terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O problema das suposições


Aristóteles afirmou, no início da sua Metafísica, que todo homem deseja naturalmente conhecer. Isto significa que temos uma tensão interior, pela nossa própria constituição de seres humanos, de conhecer as coisas. Ora, conhecer algo é saber a verdade sobre este algo.

Pois bem. E como é que conhecemos? Os primeiros filósofos tinham uma concepção muito interessante da Filosofia como sendo o ato do espanto, ou da surpresa, ou da admiração. Filosofar significava surpreender-se com o que existe. Se isto é verdade, então nós só conhecemos propriamente algo à medida que nos expomos à presença deste algo, pois sem presença não há espanto. Haverá situações, obviamente, em que este pôr-se diante do objeto que se intenta conhecer não será imediatamente possível. Nestes casos, o procedimento de avanço no conhecimento deverá ser dialético.

Porém, diferente é o caso em que podemos observar o objeto diretamente. Como dizia um filósofo chinês, a distância menor entre dois pontos é a simplicidade. Ora, se se quer conhecer um objeto específico, deve-se olhar tão diretamente para este objeto quanto seja possível. Isto é mais simples se o objeto é inerte.

Porém, há situações em que colocar-se diante do que se deseja saber pode representar, ao menos aparentemente, qualquer desconforto para o observador. Há vezes em que outros fatores estão envolvidos, como os afetos, medos, desejos, etc, que muito facilmente tiram a objetividade da observação.

Se é desejo, a pessoa vai com muita sede ao pote e, antes de ir, já fez todo tipo de antecipações. Neste sentido, Freud dizia que o que se deseja encontrar influencia no que se encontra. Embora o próprio Freud tenha pecado neste ponto, nem por isto sua assertiva é isenta de valor.

Se é, ao invés, medo, o mais fácil, mais cômodo, é que a pessoa hesite em encontrar-se com o tal objeto, em olhá-lo friamente. Ao invés, ela terá a tentação de ficar longe e de lá, do seu cantinho seguro, fazer todo tipo de suposições a respeito do objeto supostamente temível. É óbvio que este não é um modo correto de vir a conhecer a verdade sobre alguma coisa. Prestemos atenção nisto: conhecer a verdade de algo implica, sempre, em receber alguma informação que não se tinha, isto é, apreender algo de fora e que era próprio do tal objeto - daí a surpresa! Ninguém se surpreende com o que já sabia. A pessoa que fica só na suposição, ao contrário, não conhece nada, não tem contato real com a coisa; só inventa. As suas conclusões sobre o objeto não vêm do próprio objeto, mas dela mesma. Como a sua atitude inicial é de medo, é natural que as suas suposições reflitam este medo e terminem por reforçá-lo. O medo, por sua vez, se converte em lente de percepção da realidade e faz com que ela interprete o comportamento do tal objeto - que obviamente poderia ter infinitas conotações - segundo os ditados do seu próprio receio. Definitivamente, este não é o modo de conhecer a verdade sobre nada.

Daqui podemos concluir que o conhecimento supõe sempre a coragem da observação. Se o objeto que se quer conhecer pode ser olhado diretamente, é assim que ele deve ser abordado.

Se, portanto, conhecer exige coragem e, ao mesmo tempo, faz parte da natureza humana, temos que esta - a natureza humana - se realiza numa atitude corajosa, e não de medo. O medo tem muito pouca serventia... Sinceramente, embora tenha ele seus defensores, penso que possa ser dispensado de todo.

Enfim, notemos esta relação: conhecimento - verdade - coragem.
E o seu oposto: suposição - distorção - medo.

Muita coisa ainda poderia ser dita a partir desses pressupostos. Mas espero que isso aí já seja suficiente.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Conhecer as próprias faltas



O publicano não ousava levantar os olhos aos céus. Por que ele não olhava o céu? Porque ele se olhava a si mesmo. E eis que, examinando-se a si mesmo, começou a ter desgosto e é assim que ele agradou a Deus.
Tu, ao contrário, tu te elevas, tu elevas a cabeça. Ora, o Senhor diz ao orgulhoso: Tu não queres olhar tua miséria? Pois bem, eu a olharei! Tu queres que eu desvie meus olhos dela? Então, não desvie os teus.
O publicano não ousa levantar os olhos aos céus: ele se examina, ele se condena. Ele faz de si mesmo seu próprio juiz, e Deus defende sua causa. Ele se pune, e Deus lhe faz misericórdia. Ele se acusa, e Deus o defende. Deus o defende tão bem que seu juízo foi: O publicano desceu para sua casa justificado, e o outro não; pois quem quer que se exalte será humilhado e quem quer que se humilhe será exaltado. Ele examinou sua consciência, diz o Senhor, e Eu, Eu não quis examiná-la. Eu o ouvi clamar em minha direção: Desviai os olhos de meus pecados! (Salmo L, 11). Mas quem pode pronunciar tais palavras, a não ser aquele que diz também: Minha falta, eu a conheço (Salmo L, 5)?
Sto Agostinho.
Fonte: Montfort

You are my God - Tony Melendez

domingo, 1 de janeiro de 2012

"Há mais saliva que sangue..."


"Cuidemos de que as obras não sejam apenas folhagem seca, sem seiva, sem o humilde afundamento das raízes na terra, que é penhor realista de todos os sonhos de maturidade dos frutos. O brado audaz da assembléia pública perde-se no ar viciado se não for acompanhado da oração silenciosa de quem o lança, oração secreta no segredo do seu quarto. A multiplicidade dos trabalhos apostólicos e das obras de caridade pode vir a ser um ornamento vão, mesmo uma ilusão, sem a corrente oculta de vida que só em Deus se encontra (...) a falta de eco da voz dos cristãos e os seus fracassos, devem-se ao fato de bradarem para fora em vez de clamarem para dentro (...) como disse Thibon: No mundo atual, há mais saliva que sangue."
  
(Por um cartuxo anônimo)

The silly's poetry



E chega o dia em que tu olhas ao redor
E já não há quem note o rasgo no teu peito
Todos sabem bem de cor os teus defeitos
E o teu valor, qualquer que houvesse, evaporou

Um abismo te rodeia, vala imensa
Dá a certeza firme de que estás sozinho
Insuspeitada a aridez deste caminho
Irrespirável é o que sobrou da tua ofensa

E andas nú, a caminhar com o peito aberto
E tens vergonha de olhar o céu tão alto
E para baixo vão teus olhos, derrubados
Nesta dura frustração do desacerto

Só querias agir bem, fazer o certo
Mas lembraste de ti mesmo; foi teu fim
E agora tu não passas de um ruim
E pra ti mesmo, vais a um passo do inferno

Teu alento, se é que o há, é o mistério
Misericórdia que se alheia a todo cálculo
Na total desproporção com o mensurável
Permanece a inconcussa luz do Eterno.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Com vocês, uma das minhas queridas - Brooke Fraser


A dor humana após a Cruz


"Desde então (desde a Cruz), toda dor sofrida por um cristão está liberada desse terrificante Indefinido, desse insondável vinco do sofrimento que devia, antes, torná-la tão terrível, e que a torna ainda tal aos olhos dos descrentes que, para não vê-la, precipitam-se na morte. A doutrina católica circunscreve toda a possibilidade da dor humana nos intransponíveis limites de uma Dor divina, absoluta e sinteticamente perfeita. E, como essa Dor é o contrário de uma prodigiosa prevaricação - posto que se tratava de remediar, sem destruir a liberdade do homem -, torna-se evidente que ela não podia realmente se produzir senão com o acompanhamento do perpétuo entusiasmo de um amor sem limites. É o que a linguagem católica chama, energicamente, de a Loucura da Cruz."

Léon Bloy