domingo, 24 de julho de 2011

Monges Trapistas em Oração



Era noite negra; à altura de um primeiro andar, um olho de boi aberto na parede da igreja furava as trevas com uma lua vermelha.

Durtal deu algumas tragadas num cigarro, depois se dirigiu à capela. Girou devagar a maçaneta da porta; o vestíbulo onde penetrava era escuro, mas a rotunda, embora vazia, estava iluminada por diversas lamparinas.

Deu um passo, fez o sinal da cruz e recuou, pois acabava de topar com um corpo; olhou a seus pés.

Estava entrando num campo de batalha.

Pelo chão, formas humanas deitadas em atitudes de combatentes metralhados; umas de bruços, outras de joelhos; estas, agachadas com as mãos no chão, como atingidas nas costas, aquelas estendidas com os dedos crispados sobre o peito, e aqueloutras segurando a cabeça ou estendendo os braços.

E desses grupos de agonizantes não se elevava nenhum gemido, nenhum lamento.

Durtal contemplava, estupefato, esse massacre de monges; e logo ficou boquiaberto. Uma faixa de luz caía de uma lamparina que o velho sacristão acabava de deslocar na rotunda e, atravessando o pórtico, iluminava um monge de joelhos diante do altar dedicado à Virgem.

Era um velhinho de mais de oitenta anos; estava imóvel como uma estátua, de olhos fixos, debruçado num tal ímpeto de adoração, que todas as figuras extasiadas dos Primitivos pareciam, perto da dele, forçadas e frias.

A máscara era, porém, vulgar; o crânio rapado, sem coroa, queimado por todos os sóis e por todas as chuvas, tinha cor de tijolo; os olhos velados, cobertos de belida pela idade; o rosto vincado, enrugado, costurado como um velho buxo, se fincava num matagal de pelos brancos, e o nariz um pouco achatado acabava de tornar particularmente comum o conjunto desse rosto.

E saía, não dos olhos, não da boca, mas de toda parte e de parte nenhuma, uma espécie de angelidade que se irradiava sobre essa cabeça, que envolvia todo aquele pobre corpo curvado num monte de trapos.

Naquele velhinho, a alma nem se dava ao trabalho de reformar a fisionomia, de enobrecê-la; contentava-se em aniquilá-la, radiante; era, por assim dizer, o nimbo dos velhos santos, que não mais permanecia ao redor da cabeça, mas se estendia sobre todos os seus traços, banhando, empalidecido, quase invisível, todo o seu ser.

E ele não via nem ouvia nada; monges arrastavam-se de joelhos, vinham para se aquecer, para se abrigar junto dele e ele não se mexia, mudo e surdo, rígido o bastante para que fosse possível crer que estivesse morto, se, por um momento, o lábio inferior não se tivesse mexido, erguendo nesse movimento sua grande barba.

O amanhecer embranqueceu os vitrais e, na escuridão que começava a se dissipar, os outros irmãos se mostraram por sua vez a Durtal; todos esses feridos do amor divino rezavam fervorosamente, saltando para fora de si mesmos, sem ruído, diante do altar. Havia alguns, muito jovens, de joelhos e de tronco erguido, outros, de pupilas em êxtase, dobrados para trás e sentados sobre os calcanhares, outros ainda percorriam o caminho da cruz e muitas vezes se colocavam uns diante dos outros, cara a cara e se olhavam sem se ver, com olhos de cegos.

E entre esses conversos, alguns padres, enterrados em suas grandes cogulas brancas, jaziam, prosternados, beijavam o chão.

Ah! Rezar, rezar como esses monges, exclamou Durtal.

Sentia o seu infeliz ser se distender; nessa atmosfera de santidade, ele se soltou e se agachou sobre as lajes, pedindo humildemente perdão a Deus por sujar com sua presença a pureza daquele lugar.

E rezou demoradamente, abrindo-se pela primeira vez, reconhecendo-se tão indigno, tão vil, que não conseguia entender como, apesar de sua misericórdia, o Senhor o tolerava no pequeno círculo de seus eleitos; ele se examinou, viu claro, confessou ser inferior ao último desses conversos que talvez sequer soubesse ler um livro, compreendeu que a cultura do espírito não era nada e a cultura da alma tudo, e pouco a pouco, sem se dar conta, pensando apenas em balbuciar ações de graças, desapareceu da capela, com a alma levada pela dos outros, fora do mundo, longe de seu cemitério, longe de seu corpo.

(Joris-Karl Huysmans, En route, Paris, Plon, pp. 210-212)

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Angel - Uma bela música

"Busquem a Deus, pois Ele já nos buscou"


"Busquem a Deus, pois Ele já nos buscou. Só precisamos dar o nosso sim, como a Virgem Maria. E deste sim, deste único sim, depende a nossa felicidade"

Ir. Kelly Patrícia

A conversão católica não é malandragem


No sítio "Mídia Sem Máscara", acompanhando esta polêmica entre o Prof. Olavo de Carvalho e o Prof. Carlos Nougué, fui lendo os comentários, e encontrei este, proveniente de uma certa Adriana, e que expressa com termos vivos a veracidade de uma conversão católica. Escreve ela em resposta a uma outra lá:

"Você demonstra não fazer idéia, não ter noção do que implica o processo de conversão católica. Seu desrespeito é apenas consequência de sua ignorância sobre este processo que exige crítica profunda a si mesmo, às condutas de toda uma vida.

Quando agradecemos a alguém, no caso aqui ao Olavo de Carvalho, pelo incentivo à nossa conversão, significa dizer que através da força de suas exposições, iniciamos um processo profundo de autocrítica e revisão global de nossas almas. Muita gente passa anos na cadeira de um analista apenas adquirindo ferramentas de desculpabilização de suas responsabilidades. Quando aparece alguém que é capaz de nos colocar diante de nós mesmos e encarar nossa feiúra, ahh, sem dúvida temos o dever de reconhecer um feito como esse!

Então, conversão católica é coisa pra gente corajosa, honesta e sinceramente ocupada com o bem do outro. Não é seita, não é malandragem, não é empreitada para quem tem pouco amor no coração, nem tão pouco para quem tem preguiça. Muito menos também, para quem só enxerga o mundo através de um olhar sem profundidade. A busca pela superação dos desafios internos e pela razão das coisas são requisitos necessários para esta tomada de decisão pessoal e única."

Disponível aqui

E é isso aí mesmo. Acrescento somente que tudo isto só se torna possível porque Nosso Senhor vai conosco. Sem Ele, nada podemos.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Conhecer a Jesus só é possível se Ele se revela


"Buscai o Senhor enquanto Ele se deixa encontrar" (Is 55,6)

Os que criticam a Nosso Senhor e lhe negam total adesão da vida, afirmando que talvez Ele não queira isso, pecam sempre por simplismo, seja já na interpretação da religião, seja também na suposição de conhecê-Lo bem, assim, simplesmente olhando de longe e fazendo breves meditações a respeito. Porém, Cristo não é um objeto inerte e pequeno que se consegue abarcar assim, de uma olhadela. É, primeiramente, Alguém que Se revela, quando encontra, no que O busca, as devidas disposições que são sempre o esvaziamento das próprias reservas e subtefúrgios para não aderir, como a radical sede de verdade. Depois, Nosso Senhor é inesgotável. Toda uma vida não será suficiente para conhecê-Lo em absoluto. Podemos, porém, começar a fazê-lo e, então, encontraremos tanta riqueza como sequer supúnhamos. Se dizemos que algo deve ser muito grande para sinceramente nos satisfazer de todo, Nosso Senhor torna nossa ressalva risível, porque Ele superabunda absolutamente e infinitamente o que esperamos que seja e, como se não bastasse, embora digamos que nossas exigências são altas, é Ele quem nos alarga ainda mais a alma para que possamos, sempre um pouco mais, fruir de Sua Majestade, aumentando-nos, para tal, a nossa capacidade de autêntica alegria.

Para conhecer a Nosso Senhor, não basta olhá-Lo, assim, de longe, e ensaiar uma tímida interpretação sobre o que Ele seja ou sobre o que d'Ele pensam os religiosos e espirituais. Querer conhecê-Lo sem abandonar-se e, portanto, sem expôr-se, é perpetuar a nossa desconfiança e manter os estreitos limites do nosso baixo horizonte. Se no amor humano, exige-se a total entrega, muito mais o será no amor divino. 

Para conhecê-Lo é preciso se deter n'Ele com a alma inteira, e passar tempo, e esfomear-se. Ele é como o Tesouro Escondido que não se revela se o homem não sai de sua casa. É preciso cavar, e é preciso cavar antes de que seja visto. Mas é como diz o Evangelho: "Se o homem o encontra, ainda que não tenha mais nada, é plenamente feliz". Outros olharão para este homem e o criticarão, rindo da sua pretensão de ter encontrado a Única pérola que realmente buscava. E dirão que são felizes com bijouterias.

É indigno buscar a Nosso Senhor sem abandonar, no processo, a si mesmo. 
"Aquele que põe a mão no arado e olha pra trás, não é digno de Mim".

Jesus é grande demais para caber num coração cheio de reservas. E, no entanto, é infinitamente paciente, e espera...



A Vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa Cruz sacrossanta descobertos:
Que para receber-me, estais abertos,
E, para não castigar-me, estais cravados.

A vós, olhos divinos eclipsados,
De tanto sangue e lágrimas cobertos,
Que, para perdoar-me, estais despertos.
E, por não devassar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não fugir-me,
A vós, cabeça baixa, por chamar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me;

A vós, lado patente, quero unir-me;
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme!

(Da "Floresta" do Pe. Manuel Bernardes)

Poesia tirada do blog Zelo Zelatus Sum

A religiosa medíocre


"O estado de uma religiosa medíocre me parece mais lamentável do que o de um malfeitor. O malfeitor pode converter-se e nasce pela segunda vez. A religiosa medíocre não poderá renascer. Nasceu e perdeu o nascimento. Salvo um milagre, será sempre um aborto"

Diálogo das Carmelitas.

domingo, 10 de julho de 2011

Francisco e a Pobreza


Enquanto viveu neste vale de lágrimas, o santo pai desprezou as míseras riquezas dos filhos dos homens e, ambicionando a mais alta glória, dedicou-se de todo coração à pobreza.

Vendo que era estimada pelo Filho de Deus e estava sendo desprezada por toda a terra, quis desposá-la com um amor eterno. Apaixonado por sua beleza e querendo unir-se mais estreitamente a sua esposa, como se fossem dois em um só espírito, abandonou não só pai e mãe mas tudo. Abraçou-a por isso em ternos abraços e não quis deixar de ser seu esposo em nenhum momento. Dizia a seus filhos que ela era o caminho da perfeição, o penhor e a garantia das riquezas eternas.

Jamais houve alguém tão ambicioso de ouro quanto ele de pobreza, e nunca houve guarda mais cuidadoso de um tesouro do que ele o foi da pérola evangélica. O que mais o ofendia era ver, dentro ou fora de casa, alguma coisa nos frades que fosse contrária à pobreza. Desde sua entrada na Ordem até à morte, sua única riqueza foram uma túnica, o cordão e as calças. Sua roupa pobre mostrava que riquezas estava amontoando. Por isso, alegre, seguro e livre para correr, tinha o prazer de ter trocado as riquezas que perecem pelo cêntuplo.  

Tomás de Celano, Segunda Vida de São Francisco, A Pobreza, Cap. 25. Louvor à Pobreza