatamente possível. Nestes casos, o procedimento de avanço no conhecimento deverá ser dialético.

Porém, diferente é o caso em que podemos observar o objeto diretamente. Como dizia um filósofo chinês, a distância menor entre dois pontos é a simplicidade. Ora, se se quer conhecer um objeto específico, deve-se olhar tão diretamente para este objeto quanto seja possível. Isto é mais simples se o objeto é inerte.

Porém, há situações em que colocar-se diante do que se deseja saber pode representar, ao menos aparentemente, qualquer desconforto para o observador. Há vezes em que outros fatores estão envolvidos, como os afetos, medos, desejos, etc, que muito facilmente tiram a objetividade da observação.

Se é desejo, a pessoa vai com muita sede ao pote e, antes de ir, já fez todo tipo de antecipações. Neste sentido, Freud dizia que o que se deseja encontrar influencia no que se encontra. Embora o próprio Freud tenha pecado neste ponto, nem por isto sua assertiva é isenta de valor.

Se é, ao invés, medo, o mais fácil, mais cômodo, é que a pessoa hesite em encontrar-se com o tal objeto, em olhá-lo friamente. Ao invés, ela terá a tentação de ficar longe e de lá, do seu cantinho seguro, fazer todo tipo de suposições a respeito do objeto supostamente temível. É óbvio que este não é um modo correto de vir a conhecer a verdade sobre alguma coisa. Prestemos atenção nisto: conhecer a verdade de algo implica, sempre, em receber alguma informação que não se tinha, isto é, apreender algo de fora e que era próprio do tal objeto - daí a surpresa! Ninguém se surpreende com o que já sabia. A pessoa que fica só na suposição, ao contrário, não conhece nada, não tem contato real com a coisa; só inventa. As suas conclusões sobre o objeto não vêm do próprio objeto, mas dela mesma. Como a sua atitude inicial é de medo, é natural que as suas suposições reflitam este medo e terminem por reforçá-lo. O medo, por sua vez, se converte em lente de percepção da realidade e faz com que ela interprete o comportamento do tal objeto - que obviamente poderia ter infinitas conotações - segundo os ditados do seu próprio receio. Definitivamente, este não é o modo de conhecer a verdade sobre nada.

Daqui podemos concluir que o conhecimento supõe sempre a coragem da observação. Se o objeto que se quer conhecer pode ser olhado diretamente, é assim que ele deve ser abordado.

Se, portanto, conhecer exige coragem e, ao mesmo tempo, faz parte da natureza humana, temos que esta - a natureza humana - se realiza numa atitude corajosa, e não de medo. O medo tem muito pouca serventia... Sinceramente, embora tenha ele seus defensores, penso que possa ser dispensado de todo.

Enfim, notemos esta relação: conhecimento - verdade - coragem.
E o seu oposto: suposição - distorção - medo.

Muita coisa ainda poderia ser dita a partir desses pressupostos. Mas espero que isso aí já seja suficiente.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Conhecer as próprias faltas



O publicano não ousava levantar os olhos aos céus. Por que ele não olhava o céu? Porque ele se olhava a si mesmo. E eis que, examinando-se a si mesmo, começou a ter desgosto e é assim que ele agradou a Deus.
Tu, ao contrário, tu te elevas, tu elevas a cabeça. Ora, o Senhor diz ao orgulhoso: Tu não queres olhar tua miséria? Pois bem, eu a olharei! Tu queres que eu desvie meus olhos dela? Então, não desvie os teus.
O publicano não ousa levantar os olhos aos céus: ele se examina, ele se condena. Ele faz de si mesmo seu próprio juiz, e Deus defende sua causa. Ele se pune, e Deus lhe faz misericórdia. Ele se acusa, e Deus o defende. Deus o defende tão bem que seu juízo foi: O publicano desceu para sua casa justificado, e o outro não; pois quem quer que se exalte será humilhado e quem quer que se humilhe será exaltado. Ele examinou sua consciência, diz o Senhor, e Eu, Eu não quis examiná-la. Eu o ouvi clamar em minha direção: Desviai os olhos de meus pecados! (Salmo L, 11). Mas quem pode pronunciar tais palavras, a não ser aquele que diz também: Minha falta, eu a conheço (Salmo L, 5)?
Sto Agostinho.
Fonte: Montfort

You are my God - Tony Melendez

domingo, 1 de janeiro de 2012

"Há mais saliva que sangue..."


"Cuidemos de que as obras não sejam apenas folhagem seca, sem seiva, sem o humilde afundamento das raízes na terra, que é penhor realista de todos os sonhos de maturidade dos frutos. O brado audaz da assembléia pública perde-se no ar viciado se não for acompanhado da oração silenciosa de quem o lança, oração secreta no segredo do seu quarto. A multiplicidade dos trabalhos apostólicos e das obras de caridade pode vir a ser um ornamento vão, mesmo uma ilusão, sem a corrente oculta de vida que só em Deus se encontra (...) a falta de eco da voz dos cristãos e os seus fracassos, devem-se ao fato de bradarem para fora em vez de clamarem para dentro (...) como disse Thibon: No mundo atual, há mais saliva que sangue."
  
(Por um cartuxo anônimo)

The silly's poetry



E chega o dia em que tu olhas ao redor
E já não há quem note o rasgo no teu peito
Todos sabem bem de cor os teus defeitos
E o teu valor, qualquer que houvesse, evaporou

Um abismo te rodeia, vala imensa
Dá a certeza firme de que estás sozinho
Insuspeitada a aridez deste caminho
Irrespirável é o que sobrou da tua ofensa

E andas nú, a caminhar com o peito aberto
E tens vergonha de olhar o céu tão alto
E para baixo vão teus olhos, derrubados
Nesta dura frustração do desacerto

Só querias agir bem, fazer o certo
Mas lembraste de ti mesmo; foi teu fim
E agora tu não passas de um ruim
E pra ti mesmo, vais a um passo do inferno

Teu alento, se é que o há, é o mistério
Misericórdia que se alheia a todo cálculo
Na total desproporção com o mensurável
Permanece a inconcussa luz do Eterno.