Textos meus sobre a amizade:
sábado, 20 de julho de 2013
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Para seguir a Cristo, é preciso deixar os mimos e ilusões
Quando uma criança começa a praticar artes-marciais, o mais comum é que ela esteja influenciada por filmes ou por contos gloriosos de conhecidos seus. Tudo aquilo influi no imaginário dela de forma poderosa. E ela o quer.. Nos filmes, em uma ou duas semanas, o sujeito desajeitado consegue ganhar o campeonato. Nas histórias ouvidas, depois de apanhar um pouco, o protagonista, animado por não sei qual espírito bruceleeniesco, vai pra cima e conquista a vitória. Na vida real, porém, o primeiro dia de treino, não obstante o ânimo quase sobrenatural que inspira o neófito desde dentro, o que ele terá são hematomas, cansaço, sede. E no outro dia, misteriosamente, ele continua o mesmo verminoso fraco de sempre, com a diferença de que o seu ânimo, por algum motivo, arrefeceu.
No cristianismo é assim também. Lemos a vida dos santos e dos grandes defensores da fé. Os relatos dos grandes místicos quase nos extasiam na cadeira. A coragem dos cristeros e cruzados em dar a própria vida nos arrebata ao ponto de quase metermos a cabeça na parede e proclamarmos, em seguida e de algum modo, o nosso martírio. Porém, quando começamos a fazer os sacrifícios cotidianos e o lento processo de morte de nós mesmos e, olhando de lado, não vemos nenhum expectador que possa tomar nota dos nossos atos, ou nenhum fundo musical que possa acrescentar uma carga emocional aos nossos feitos, e notamos, então, que não se passou sequer meia hora e que uma vida inteira nos espera à frente, então vemos como a vida real - graças a Deus - faz questão de mostrar que o mundo e a vida não são como nós supomos. E se tivermos a loucura de questionar a Deus sobre isso, Ele nos dirá algo do tipo: "deixe de tolices".
O cristianismo é um caminho de pessoas reais que vão sofrer de verdade, vão sangrar de verdade, vão gritar vez ou outra: "que se dane isso tudo!", vão chorar sem ninguém ver e vão ter o ego atingido por metralhadoras. É assim mesmo. Essa é a condição. É preciso vencer a ilusão para chegar a ser um campeão de Kung Fu. É preciso vencer a fantasia para chegar à santidade. É preciso abandonar os mimos teletubianos e as mentiras a nosso respeito se queremos chegar a ser seguidores do Cristo. Cristo é a Verdade. O fantástico mundo de Bob tem de ser abandonado. O melhor bem que Deus pode nos fazer é quebrar o nosso mundinho e nos mostrar as coisas como realmente são.
terça-feira, 9 de julho de 2013
domingo, 7 de julho de 2013
A Graça e a aceitação feliz da nossa dependência total de Deus
As expressões de desmerecimento que a prática cristã põe na boca do fiel soam, para o mundo exterior, como as adulações degradantes e insinceras do bajulador diante do tirano, ou, na melhor das hipóteses, como um modo de falar, à maneira da autodepreciação do cavalheiro chinês ao se referir a si mesmo como "esta pessoa rude e iletrada". Na verdade, porém, elas expressam uma tentativa permanentemente renovada - porque permanentemente necessária - de refutar um equívoco sobre nós mesmos e sobre nossa relação com Deus que a natureza está nos sugerindo, mesmo quando rezamos. Tão logo acreditamos que Deus nos ama, imediatamente vem o impulso de acreditar que ele o faz não porque ele é Amor, mas porque nós somos intrinsecamente amáveis. Os pagãos obedeciam a esse impulso imperturbavelmente: o bom homem era "querido pelos deuses" por ser bom. Nós, tendo sido mais bem informados que eles, recorremos a subterfúgios. Longe de nós pensar que temos virtudes pelas quais Deus nos amaria. Mas veja só que magnífico o nosso arrependimento! Como diz Bunyan, descrevendo sua primeira e ilusório conversão: "Eu pensava que não havia ninguém na Inglaterra que agradasse mais a Deus do que eu". Quando nos dissuadimos dessa idéia, oferecemos a Deus nossa humildade para que ele admire. Disso ele vai gostar, não? Ou então oferecemos nossa nítida e humilde admissão de que ainda nos falta humildade. Assim, camada após camada e sutileza após sutileza, permanece em nós a obstinada idéia de que temos algum atrativo nosso, e só nosso. É facil admitir, mas quase impossível perceber por muito tempo, que somos espelhos cujo brilho - se é que o temos - deriva inteiramente do Sol que resplandece sobre nós. Mas certamente temos alguma luminosidade natural, por menor que seja, não? Não somos apenas criaturas, certo?
A graça substitui esse intrincado absurdo de uma necessidade, ou mesmo de um Amor-Necessidade, que jamais reconhece inteiramente a própria indigência por uma aceitação plena e infantil de nossa Necessidade - pela alegria da dependência total. Nós nos tornamos "mendigos felizes". O bom homem se entristece pelos pecados que lhe intensificaram a necessidade. Mas não se entristece de todo pela nova necessidade que produziram. E não se entristece nem um pouco pela necessidade intrínseca a sua condição de criatura. Afinal, essa ilusão a que a natureza se apega como último recurso, essa pretensão de que temos algo realmente nosso ou de que seríamos capazes de conservar, por uma hora, com nossas próprias forças, alguma bondade que Deus eventualmente tenha nos outorgado nos impede o tempo todo de ser felizes. Somos como um banhista tentando manter os pés - ou um dos pés, ou um dedo - no fundo do mar, porque perder o pé seria render-se a um glorioso abandono às ondas. As consequências de romper com nossa última pretensão de liberdade, poder ou valor intrínsecos são a liberdade, o poder e o valor verdadeiros, realmente nossos, simplesmente porque Deus os dá e por sabermos que (em outro sentido) não são "nossos". Anodos se livra de sua sombra.
C.S. Lewis, Os Quatro Amores. São paulo: WMF Martins Fontes, 2009. p.181-182.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
quarta-feira, 19 de junho de 2013
I dreamed a dream - Les Miserables
Estive há bastante tempo esperando pra assistir esse musical, e o fiz no último dia 16. Espetacular. Deixo a recomendação e ponho abaixo esta música, interpretada de modo estupendo, e que acompanha uma das cenas mais emocionantes do filme.
sábado, 15 de junho de 2013
A espera e a posse
Na nossa vida, existe uma assimetria no tempo que se dá pela existência de momentos ou períodos qualitativamente mais significativos que outros. Assim são, por exemplo, o dia do aniversário, o dia do casamento, o tempo das férias ou a visita de um querido amigo ou parente. O momento exato representa o pico; é o auge, o êxtase. E de tão tão importante, ele acaba possuindo a faculdade de transbordar para os momentos exatamente anteriores e, de modo menos intenso, aos posteriores. Este transbordamento para trás se estende até um certo ponto e toda a área que fica assim mudada é o que se chama de espera.
A espera, embora derive do que poderíamos chamar de "presença", sendo um tipo de presença antecipada - de modo que esperar é, já, um modo de possuir o que virá - possui, não obstante, um certo brilho especial e que lhe é peculiar. A diferença entre a espera e a posse não é apenas de grau. Há uma ansiedade na primeira que não há na segunda. Elas são, portanto, diferentes, embora, como dissemos, a primeira derive da segunda.
Ponhamos, então, a nossa atenção na espera. Este seu ponto mais característico é tão interessante que comumente se diz que o que buscamos, não o buscamos pela posse, mas somente pela própria busca. Diz-se que, para alguns, o processo de conquista de um amor é mais prazeroso do que o alcance dele. Existem os aventureiros que precisam sempre estar à espera de algo. A espera, então, tem a sua importância particular. Às vezes, ela parece mais significativa do que a posse, pois ela foi o processo em que se construiu toda uma expectativa que, infelizmente, superou a realidade do objeto esperado. Além disso, às vezes a vinda do que se espera passa tão rápido que o tempo de espera lhe parece, depois, ter tido mais substância. Quando o momento aguardado vem e vai, começa um outro processo de dissolução. Se a montanha da expectativa foi crescendo gradativamente, uma vez passado o momento esperado, não apenas começa-se a descer, mas a descida é muito mais rápida e o sentimento é totalmente diverso. Antes, a expectativa, embora diferente, era de algum modo similar à posse. Agora, porém, inicia-se um processo de "resfriamento" que difere da natureza do calor daquilo que foi, antes, vivido. A dissolução é de natureza diversa da da posse.
É muito interessante notar que, quando tratamos do Cristianismo, não há esse terceiro momento aí, o da dissolução. Enquanto aqui estamos, há sempre a espera que se intensifica à medida que avançamos. Há um encontro pelo qual esperamos. É um tempo significativo e suficiente para criarmos uma grande expectativa do objeto esperado. Porém, por maior que seja tal expectativa, ela fica sempre muito aquém daquilo que é esperado. Depois da espera virá a presença. E aqui está algo belíssimo: ela não passa. Ela vem e se perpetua. Ela não cansa. Ela preserva a fome da espera, mas sem o sofrimento, e nos dá a posse do alimento, mas sem o enfado. E nunca virá a dissolução. Lá haverá o feliz e vibrante repouso. Esperemos, pois!
Vale a pena!
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