quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Sobre a vida perfeita - S. Gregório de Nissa



Na postagem anterior, tratei da visão de S. Gregório sobre a perfeição evangélica. Disponibilizo aqui o texto em que ele escreve sobre este tema.

Pediste-me, meu querido, que te trace um esboço de qual é a vida perfeita, com a intenção evidente de aplicar a tua própria vida – se o que procuras se encontra em minha resposta – a graça indicada por minhas palavras. Sinto-me igualmente incapaz destas coisas: confesso que se encontra acima de minhas forças tanto o definir com palavras em que consiste a perfeição, como o mostrar em minha vida o que o espirito entende dela. Talvez não só eu, mas também muitos dos grandes e avançados na virtude confessarão que uma coisa assim também não é alcançável para eles. Explicarei com a maior clareza o que estou tentando dizer, para não parecer, dizendo-o com as palavras do Salmo, que tenho temor onde não deve haver temor (Sal 13, 5).

Em todas as coisas pertencentes à ordem sensível, a perfeição está circunscrita por alguns limites, como sucede com a quantidade contínua ou descontínua. Com efeito, tudo aquilo que se pode medir quantitativamente se encontra em limites bem definidos, e alguém que considere um pedaço ou o número dez sabe bem que, para essas coisas, a perfeição consiste em ter um começo e um fim. Por outro lado, com relação à virtude, aprendemos com o Apóstolo que o único limite de perfeição consiste em não ter limite.

Aquele divino Apóstolo, grande e elevado de pensamento, correndo sempre pelo caminho da virtude, jamais cessou de se lançar para a frente, pois lhe parecia perigoso deter-se na corrida. Por que? Porque todo o bem, pela própria natureza, carece de limites, e só é limitado pela presença de seu contrário, como a vida é limitada pela morte e a luz pelas trevas; em geral, tudo aquilo que é bem tem seu fim naquilo que é considerado o oposto do bem. Assim como o fim da vida é o começo da morte, assim também o deter-se na corrida pela virtude é o princípio da corrida ao vício.

Por este motivo, não nos enganava nosso raciocínio ao dizer que, no que diz respeito à virtude, é impossível uma definição da perfeição, já que demonstramos que tudo que se encontra demarcado por alguns limites não é virtude. E como eu disse que para aqueles que vão atras da virtude é impossível alcançar a perfeição, esclarecerei meu pensamento com relação a esta questão.

O Bem em sentido primeiro e próprio, aquele cuja essência é a Bondade, esse mesmo é a Divindade. Esta é chamada com propriedade – e é realmente – tudo aquilo que implica sua essência. Como já foi demonstrado que a virtude não tem mais limite alem do vício, e foi demonstrado também que na Divindade não cabe o que é contrário, conclui-se consequentemente que a natureza divina é infinita e ilimitada. Portanto, quem busca a verdadeira virtude não busca outra coisa senão Deus, já que Ele é a virtude perfeita. Com efeito, a participação do Bem por natureza é completamente desejável para quem o conhece, e, alem disso, o Bem é ilimitado; segue-se, pois, necessariamente que o desejo de quem busca participar dele é coextensivo com aquilo que é ilimitado, e não se detém jamais.

Portanto, é impossível alcançar a perfeição, pois, como já dissemos, a perfeição não está circunscrita por nenhum limite; o único limite da virtude é o ilimitado. E como poderá alguém chegar ao limite prefixado, se este limite não existe? Porem o fato de havermos demonstrado que o que buscamos é totalmente inatingível, não justifica que se possa descuidar do preceito do Senhor, que diz: Sede perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste. (...) Deve-se portanto, pôr todo ardor em não estar privado da perfeição possível e, em conseqüência, em alcançar dela tanto quanto sejamos capazes de receber em nosso interior. Talvez a perfeição da natureza humana consista em estar sempre dispostos a conseguir um maior bem.

S. Gregório de Nissa, Vida de Moisés

Algumas questões muito interessantes.

Ontem à noite, após a Santa Missa, fui a uma praça, onde frequentemente levo alguns livros ou apostilas para fazer algumas leituras e/ou anotações. Gosto de ir lá, pois, além de estar de frente a uma capela e poder avistar a imagem da Virgem de Fátima, o ambiente costuma ser bem ventilado, e as crianças geralmente estão a brincar... Num dia destes eu as ouvi conversar sobre astronomia (kkk...), claro que dentro da simplicidade que lhes é própria.

Ontem levei um livro que há tempo não abria. Trata-se dos escritos de um rapaz chamado Bruce Jun Fan Lee (o famoso Bruce Lee) que, embora poucos saibam, era formado em filosofia chinesa. O livro é entitulado "Tao of Jeet Kune Do" e, além de tratar de artes marciais, é permeado de Filosofia. Eu diria, mesmo, que há muito mais filosofia nele do que, propriamente, técnica marcial. Sua orientação é assumidamente zen-budista, pelo que, realmente, algumas coisas não se aproveitam. Fiquei feliz e um tanto surpreso em notar que, na leitura, identificava com facilidade alguns falsos pressupostos e, consequentemente, o caráter irremediável de certas afirmações dele, enquanto que, antigamente (na adolescência), eu costumava lê-lo quase com devoção e tudo me aparecia como que revestido de uma grande autoridade.

No entanto, muito do que ele escreve, realmente, visto sob a ótica do Evangelho, é muito verdadeiro. Claro que eu estou fazendo como que um deslocamento de sua teoria. É como se eu conservasse-lhe certos acidentes, mudando porém a substância ou a base em que se firmam.

Numa de suas assertivas, ele escreve mais ou menos o seguinte: "Seja simples. Não estabeleça objetivos. Quando o homem estabelece um objetivo, ele está se condicionando a um limite, ele se fragmenta".

Considerei isto muito profundo.Claro que, alguém que me queira importunar, pode ler isto e identificar aí alguma heresia... esta constatação, porém, deve-se mais à lente com que se olha. Esvaziemo-nos um pouco, eu peço.

A princípio, isto parece identificar-se com um preceito dos padres do deserto, em que se afirma mais ou menos o que segue: "o santo não estabelece metas; ele não se atém à própria vontade". Cito estas coisas de memória, e, portanto, me atenho mais ao sentido que à exatidão dos termos. O estabelecer um objetivo muito bem definido, de fato, pode significar um estreitamento de potencialidades. Além disto, considerar as coisas segundo a nossa vontade, ou o gosto que delas temos, significa ver a realidade de forma fragmentada, o que impede-nos de observá-la em sua totalidade. Daí S. João da Cruz afirmar que o processo de santificação do homem faz com que ele deixe de amar e de querer segundo o modo que lhe é próprio; ele deve esvaziar-se disto; é o que ele chama de "pássaro sem cor definida".

Também S. Gregório de Nissa, grande místico, escreve a um discípulo sobre o preceito de ser perfeito, dado por Nosso Senhor. Sabemos que, na filosofia, o conceito de perfeição supõe o de limite e acabamento. É perfeito algo que é acabado em si mesmo. Portanto, S. Gregório afirma que "alcançar a perfeição", no sentido evangélico, é quase que uma contradição. Isto não implica nenhuma falsidade ou erro na ordem dada por Nosso Senhor, mas é conveniente que compreendamos bem isto, para não darmos à santidade um limite que ela não tem.

Para S. Gregório, a perfeição, no sentido evangélico, não tem limites, pois é própria de Deus. Mesmo assim, o homem pode e deve aspirá-la, pois foi-lhe dito: "sede perfeito como Deus é perfeito". Quando dizemos que alguém alcançou a perfeição, é como se disséssemos que alguém chegou ao termo do ilimitado, o que é uma contradição em si mesmo. A perfeição, neste sentido, só é limitada pela sua falta ou ausência. Assim, a vida é limitada pela morte, a santidade pelo pecado, a virtude pelo vício. Mas é próprio da perfeição, no sentido evangélico, estar aberta ao infinito. Alcançar a perfeição não se faz nesta vida, embora desde já devamos iniciar o processo de aperfeiçoamento que se consumará na eternidade. Esta consumação, embora nos evoque ainda o sentido de um termo, abre-nos a uma liberdade que não é tolhida, pois a eternidade é a participação na própria vida de Deus.

Enfim, lendo o rapaz Bruce Lee, a quem tanto estimei em outros tempos, de fato, pude retirar certos preconceitos erigidos por mim mesmo, na compreensão de muitas coisas. E isto não foi, senão, como que um dedo apontando para a seriedade e profundidade da teologia negativa ou apofática, que tanto admiro, e que tem esta capacidade única de nos abrir à eterna novidade de Cristo, de nos desprender de nosso pequeno leque de experiências e conceitos, de nos corrigir as pretensões, de mostrar que Deus está sempre além. Quando aprendemos a ser simples, com aquela simplicidade das crianças que Nosso Senhor recomendou, então enxergamos a realidade também sem rodeios, de forma direta, e não segundo um grupo condicionado de respostas que, não obstante possam ser verdadeiras em si, não impedem que as usemos de forma superficial e que nos limitemos às suas imagens. É então, na simplicidade, que conhecemos a liberdade.

E, antes que estranhem, talvez, estas afirmações, advirto que o seu sentido se encontra nas páginas do grande místico S. João da Cruz, doutor da Igreja que, como escreveu o Papa João Paulo II, é claríssimo dardo de luz, erguido até o fim dos tempos, a fim de guardar contra as heresias, e mostrar um caminho seguro.

Fábio Luciano

Obs.. Não simpatizo com o budismo, não gosto do sincretismo feito pelo Thomas Merton na última fase de sua vida...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Rever a Deus



O filósofo francês e católico Léon Bloy testemunha, num de seus escritos, que algo que o emociona profundamente é a idéia de que um dia irá rever a Deus. Oh.. que esperança benfazeja! Se é a sede o que nos faz caminhar neste deserto, a promessa da Água que nos saciará move-nos violentamente e, num misterioso paradoxo, ao mesmo tempo em que dá-nos como que um antegozo daquele dia, também nos aviva a ferida da saudade.

No entanto, nosso bondoso Deus não quis esperar tanto para nos rever. Claro que, naquela futura ocasião, a visão será face a face e a saciedade será completa. Desde já, porém, dá-nos a graça de revê-Lo. "Eis que estou todos os dias convosco; podes rever-me quando quiseres"... "Buscai a Deus enquanto Ele se deixa encontrar"... Nosso Senhor se deixa ver e rever... Ah, se soubéssemos que dom maravilhoso é poder olhá-Lo enquanto reis e profetas ansiaram por esta experiência.

Daqui a pouco estarei indo à Santa Missa, e então, pela graça de Deus, me será dado rever, com os olhos da Fé, o amabilíssimo Jesus. Então, serei como que aceito aos pés da Sua cruz onde, quieto e recolhido, O olharei.

A Santa Missa é, já, o antegozo do Céu; é o Céu na terra... É, de fato, onde podemos rever a Deus, embora ainda pela Fé. Isto, no entanto, não diminui a Presença. Aprendamos a olhá-Lo, a amá-Lo, a estar com Ele.

S. João, no seu Evangelho, nos diz que o Filho repousava no seio do Pai; por esse motivo, o Filho, conhecendo o segredo do Pai, deu-Lhe a conhecer. Também o Apóstolo, na última Ceia, reclinava-se no peito de Jesus; não à toa o seu Evangelho é considerado o mais perfeito. É dessa intimidade com o Esposo que João dá a conhecer o mistério do Amado Senhor. Da mesma forma, além de revê-Lo, na Santa Missa podemos reclinar no Seu peito e, não apenas isso, podemos adentrar no Seu coração e adentrá-Lo no nosso.

Este "rever" a Jesus, estando muito além de uma experiência ótica, é a causa da verdadeira alegria, da verdadeira vida do Cristão. É neste abraço inefável que Cristo nos ressoa ao ouvido: "Que a minha alegria esteja em vós, e que a vossa alegria seja plena".

Fábio Luciano

sábado, 5 de setembro de 2009

Igual a sushi!



“O amigo fala do amigo”. Isso, ou quase isso, escreve S. Josemaria no seu livro “O Caminho”. Diz o santo que, ao se encontrarem, os cristãos enamorados do Senhor quase que só sabem falar de um assunto: Jesus.

Muito embora cheio de misérias, eu posso dizer que faço esta experiência. Arriscando-me a ser enfadonho, trago sempre nos lábios o incômodo, mas sumamente doce nome de Jesus. Há quem me evite, e há quem deseje ser mais politicamente correto. Mas, que bom que não faço esta experiência sozinho. Comigo, há também outros que não se cansam de tratar de tão delicioso tema. E isto não nos é pesado, embora, misteriosamente, desagrade a muitos.

Considero que juntar os amigos para conversar, sem, no entanto, tratar de Jesus e daquilo que se Lhe relaciona, seria como comer sushi, peixe cru... seria algo sem gosto e sem graça. Sei que há quem se agrade destas coisas, mas eu penso que seria mais natural comer peixe cru antes de se ter descoberto o fogo. E, que bom, descobrimos o fogo! “Eu vim trazer fogo à terra, e como desejo que esteja aceso!”.

Pois bem! Depois de conhecer o ardor do fogo divino, como contentar-se a comer peixe cru? Não! Saboreemo-Lo e nos queimemos! Experimentemos que delícia é tratar de tão doce Esposo! Quando Lhe pronunciamos o nome, é como se os lábios se untassem de mel, e, coisa admirável, tal alimento não sacia, antes aumenta a fome até devorar-nos a alma. É chama saborosa!

Desculpem-me os colegas que desejam férias da religião.. desculpem-me os outros que desejam tratar das coisas do espírito somente em momentos definidos do dia, e em ambientes muito específicos... Só sei falar dEle, em qualquer lugar e em toda a hora. Ele é o Sol em torno do qual gravitam todos os meus pensamentos e sentimentos. Mesmo as minhas maiores torpezas, só o são em relação a Ele.

Ah, Senhor, teus amores são mais deliciosos que o vinho! Inebriarei-me de Ti. Sem o fogo do teu amor, já tudo perde o sabor e se torna sem graça. Não te escondas, Senhor, pois és a delícia dos meus dias...

Fábio Luciano

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O senhorio de si mesmo - Tomás de Kempis



Abro aqui espaço para este texto tirado do livro "Imitação de Cristo", que, embora curto, é profundíssimo...

Jesus Cristo - Filho, deves procurar, com diligência, em qualquer lugar que estejas, em qualquer coisa que faças, em qualquer ocupação que te encontres, conservar-te interiormente livre e senhor de ti mesmo, de maneira que todas as coisas sejam dominadas por ti e não tu por elas. Deves ser senhor e guia das tuas ações e não servo ou escravo delas.

Como um verdadeiro israelita, liberto de toda a escravidão, entra na herança e na liberdade dos filhos de Deus, os quais, elevados acima das coisas presentes, contemplam as eternas; olham desdenhosamente as coisas transitórias e com deleite as eternas.

Não se deixam prender pelas coisas temporais; antes, servem-se delas para o fim para que foram criadas por Deus e instituídas pelo supremo Artífice que não fez nenhuma das Suas obras desordenadamente.

Tomás de Kempis, Imitação de Cristo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Silêncio amoroso



É triste ver como o ativismo adentrou mesmo dentro das igrejas, como o pragmatismo toma espaço e como os homens simplesmente fogem do silêncio e da quietude. A solidão virou sinônimo de mal nos tempos hodiernos. Tudo isto representa, de fato, uma grande inversão dos retos valores do espírito.

Por vezes, temos o Santíssimo exposto e basta que haja um microfone ou alguns livros devocionais para que se tenham garantidas duas horas de barulho ininterrupto. Aquilo a que chamam oração, por vezes, não passa de mera fuga, de esquiva. Simplesmente não há verdadeira entrega, porque nos mantemos apegados ao nosso jeito, às nossas opiniões, às nossas preferências. É preciso libertar-se disto!

"Retira as sandália", fica nu! "Não sabemos rezar nem pedir como convém" porque nos fiamos em nós mesmos, na nossa limitada compreensão das coisas. É preciso desnudarmo-nos e, na nossa pobreza, podermos sentar aos pés dEle, silenciosos, enquanto Ele, também silente, nos olha e nos sonda. "A linguagem que Deus mais entende é a do silêncio de amor" escreve o doutor da noite. E este silêncio se faz presente não simplesmente quando nos abrimos à vontade dEle, o que caracteriza a atitude amorosa; mas, também, quando, desejosos de O louvar e adorar, reconhecemos a baixeza dos nossos termos e compreendemos que, se o quiséssemos louvar com nossas palavras, antes teríamos de reduzi-Lo ao nível pobre dos nossos conceitos. Diante do inefável, calamos e o nosso silêncio se torna a mais linda canção de amor. É o que os místicos chamam canção silenciosa ou solidão sonora.

Não se trata aqui de negar a eficácia da oração vocal. Ao contrário, reconheço mesmo a sua necessidade. Mas é preciso aprofundar as coisas. Sempre que louvamos a Deus de forma conceitual, nos utilizamos de termos que a Ele se atribuem apenas de forma analógica. Deus está para além deles. E não apenas nisto, mas também nas supostas experiências espirituais pelas quais pode um cristão passar. Estaria enganado quem, ao sentir um raio solar sobre a pele, supusesse já conhecer o ardor do sol.

É preciso pobreza e amor! Quando somos pobres, percebemos o abismo que é Deus e, diante disto, calamos! Quando amamos, percebemos que isto está além das palavras e, então, calamos. Sobretudo, quem ama quer imitar, como escreveu S. Pedro Julião Eymard. Ao contemplá-Lo no Santíssimo Sacramento, percebemo-Lo quieto e escondido. É então que, amando-O, O imitamos e descobrimos estas verdades veladas, estas pérolas escondidas.. Deus é simples e grande amigo do escondimento, do silêncio e da solidão. No momento em que encontramos algo escondido, nos tornamos, também, neste momento, escondidos. É então que Ele nos leva aos Seus aposentos e nos dá de beber da sua adega.

"Levarei a alma ao deserto e, lá, a desposarei" (Os 2, 16)

Fábio Luciano

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

As lentes da Fé



Anteontem, por um período curto, meus óculos soltaram uma das “pernas”. O parafuso caiu de modo que não dava pra usá-lo. Para o caso de ler e escrever, tornava-se algo um tanto cansativo, embora bem possível.

Fiquei a pensar. A Fé é como uma lente que nos permite ver as coisas como realmente são. Sem ela, tudo se embaça e fica irreconhecível. Por isto, se pode dizer que ela resguarda a verdade e, uma vez que se lhe negue acolhida no coração, forçosamente se rejeita o conhecimento integral desta mesma verdade. Algumas vezes, o objeto desta fé, Deus, já foi comparado ao sol. É difícil focá-lo em si... a luz ofusca-nos e excede o limite suportado pela retina. Mas, embora não o possamos olhar diretamente, é por sua luz que vemos tudo o mais. Na noite, ao contrário, as coisas perdem o contorno e os horizontes tornam-se indefinidos.

A Fé é, pois, como uma lente que, uma vez que se põe, permite acolher a verdade. Esta luz ilumina e dá significado a tudo. E, embora esteja para além de nossa possibilidade empírica, além da constatação dos nossos sentidos, a Fé nos ilumina o conhecimento sobre tudo aquilo que é fundamental ao homem: a sua origem, a causa da sua existência, a causa da existência de tudo o que existe, a explicação da natureza e razão das coisas, o termo para o qual nos dirigimos.

Se temos a Fé, vivamos como quem enxerga. Os que, ao contrário, mantêm-se cegos e deixam-se conduzir por outros cegos, coitados, cairão ambos no mesmo buraco.

Bendito seja Deus que nos deu o dom da Fé pelo qual vemos, ainda que obscuramente. Virá o dia de indizível alegria em que veremos face a face.

Fábio Luciano