sábado, 20 de março de 2021

O Segundo Imortal

ERA UMA VEZ UM HOMEM QUE VIVEU tanto quanto os outros homens vivem. Ele tinha uma esposa e três filhos e uma loja na Rua dos Pardais Felizes, onde vendia bolos, legumes e picles doces. Ele se levantava ao amanhecer e ia para a cama ao pôr do sol; comia arroz três vezes ao dia; fumava dois cachimbos de tabaco por hora;conversava sobre compra e venda com seus vizinhos; palitava os dentes depois de comer e fazia sua mulher coçar-lhe as costas no calor do meio-dia. Na primavera, observava a grama nova crescer por entre as pedras; no verão, levantava um olho para as nuvens preguiçosas; no outono, acompanhava as folhas que dançavam ao vento; e, no inverno, acordava para ver os rastros dos pássaros na neve. E em todas as estações, entre conversar, fumar e vender bolos, mastigava sementes de melancia e divertia-se trançando cordas de palha em torno dos dedos dos pés. Um dia, quando foi queimar incenso no Templo dos Amáveis Dragões, seu amigo sacerdote aproximou-se dele, dizendo:– Você está envelhecendo e seu filho mais velho tem idade para cuidar de sua loja. Não seria apropriado para um homem como você passar o resto de seus dias em atividades vazias, pois você irá para o túmulo tão insignificantemente quanto lixo velho é jogado no rio.

– Tal é o destino do homem – respondeu o vendedor de bolos –, como posso reclamar? 

– Muitos são meros vegetais – disse o sacerdote. – Mas se você estiver disposto a se dar ao trabalho, poderá encontrar um lugar entre os imortais. 

– E quem – perguntou o vendedor de bolos –, são os Imortais? 

– São aqueles que não dependem do seu próprio poder para se manterem vivos. O homem é uma pequena criatura cuja vida é como um floco de neve. Mas o vento sopra para sempre; o sol e a lua mantêm eternamente seus cursos e os rios fluem desde o início dos tempos. Os Imortais são aqueles que aprendem os segredos dessas coisas; em vez de depender de seus próprios recursos, eles se permitem ser mantidos e orientados por aquilo que mantém e orienta o vento, o sol, a lua e os rios. 

– Mas como alguém pode se tornar um Imortal? 

 – Você terá que encontrar um Imortal para lhe ensinar – disse o sacerdote. 

– Eu não sou sábio o suficiente.  

– Bem – disse o vendedor de bolos – Eu preciso encontrar um. Mas há tantas pessoas no mundo, e como se pode reconhecer um Imortal? 

 – Isso não deve ser difícil – respondeu o sacerdote. – Dizem que a respiração deles é operada pelo vento; que o sol lhes dá a luz do olho direito e a lua o do olho esquerdo; que seu grito é auxiliado pelo trovão, seus sussurros pelas ondas murmurantes e suas risadas pelos riachos da montanha. A terra, diz-se, mantém sua carne, enquanto seus ossos e fluidos vitais são supridos pelas rochas e pelas chuvas. Seus pensamentos e humores são dirigidos pelo ir e vir das estações e dos elementos, e por terem tamanhas forças comandando todas as suas funções, dizem que estão livres de quaisquer das limitações comuns e são mais poderosos até do que os deuses.  

– Um ser tão estranho – observou o vendedor de bolos –, deve ser fácil de reconhecer. 

Imediatamente voltou para casa, colocou seus assuntos em ordem, instruindo seu filho mais velho quanto aos cuidados da loja e na mesma noite deixou a cidade em sua jornada em busca de um Imortal. Depois de muitas semanas na estrada, chegou a uma cabana habitada por um ancião de aspecto severo que parecia ter pelo menos duzentos anos de idade. Sua barba branca roçava aparte superior de seus sapatos e o topo de sua cabeça brilhava como os cotovelos ensebados de um casaco velho. Percebendo sua aparência venerável, e também os muitos volumes dos clássicos que o cercavam, o vendedor de bolos imediatamente se aproximou dele e implorou por instrução, pensando que certamente aquele deveria ser um Imortal, pois era a pessoa mais velha que já vira.  

– Faz muito tempo – disse o venerável –, desde que meu conselho foi solicitado a respeito de qualquer coisa, pois esta é uma época dissoluta, e o domínio da vida não é compreendido por aqueles que falham em observar os quarenta e oito preceitos e falham em evitar as noventa e uma indiscrições. Sente-se e eu o instruirei nas palavras dos antigos sábios. 

Então, ele começou a ler os clássicos, e o vendedor de bolos sentou -se e ouviu até o sol se pôr. E no dia seguinte leu ainda mais, e novamente no dia seguinte e no seguinte e no próximo, e assim por diante, até que o vendedor de bolos quase perdeu a noção do tempo. E ele foi instruído e aprendeu a se disciplinar segundo os oito atos virtuosos, os vinte e nove pensamentos louváveis, as cento e oito observâncias cerimoniais, os quarenta e dois traços de caráter superior, os trinta e sete atos de piedade filial e as quatrocentas e três propiciações de espíritos hostis. E durante todo esse tempo, o vendedor de bolos cresceu em retidão e conduta elevada, e inclinava-se a acreditar que estava no caminho da imortalidade. Mas, um dia, lembrou-se subitamente de que já fazia vinte anos que estava com o venerável erudito; os dias de sua vida estavam ficando mais curtos e, no entanto, não sabia nada dos segredos do sol, da lua, dos rios, do vento e dos elementos. Com isso, encheu-se de agitação e, à noite, voltou à estrada novamente.Depois de algumas semanas vagando pelas montanhas,encontrou uma caverna onde um estranho se sentava na entrada. Seus membros eram como o tronco de um pinheiro retorcido, os cabelos como rolos de fumaça flutuando no vento e os olhos fixos e ferozes como os de uma cobra. Devidamente impressionado, o vendedor de bolos novamente implorou por instrução.

 – Os Imortais – disse-lhe aquela pessoa –, têm o vento como fôlego e, para aprender isso, você deve cultivar a arte dos Pulmões Expansivos. Mas isso não pode ser aprendido por quem mastiga sementes de melancia, fuma dois cachimbos por hora e faz três refeições por dia. Para ter o vento como respiração, você deve comer apenas um grão de arroz por dia e beber um copo de água.Você deve limpar a fumaça da sua traqueia e aprender a respirar não mais do que duas vezes por dia. Só então seus pulmões serão capazes de conter o vento.  

Então, o vendedor de bolos sentou-se na entrada da caverna,comeu apenas um grão de arroz e bebeu apenas um copo de água por dia. E sob as instruções do sábio ele aprendeu a diminuir cada vez mais a velocidade de sua respiração até que pensou que seus olhos saltariam das órbitas e seus tímpanos perturbariam todos os pássaros da floresta com sua explosão. Mas por muitos anos ele praticou até que de fato respirava duas vezes por dia e, ao final desse tempo, constatou que seu corpo era como um esqueleto coberto de pele como as teias de aranhas cobrem os galhos de um arbusto e demonstrando uma conduta extremamente desregrada ele fugiu da caverna. Por muitos meses, procurou por um instrutor, mas, não encontrando nenhum, começou a se perguntar se por acaso não havia perseverado o bastante com seu mestre. Então, começou a voltar para as montanhas. No caminho, encontrou um comerciante itinerante que carregava uma vara sobre o ombro, à qual estava preso uma trouxa contendo uma variedade de panelas, contas, pentes, bonecas, utensílios de cozinha, materiais de escrita,sementes, tesouras e incenso. Por um tempo, seguiram na companhia um do outro, conversando sobre assuntos triviais, como o estado das plantações, as melhores maneiras de afastar pulgas,os prazeres da chuva suave e os vários tipos de carvão úteis para fazer fogueiras. Finalmente, o vendedor disse ao comerciante que desejava encontrar um Imortal que pudesse instruí-lo e perguntou se ele conhecia alguma dessas pessoas.

– Mastigue umas sementes de melancia – disse o comerciante,oferecendo-lhe um punhado. 

 – Na verdade, sinto não poder comer sementes de melancia –lamentou o vendedor de bolos –, porque, se eu mastigá-las, perderei a minha capacidade de Pulmões Expansivos. O comerciante deu de ombros e por um tempo eles continuaram andando em silêncio, quebrado apenas pelo estouro de sementes de melancia entre os dentes do comerciante, um som que enchia o vendedor de bolos com uma variedade de emoções. Por um lado, ele começou a sentir uma imensa vontade de quebrar sua disciplina e, mais uma vez, sentir aquele eminentemente satisfatório estouro de sementes entre os dentes; por outro, sentia que deveria persistirem sua busca e novamente perguntar ao comerciante sobre os Imortais. Quem sabe, ele pensou, o comerciante nunca tivesse ouvido falar de Imortais, mas podia ser que ele reconhecesse tais seres se soubesse como eles eram.

 – Eu estava pensando – disse o vendedor de bolos –, se em suas andanças você se encontrou com alguém de aspecto estranho e poderoso, cuja respiração é operada pelo vento, cujos olhos direito e esquerdo recebem luz do sol e da lua, respectivamente, cujo grito é auxiliado pelo trovão, seu sussurro pelas as ondas murmurantes e as risadas pelos riachos da montanha; cuja carne é mantida pela terra, os ossos e fluidos vitais fornecidos pelas rochas e pelas chuvas, e cujos pensamentos e humores são dirigidos pelo ir e vir das estações e dos elementos...

 – Oh, sim – respondeu o comerciante –, eu vi muitos desses seres. Ora, acredito que dois deles estão caminhando ao longo desta estrada. 

– O quê! – Exclamou o vendedor de bolos. – Nesta estrada aqui? Vamos nos apressar para que possamos alcançá-los! 

E assim aumentaram o ritmo e, quando a noite caiu, não pararam para descansar, pois o vendedor de bolos persuadiu o comerciante de que seria uma boa vantagem para eles ganharem uma noite de viagem. Ao amanhecer, encontraram-se no topo de uma colina de onde podiam ver a estrada à frente por muitos quilômetros, mas, ao olharem para ela, não avistaram ninguém em lugar nenhum. 

– Pode ser – disse o vendedor de bolos – que nós os tenhamos ultrapassado durante a noite. 

Olharam para trás, e novamente uma vista de muitos quilômetros mostrava uma estrada vazia. Com isso, o vendedor de bolos ficou muito triste.

 – Eles devem ter pegado um atalho pelas montanhas – disse ele –, porque parece que somos as únicas pessoas nesta estrada.

 – Oh – disse o comerciante –, eu esqueci de lhe dizer. Quando eles andam em pares, um deles é sempre invisível. Você está procurando por dois homens viajando juntos. Vamos olhar de novo.

 Mais uma vez o vendedor de bolos olhou para um lado e outro da estrada, mas não viu nenhum outro homem além do seu companheiro, o comerciante. 

– Não – suspirou o vendedor de bolos –, nós os perdemos. Não vejo nem dois nem um.

– Você tem certeza? – respondeu o comerciante. 

– Eu realmente acredito que posso ver um. Olhe novamente.

 – Não – disse o vendedor de bolos –, não vejo nenhum homem na estrada, exceto você mesmo.  

Com isso, o comerciante começou a rir e, ao rir, pareceu ao vendedor de bolos que sua risada era como o som de um riacho da montanha. 

– Você! – exclamou ele. – Você é um Imortal? Mas você parece um homem comum!

 – De fato – riu o comerciante –, devo confessar que sim. Sabe? Eu preciso andar disfarçado, pois do contrário seria seguido porto do lugar, o que seria muito inconveniente.

– Mas o seu companheiro invisível – perguntou o vendedor de bolos –, também está aqui? Ele parece um Imortal? Descreva-o para mim.

 – Certamente – respondeu o comerciante. – Sua respiração é operada pelo vento, mas você não percebe isso; a luz de seus olhos direito e esquerdo é dada pelo sol e pela lua, mas você não a vê;seu grito é do trovão, seu sussurro das ondas e seu riso dos riachos da montanha, mas você não o ouve; sua carne é mantida pela terra e seus ossos e fluidos vitais pelas rochas e chuvas, mas você não entende isso; seus pensamentos e humores são dirigidos pelo ir e vir das estações e dos elementos, mas você não está ciente disso.Ele não confia em seus próprios recursos; ele se permite ser mantido e orientado por aquilo que mantém e orienta o vento, o sol,a lua e os rios, mas você não o reconhece.

– Maravilhoso, de fato, deve ser contemplá-lo! – Exclamou o vendedor de bolos. – Por favor, peça a ele para se tornar visível para que eu possa entender seus segredos. 

– É melhor você mesmo pedir – respondeu o comerciante. – Só você tem o poder de torná-lo visível. Há uma mágica pela qual você pode fazê-lo aparecer.

 – Conte-me sobre isso. 

– A mágica – respondeu o comerciante –, é assim: na primavera, observar a grama nova crescendo por entre as pedras; no verão, levantar um olho para as nuvens preguiçosas; no outono, acompanhar as folhas que dançam ao vento; no inverno, acordar para ver os rastros dos pássaros na neve. Levantar de madrugada e ir dormir ao pôr do sol; comer arroz três vezes ao dia; falar de compra e venda com os vizinhos; mastigar sementes de melancia e trançar cordas de palha ao redor dos dedos dos pés.

E, com isso, o vendedor de bolos descobriu o segundo Imortal. 

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Alan Watts, Torne-se o que você é.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Os dois grandes momentos

Há dois momentos na vida que são tudo: o momento presente, no qual somos livres para escolher o queremos ser, e o momento da morte, no qual não temos mais nenhuma escolha e no qual a decisão cabe a Deus.

Ora, se o momento presente é bom, a morte será boa; se estamos agora com Deus - neste presente que se renova sem cessar mas que continua sempre este único momento atual -, Deus estará conosco no momento de nossa morte.

A lembrança de Deus é uma morte na vida; ela será uma vida na morte. De maneira análoga: se entramos em Deus, Deus entrará em nós. Se habitamos esse centro que é seu Nome, Deus habitará esse centro que é nosso coração. Em toda a extensão do mundo, não há nada além dessa reciprocidade; pois o centro é em todo lugar, como o presente é sempre.

Entre o momento presente, em que nós nos lembramos de deus, e a morte, em que Deus se lembrará de nós - e essa reciprocidade já está em cada Invocação -, há o resto da vida, a duração que se estende do momento presente até o último momento; mas a duração não é senão uma sucessão de momentos presentes, pois vivemos sempre 'agora'; é, portanto, concreta e operativamente falando, sempre o mesmo instante abençoado em que somos livres para lembrar de Deus e encontrar nossa felicidade nessa Lembrança.

Nós não somos livres para escapar à morte, mas somos livres para escolher Deus, neste momento presente que resume todo momento possível. É verdade que só Deus é absolutamente livre; mas nossa liberdade é, não obstante, real em seu nível - sem o que a palavra não existiria -, dado que ela manifesta a de Deus e por consequência participa dela Em Deus, somos tão livres quanto podemos sê-lo, e na medida em que Deus nos reintegra em sua infinita Liberdade.

Frithjof Schuon, Transfiguração do homem.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Dimensões da Oração

O homem deve encontrar Deus com tudo o que ele é, pois Deus é o Ser de tudo; é esse o sentido da injunção bíblica de amar a Deus 'com todas as nossas forças'.

Ora, uma das dimensões que caracterizam o homem de facto é que ele vive para o exterior e, mais ainda, tende aos prazeres; é o que chamamos de exterioridade e concupiscência. Ele deve renunciar a elas em face de Deus, pois, em primeiro lugar, Deus está presente em nós mesmos e, em segundo, o homem deve poder encontrar prazer em si mesmo e independentemente dos fenômenos sensoriais.

Mas tudo o que nos aproxima de Deus tem por isso mesmo sua beatitude; elevar-se, orando, acima das imagens e dos ruídos da alma é uma libertação pelo Vazio divino e pela Infinitude; é a estação da serenidade.

É verdade que os fenômenos exteriores, por sua nobreza e seu simbolismo - ou sua participação nos Arquétipos celestes - podem ter uma virtude interiorizante, e toda coisa pode ser boa a seu tempo; isso não impede que se deva realizar o desapego, sem o que o homem não tem direito à exterioridade legítima, e sem o que ele cairia numa exterioridade sedutora e numa concupiscência mortal para a alma. Assim como o Criador, por sua transcendência, é independente da criação, também o homem deve ser independente do mundo em vista de Deus. É esse apanágio do homem que é o livre-arbítrio; só o homem é capaz de resistir a seus instintos e desejos. Vacare Deo.

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Outro apanágio do homem é o pensamento racional e a palavra; esta dimensão deve, por consequência, atualizar-se quando deste encontro com Deus que é a oração. O homem não se salva apenas pela abstenção do mal, ele se salva também, e a fortiori, pelo cumprimento do Bem; ora, a melhor das obras é aquela que tem Deus por objeto e o nosso coração por agente, ou seja, a "lembrança de Deus".

A essência da oração é a fé, portanto a certeza; o homem a manifesta precisamente pelo discurso, ou pelo apelo, dirigido ao Sumo Bem. A oração, ou a invocação, é igual à certeza de Deus e de nossa vocação espiritual.

A ação vale pela intenção; é evidente que não deve haver na oração nenhuma intenção tingida por qualquer ambição; ela deve ser pura de toda vaidade mundana, sob pena de provocar a Cólera do Céu.

A oração íntegra é proveitosa não só para aquele que a realiza, ela irradia-se também à sua volta, e sob este aspecto ela é um ato de caridade.

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Todo homem está em busca da felicidade; eis outra dimensão da natureza humana. Ora, não há felicidade perfeita fora de Deus; toda felicidade terrestre tem necessidade da bênção do Céu. A oração nos coloca em presença de Deus, que é pura Beatitude; se temos consciência disso, encontraremos nela a Paz. Feliz o homem que tem o senso do Sagrado e que abre assim seu coração para este mistério.

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Outra dimensão da oração resulta do fato de que, por um lado, o homem é mortal e, por outro lado, tem uma alma imortal; ele deve passar pela morte e, sobretudo, deve preocupar-se com a Eternidade, que está nas mãos de Deus.

Neste contexto, a oração será ao mesmo tempo um apelo à Misericórdia e um ato de fé e de confiança.

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O apanágio fundamental do homem é uma inteligência capaz de conhecimento metafísico; por consequência, esta capacidade determina necessariamente uma dimensão da oração, que coincide então com a meditação; o tema desta é, em primeiro lugar, a realidade absoluta do Princípio Supremo e, depois, a não-realidade - ou a realidade relativa - do mundo, que o manifesta.

Contudo, o homem não deve utilizar intenções que superam sua natureza; se não é um metafísico, ele não deve sentir-se obrigado a sê-lo. Deus ama as crianças como Ele ama os sábios; e Ele ama a sinceridade da criança que sabe permanecer criança.

Em outras palavras, há, na oração, dimensões que se impõem a todo homem, e outras que ele pode, por assim dizer, saudar de longe; pois o que importa nesta confrontação não é que o homem seja grande ou pequeno, é que ele se coloque sinceramente em face de Deus. Por um lado, o homem é sempre pequeno em face de seu Criador; por outro lado, há sempre grandeza no homem quando ele se dirige a Deus; e, em última análise, toda qualidade e todo mérito pertencem ao Sumo Bem.

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Há uma dimensão da oração meditativa, dissemos, cujo tema é a realidade absoluta do Princípio; e depois, correlativamente, a não realidade -ou a menor realidade - do mundo, que o manifesta.

Mas não basta saber que "Deus é a realidade, o mundo é a aparência"; é preciso saber também que "a alma não é senão Deus". Esta segunda verdade nos lembra que nós podemos, se nossa natureza o permite, tender para o Princípio Supremo não somente em modo intelectual, mas também em modo existencial; o que resulta do fato de que nós possuímos, não somente a inteligência capaz de conhecimento objetivo, mas também a consciência do eu, que é capaz, em princípio, de união subjetiva. Por um lado, o ego está separado da Divindade imanente pelo fato de que ele é manifestação, não Princípio; por outro lado, ele não é senão o Princípio enquanto este se manifesta; assim como o reflexo do Sol num espelho não é o Sol, mas não obstante "não é senão ele" enquanto ele - o reflexo - é a luz solar e nada mais.

Consciente disso, o homem não cessa de se postar diante de Deus, que é ao mesmo tempo transcendente e imanente; e é Ele, e não nós, que decide quanto à envergadura de nossa consciência contemplativa e ao mistério de nosso destino espiritual. Sabemos que conhecer Deus unitivamente significa que Deus mesmo se conhece em nós; mas não podemos saber em que medida Ele quer realizar em nós essa divina Consciência de Si; e não tem importância que o saibamos ou não. Nós somos o que somos, e tudo está nas mãos da Providência.

Frithjof Schuon, Transfiguração do Homem

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Virtude e Via

A primeira das virtudes é a veracidade, pois sem a verdade nós nada podemos fazer. A segunda virtude é a sinceridade, que consiste em tirar as consequências do que sabemos ser verdadeiro, e que implica todas as outras virtudes; pois não basta reconhecer a verdade objetivamente, no pensamento, é preciso também assumi-la subjetivamente, nos atos, quer sejam exteriores ou interiores. A verdade exclui tanto o erro e a mentira quanto a negligência e a hipocrisia.

A sinceridade implica de imediato duas atitudes concretas: a abstenção do que é contrário à verdade e a realização do que lhe é conforme; dito de outro modo, é preciso se abster do que nos afasta do Sumo Bem - o qual coincide com o Real - e realizar o que dele nos aproxima. É assim que às virtudes de veracidade e de sinceridade se acrescentam as de temperança e de fervor, ou de pureza e de vigilância, e também, e mesmo mais fundamentalmente, as de humildade e de caridade.

Sem virtude, não há via, seja qual for o valor de nossos meios espirituais; a virtude é diretamente a sinceridade e indiretamente a veracidade. A virtude não é um mérito em si, ela é uma dádiva; mas ela é, não obstante, um mérito na medida em que nos esforçamos em direção a ela.

Eu e os outros: as qualidades morais que correspondem respectivamente a essas duas dimensões de nossa existência são o autoapagamento e a generosidade; ou, dito de outro modo, a humildade e a caridade, não enquanto atitudes a priori sentimentais, mas enquanto adaptações morais e espirituais à natureza das coisas.

O fundamento quintessencial da virtude do autoapagamento ou da humildade é que o homem não é Deus, ou que o "eu" humano não é o "Si" divino; e o fundamento da virtude de generosidade, de compaixão ou de caridade é que nosso próximo também é "feito à imagem de Deus", ou que o Si divino é imanente a todo sujeito humano. É essa deiformidade que explica igualmente a qualidade de dignidade, que resulta, por acréscimo, de nossa capacidade - também ela deiforme - de participar da Majestade divina pela consciência que temos dela.

Autoapagamento e generosidade: por um lado, é preciso se apagar com dignidade; por outro lado, é preciso ser generoso com medida, pois os interesses do outro não abolem nossos próprios interesses, e aliás nem todos os homens têm direito sob os mesmos aspectos, a não ser quando se considera, de forma bem geral, sua condição humana. De resto, a caridade não oferece necessariamente o que é agradável de imediato, sem o que não haveria remédio amargo; punir justamente uma criança é mais caridoso que estragá-la. Pensar de outro modo equivaleria, aliás, a abolir toda justiça e toda saúde moral e social.

A questão do equilíbrio entre o apagamento e a dignidade pede o seguinte esclarecimento: ao reconhecer que a criatura é um nada diante de Deus, não devemos perder de vista que Deus quis a existência da criatura e que, sob este aspecto, ela pode ter certa grandeza no mundo que é o seu; esta grandeza, ela não a tem apenas em sua ambiência cósmica, ela também a tem, e a priori, no próprio Intelecto divino, pois ao criar determinado ser Deus queria criar determinada grandeza. O mesmo se aplica à liberdade, para só acrescentar este exemplo particularmente controvertido: ao argumento de que só Deus é livre e que todo o resto é predestinado, respondemos que, não obstante isso, ao criar seres livres, Deus queria manifestar a liberdade e não outra coisa, e que, por consequência, os seres são realmente livres sob o aspecto dessa intenção divina. O modo ou o grau de manifestação cósmica implica limitações - o próprio fato da manifestação já as implica -, mas o conteúdo dessa projeção não deixa de ser idêntico ao que constitui sua razão de ser.

Para a piedosa sentimentalidade, a humildade significa que o homem não deve estar consciente de seu valor, como se a inteligência não fosse capaz de objetividade em relação a esta ordem fenomenal que é a alma humana; é justamente esta objetividade que implica que o homem plenamente inteligente tenha consciência também da relatividade de seus dons, qualidades e méritos.

Evidentemente, a quintessência da humildade, insistimos, é a consciência de nosso nada diante do Absoluto; na mesma ordem de ideias, a quintessência da caridade é nosso amor ao Sumo Bem, que dá à nossa compaixão social seu sentido mais profundo. Com efeito, não amar Deus é negá-lo, e negá-lo é ipso facto negar a imortalidade da alma e por consequência o valor da vida, o que retira de nossa benevolência, se não todo o seu sentido, ao menos a maior parte do seu significado; pois a caridade para com o homem estritamente terrestre - o animal humano, se se quiser - deve-se acompanhar da caridade para com o homem virtualmente celeste, tanto mais que a caridade puramente "horizontal" pode se combinar com o assassínio de uma alma, enquanto que um sofrimento com o qual ninguém se compadece pode ser para a alma imortal um bem. Diga-se isto, não, por certo, para desencorajar intenções de caridade, mas a fim de lembrar que para o homem todo valor deve se referir ao Sumo Bem, sob pena de ser uma faca de dois gumes.

Toda virtude tem seu aspecto de beleza, que a torna imediatamente amável, independentemente do aspecto de utilidade ou de oportunidade. A combinação do autoapagamento e da generosidade, ou da humildade e da caridade, ou da modéstia e da compaixão - esta combinação, na verdade consubstancial, constitui a virtude em si e por isso mesmo a qualificação espiritual sine qua non. Talvez nos objetem que, se é assim, ninguém esetá plenamente qualificado para a espiritualidade; ora, faz parte da virtude a intenção de realizá-la, de modo que a virtude essencial é ao mesmo tempo uma condição e um resultado. Deus não nos pede de imediato a perfeição, mas ele nos pede a intenção da perfeição, ,a qual implica, se é sincera, a ausência de imperfeições graves; é por demais evidente que o orgulhos não pode aspirar sinceramente à humildade. Deus nos pede o que ele nos deu, a saber, as qualidades que trazemos no fundo de nós mesmos, em nossa substância deiforme; o homem deve 'tornar-se o que ele é'; todo ser é fundamentalmente o Ser em si.

Frithjof Schuon, Raízes da condição humana

sábado, 2 de janeiro de 2021

A virtude da interioridade

"O vício da exterioridade não é o fato natural de viver no exterior, é a falta de harmonia entre as duas dimensões: entre nossa tendência para as coisas que nos rodeiam e nossa tendência para o 'reino de Deus que está dentro de vós'. O que se impõe é realizar um enraizamento espiritual que tira da exterioridade sua tirania ao mesmo tempo dispersante e compressora e que, ao contrário, nos permite 'ver Deus em toda parte', ou seja, perceber nas coisas sensíveis símbolos, arquétipos e essências; pois as belezas percebidas por uma alma interiorizada tornam-se fatores de interiorização. O mesmo vale para a matéria: o que se impõe é, não negá-la - se isso fosse possível -, mas subtrair-se a seu império sedutor e escravizante; distinguir nela o que é arquetípico e quase celeste do que é acidental e por demais terrestre; portanto, tratá-la com nobreza e sobriedade.

Em outros termos, a exterioridade é um direito, e a interioridade, um dever: nós temos direito à exterioridade porque pertencemos a este mundo espacial, temporal e material, e devemos realizar a interioridade porque nossa natureza espiritual  não é deste mundo, nem nosso destino, por consequência. Deus é generoso: quando nós nos retiramos para o interior, Este, por compensação, se manifestará para nós no exterior; a nobreza de alma é ter o senso das intenções divinas, portanto dos arquétipos e das essências, os quais se revelam habitualmente à alma nobre e contemplativa. Inversamente, quando nos retiramos para o coração, descobrimos nele todas as belezas percebidas no exterior; não enquanto formas, mas em suas possibilidades quintessenciais. Voltando-se para Deus, o homem não pode nunca perder nada.

Portanto, quando o homem se interioriza, Deus se exterioriza, por assim dizer, ao mesmo tempo em que o enriquece no interior; é o mistério da transparência metafísica dos fenômenos e de sua imanência em nós. Em exoterismo, a beleza não é mais que uma 'consolação sensível', e ela chega mesmo a ser considerada como uma faca de dois gumes, um convite ao pecado e uma concessão não digna de um asceta perfeito; o que implica que o ascetismo - a renúncia ao que a Terra pode nos oferecer de agradável - seria a única via que leva a Deus. Na realidade, e pela força das coisas, nada do que a natureza nos oferece é em si mesmo um obstáculo espiritual: muito ao contrário, o fato de que a natureza nos outorgue tal ou qual 'consolação' - o próprio fato de que é a natureza que no-la outorga e que nós não inventamos nada - , esse fato prova que o dom 'consolador' possui uma virtualidade sacramental, quer sejamos capazes de apreendê-la, quer não. A primeira condição desta capacidade é a elevação do caráter, insistimos, portanto, também, o senso do sagrado; pois só a beleza da alma permite assimilar espiritualmente a beleza das coisas.

Resulta de tudo isto que a beleza percebida no exterior - a 'dama' do cavaleiro, por exemplo, ou a obra de arte sacra - deve ser descoberta ou realizada no interior, pois nós amamos o que somos e somos o que amamos. A beleza percebida é não somente a mensageira de um arquétipo celeste e divino, ela é também, e por isso mesmo, a projeção exterior de uma qualidade universal imanente em nós, e evidentemente mais real que nosso ego empírico e imperfeito, que, tateando, procura sua identidade".

Frithjof Schuon, Raízes da condição humana.