sexta-feira, 14 de agosto de 2015

As preocupações do homem fútil são como teias de aranha


"Apesar de sua aparente consistência, a teia de aranha desfaz-se e desaparece ao mais leve toque da mão. Assim, a vida do homem implicado nas preocupações fúteis - como se se tratasse de fios suspensos no ar - tece inutilmente sua teia inconsistente; basta submetê-la a um questionamento mais sistemático, e a frívola preocupação escapa à prisão e desaparece.

Tudo o que se persegue nesta vida só existe na opinião e não na realidade: a honra, a dignidade, a glória, a fortuna e tudo aquilo a que se dedicam as aranhas da vida...

Aqueles que sobem em direção aos cimos escapam com a leveza de seu vôo às tramas das aranhas do mundo; pelo contrário, aqueles que, à semelhança das moscas, são pesados e desprovidos de energia, permanecem grudados aos viscos da vida, estão presos e acorrentados como que por redes às honras, prazeres, elogios e múltiplos desejos, tornando-se assim a presa da Besta que procura capturá-los."

São Gregório de Nissa

terça-feira, 14 de julho de 2015

O desejo do céu é subjacente a todas as experiências da vida


O que vou dizer agora é apenas uma opinião pessoal, sem o menor resquício de autoridade, e submeto-a ao juízo de cristãos e de estudiosos melhores que eu. Momentos houve em que achei que não queríamos o céu, porém, com mais frequência pego-me pensando se, bem lá no fundo do coração, alguma vez desejamos algo mais. Você pode ter notado que os livros que realmente ama estão ligados por um fio secreto. Você sabe muito bem qual a qualidade comum que o faz amá-los, embora não possa traduzi-la em palavras, mas a maioria de seus amigos não a percebe absolutamente e por vezes indagam por que, gostando disso, você deveria também gostar daquilo. Você com certeza já esteve diante de uma paisagem que parecia incorporar algo que você procurou por toda a vida e então voltou-se para o amigo ao seu lado, que parecia estar vendo o mesmo que você via, mas, às primeiras palavras, um abismo se abriu entre os dois, e você percebe que aquela paisagem significava algo totalmente diferente para ele, que estava em busca apenas de uma vista exótica, pouco lhe importando a sugestão inefável pela qual você foi arrebatado. Até mesmo em seus passatempos, será que não houve sempre alguma atração secreta - que outros curiosamente ignoram e com que não se identificam -, porém sempre prestes a se insinuar: o cheiro de madeira cortada na oficina ou o som da água batendo contra o casco do barco? 

Será que as amizades que duram a vida toda não nascem no momento em que você finalmente encontra outro ser humano que tenha alguma noção (embora tênue e incerta, mesmo no melhor dos casos) daquilo que você nasceu desejando e que, sob o fluxo de outros desejos e em todos os silêncios momentâneos entre as paixões mais estrondosas, noite e dia, ano após ano, da infância até a velhice, você procura, espera e ouve? Você nunca teve isso. Todas as coisas que sempre lhe dominaram profundamente a alma não foram senão indícios disso - vislumbres sedutores, promessas nunca de todo cumpridas, ecos que morreram tão logo lhe alcançaram os ouvidos. Se isso, contudo, realmente se tornasse manifesto; se alguma vez viesse um eco que não morresse, mas tomasse corpo no próprio som, você o saberia. Além de toda possibilidade de dúvida, você diria: "Eis enfim aquilo para o que fui feito". Não podemos falar sobre isso aos outros. É a assinatura secreta de cada alma, o anseio incomunicável e insaciável, a coisa que almejamos antes de encontrar nossa mulher, de conhecer nossos amigos ou de escolher nosso trabalho, que iremos ainda desejar em nosso leito de morte, quando a mente não reconhecer mais nem esposa, nem amigo, nem trabalho. Enquanto existirmos, estará lá. Se perdemos isso, perdemos tudo.

(...) Em toda a sua vida, um êxtase inatingível tem pairado um pouco além do alcance de sua consciência. Perto está o dia em que você despertará para descobrir, além de toda a esperança, que você havia atingido o céu ou então que ele estava ao seu alcance, e você o perdeu para sempre.

C. S. Lewis, O problema do sofrimento. Cap. 10: O céu.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Mil graças, Senhor, por me teres criado - O paradoxo da vida

Eu aos 30.

Há 8 séculos, Sta Clara dizia a frase que encima este texto ao sentir ser chegado o momento de morrer. Na verdade, aquele vértice da vida era apenas uma aparência, como o seria um parto sob a perspectiva de um nascituro. Mas, na realidade, era apenas o verdadeiro nascimento para a vida "de uma sorte mais subida", que é a vida dos santos. Sta Clara o sabia, e a sua morte tinha o sabor do início de uma festa de aniversário que as anteriores apenas preludiavam. Saber e sabor, a propósito, têm o mesmo étimo.

Fazer aniversário é algo paradoxal. Comemoramos o tempo decorrido desde o nascimento, que se vai alongando, e, ao mesmo tempo, sabemos que o tempo daquele outro nascimento, no fim da vida, vai-se encurtando. Para que a vida continue depois da morte, e o segundo parto não seja frustrado, ainda que sejamos velhos, devemos ser crianças. As duas considerações - nascimento e morte - não deveriam provocar reações opostas, mas, antes, nos alegrar ambas. A primeira, pelo dom da vida. A segunda, pela esperança da eternidade. Esta segunda é a razão de ser da primeira, sem a qual a vida no tempo perde o sentido, virando evento casual, instante nauseante e desesperado "entre duas eternidades" negativas. É surpreendente que alguém o creia. Nós, cristãos, pelo contrário, sabemos que a vida "não será tirada, mas transformada". Como diz São Paulo, seremos "sobrevestidos". A vida, ao invés de ser perdida, será adensada, se tornará mais real que agora, e haverá cessado a inquietude, e veremos a Deus. "Cessai e vede que eu sou Deus.", diz o Salmo.

O aniversário, por isso, deveria nos produzir uma dupla nostalgia, pelo recordo dos anos decorridos e pela "lembrança" do fim, pois, de fato, viemos de Deus e para Ele retornaremos, de modo que o fim identifica-se com o começo; o alpha e o ômega são a mesma Pessoa. 

Assim como o bebê, antes de nascer, vive dentro da mãe, num tipo de vida que é quase isenção de liberdade e consciência, e, depois que nasce, ele vê pela primeira vez a face da sua mãe, e um mundo infinitamente maior se descortina diante dele, assim também, por ora, é em Deus que "vivemos, nos movemos e somos". Estamos sendo como que gerados. Na morte, ao nascermos, se tudo estiver correto, poderemos enfim ver Deus face a face, saboreando da verdadeira liberdade. É claro que a comparação não é perfeita. No Céu, não estaremos "fora" de Deus como o bebê que nasce está fora da mãe. Mas as realidades temporais, ainda que de modo limitado, simbolizam as superiores.

Neste dia em que completo meus 30 anos, noto novamente que esta é uma idade paradoxal: ela é o último ano da minha terceira década, embora pareça, aos desatentos, ser o primeiro. De novo, primeiro e último parecem se identificar. Ainda que isto se dê por um equívoco, não deixa de impressionar. Neste dia, depois de tanta coisa já passada, e ao mesmo tempo com uma impressão de que me trouxeram aqui às pressas, eu só posso ser grato a Deus. Nada disso seria possível se Deus não tivesse pensado em mim e, pelo seu Lógos, não me tivesse criado. É comovente saber que o Cristo, Ele mesmo, me olhou antes de eu existir, e, sabendo de todas as minhas misérias, ainda assim me quis, Ele que só pode querer o bem. Estou vivo por pura gratuidade de Deus. E, na minha ingratidão, Ele revela Sua misericórdia. E, em me permitir mais um ano de vida, Ele revela Sua insistência, pois o estar vivo somente tem sentido enquanto tensão para a santidade. Deixar-me vivo é insistir.

Ainda ontem eu lia esta frase do Léon Bloy: "Uma alma que Deus sitia com todo o seu poder! Imaginai alguma coisa de mais belo!" De fato, não imagino, e apenas desejo que esta beleza me salve, como naquele trecho bem conhecido de Dostoievski. E não é preciso pedi-lo, sequer, pois o belo, nos ensina a boa metafísica, irradia pela sua própria natureza, assim como o bem por si mesmo se propaga. O único impedimento à irradiação de Deus, o único empecilho à propagação do Onipotente - vejam mais um paradoxo - é a rebeldia de um vermezinho, é a minha vontade pessoal, que Deus respeita. Espero, contudo, que Ele, o onisciente, saiba distinguir a minha vontade dos meus desejos, pois sob a agitação destas águas impulsivas, há algo que, quieto e constante, aponta para Ele como uma seta. Não se detenha, pois, o Onipresente, e, cessando o Seu recuo, desague-Se violentamente e sitie-me com toda a Sua majestade. Se vivo, é para Ele. Sempre o será. E, ainda que eu não alcance a glória dos céus, e no inferno seja projetado, continuarei o paradoxo: cantarei, do meio das chamas inferiores, com todos os meus pulmões danados, a beleza e a bondade de Quem um dia me quis.

Mil graças, Senhor, por me teres criado.

Fábio.

domingo, 31 de maio de 2015

Gregório Taumaturgo acerca do ensino de Orígenes


"A fim de evitar que nos viesse acontecer o que ocorre com a multidão das pessoas inexperientes, ele não nos introduzia em um único sistema filosófico, nem nos deixava deter-nos nele, mas nos guiava através de todos, não permitindo que ignorássemos qualquer doutrina dos gregos. Ele próprio nos orientava nesta busca, à semelhança de um hábil artista que, por um experiente uso da filosofia, conhecesse tudo, discernindo o que era bom e útil em cada sistema para chamar nossa atenção precisamente para esse aspecto, não deixando de afastar os erros. E nos aconselhava a evitarmos o apego a qualquer filósofo, mesmo que tivesse sido declarado por todos os homens como perfeitamente sábio, para aderirmos somente a Deus e a seus profetas.

Assim, nós também, se nos ocorrer, às vezes, de encontrar algo de verdadeiro entre os pagãos, evitemos de menosprezar, imediatamente, o autor e seu pensamento. Além disso, o fato de termos uma lei que nos foi dada por Deus, não nos dá o direito de sermos orgulhosos e menosprezarmos as palavras dos sábios; pelo contrário, como afirma o apóstolo, devemos experimentar e reter o que é bom.

Ele explicava e iluminava o que era obscuro na Escritura, como um ouvinte de Deus hábil e muito perspicaz, ou então expunha o que, em si, era claro, ou que o era, pelo menos, para ele; aliás, neta época, foi o único homem que conheci ou de quem ouvi falar que, pela meditação das puras e luminosas palavras, fosse capaz de penetrá-las e ensiná-las. De fato, o Espírito que inspira os profetas e todo discurso místico e divino, ao honrá-lo como um amigo, o havia estabelecido como seu intérprete [...]. Com efeito, é necessária a mesma graça, tanto para compreender a profecia, quanto para enunciá-la.

(...)
Nada era proibido, nem ocultado, nem inacessível. Podíamos aprender qualquer doutrina, bárbara ou grega, mística ou moral, examinar em profusão todas as idéias, empanturrar-nos com todos os bens da alma. Qualquer pensamento antigo que fosse verdadeiro, acabava por nos pertencer, por nossa própria vontade, com a possibilidade maravilhosa das mais belas contemplações; para nós, era verdadeiramente uma imagem do paraíso.

Jean-Yves Leloup, Introdução aos verdadeiros filósofos. 2ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2004. p.43-45.

domingo, 17 de maio de 2015

Só quem ama compreende


Os seres humanos se sentem sós, abandonados em sua auto-afirmação, enquanto não encontrarem um eco, aceitação e confirmação de fora. A tendência de união encontrada em todo o universo, na vida humana apresenta-se em escala e graduação ascendentes, conforme os níveis de vida. No nível biológico, no "sexo", há apenas abraços, contato epidérmico, tentativa de penetração que, de maneira nenhuma, por mais repetidos que sejam, podem saciar o desejo de plena união. No nível emocional, na "paixão", no "Eros" atinge-se certo paralelismo, sintonização de vibrações psíquicas, projeção recíproca de emoções pessoais no parceiro. Um jogo a dois, mas que não é nem de longe verdadeira união. É no nível da vida consciente e livre, no nível pessoal, que se realiza verdadeira união.

O verdadeiro amor é amor-amizade. É união entre duas personalidades. É conhecimento, reconhecimento de um Eu para com outro Eu diferente, que se deve aceitar na realidade própria e inconfundível; mas não como lâmpada excitadora de sonhos e excitações; nem como manequim a vestir a esplêndida roupagem de nossa imaginação.

E significativo como a Escritura designa a união amorosa conjugal: "Adão conheceu sua mulher e ela o concebeu" (Gen 4,1). Não podemos conhecer uma pessoa como os demais objetos que nos rodeiam. A nossa inteligência é um receptáculo de capacidade elástica quase ilimitada: nele podemos receber o mundo todo, dando-lhe assim nova existência. Conhecer alguma coisa é dar-lhe existência reflexa dentro de nós. É uma espécie de nova criação. Quanto mais coisas conhecemos, mais se alargam os nossos horizontes, nosso mundo interior. A todos objetos podemos dar assim nova existência "subjetiva" dentro de nós. Menos a outras pessoas. Nenhuma pessoa é simples"objeto"; é sempre "sujeito", indivíduo: um mundo inteiro, fechado e inacessível a estudo "objetivo". Por mais que observemos e analisemos uma pessoa, não a "compreendemos", não a apreendemos completamente, transferindo-a para nosso mundo interior. A chave única que dá acesso ao "jardim fechado" do Eu diferente é o amor. Só quem ama, compreende.

Mas amar significa antes de tudo: sair do "jardim fechado" do próprio Eu. É abrir-se para encontrar porta aberta. Aí está a razão porque se ama tão pouco nesse mundo. Há uma dolorosa dissonância no homem. De um lado, aspira ardentemente à união que rompa o isolamento. Do outro, receia essa mesma união como ameaça à sua personalidade. Efeito ainda do pecado original. Tendo rompido o homem a união e harmonia com Deus, perdeu também a capacidade de estabelecer, com naturalidade e espontaneidade, relações mútuas, união harmoniosa. Sente-se por demais exposto, vulnerável, inseguro, ameaçado no seu valor pessoal. Mas amar é sempre abrir-se. E abrir-se é arriscar-se. O medo inibe. O egoísmo procura antes de tudo segurança. Mas, quando prevalece o instinto de segurança, nunca se chegará a amar. E sem amor não se encontra a plenitude da vida. A eterna desconfiança, o eterno medo tranca o homem dentro de si mesmo e fá-lo murchar, estiolar, atrofiar-se. Querendo salvar-se, tudo perde. Quem amar a sua vida (a sua segurança pessoal) acima de tudo, perdê-la-á; mas quem a perder (quem se ariscar, se abrir para o Tu), ganhá-la-á. Isso vale tanto para o amor humano, como para o divino. É preciso abrir a porta, senão a vida estancará no isolamento. A união é transfusão de novo sangue. Só nela se encontra sentido e felicidade. Nisso há evidentemente risco. Quem se abre, expõe-se ao perigo de ser invadido e explorado. Mas, antes a possibilidade de uma exploração, que a certeza de estiolamento.

Frei Valfredo Tepe OFM. O sentido da vida. Ascese cristã e psicologia dinâmica. 3ª ed. Bahia: Mensageiro da Fé, 1960. p. 230-231.

domingo, 5 de abril de 2015

Larry...


"Não tem ambição, nem desejo de se tornar célebre; distinguir-se aos olhos do público lhe seria sumamente desagradável; e, portanto, admissível que se contente em levar a vida que escolheu e ser apenas ele mesmo. É excessivamente modesto para se patentear como exemplo aos olhos dos outros; mas é possível que julgue que algumas almas indecisas - para ele atraídas como mariposas para a chama - chegarão, com o tempo, a compartilhar de sua maravilhosa crença de que a verdadeira felicidade só pode ser encontrada nas coisas do espírito, e que esteja convencido de que, trilhando com abnegação e renúncia o caminho da perfeição, está praticando o bem tão positivamente como se estivesse escrevendo livros ou discursando a multidões."

Somerset Maugham a respeito do Larry, O fio na navalha

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Procurar-se é limitar-se e limitar o ilimitado




"O homem que só se procura a si na arte, na ciência, na caridade, na piedade, que pensa em si, que se admira e busca as sensações ou as impressões, ou a satisfação de ser sábio ou artista, ou de estar unido a Deus, ou que procura a glória que estas coisas proporcionam, não encontra nelas o desenvolvimento que tudo isso lhe deve trazer. Não é verdadeiramente acrescentado com elas; o cuidado de si próprio impede-o de se perder, de perder a estreiteza do seu ser nos valores que o ultrapassam. Não vê estes valores senão através de si mesmo e ele é um ser 'limitado'. Limita-se, portanto, o ilimitado, e então o ilimitado deixa de ser o ilimitado. A preocupação por si próprio faz de anteparo entre estas realidades espirituais e ele, e nunca chega ao verdadeiro sentido da beleza, da verdade, do bem - de Deus."

Jacques Laclerco