quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
sábado, 11 de fevereiro de 2012
A impressão que Aslam deixou em Emeth
- Depois ele soprou sobre mim e fez cessar todo o tremor do meu corpo, firmando-me outra vez sobre os meus pés. Após isso, não disse mais muita coisa, a não ser que voltaríamos a nos encontrar e que eu deveria seguir sempre para a frente e sempre para cima. Então voltou-se como uma tempestuosa rajada de ouro e subitamente desapareceu.
- E desde então, ó reis e damas, ando perambulando à procura dele, e minha felicidade é tão imensa que até me enfraquece como uma ferida. E a maravilha das maravilhas é ter ele me chamado de amado - a mim, que não passo de um cão...
Emeth depois do seu encontro com Aslam
As Crônicas de Nárnia, A Última Batalha, Cap. 15.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Umas coisitas sobre o tão alardeado "Não Julgue"
Esse negócio passou a ser tão falado, tão martelado, que quase se tornou uma nova verdade de fé. Quando alguém não quer ser incomodado nos seus erros, ele simplesmente solta um "não julgue". A expressão, tirada do Evangelho, é frequentemente jogada na cara dos cristãos como um modo de desmascarar-lhes a contradição e a hipocrisia: "como pode um seguidor de Jesus viver julgando outra pessoa?" A coisa fica ainda mais eficaz se, à referida apelação, o sujeito une aquela outra: "quem não tiver pecados, que atire a primeira pedra..." Se esta conexão de trechos é feita, consegue-se comumente gerar um efeito romântico e de afetação tal que, em muitos casos, isto será suficiente para que as coisas voltem à mais pura paz - uma paz meio desajeitada -, sendo que a situação final se inverte: agora, o que pretendia ajudar é quem sai como criminoso.
Mas, meditemos um pouco sobre essa questão do julgamento.
Primeiramente, saibamos que julgar é fazer um juízo, e isto é próprio da inteligência humana. Se eu digo que ser religioso é bom, estou fazendo um julgamento. Se digo que ser ateísta é mau, estou fazendo outro julgamento. Se fôssemos seguir a lógica destes sofredores do "complexo de vitíma", também conhecida como "síndrome do não me toque", ninguém poderia afirmar mais nada. Não poderíamos dizer que nada é bom, nem ruim. Ora, é isto que eles querem fazer crer ser o ensinamento de Jesus?
É óbvio que não. Muito pelo contrário, é bem nosso dever fazer julgamentos sobre o que é certo e o que é errado. Se eu vir uma velhinha sendo espancada na rua, não terei dúvida alguma em julgar aquele ato como um ato ruim. E se o tal espancador me vier com conversinha de "não julgue" ou "quem não tiver pecado...", eu lhe deveria quebrar os dentes.
No mais, se fazer julgamentos fosse errado, coitados dos juízes! Estariam todos condenados!
Contudo, Jesus diz mesmo lá nos Evangelhos: "Não julgueis para não serdes julgados". E agora, José?...
É óbvio que Jesus, sendo Deus, não comete erros; muito menos, cometeria um erro tão primário.
Quando o Cristo proíbe o julgamento, ele está se referido ao julgamento de intenção. E o que é isso? É quando pretendemos dizer a intenção que um sujeito portava enquanto executava uma certa ação.
Se eu disser da ação que é certa ou errada, isto me é permitido e, a depender do caso, será mesmo um dever. Porém, com relação à intenção do sujeito da ação, isto naturalmente me escapa. Verdade que às vezes podem existir indícios mais ou menos fortes que nos fazem supor uma ou outra coisa. Mas convém saber que a certeza absoluta - a menos que a pessoa mesma diga - não é possível de ser constatada. Isto porque a intenção é algo da alma; está no íntimo. Logo, julgar a intenção de uma pessoa é precipitar-se em atribuir-lhe uma maldade intrínseca, quando não o podemos saber.
Um exemplo: um mendigo volta-se para um homem que passeia na rua e pede-lhe um trocado. Este não lho dá. Alguém observa de longe o ocorrido e, a partir do que viu, poderá dizer se a atitude de negar a ajuda foi boa ou má. Ou seja, lhe é permitido, como ser dotado de inteligência e de um senso moral, julgar a ação do outro. Porém, com que intenção aquela pessoa negou a esmola, isto ele não poderá fazer. A intenção nos escapa.
Porém, o mais engraçado está justamente aqui: quando eu digo que outra pessoa está me julgando desse modo, na verdade, eu é que a estou julgando, a menos que ela o revele expressamente. Pois afirmar que outro me julga, quando ele não o demonstrou inequivocamente, é precipitar-me a respeito do seu interior, da sua intenção mesma. Se assim é, os repentistas do "não me julgue" são, eles mesmos, sujeitos da ação que recriminam.
Os cristãos também estão proibidos, pelo próprio Jesus Cristo, de julgarem a intenção. Porém, uma vez que Jesus é a luz que ilumina todo homem e uma vez que nos revelou qual a vontade do Pai, nós podemos saber o que é certo e o que é errado, de modo que não fazer o julgamento objetivo da realidade implica em infidelidade ao dever assumido. Dito de outra forma: os cristãos devem fazer julgamentos sobre a realidade objetiva.
É por isto que um cristão pode ser tolerante com a pessoa que erra, mas absolutamente intolerante com o erro.
Só para terminar: sobre esse papo de "quem não tiver pecado..."
O discurso cristão não tira seu valor da vida dos indivíduos que o pregam - embora estes estejam obrigados sim a levar uma vida coerente -, mas tem seu fundamento no próprio Cristo. Não é porque somos imperfeitos que nos está vedada a defesa e a promoção do ideal da perfeição. E é justamente aí que está a grandeza do cristianismo: ele não se fundamenta em nós. É algo pelo que nós mesmos devemos mudar para alcançar e que não se identifica necessariamente com as nossas inclinações ordinárias.
Enfim... Reflitamos sobre essas coisas e não julguemos os cristãos quando estes dizem, referindo-se a certas situações, que são erros e merecem censura. Se os acusamos logo de hipocrisia, estamos nos precipitando sobre as suas intenções e demonstrando que hipócritas, na verdade, somos nós.
Que Jesus Cristo, o Logos divino, nos conceda compreender.
Ad Iesum Per Mariam
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
A senha do Rei Tirian de Nárnia
Nenhuma das lanças agora erguia-se em saudação; ambas estavam abaixadas e prontas para a ação.
- Qual é a senha? - disse o soldado-chefe.
- Esta é a minha senha - exclamou o rei, sacando a espada. - Dissipem-se as trevas da mentira e brilhe a luz da verdade! Agora, canalha, em guarda, pois sou Tirian de Nárnia.
C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Última Batalha, Cap. 7.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
A Montanha de Aslam
- Aqui estou - disse uma voz profunda atrás deles.
Era o próprio Leão, tão luminoso, real e forte, que tudo o mais começou a parecer pálido, embaçado. Antes que pudesse respirar fundo, Jill se esqueceu do rei morto de Nárnia e se lembrou apenas de como causara a queda de Eustáquio no penhasco, dos sinais esquecidos, das brigas e impertinências acontecidas. Queria dizer "sinto muito" mas não conseguia falar. O Leão, com os olhos, puxou as crianças para perto dele e tocou-lhes os rostos pálidos com a língua. E falou:
- Não pensem mais nisso. Não me zango o tempo todo. Vocês cumpriram a missão que lhes foi confiada.
- Por favor, Aslam - disse Jill -, podemos ir para casa agora?
- Podem. Vim para levá-los.
Aslam abriu a boca e soprou. Dessa vez não tiveram a impressão de voar: em vez disso, era como se estivessem firmes no chão, e o hálito de Aslam soprasse para longe o navio, o rei morto, o castelo, a neve, o céu de inverno. Todas essas coisas flutuavam no ar como anéis de fumaça. Viram, de súbito, que estavam envolvidos por uma brilhante luminosidade de verão, em cima de um gramado, entre árvores grossas, à margem de um riacho límpido. Perceberam que se encontravam de novo na Montanha de Aslam, muito acima e muito além da terra de Nárnia. Estranho é que a marcha fúnebre do rei Caspian prosseguia, sem que se pudesse dizer de onde vinha. Caminhavam à beira do riacho com o Leão à frente: ele estava tão belo e a música era tão angustiante, que Jill não sabia de onde onde subiam as lágrimas.
Aslam parou e as crianças olharam para o riacho. Lá dentro, nos seixos dourados do leito do rio, estava o rei Caspian, morto, com a água deslizando por ele como se fosse um cristal líquido. As longas barbas brancas balouçavam como plantas aquáticas. Todos os três choraram. Até o Leão chorou: enormes lágrimas de leão, e cada lágrima era mais preciosa do que toda a Terra, ainda que esta fosse um imenso diamante. E Jill observou que Eustáquio não parecia um menino chorão, mas um homem ferido de dor adulta. Ali, naquela montanha, as pessoas não pareciam ter uma idade determinada.
- Filho de Adão - disse Aslam -, vá até aquele matagal e traga para mim o espinho que por lá encontrar.
- Eustáqui obedeceu. O espinho tinha três palmos de comprimento e espetava como um punhal.
- Enfie este espinho em minha pata, Filho de Adao - disse Aslam, estendendo uma pata dianteira para Eustáquio.
- Devo mesmo fazer isso? - perguntou o menino.
- Sim - respondeu Aslam.
Eustáquio apertou os dentes e enfiou o espinho na pata do Leão, de onde correu uma grande gota de sangue, mais vermelha do que se possa imaginar. E a gota correu e espalhou-se no riacho sobre o corpo do rei. E este começou a transformar-se: a barba branca ficou cinzenta, depois amarela, depois mais curta e desapareceu; as faces encovadas tomaram cores e formas; as rugas alisaram-se; os olhos abriram-se; olhos e lábios sorriram; de repente, o rei ergueu-se, ficando em pé perto deles. Era um homem muito jovem, talvez um rapaz. (Não se podia dizer com certeza, pois as pessoas não têm uma idade precisa no país de Aslam.) O rei passou os braços em torno do pescoço de Aslam, dando-lhe beijos viris de rei, respondidos com beijos agrestes de leão.
Por fim Caspian voltou-se para os outros, rindo-se com espantada alegria:
- Eustáquio! Eustáquio! Quer dizer que você conseguiu alcançar o fim do mundo! Que aconteceu com a minha espada que você quebrou na Serpente do Mar?
Eustáquio deu uns passos na direção dele, as duas mãos estendidas, recuando logo com uma expressão perturbada.
- Olhe aqui - gaguejou o menino. - Está tudo muito bem, mas... é você mesmo? Quero dizer...
- Não seja tolo - falou Caspian.
- Mas - prosseguiu Eustáquio, olhando para Aslam - ele afinal não... morreu?
- Morreu - respondeu o Leão tranquilamente, quase como se estivesse satisfeito (foi o que Jill achou). - Ele morreu. Isso acontece muito, como você deve saber. Até eu morri. Há muitos poucos que não morreram.
- Ah - disse Caspian -, estou entendendo: você está pensando que eu sou um fantasma ou outro absurdo qualquer. Mas pense melhor: eu seria um fantasma em Nárnia, pois de Nárnia não sou mais. Mas ninguém é fantasma em sua própria terra. No eu mundo eu seria um fantasma. Será? Já que estão aqui, talvez aquele mundo também não seja mais o de vocês.
Uma grande esperança alvoroçou o coração das crianças. Mas Aslam balançou a cabeça felpuda.
- Não, meus queridos. Quando me encontrarem aqui outra vez, então ficarão. Agora, não. Precisam voltar ao mundo de vocês por algum tempo.
C.S. Lewis, As Crônicas de Nárnia, A Cadeira de Prata, Cap. 16.
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