domingo, 28 de fevereiro de 2016

Cremos em Jesus por Ele mesmo


"É verdade que há uma sabedoria humana que todos os grandes sábios procuraram purificar. Há certa pureza em Buda, em Confúcio e em Sócrates, mas Jesus é o Filho de Deus: é outra coisa. Os outros falaram; Ele é. Não é somente por aquilo que Ele diz que o seguimos; é por Ele mesmo. Não somos apenas os discípulos dos seus ensinamentos, mas da sua pessoa. Quando dizemos que cremos nele, isso não quer dizer unicamente que julgamos justas as idéias que propõe, mas que o julgamos, a Ele, à sua pessoa, o ser mais amável e o único fim do Homem. Ama-se a Jesus, acredita-se nele, prendemo-nos a Ele; ser cristão é estar invadido até às raízes do próprio ser pela sua pessoa viva..."

Pe Jacques Laclercq

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Vivem como que esperando e não esperam nada


"Quase todos os homens vivem num nevoeiro, perseguem objetivos imediatos que saem por um instante da bruma, esse bem que convém adquirir, aquele lugar entre os seus semelhantes, tal prazer; quando atingem um deles, surge outro da bruma, e, assim, vão como à deriva oscilando e objetivo imediato em objetivo imediato, sem uma linha de vida.

Não têm idéia clara da hierarquia dos valores. Não há um que seja o fim a que os outros se deverão ordenar. Ou, então, põem o fim num bem temporal, um Homem, uma mulher, o dinheiro, a Pátria.

E muitos estão como numa sala de espera em que não esperam nada. Estão na vida sem se terem perguntado porquê; vivem porque estão na vida; obedecem ao instinto obscuro que se agarra à vida. Mas, não têm nada a fazer dela.

Vivendo em presente, tratam de estar o melhor ou o menos mal possível. Trabalham se é necessário para viver: senão, não fazem nada. Prevêem na medida de alguns fins imediatos. Quanto à morte, evitam pensar nela e permanecem na vida porque estão como que esperando e não esperam nada.

Isto é o que provoca o tom cinzento geral da vida. A maior parte dos homens tem pouca alegria; o máximo que obtêm é uma espécie de ausência de dor sofregamente conservada. Nada mais instrutivo do que passar entre pessoas que se divertem, ver a expressão dos seus rostos e ouvir as suas reflexões.

Dizem-nos especialmente que para se divertir bem numa reunião alegre é preciso beber um bocado de maneira que a cabeça não esteja totalmente firme.

A sua vida é um torpor habitual de que só saem sob o influxo da necessidade ou da paixão.

Aliás, nada há de tão triste como ver que pouca gente é feliz. Quando, afinal, a felicidade está ao alcance da mão e à vista, na Natureza e em nós mesmos. Regnum Dei intra vos est."

Pe Jacques Leclercq

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Satanismo inconsciente


René Guénon

Mas voltemos para o que chamamos o satanismo inconsciente, e, para evitar todo engano, digamos primeiro que um satanismo deste gênero pode ser puramente mental e teórico, sem implicar nenhuma tentativa de entrar em relação com entidades quaisquer, cuja existência, em muitos casos, nem sequer se considera. É neste sentido como se pode, por exemplo, considerar como satânica, em uma certa medida, toda teoria que desfigura notavelmente a idéia da Divindade; e seria mister aqui colocar em primeiro lugar as concepções de um Deus que evolui e as de um Deus limitado;além disso, umas não são mais que um caso particular das outras, já que, para supor que um ser pode evoluir, é mister evidentemente lhe conceber como limitado; dizemos um ser, já que Deus, nestas condições, não é o Ser universal, mas sim um ser particular e individual, e isso não se dá sem um certo "pluralismo" onde o Ser, no sentido metafísico, não poderia encontrar lugar. Mais ou menos abertamente, todo "imanentismo" submete a Divindade ao devir; isso pode não ser visível nas formas mais antigas, como o panteísmo de Spinozaz, e talvez esta consequência seja inclusive contrária às intenções deste; mas, em todo caso, está muito claro a partir de Hegel, quer dizer, em suma, desde que o evolucionismo surgiu, e, em nossos dias, as concepções dos modernistas são particularmente significativas sob esta relação. Quanto à idéia de um Deus limitado, tem também, na época atual, muitos partidários declarados, seja em seitas como essas das quais falamos no final do capítulo precedente (os mórmons chegam até a sustentar que Deus é um ser corporal, a quem atribuem como residência um lugar definido, um planeta imaginário chamado "Colob"), seja em algumas correntes do pensamento filosófico, do "personalismo" de Renouvier até as concepções de William James, que o novelista Wells se esforça em popularizar. Renouvier negava o Infinito metafísico porque lhe confundia com o pseudo-infinito matemático; para James, a coisa é diferente, e sua teoria tem seu ponto de partida em um "moralismo" muito anglo-saxão: é mais vantajoso, do ponto de vista sentimental, representar Deus à maneira de um indivíduo que tem qualidades (no sentido moral) comparáveis às nossas; assim, é esta concepção antropomórfica a qual deve se ter por verdadeira, segundo a atitude "pragmatista" que consiste essencialmente em substituir a verdade pela utilidade (moral ou material); e além disso, James, conforme às tendências do espírito protestante, confunde a religião com a simples religiosidade, quer dizer, que não vê nela nada mais que o elemento sentimental.

Mas há outra coisa mais grave ainda no caso de James, e é sobretudo o que nos faz pronunciar a seu propósito esta palavra de "satanismo inconsciente", que, parece, indignou tão vivamente a alguns de seus admiradores, particularmente nos meios protestantes cuja mentalidade está inteiramente disposta a receber semelhantes concepções: é a sua teoria da "experiência religiosa", que lhe faz ver no "subconsciente" o meio para que o homem fique em comunicação efetiva com o Divino; daí a aprovar as práticas do espiritismo, a lhes conferir um caráter eminentemente religioso, e a considerar os médiuns como os instrumentos por excelência desta comunicação, há de se convir, não havia mais que um passo. Entre elementos bastante diversos, o "subconsciente" contém incontestavelmente tudo o que, na individualidade humana, constitui os rastros ou os vestígios dos estados inferiores do ser, e aquilo com o que põe ao homem em comunicação é certamente tudo o que, em nosso mundo, representa a esses mesmos estados inferiores. Assim, pretender que isso é uma comunicação com o Divino é verdadeiramente colocar a Deus nos estados inferiores do ser, in infieris no sentido literal desta expressão; assim, trata-se de uma doutrina propriamente "infernal", uma inversão da ordem universal, e isso é precisamente o que chamamos "satanismo"; mas, como está claro que não é querido expressamente e que os que emitem ou aceitam tais teorias não se dão conta de sua gravidade, não é mais que satanismo inconsciente. (...) Conforme a inversão seja intencional ou não, o satanismo pode ser consciente ou inconsciente.

René Guénon, A questão do satanismo. O erro espírita.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Qualidades para a gravidade do pecado


As condições para que um pecado possa ser qualificado como mortal ou venial são três: Matéria, Consciência e Liberdade. Explico:

A Matéria é a situação específica, se foi grave ou não, se se roubou ou se se mentiu, se houve ou não agravantes, etc. Assim, uma mentira pode ser venial ou mortal a depender das circunstâncias ou das consequências. Tais circunstâncias ou consequências são agravantes. Uma coisa é mentir a idade apenas por vaidade; outra é menti-la para que se obtenha um benefício, como um emprego; outra, ainda, é dissimulá-la a fim de isentar-se de um serviço obrigatório.

A consciência é naturalmente a auto-percepção de estar a fazer algo errado. Um ato errado sem consciência obviamente não pode ser culpabilizado. Se eu aperto um botão crendo que ele irá libertar animais presos, e, no entanto, o que ele faz é detonar uma bomba numa escola infantil, eu não posso ser culpado pelas consequências uma vez que não tinha consciência delas. Óbvio que se pode aqui questionar se tal ignorância é ou não culpável. Isto envolve um outro exame. Mas, a rigor, se faltou consciência, a culpa não pode ser aplicada. É o caso de pessoas que se casam e, depois de muitos anos, percebem que são parentes de primeiro grau. Neste caso, a culpa não lhes é imputada.

Por fim, a liberdade é a livre decisão de fazer ou não o ato referido. Roubar é errado. Porém, a gravidade da fome ou da pobreza dos parentes pode minorar - sem tornar lícito, frise-se - este ato. Do mesmo modo, certas compulsões mentais tiram ao sujeito a liberdade de agir de um modo diferente. A necessidade do ato torna-o, novamente, isento de culpa, ainda que a pessoa tivesse consciência da imoralidade do feito. Suponhamos ainda que alguém tem fobia por aranhas e está num hospital de idosos em que o silêncio é necessário. Ao ver o objeto temido, a descarga de ansiedade lhe faz gritar, e isto causa um incômodo considerável nos velhinhos, fazendo inclusive com que alguns precisem ser atendidos. Se estava em posse da pessoa não gritar, o fato de ter gritado torna-se culpável. Mas se não lhe era possível não fazê-lo, então ela não pode ser responsabilizada. Deve ser, obviamente, retirada do ambiente, mas não tem culpa. Algo similar ocorre com a blasfêmia: se feita livremente, é pecado gravíssimo. Se feita num momento de crise, a culpa pode ser minorada. Se feita porque alguém nos pôs uma arma na cabeça e ameaçou disparar se não blasfemássemos, a culpa poderá ser até nula.

Há, porém, um outro componente que julgo importante constar para que se avalie a moralidade de uma ação: é a intenção. Uma pessoa pode ter consciência de que um ato é mau, pode estar livre para fazê-lo, pode querer fazê-lo, mas ainda assim pode ter uma intenção que não é má. É o caso, por exemplo, de quem, conhecendo as regras da Igreja sobre o estado de graça necessário à comunhão, decide, num momento de inspiração, arriscar, fazer um ato de confiança cega na misericórdia divina, e tomar a santíssima espécie. Esta situação parece mais frequente do que se imagina. É claro que isto não a isenta da gravidade do ato, mas consideremos que uma coisa é que ela vá a comungar com a intenção de cometer um sacrilégio, e outra, muito diferente, é a de que esteja a fazer um ato extremado de Fé. Vê-se como a intenção é importante para uma justa avaliação dos atos. E os santos insistem particularmente nisto: a pureza de intenção. Pode-se, porém, esclarecer que, no exemplo citado, a consciência da pessoa está reduzida, uma vez que, embora conheça os ditames da Igreja, parece neles não confiar de todo, o que implica uma falta de consciência. Assim, nos casos em que a intenção é boa mas a ação não o é, tem-se um caso de ignorância, e, como dissemos, há que se investigar as causas desse defeito para se descubra se há culpa pessoal nisso ou não. Assim, embora a intenção só não seja suficiente para a moralidade de um ato, ela tampouco é dispensável.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O ateísmo é uma solução simplista.


Meu argumento contra Deus era o de que o universo parecia injusto e cruel. No entanto, de onde eu tirara essa idéia de justo e injusto? Um homem não diz que uma linha é torta se não souber o que é uma linha reta. Com o que eu comparava o universo quando o chamava de injusto? Se o espetáculo inteiro era ruim do começo ao fim, como é que eu, fazendo parte dele, podia ter uma reação assim tão violenta? Um homem sente o corpo molhado quando entra na água porque não é um animal aquático; um peixe não se sente assim. É claro que eu poderia ter desistido da minha idéia de justiça dizendo que ela não passava de uma idéia particular minha. Se procedesse assim, porém, meu argumento contra Deus também desmoronaria - pois depende da premissa de que o mundo é realmente injusto, e não de que simplesmente não agrada aos meus caprichos pessoais. Assim, no próprio ato de tentar provar que Deus não existe - ou, por outra, que a realidade como um todo não tem sentido -, vi-me forçado a admitir que uma parte da realidade - a saber, minha idéia de justiça - tem sentido, sim. Ou seja, o ateísmo é uma solução simplista. Se o universo inteiro não tivesse sentido, nunca perceberíamos que ele não tem sentido - do mesmo modo que, se não existisse luz no universo e as criaturas não tivessem olhos, nunca nos saberíamos imersos na escuridão. A própria palavra escuridão não teria significado.

C. S. Lewis. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2013. p.53-54.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

As preocupações do homem fútil são como teias de aranha


"Apesar de sua aparente consistência, a teia de aranha desfaz-se e desaparece ao mais leve toque da mão. Assim, a vida do homem implicado nas preocupações fúteis - como se se tratasse de fios suspensos no ar - tece inutilmente sua teia inconsistente; basta submetê-la a um questionamento mais sistemático, e a frívola preocupação escapa à prisão e desaparece.

Tudo o que se persegue nesta vida só existe na opinião e não na realidade: a honra, a dignidade, a glória, a fortuna e tudo aquilo a que se dedicam as aranhas da vida...

Aqueles que sobem em direção aos cimos escapam com a leveza de seu vôo às tramas das aranhas do mundo; pelo contrário, aqueles que, à semelhança das moscas, são pesados e desprovidos de energia, permanecem grudados aos viscos da vida, estão presos e acorrentados como que por redes às honras, prazeres, elogios e múltiplos desejos, tornando-se assim a presa da Besta que procura capturá-los."

São Gregório de Nissa

terça-feira, 14 de julho de 2015

O desejo do céu é subjacente a todas as experiências da vida


O que vou dizer agora é apenas uma opinião pessoal, sem o menor resquício de autoridade, e submeto-a ao juízo de cristãos e de estudiosos melhores que eu. Momentos houve em que achei que não queríamos o céu, porém, com mais frequência pego-me pensando se, bem lá no fundo do coração, alguma vez desejamos algo mais. Você pode ter notado que os livros que realmente ama estão ligados por um fio secreto. Você sabe muito bem qual a qualidade comum que o faz amá-los, embora não possa traduzi-la em palavras, mas a maioria de seus amigos não a percebe absolutamente e por vezes indagam por que, gostando disso, você deveria também gostar daquilo. Você com certeza já esteve diante de uma paisagem que parecia incorporar algo que você procurou por toda a vida e então voltou-se para o amigo ao seu lado, que parecia estar vendo o mesmo que você via, mas, às primeiras palavras, um abismo se abriu entre os dois, e você percebe que aquela paisagem significava algo totalmente diferente para ele, que estava em busca apenas de uma vista exótica, pouco lhe importando a sugestão inefável pela qual você foi arrebatado. Até mesmo em seus passatempos, será que não houve sempre alguma atração secreta - que outros curiosamente ignoram e com que não se identificam -, porém sempre prestes a se insinuar: o cheiro de madeira cortada na oficina ou o som da água batendo contra o casco do barco? 

Será que as amizades que duram a vida toda não nascem no momento em que você finalmente encontra outro ser humano que tenha alguma noção (embora tênue e incerta, mesmo no melhor dos casos) daquilo que você nasceu desejando e que, sob o fluxo de outros desejos e em todos os silêncios momentâneos entre as paixões mais estrondosas, noite e dia, ano após ano, da infância até a velhice, você procura, espera e ouve? Você nunca teve isso. Todas as coisas que sempre lhe dominaram profundamente a alma não foram senão indícios disso - vislumbres sedutores, promessas nunca de todo cumpridas, ecos que morreram tão logo lhe alcançaram os ouvidos. Se isso, contudo, realmente se tornasse manifesto; se alguma vez viesse um eco que não morresse, mas tomasse corpo no próprio som, você o saberia. Além de toda possibilidade de dúvida, você diria: "Eis enfim aquilo para o que fui feito". Não podemos falar sobre isso aos outros. É a assinatura secreta de cada alma, o anseio incomunicável e insaciável, a coisa que almejamos antes de encontrar nossa mulher, de conhecer nossos amigos ou de escolher nosso trabalho, que iremos ainda desejar em nosso leito de morte, quando a mente não reconhecer mais nem esposa, nem amigo, nem trabalho. Enquanto existirmos, estará lá. Se perdemos isso, perdemos tudo.

(...) Em toda a sua vida, um êxtase inatingível tem pairado um pouco além do alcance de sua consciência. Perto está o dia em que você despertará para descobrir, além de toda a esperança, que você havia atingido o céu ou então que ele estava ao seu alcance, e você o perdeu para sempre.

C. S. Lewis, O problema do sofrimento. Cap. 10: O céu.