terça-feira, 11 de outubro de 2011

The fisherman and the banker


An american banker was walking on a beautiful beach in a small Mexican village. He saw a fisherman in his boat with a few fish on it.

"Great fish!", he said. "How long did it take you to catch them?"

"Not very long", answered the fisherman.

"Why didn't you stay at sea longer to catch some more?", asked the banker.

"There are just enough fish here to feed my family", answered the Mexican.

Then the american asked: "But what do you do the rest of time?"

"I sleep late, I fish a little, I play with my kids, I have siestas. In the evening, I go to see my friends in the village. We drink wine and play the guitar. I'm busier than you think. Life here isn't as..."

The American interrupted him: "I have an MBA from Harvard University and I can help you. You're not fishing for longer periods of time, you'll get enough money from selling the fish to buy a bigger boat. Then with the money you'll get from catching and selling more fish, you could sell them directly to a fish factory, or even open your own factory. Then you'll be able to leave your little village for Mexico City and finally move to New York, where you could direct the company".

"How long will that take?", asked the Mexican.

"About 15 to 20 years", answered the banker.

"And then?"

"Then it gets more interesting", said the American, smiling and talking more quickly. "When the moment comes, you can put your company on the stock market and you will make millions."

"Millions? But then what?"

"Then you can retire, live in a small village by the sea, go to the beach, sleep late, play with your kids."

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O Sair de si mesmo e alguns paralelos da Escritura


Sigamos com a nossa exposição sobre o modo de lidar com as neuroses.

Compreendamos, primeiramente, que o desejo e o medo têm uma íntima relação, sendo este último basicamente um desejo de que algo não aconteça. Quando, por exemplo, nós temos medo de ir para o inferno - e realmente devemos temer isso -, o que na verdade estamos fazendo é desejando não ir ao inferno. Pois bem. 

O desejo é basicamente uma tensão da alma em direção a algo. Logo, o medo seria uma tensão da alma em direção oposta a algo. Se assim é, uma pessoa que se põe a desejar inúmeras coisas, como a temê-las também, viverá com a alma tensa. A tranquilidade, então, se faria quando tanto os desejos quanto os medos cessassem. Esta tranquilidade é fundamental para que o sujeito possa ter uma visão clara e objetiva das coisas. Diz Deus por meio de um salmista: "Cessai, e vede que eu sou Deus". Por "Cessai", Ele está dizendo: "Pare com essa tua busca desenfreada, com essa tua agitação, com esse drama das TUAS coisas e dos TEUS interesses.. Parai.. cessai.. e vede que sou Deus.". É interessante notar ainda outro episódio. 

Certa vez, Jesus estava com os discípulos no alto mar. Acontece que, de um lado, o mar estava revolto e ameaçava pela sua violência; do outro lado, Jesus dormia, rsrs... Com este fato, Jesus parece fazer uma troça das nossas agitações, do nosso esperneamento. Os apóstolos, porém, se viam na iminência da morte. Então, acordaram a Jesus, que, criticando-os pela falta de Fé, olhou, em seguida, para a tempestade e o furor das águas, e simplesmente disse: "silêncio..."

Quando as coisas se acalmaram, os apóstolos então puderam colocar a sua atenção em Jesus e fazer uma pergunta que os levaria a uma resposta importantíssima: "Quem é este que até o vento e o mar obedecem?" Eles chegariam, a partir desta questão, àquilo que concluiu o beato Tito de Brandsma: "tudo é bom perto de ti". Esta quietude que se estabeleceu é importante para que as coisas sejam bem vistas, e é este o estado de alma que Jesus pretendia que os seus discípulos assumissem, quando lhes disse: "Nada temam; creiam somente."

Sta Teresinha, discípula eminente do divino mestre, aprendeu a lição de modo perfeito, e por isso escreveu, fazendo uma menção com o episódio que relatamos acima: 

"Viver de amor quando Jesus dormita: 
eis o repouso entre os escarcéus. 
Jesus, não temas que eu te acorde aflita; 
espero em paz o alvorecer dos céus." 

A analogia com o aspecto neurótico é, aqui, por demais conveniente, pois, embora fosse evidente aos Apóstolos o fato de que estavam ameaçados, é claro que não havia, na verdade, nenhuma possibilidade de morrerem ou se machucarem, pois Jesus estava com eles. Só o notarão, porém, quando estabelecida a calmaria. 

A diferença aqui é que a tranquilidade é estabelecida pelo próprio Deus. Com relação à neurose, é óbvio que Nosso Senhor está a nos ajudar e quer, muito mais do que nós mesmos, que saiamos dessas armadilhas; porém, o passo decisivo é nosso.

Abordemos ainda outra passagem. Há uma ocasião em que Pedro se comporta basicamente como neurótico. De novo, eles estão num barco, e já são três horas da madrugada. Dessa vez, o mar não está agitado. Porém, Jesus aparece ao longe andando sobre as águas. A primeira reação dos Apóstolos é ficarem com medo e pensarem em fantasmas. Jesus, porém, lhes esclarece que era Ele. Escutando isso, Pedro toma uma resolução interessante: "Se és Tu, manda que eu vá ter contigo sobre as águas", ao que Jesus responde: "vem". Esta atitude de Pedro é importantíssima; porém, mal começa a dar passos, ele volta a olhar para as supostas evidências de perigo e começa a preocupar-se - é tipo o outro que sai da redoma pela primeira vez. Pedro desvia os seus olhos da Verdade e volta a acreditar somente nas próprias suposições, o que faz com que comece a afundar.

O que Jesus propõe, sempre e em todo o tempo, é que o sujeito abandone o limite estreito dos seus interesses e preocupações, isto é, dos seus desejos e medos, e se lance acima disso, abandonando-se a si mesmo. Se Pedro tivesse feito isto, não teria afundado.

Interessante também é o caso do rapaz que vai ter com Jesus a fim de saber o que deve fazer para ser salvo. Jesus lhe indica a prática dos mandamentos. Quando alguém obedece regras, isto significa que ele reconhece uma autoridade externa a si mesmo; já não vive apenas para o próprio umbigo. Isto é fundamental. No entanto, o rapaz responde que faz isto desde a juventude. Jesus então, olha-o, ama-o - isto é dito pelo Evangelista - e, por fim, diz: "se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres; depois, vem e segue-me." Obviamente, o que Jesus oferece, agora, é uma radicalização do "viver para Outro" que o rapaz já tinha iniciado na juventude. O problema é que, no caso do jovem, a prática dos mandamentos tinha sido adotada porque isto não lhe exigia ultrapassar a si mesmo. Era-lhe confortável, natural e ele não se sentia pressionado a, na prática, abandonar a si mesmo. Os mandamentos funcionavam como uma legitimação dele próprio, do seu modo de vida; como um espelho que lhe confirmava a própria beleza; como uma garantia de que ele valia alguma coisa. Porém, quando Jesus lhe pede segui-Lo na nudez do espírito, - e só o pediu porque o amou muito, reforcemos - o sujeito sentiu-se ameaçado e, simplesmente, hesitando deixar-se a si mesmo, volta para casa "triste, porque tinha muitos bens". Aqui está um segredo profundo: os muitos bens significam muitos cuidados e estes se inserem naquela estrutura de que falávamos no início: a satisfação de muitos desejos e a verificação constante de possíveis ameaças. A princípio, parece-nos que a posse de muitos bens seria causa de uma grande alegria. Este sujeito, porém, nos confirma a fragilidade de nossas suposições. A alegria, a liberdade parecem estar justamente no abandono de si mesmo em função de um Outro. Ávido, assim, de tantos bens, o sujeito não possui a clareza suficiente para enxergar as coisas de modo profundo. É por isto que S. Francisco de Assis exigia dos seus discípulos uma pobreza completa.

O problema aqui não está estritamente nos bens materiais. S. João da Cruz explicando esse tema da pobreza, diz mais ou menos o que segue: "os bens materiais, por serem exteriores à alma, nada podem fazer, por si mesmos, a ela. O que a enfeia e obscurece é o desejo e o apego que a eles ela investe." O apego, aqui, poderia ser entendido como um medo de deixá-las. Como vimos, este tipo de atitude aprisiona e faz que a pessoa permaneça limitada nos seus próprios interesses, sem abrir-se à Verdade maior.

Jesus, ao contrário, propõe um caminho de liberdade: "Negue-se a si mesmo e siga-me".

É preciso, portanto, transcender o limite dos próprios desejos e medos, e isto se faz por meio do abandono. Quem quer que viva assim, de modo correto, experimentará que sua alma retoma uma saúde que ela nem suspeitava que tinha. E se a pessoa se decide trilhar, de fato, a via da santidade, notará que sua vida vai rendendo, em satisfação, como que cem por um.

Se a neurose se caracteriza por uma proteção pessoal contra supostas ameaças, para desfazê-la, o sujeito deverá munir-se de uma absoluta confiança em algo fora de si. Porém, esta confiança não pode surgir do nada. É preciso adquiri-la e, para tal, o indivíduo terá de iniciar a prática do abandono, isto é, de sair de si e fazê-lo com gratuidade, sem esperar respostas imediatas. Apenas fazê-lo.

Quando uma pessoa vive somente de desejos e medos, ela faz com que sua alma esteja sempre tensa, como já dissemos, e tende a adquirir modos grosseiros, perdendo a sua delicadeza. Isto acontece porque, como ela pretende ser a garantia de seu próprio bem, toda ação da qual for sujeita se ordenará ou para agarrar (pegar por si mesmo) algo que considere um bem (que lhe possa causar prazer, o que é raiz do pecado), ou para afastar violentamente o que considere ser um mal (o que lhe cause desprazer), atitude que é a raiz da nossa dificuldade de aderir à virtude, à mortificação, aos sacrifícios, etc.

Agarrar e empurrar: eis a vida do neurótico. Ambas se caracterizam por movimentos bruscos. Como uma pessoa assim poderá amar profundamente, sendo o amor, basicamente, doação de si mesmo? Como poderá ter uma religiosidade profunda se esta supõe, sempre, amor a Deus e, portanto, abandono? Não é que lhe seja impossível amar ou ser religiosa; é que, para amar profundamente e ter uma religiosidade autêntica, ela terá de contrariar este seu hábito soberbo. A vivência de um amor autêntico, sobretudo com Deus, pode sim ensinar-lhe a dar este salto sobre si mesmo, ao ponto de oferecer-se inteiramente a um outro. A constituição de uma família, neste sentido, também é fundamental. Diz-se, por aí, que quando uma pessoa casa, ela muda pra melhor - em alguns casos sim, rs. E isto se dá porque, a partir do momento em que o sujeito deixa de pensar só em si, só na própria segurança, só no próprio gozo, e nota que os outros são realmente outros, e não objetos para aquisição de prazer, ele como que se reencontra consigo mesmo, e descobre o que significa ser um homem - um humano.

Sobre isso, escreve Thomas Merton: "fazer o bem e renunciar ao mal não é, ainda, a santidade. É tão somente o tornar-se homem. Um animal não pode ser um santo".

Ainda sobre estes modos bruscos do neurótico que se pretende a garantia de si mesmo, escreve S. João da Cruz que o santo deve passar por um longo processo de educação: "para que a delicadeza encontre a Delicadeza". Para encontrar-se com Nosso Senhor é preciso aprender a amar como Ele ama. É o que mais ou menos dizia Plotino: "para que nosso olho pudesse contemplar perfeitamente o sol, teria de tornar-se algo semelhante a ele. Assim, para contemplarmos a beleza, é forçoso que a nossa alma se torne, também, beleza".

Adão quis agarrar o fruto proibido e quis agarrar a condição de ser igual a Deus. É basicamente esta atitude que reside no íntimo de cada alma humana e que é causa de toda rebelião contra Deus, isto é, contra a verdade; é a raiz de toda auto-suficiência, de toda recusa da gratuidade, de toda recusa da confiança num Outro e, portanto, de todo pecado e de todo desamor. O que é o pecado senão um agarrar, de modo ilegítimo e grosseiro, um prazer? O que é o pecado senão uma satisfação bruta do próprio egoísmo? E é justamente este egoísmo que, rebelando-se contra a verdade, confecciona os medos imaginários.

Sobre isto, escreve o Apóstolo S. João: "onde há medo, o amor não é perfeito". Pensem nisso... Abandonem a si mesmos; arrisquem-se. Diz Jesus aos que ficam temerosos: "os pardais não ajuntam em celeiros; no entanto, embora sejam tantos, Deus os alimenta. Os lírios não tecem nem fiam; no entanto, embora sejam tantos e de tão curta duração, Deus os veste de modo mais belo do que qualquer rei jamais conseguiu se enfeitar. Acordem: vocês valem mais que pássaros; vocês valem mais que lírios..."

Por fim, Nosso Senhor, embora seja Deus, está tão sedento do nosso bem que Ele praticamente apela: "Se não credes pelas minhas palavras, crede pelo menos ao verdes as obras que eu faço..." e ainda "a obra de meu Pai é que vocês creiam nAquele que Ele enviou".

---

Neste post, não abordei exatamente o que prometi no último, mas penso que estes paralelos com ensinamentos de Nosso Senhor sejam luminosos para nos fazer entender a natureza de tudo isto, conforme havia dito o Apóstolo João: "Ele é a Luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem".

Pax.

Fábio

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Lidando com as Neuroses - Um aventurar-se e o contato com os primeiros lampejos de luz


Continuemos, então, a nossa exposição sobre a natureza das neuroses. Dizíamos, no último artigo a respeito, que ela se configura como um medo exagerado de que algo nos cause desprazer. Ela surge por vezes quando, intentando alcançar um certo ideal, nos tornamos, a partir daí, excessivamente temerosos com o que pode dar errado, compondo, para tal, inúmeros fantasmas e nos assustando com eles. Notem que o fato de criar estes fantasmas se deve, não a um prazer de se passar a perna em si mesmo, senão ao contrário, a uma busca exagerada e frenética de isentar-se de toda e qualquer ameaça. A pessoa age como se estivesse num ninho, onde respira com dificuldades, e a todo momento fica checando se algum inimigo conseguiu se infiltrar na sua fortaleza. Essa questão da verificação é bastante característica e é o que origina certos hábitos repetitivos, certos rituais obsessivos. 

Esse indivíduo, enquanto estiver sendo uma marionete de seus desejos e medos, se verá coibido e privado de exercer seu potencial. É irônico isso: seus medos se levantam numa tentativa de garantir a realização do desejo da pessoa e, no entanto, são eles que sacaneiam tudo. Ela se coloca sob uma redoma que, ao mesmo tempo que tenta cumprir o objetivo de lhe proteger, limita também o seu passo e, obviamente, a sua visão. Enquanto não anda, a sua perspectiva tende a ser sempre a mesma. Assim, parado, a única coisa boa que pode se motivar a fazer é reunir coragem para sair de sua pequena prisão. Agora, notem essa relação: a redoma existe para ele como garantia de segurança e de vida. Sair dela é como expor-se, como desproteger-se; não poderia fazê-lo sem auto-violência. Quando, porém, se decide a arriscar-se, é como se uma luz incidisse sobre este sujeito e o seu coração retomasse um pouco de vida. No ato de abandonar sua casca, ele passa a praticar o preceito evangélico: "quem perder a sua vida, vai ganhá-la" e ainda "o prêmio é dado aos violentos". Eis, portanto, o caminho por onde o sujeito deve trilhar. Essa retomada da vida é um negócio por demais claro. Não é preciso fazer nenhum esforço para, se alcançar este estágio, a pessoa sentir a alegria de uma criança diante de um presente de aniversário. No entanto, a sua soberba é que é lasca: mal sinta a alegria, lá está a pessoa fazendo todo tipo de estratégia para se apossar daquilo, rsrs.. Nós somos uma porcaria mesmo. kkk Continuemos.

Dissemos que estas atitudes covardes se tornam um hábito. O neurótico deverá, portanto, habituar-se a fazer disso - o abandono de si - o seu agir natural, o que não quer dizer que deva ser precipitado. De início, isto pode acontecer, pela falta de tato. Mas é possível perceber, uma vez livre da prisão, a diferença entre as situações que trazem um padrão potencialmente neurótico das outras com as quais o sujeito pode lidar com neutralidade. O objetivo é fazer com que todas as situações sejam tratadas dessa segunda forma.

Porém, retomemos esta questão. O sujeito que renuncia o passo, temeroso de se machucar com qualquer coisa, terá obviamente a sua interpretação das coisas muito limitada. Como tende a descontextualizar o objeto supostamente ameaçador e a considerá-lo com lente de aumento, é óbvio que não estará em condições de, permanecendo do mesmo jeito, elaborar uma estratégia objetiva. Na verdade, o que poderá e deverá fazer é perceber que a sua neurose sempre se dá por meio de suposição, verificação e previsão. Se tal é o caso, o sujeito deve se convencer a, uma vez reconhecido o caráter padrão de seus medos, assumir um absoluto ceticismo quanto a eles. Se toda vez que a pessoa supõe, essa suposição é viciada, então duvide desse negócio, oras. Ainda que seus fantasmas lhe pareçam evidentes, deverá aprender, não sem boas doses de angústias no início, a ficar indiferente e duvidar sempre de si mesmo.

E aqui convém entender o seguinte: como o neurótico está acostumado a fazer todo tipo de previsão com base no que sente no momento atual, supondo que aquela disposição neurótica tende a permanecer, ele não está muito habituado a dar passos sucessivos se não vê, logo nos primeiros, algum resultado. Portanto, se o sujeito por acaso resolve-se a dar uma saída da sua redoma e, ao fazê-lo, não nota de imediato que a sua angústia se foi, tenderá a voltar. Só que as coisas não funcionam assim. Como a neurose causa angústia e cansaço, estes tendem a permanecer durante um tempo, mesmo depois que a pessoa cessou de alimentá-los. É como um rapaz que nunca tenha saído na rua, com medo do barulho dos carros. Na primeira vez que se aventurar, isto não significa que desde o seu primeiro contato com os automóveis ele estará totalmente tranquilo. Este estado de calma só virá com um certo tempo, seja pela constatação de que, na verdade, não há perigo algum, seja porque o sujeito deixou de imaginar situações assustadoras infundadas.

A neurose, portanto, tem essa "inércia", isto é, tende a manter a angústia durante um certo tempo, mesmo quando se optou por não mais ceder às suas ludibriações. No entanto, se o sujeito persevera, antes expondo-se do que escondendo-se, não tardará por sentir uma estranha espécie de paz interior - aqui é que tá a festa do negócio - e o seu ambiente exterior parecerá, de repente, tomado de uma luz mais viva. De repente, o mundo parece um pouco mais amplo e mais belo e se insinua, no fundo da sua alma, um tipo de despreocupação que já era esquecida e que, se perseverar - e há uma certa esperança - será suficiente para que este sujeito, depois de ter sofrido tanto, possa viver com tranquilidade e felicidade. Mal sabe o sujeito que isto é só o início de uma liberdade muito maior. No entanto, é também só o início dos seus combates; atá agora não tinha lutado, mas tão somente dançado a música da própria soberba. Como já o dissemos, é preciso adquirir esse hábito. E muitas vezes a pessoa tenderá a cair, de novo, na própria armadilha.

Porém, se alcançar este primeiro estado de liberdade, este encontro com um raiozinho de sol, a primeira coisa que o neurótico fará é garantir-se desesperadamente de não esquecer o método. E aí, ele fica obcecado pelo caminho que o levou até lá, e, de novo, cai na própria armadilha, porque se fecha, novamente, em si mesmo. O método se torna outra redoma e pode se insinuar na sua alma, posteriormente, o medo de que não seja possível, em algum momento, praticar o que aprendeu. A atitude dele se torna muito semelhante ao que era antes de arriscar-se. Está, de novo, fazendo planos para se defender, e enquanto estiver obcecado pelo método terá, também, os olhos constantemente voltado para os seus medos. 

A este respeito, há um preceito muito interessante no zen que diz: "aprenda o método; esqueça o método". É que o neurótico encontrou uma outra segurança e se aferrou como um náufrago que descobriu qualquer suporte que o impedisse de afundar. Porém, daí a voltar à atitude fundamental de soberba é um passo. Terá de aprender, de novo, a abandonar-se. Por isto que é importante, uma vez aprendido e assimilado o método, esquecê-lo, pois a sua constante lembrança implica, também, em manter distintas as ameaças que o próprio indivíduo criara. Não é por aí.

Outra coisa: dissemos que a neurose geralmente se fixa em situações particulares. No entanto, se o indivíduo arma-se de coragem e a enfrenta - ainda não dissemos claramente o modo de enfrentá-la - e resiste também ao "tempo de inércia", a defesa exagerada se desvincula daquela situação que, de repente, já não parece tão ameaçadora e o sujeito se surpreende em ver que está a meio que banalizar os seus antigos medos. Talvez lhe apareça, lá no fundo da alma, um certo medo de voltar a ter medo, e isto o leva a afastar-se daqueles assuntos mesmo assim e, em geral, ele não está ainda pronto para troçar disso tudo. Ele respeita seus medos, quase como se eles fossem conscientes e pudessem se vingar de qualquer atrevimento. Então, lhe é suficiente deixá-los quietos. Não é bom, a seu ver, desafiá-los nem tratar com eles. No fundo de tudo isto, ainda há a estrutura fundamental de garantir-se proteção e isentar-se de qualquer perigo. Ou seja, o sujeito ainda é neurótico; ele apenas começou o processo de libertar-se desses laços. Melhor seria se os partisse todos de uma vez, mas não está ainda capacitado para tal. Todavia, chegar aqui é, já, ver distintamente uma luz clara no fim do túnel. Agora, é só continuar e fazer-se violência de, como diz a Escritura, não desviar-se para a esquerda ou para a direita. Não há que ficar, porém, obcecado com o método, como dissemos. Pode alegrar-se, naturalmente. Deve até fazer isso; na verdade, ele não está ainda para desforrar, mas já pode divertir-se porque, abandonando a lavagem dos seus medos, embora ainda traga sujeira na boca e nas mãos, esse pobrezinho como que tornou a viver.

Uma vez que a neurose se desvincula de uma situação particular, ela não some simplesmente. Fica meio que em suspensão e tenderá a vincular-se a outra situação - podendo ocorrer de voltar à mesma de antes, se o sujeito se emaranha de novo. Aqui há que se lutar utilizando duas coisas: a inteligência e a coragem. Aprenda a se conhecer e, quando perceber que está a descer a ladeira dos seus medos, trave o passo e se esforce para voltar à indiferença com relação àquilo. Lembre-se que todo o processo neurótico inicia-se com suposições. Não desaprenda a duvidar de si mesmo. Nós somos muito bobinhos e basta um lampejo de luz para nos deixar desarmados. A atitude fundamental que o neurótico deve assumir é o oposto de sua soberba, ou seja, uma radical pobreza espiritual. Lembrem-se de Adão que, enquanto era pobre e aceitava que o Paraíso lhe fosse dado por Outro, podia nele permanecer. Porém, a partir do momento que ele quis, por si mesmo, ser a garantia de seus bens, foi expulso, porque se ensoberbeceu. É a mesmíssima coisa aqui.

Se a neurose assume outra situação, embora haja uma distinção natural por ter mudado de "hospedeiro", o padrão de fundo é o mesmo. Se ela foi vencida no seu último disfarce, tenderá a aparecer agora com um pouco menos de força. E, se vencida de novo, tenderá a assumir outras formas, cada vez mais fracas. Isto é um negócio que só dá pra ter a noção exata quando se faz a experiência. Parece-me, porém, que há muitas pessoas que sequer chegam a essa vitória sobre um só de seus medos.

No próximo artigo sobre o tema, tratarei destes medos comparando-os a crianças mimadas, descreverei o modo prático de contrariar esses chatos e abordarei um negócio chamado "teoria da vinculação" que, ao menos para mim, é fundamental para saber passar a perna nesses danados, rsrs..

Pax

Fábio.

A Coragem - Chesterton

Detesto tourada, mas a imagem é legal.

A coragem é quase uma contradição nos seus termos. Significa um forte desejo de viver, que toma a forma de uma absoluta prontidão para morrer. "Aquele que perder a sua vida salva-la—á", este não é um lema de misticismo para santos e heróis, é um conselho diário para alpinistas e marinheiros. Podia estar impresso no guia do alpinista ou num manual de instrução militar.

Este paradoxo é todo o principio da coragem, mesmo que se trate de uma coragem absolutamente terrena ou de uma coragem absolutamente brutal. Um homem isolado pelo mar poderá salvar sua vida, se arrisca-la, lançando-se ao precipício. Ele só pode escapar da morte, aproximando-se continuamente dela, até que reste apenas uma polegada de distancia. Um soldado cercado pelos inimigos, se quiser salvar-se, precisa combinar um forte desejo de viver com uma extraordinária despreocupação em relação à morte. Não deve, apenas, agarrar-se a vida, pois, nesse caso, seria um covarde e não escaparia. Não deve, tampouco esperar pela morte, pois seria, então, um suicida e também não escaparia. Deve procurar a vida com um ímpeto de furiosa indiferença para com ela; deve desejar a vida como quem deseja água e, no entanto, deve beber a morte como quem bebe vinho.

G. K. Chesterton, Ortodoxia

domingo, 2 de outubro de 2011

Existência de Deus em Descartes


Depois, tendo refletido sobre o que duvidava, e que por conseguinte meu ser não era de todo perfeito, pois para mim era claro que perfeição maior do que duvidar era conhecer, deliberei procurar de onde aprendera a pensar em algo mais perfeito do que eu, e conheci, com evidência, que algo devia existir de natureza mais perfeita.

No que concerne aos pensamentos que tinha sobre várias outras coisas exteriores a mim, como o céu, a terra, a luz, o calor e milhares de outras coisas, não me era tão difícil saber de onde provinham, porque, não vendo neles nada que me parecesse torná-los superiores a mim, podia acreditar que, se eram verdadeiros, eram dependências da minha natureza, do que esta tinha de perfeição, e, se não o eram, isso significava que provinham do nada, isto é, que me haviam sido inspiradas pelo que eu tinha de falho. O mesmo, porém, não podia suceder com a idéia de um ser mais perfeito do que eu, pois era manifestamente impossível tirá-la do nada. E, uma vez que não é menos repugnante admitir o mais perfeito como resultado e dependência do menos perfeito do que admitir que do nada procede alguma coisa, tornava-se claro que tampouco de mim poderia eu tê-la recebido.

Chegava, assim, à conclusão de que fora em mim introduzida por uma natureza verdadeiramente mais perfeita do que eu e encerrasse em si todas as perfeições das quais pudesse eu fazer uma idéia, isto é, para explicar-me numa palavra: Deus. A isso acrescentei, que uma vez conhecendo algumas perfeições que não tinha, não era eu o único ser existente, mas era necessário haver outro mais perfeito do qual eu dependesse e de quem tivesse adquirido tudo o que possuía. Com efeito, se eu fosse só e independente de qualquer outro ser, e tivesse recebido de mim mesmo todo esse pouco pelo qual participava do Ser supremo, de mim teria podido tirar, pela mesma razão, tudo o mais que reconhecia não possuir e, dessa forma, ser também eu infinito, eterno, imutável, onisciente, onipotente, enfim, ter todas as perfeições que podia notar existirem em Deus.

De fato, de acordo com os raciocínios que acabo de fazer para conhecer a natureza de Deus, tanto quanto a minha era capaz, só Mem resta considerar se era ou não perfeição possuir todas as coisas de que tinha uma idéia. E estava seguro de que em Deus não havia nenhuma que apresentasse qualquer imperfeição, mas que todas as outras existiam. A dúvida, a inconstância, a tristeza e coisas semelhantes não podiam existir em Deus, uma vez que eu próprio me sentiria feliz se pudesse estar isento delas.

Além disso, eu tinha idéias de muitas coisas sensíveis e corporais, pois mesmo supondo que sonhava e que tudo o que via ou imaginava era falso, nem por isso podia negar que as idéias a respeito existiam de fato no meu pensamento. Mas, tendo observado em mim, com muita clareza, que a natureza inteligente é diversa da corporal, e considerando que toda composição é uma prova de dependência, sendo esta manifestamente um defeito, julguei que Deus não poderia ser perfeito se fosse composto dessas duas naturezas e, por conseguinte, não o era, e que, se no mundo havia corpos, inteligências ou outras naturezas que não eram inteiramente perfeitas, a sua existência devia depender do poder de Deus, de maneira que não pudessem subsistir um só momento sem ele.

Pretendi, depois, buscar outras verdades, e, tendo-me proposto o objeto dos geômetras, que eu concebia como um corpo contínuo ou um espaço infinitamente extenso em comprimento, largura e altura ou profundidade, divisível em diversas partes que podiam ter diversas figuras e grandezas, e ser movidas e transpostas de todos os modos, pois os geômetras supõem tudo isso no seu objeto, examinei algumas de suas demonstrações mais simples. Notei, então, que a grande certeza que todos lhe atribuem se baseia unicamente no fato de serem concebidas com evidência, de acordo com a regra que há pouco expus. Depois, também notei que não havia nelas nada que me certificasse da existência do seu objeto, pois via, por exemplo, que num triângulo os três ângulos devem ser necessariamente iguais a dois retos, mas não via nisso nada que me garantisse existir no mundo qualquer triângulo.

Assim, tornando a examinar a idéia que fazia de um ser perfeito, achei que a sua existência estava nele compreendida do mesmo modo que na de um triângulo está incluso que os seus três ângulos são iguais a dois retos, ou, na de uma esfera, que todos os seus pontos são eqüidistantes do centro, ou ainda mais evidentemente. Portanto, é pelo menos tão certo que Deus, esse ser perfeito, é ou existe, quanto o pode ser qualquer demonstração da geometria.

René Descartes, Discurso do Método, Quarta Parte

sábado, 1 de outubro de 2011

Quem é Deus?


Vez ou outra, eu fico a pensar na pessoa de Jesus e vejo, de um modo mais profundo e mais claro que eu, de fato, não sei muito a respeito d'Ele. Há momentos que eu fico a perguntar-Lhe: "Quem és?" Não é uma pergunta sem sentido... Eu poderia tranquilamente dizer que Jesus é Deus, o que é verdade, ou que Ele é amor, como diz João, o que é verdade também. Mas, peguemos essa definição: "Deus é amor". O que, de fato, isso quer dizer? Para mim, particularmente, é um mistério.

E é um mistério porque o meu conceito de amor é, por força, finito. E esta delimitação feita pelo conceito só pode ser aplicada a Deus por analogia, pois Deus a transcende absolutamente. Como saber quem é Ele? De um lado, é dito de Ele ser tão justo que o homem mais santo tem motivos suficientes para tremer e, ainda, que o poder do Seu braço é aterrador; outras vezes, ainda, sobre a timidez do Seu amor, a Sua ternura e Sua doçura. Outras tantas, Ele é o doce Sedutor que conquista a alma. Todas estas definições realmente dizem algo d'Ele, mas, diante desta variedade e, por vezes, aparente oposição de características, como saber quem, de fato, Ele é? Mesmo que tivéssemos um só conceito, como fazer uma perfeita adequação do nosso pensamento a Ele? Como conhecê-Lo de verdade, ao invés de apenas conhecermos as idéias que temos dEle?

Sim, eu e Ele temos momentos íntimos. Eu sempre O comungo. É difícil imaginar um tipo de união mais íntima, um tipo de abraço mais completo. No entanto, Ele mantém-Se escondido e eu continuo sem saber muito bem como Ele é. Por mais que eu me esforce, apenas obterei uma imagem, uma projeção, uma suposição, obviamente limitadas. E Ele está além disto. Como alcançá-Lo neste além?

Não há que se relativizar a Teologia. De modo algum. O pouco que podemos saber d'Ele nos vem por meio dela. O objeto da Teologia é, de fato, Deus, mesmo que ela se faça a partir de fórmulas conceituais humanas. A contemplação de Deus será uma experiência direta daquilo que, pelas fórmulas teológicas, já vislumbramos com o conceito.

Fico a pensar nessas coisas, e lembro-me, agora, de S. João da Cruz que, retomando S. Paulo, escreveu: "O justo viverá pela Fé". É preciso saltar no meio dessa nuvem, dessa indefinição, pois Aquele que fez nas trevas a Sua tenda está para além dos nossos conceitos e imagens. Agora, de fato, dEle temos apenas uma notícia confusa, mas um dia O veremos face a face. Conceda-nos Ele esta felicidade.

* É realmente dificílimo dizer com precisão quem é Ele, mas nos é possível afirmar o que Ele não é.