quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Primavera Chegando...



Quando uma flor se agita aos primeiros raios do sol, é uma suave lição, que podemos aproveitar; ela indica-nos um outro sol, cuja luz nos aquece o coração; quando se apraz crescer entre as urzes, ensina-nos a humildade e a vida oculta; quando nos olha e parece suplicar-nos que a reguemos a fim de reparar a vida quase extinta, ensina-nos a solicitar também o verdadeiro orvalho das almas. Enfim quando pende e morre, faz-nos sinal, e recorda-nos que a nossa vida será em breve descolorida; mostra-nos que a existência da flor e a do homem, que pareciam tão diferentes na duração, se confundem perante a eternidade, em que mil anos são como um dia.

Monsenhor Landriot

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Apóstolos da Santa Indignação


Por toda a história, podemos ver estes santos que personificam a divina Resignação, trovadores da perfeita alegria que consiste no perfeito desprezo de si mesmos. No entanto, vez ou outra também surge - e o nosso tempo clama desesperadamente por isso - outro tipo de santos que encarnam, por sua vez, a divina Indignação. Estes não se contentam apenas em se vencerem a si mesmos; em nome de Deus, eles partem para a guerra, segurando vigorosamente as armas de que dispõem. Um exemplo:

Para São Francisco de Assis, santo eminentíssimo do primeiro tipo, era-lhe suficiente ser maltratado e fazer que isto não repercutisse no seu interior. Mesmo debaixo de pauladas, a raiva sequer se insinuava na sua alma. Mas, e quanto ao seu agressor? De fato, pode acontecer de ele se converter a partir da profunda humildade que vê diante de si. Mas pode também acontecer que seu sono seja tão forte, que sua cegueira seja tal que, como São Paulo antes da conversão, nada lhe venha de remorso em maltratar um sujeito inocente. 

Neste caso, não fazer mais nada é como consentir em agravar a culpa de um cego tolo que bate num santo. Voltando a São Paulo, observemos que não foi a perfeição de nenhuma alma vitimada por ele o que provocou a sua conversão. No seu caso, Deus, Ele mesmo, precisou usar de uma certa violência: derrubou-o literalmente do cavalo e lhe mostrou irrefutavelmente como estava cego.

Estas intervenções mais enérgicas são absolutamente necessárias em nossa contemporaneidade. Não se deve, porém, esperar que Deus se faça ouvir e ver, como naquele caso, a todos os sonâmbulos que perambulam neste tempo. Não. O que é urgente é o surgimento de santos do segundo tipo; sujeitos que não apenas se vençam a si mesmos, mas que cheguem também, se necessário, a trocar pauladas com o agressor*, não para se defenderem, mas para defendê-lo da própria cegueira; para acordá-lo e convertê-lo.

Mas não nos iludamos. Não basta ser um caricato de santo, um santarrão. Este tipo de embate - o trocar pauladas - pode ser efetivado por quem sequer venceu o próprio egoísmo. Na verdade, esta atitude é a primeira requisitada pela soberba, quando esta sofre qualquer afronta. Responder com a mesma moeda é a condição torpe a que somos inclinados desde a Queda. Não é disso que tratamos aqui.

Os santos que aqui são sugeridos devem ser homens profundamente livres, isentos de amor próprio e respeito humano. Nota-se que estes devem ser gigantes do espírito que, esquecidos de si mesmos, combatam unicamente pela glória de Deus e a salvação das almas. Talvez sejam estes bem-aventurados os prenunciados por S. Luís Maria Grignion de Montfort e que, segundo ele, sobrepujariam todos os anteriores pela sua grandeza.

Santos do primeiro tipo também são absolutamente necessários. Mas os do segundo, mais que nunca. O que se espera, portanto, são Apóstolos da Santa Indignação que sejam capazes de fazer caírem do cavalo todos estes modernos inimigos de Deus. Deus saberá suscitá-los. Ao que tudo indica, eles já devem estar por aí, sendo formados...

Fábio


*O exemplo de "trocar pauladas" é só ilustrativo. Não o defendemos num sentido literal. Os embates aqui referidos são, muito mais, intervenções no campo das idéias. Porém, também não temos, com esta ressalva, o intento de demonizar um combate literal. No decorrer da história, estes foram legítimos e necessários, diversas vezes. 

domingo, 18 de setembro de 2011

Que Deus nos livre disso tudo

Tenho notado as coisas ao meu redor, e parece-me que o nível de impaciência e de maldade tem crescido bastante. Pessoas que simplesmente não se entram; um simples pigarro ou uma expressão corriqueira são suficientes para levantar a poeira da discórdia, reativar as más paixões, cegar o indivíduo contrapondo, à limpidez do seu olhar, a trave bruta e grossa do seu egoísmo que vê no outro alguém a ser destruído.

Olhando assim, de longe, dir-se-ia que isto é, por força, resultado de uma intervenção sombria. Mas não será isto uma mera suposição de quem vive o fogo da experiência ou, ainda, de quem não compreendeu de todo a baixeza da natureza humana? De fato, o egoísmo descobre mil meios de fazer adentrar, na existência de um indivíduo, algumas centelhas do inferno e, quando algo se nota, já se tem uma vida em labaredas. Que tosquice isso tudo! E nós, que um dia fomos chamados de deuses... 

No entanto, o mistério da iniquidade, não obstante ser ausência de bem, é bastante denso e real. Aquela sombra suspeita e fedida que vive a espreitar e, dizia o Apóstolo, a rugir procurando a quem devorar, existe e não nos quer bem. Dia a dia, torna-se mais evidente que, se Alguém não intervém de cima, pouco ou nada poderíamos fazer. "Como a ti se elevará o homem que criaste, se Tu não o levantares?", pergunta S. João da Cruz a Nosso Senhor. 

Porém, rendamos graças a Deus porque esta intervenção vertical existe, e é constante. É a Igreja que a dispensa aos pobres filhos de Adão. Acuda-nos, Senhor. Não deixeis que nenhum de nós escape de vossas santas mãos. Não deixeis a vossa obra inacabada. Dai aos teus servos, de novo, um coração puro e um espírito decidido. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Primeiro dia de Professor num Cursinho


Hoje foi o meu primeiro dia como professor de Filosofia num Cursinho Pré-Vestibular. Ainda estou em fase de experimentação; pelo que me disseram, o critério pra saber se fica ou se sai, é os alunos gostarem. Estou procurando, então, ser bastante claro na exposição, mas nada de inventar um sujeito que eu não seja. Depois, não creio que os responsáveis estarão nos pés dos alunos a fim de saber se a aula lhes agradou ou não. Além do que, pelo que noto, a necessidade deles de um professor na área de Filosofia é grande. Uma das responsáveis insistiu bastante pra eu ficar. Pois bem, hoje dei minha primeira aula. Habituado às aulas do curso, a tendência é, logo, aprofundar o assunto. Mas recentemente, dando uma aula de doutrina católica, notei que os presentes não acompanhavam bem. Portanto, tenho de fazer um esforço mesmo para explicar os rudimentos e fazer-me compreender. Para tal, é preciso passar bastante tempo numa mesma idéia, explicando-a de diversos modos. Mas a experiência foi boa. Eu, particularmente, gostei bastante.

Na verdade, eu já venho dando aulas num cursinho popular; mas é um trabalho voluntário, e minha aula é somente uma vez por mês, algo meio que representativo. Não dá pra dar três milênios de Filosofia, nem sequer por cima, com somente uma aula por mês. Além disto, este trabalho que iniciei hoje é remunerado, coisa que eu estava precisando muito, seja pela questão financeira mesmo, seja pra fazer parar ou diminuir o falatório por aqui.

Mas, enfim. Rezo pra que eu possa ficar. E que se resolvam uns outros problemitas aí. Mas isso aí é com Nosso Senhor.

Gustavo Corção sobre Léon Bloy


Léon Bloy jovem
Gustavo Corção


"O que admiramos em Bloy é a estrutura gótica de sua alma, o ardor incondicional de sua fé, e, de certo modo, o motivo mesmo que o leva ao univocismo na compreensão do fenômeno histórico. O que nele admiramos, a par da grandeza de escritor que nem sempre tinha razão contra Rafael, Bossuet, ou contra seu diletíssimo amigo Roualt, é a perfeita fidelidade à Dama Pobreza, que fez dele um genuíno descendente de S. Francisco de Assis."

("Respondendo a uma Provocação", A Ordem, Dezembro de 1947)


"Léon Bloy testemunhou, e nos fez sentir como ninguém, a invisível presença dos eleitos, o acotovelar dos anjos, o hálito dos vivos e dos mortos. Muitas noites passava a chorar com as almas do purgatório; e muitos dias passava a esperar as notícias distantes dos invisíveis próximos. Sentia a comunhão dos santos como a aranha sente a teia, como o pássaro sente a brisa, como o ouvido de mãe mal adormecida sente os mil rumores de uma casa cheia de filhos, que se agitam, que ressonam, que estremecem... Sentia os passos dos santos como se o chão da eternidade fosse a pele de um tambor.


"A Igreja de Deus é verdadeiramente um corpo, aquecido por um sangue e animado por um espírito: as partes se comunicam, se encontram, e muitas vezes se chocam. O Universo não é tão grande como o pintam os astrônomos: é antes uma nave de catedral onde o humilde cochilo de um penitente ressoa em cada nicho e interessa cada alma." 

("Léon Bloy", in Dez Anos)

Fonte: Permanência

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O Gênero Humano Adormecido


"É a mais banal das ilusões acreditar que se é realmente o que se parece ser. E essa ilusão universal é corroborada, ao longo da vida, pela impostura tenebrosa de todos os nossos sentidos. Não será preciso nada menos do que a morte para nos ensinar que nos enganamos sempre. No momento em que nos for revelada nossa identidade, tão desconhecida por nós mesmos, inconcebíveis abismos se desvendarão ante nossos verdadeiros olhos - abismos em nós, e fora de nós. Os homens, as coisas, os acontecimentos, ser-nos-ão enfim divulgados, e cada um poderá verificar a afirmação daquele místico que dizia que, a partir da Queda, o gênero humano inteiro adormecera profundamente."

Léon Bloy