quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A chegada de Aslam, para imensa alegria de alguns e terror de outros.


- Que aconteceu, Aslam? - perguntou Lúcia, com os olhos a bailar e os pés desejosos de fazer o mesmo.

- Vamos, minhas filhas - disse ele. - Hoje vão andar outra vez nas minhas costas.

- Que bom! - gritou Lúcia.

E as duas meninas subiram para o dorso quente e fulvo, como tinham feito sabe-se lá há quantos anos. Todo o grupo se pôs em movimento. Aslam à frente, seguido de Baco e das mênades - que corriam e saltavam e davam cambalhotas -, depois os animais cabriolando e finalmente Sileno, montado no seu burro.

Cortaram à direita, lançaram-se por uma encosta a pique e foram sair no Passo do Beruna. Da água emergiu uma cabeça coroada de juncos, maior que a de um homem e com a barba a pingar. Olhou para Aslam e disse, numa voz grave:

- Salve, Senhor! Liberte-me dos meus grilhões.

- Quem é? - perguntou Susana num murmúrio.

- Psiu! - disse Lúcia. - Deve ser o deus do rio.

- Baco, liberte-o das cadeias! - ordenou Aslam.

"Deve estar falando da ponte" - pensou Lúcia.

E era, de fato. Baco e sua gente avançaram chapinhando pela água pouco profunda; um instante depois, aconteciam as coisas mais estranhas. Troncos grossos e fortes enrolavam-se pelos pilares da ponte e, alastrando-se como o fogo, envolviam as pedras, separando-as, fazendo-as estalar. As grades da ponte transformaram-se por um momento em bonitas sebes de espinheiro branco. De repente, toda a construção desabou com estrondo e foi engolida pelas águas. Entre nuvens de salpicos e gritos de riso, parte do alegre grupo atravessou o rio a vau, enquanto outros o atravessaram a nado ou a bailar, saltando para a outra margem. Entraram todos na cidade.

- Viva! É outra vez o Passo do Beruna! - gritaram as meninas.

Ao vê-los, toda a gente da cidade desatou a correr.

A primeira casa que encontraram foi uma escola, uma escola de meninas, onde uma porção de alunas de Nárnia, com o cabelo muito esticado e golas muito apertadas e feias, e usando meias muito grossas, assistia a uma aula de História.

A História que se aprendia em Nárnia durante o reinado de Miraz era mais insípida do que a história mais verdadeira que se possa imaginar e muito menos verdadeira do que o mais apaixonante conto de aventuras.

- Goendolina, se continuar olhando para fora e não prestar atenção, dou-lhe um castigo! - disse a professora.

- Por favor... - disse Goendolina.

- Ouviu ou não ouviu o que eu disse?

- Mas, professora - insistiu  Goendolina - lá fora tem um leão!

- Em vez de um, vou lhe dar dois castigos, para você não dizer bobagens. E agora...

Um rugido cortou-lhe a palavra. E a hera começou a crescer e enroscar-se pelas janelas da sala de aula. As paredes ficaram atapetadas de um verde cintilante e o teto cobriu-se de folhas. De repente, a professora percebeu que estava na floresta, numa clareira relvada. Quis agarrar-se à carteira para apoiar-se e viu que esta se transformava numa roseira. Gente selvagem, como ela nunca imaginara que pudesse existir, comprimia-se ao redor. Ao ver o Leão, começou a gritar e a fugir, e com ela toda a classe, formada na maior parte por meninas rechonchudas e de pernas roliças. Goendolina hesitou.

- Quer ficar conosco, querida? - perguntou Aslam.

- Posso? Mesmo? Muito obrigada.

E imediatamente deu a mão a duas mênades, que a fizeram rodopiar numa dança frenética e a ajudaram a despir parte da roupa desnecessária e incômoda que trazia.

Por todos os lados por onde passavam, a cena se repetia. A maioria das pessoas fugia e umas poucas juntavam-se a eles. Quando saíram da cidade formavam um grupo muito maior e mais animado.

Correram pelos campos planos da margem esquerda do rio. De todas as quinas saíam animais que vinham ter com eles. Burros velhos e tristes, que nunca tinham conhecido uma hora de alegria, rejuvenesciam de um momento para outro; cães que estavam presos quebravam as correntes; os cavalos escoiceavam até deixar as carroças em frangalhos e acompanhavam o bando a galope - clope, clope, clope -, relinchando e sacudindo a lama dos cascos.

Junto de um poço, num pátio, um homem espancava um rapaz. O chicote transformou-se numa flor. O homem tentou soltá-la, mas estava agarrada à sua mão. Seu braço transformou-se num ramo, o corpo num tronco, os pés criaram raízes. O rapaz, que há pouco chorava, desatou a rir e foi com eles.

Numa cidadezinha, a meio caminho do Dique dos Castores, encontraram outra escola, onde uma mocinha com ar de cansado ensinava Aritmética a uns meninos muito parecidos com porquinhos. A mocinha olhou pela janela e viu o grupo brincalhão. Tremeu de alegria. Aslam parou debaixo da janela e olhou para ela.

- Oh, não! Queria muito, mas não posso. Tenho de trabalhar. As crianças morreriam de suste se vissem você.

- Morrer de susto? - disse um menino que, mais do que qualquer outro, parecia um leitão. - Com quem está falando? Temos de dizer ao diretor que ela fica conversando com as pessoas à janela quando a obrigação dela é dar aula.

- Só quero ver quem é! - disse outro menino, e todos se levantaram.

Mas no momento em que as carinhas bobocas assomaram à janela, Baco soltou o seu auan-euan-eoooi, e os meninos começaram a gritar assustados e atropelaram-se para sair pela porta ou saltar pela janela. Diz-se que esses meninos nunca mais foram vistos, mas que nessa região apareceu uma raça muito apurada de porquinhos que até então nunca havia existido.

- Venha, minha cara - disse Aslam à senhorita. E ela foi.

No Dique dos Castores voltaram a atravessar o rio e chegaram a uma casinha onde uma menina chorava.

- Por que chora, meu bem? - perguntou Aslam.

A criança, que nunca vira um leão, nem mesmo desenhado, não se assustou.

- Minha tia está muito doente e vai morrer.

Aslam quis entrar pela porta, mas era pequena demais para ele. Enfiou a cabeça, fez força com os ombros (nessa altura, Lúcia e Susana escorregaram e caíram) e, levantando toda a casa, colocou-a abaixo.

Na cama, agora ao ar livre, via-se deitada uma velhinha franzina, que parecia ter sangue de anão. Estava às portas da morte, mas, quando abriu os olhos e viu a juba brilhante do Leão, não gritou nem desfaleceu. Exclamou apenas:

- Oh, Aslam! Sabia que era verdade. Esperei a vida toda por este momento. Veio para me levar?

- Sim, minha querida - disse Aslam. - Mas ainda não para a viagem final.

E, enquanto falava, como o rubor que se insinua nas nuvens ao nascer do sol, a cor voltou-lhe ao rosto pálido, os olhos readquiriram brilho e, sentando-se, ela disse:

- Estou muto melhor. Acho que seria capaz de comer alguma coisa.

- Aqui, titia - disse Baco, enchendo uma bilha no poço.

Mas a bilha, em vez de água, continha o mais perfumado dos vinhos, vermelho como geléia de groselha, suave como o azeite, forte como um bom bife, reconfortante como o chá, geladinho como o orvalho.

- Oh! - exclamou a velha. - O poço mudou, sem dúvida. Está muito melhor assim! - E saltou da cama.

- Suba às minhas costas - disse Aslam, e, para as duas meninas: - Vocês terão de ir a pé.

- Adoramos correr. - E partiram imediatamente.

- Foi assim que, entre saltos, danças, cantos e ruídos de animais, o bando chegou finalmente ao lugar onde o exército de Miraz se alinhava, de espadas no chão e mãos para o ar, e onde os homens de Pedro, com uma expressão severa mas alegre, e ainda de armas nas mãos, cercavam, ofegantes, os vencidos. Então, a velha desceu das costas de Aslam e correu para Caspian... e caíram nos braços um do outro. Porque era, nem mais nem menos, a velha ama do príncipe.

Ao ver Aslam, os soldados telmarinos ficaram lívidos, seus joelhos começaram a bater, e muitos caíram de cara no chão. Nunca tinham acreditado em leões, e a descrença aumentava ainda mais seu terror. Os próprios anões vermelho,s que sabiam que vinha como amigo, ficaram boquiabertos e mudos. Alguns dos anões negros, que tinham tomado o partido de Nikabrik, correram a esconder-se. Os animais falantes, porém, reuniram-se todos à volta do Leão. Alegres, rosnavam, guinchavam, relinchavam, ora acariciando o Leão, roçando-se nele, farejando-o delicadamente, ora andando de um lado para outro, por entre suas pernas. Se alguma vez você já viu um gatinho fazendo festas a um cachorro grande, no qual confia, poderá imaginar o que foi aquilo tudo.

C.S. Lewis, Crônicas de Nárnia, Príncipe Caspian, Cap 14-15.

2 comentários:

domvob disse...

Fantástico!

Fábio Graa disse...

É!

Eu fico impressionado com a delicadeza do Lewis e com os sutis e inteligentíssimos paralelos que ele faz com os Evangelhos.